Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 6 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 6

Antes

– Eu sou uma droga – foi a primeira coisa que Allie disse quando atendi o telefone, o número dela surgia no identificador de chamadas pela primeira vez em quase uma semana. Eu estava sentada na cama lendo as revistas de viagens que Soledad tinha comprado na livraria para mim, e me imaginava caminhando pelos mercados de Provença ou sentada na praia em uma baía em Kauai. – Estou devendo um telefonema a você.

– Você não é uma droga – falei, embora na verdade ela fosse um pouquinho. Era o fim do verão. O primeiro ano do ensino médio começaria em alguns dias. Agosto tinha passado voando, em um estranho estado de fuga: eu jogara muito Paciência. Passara muito tempo sozinha. – Está ocupada. Entendo.

– Não, sou uma droga – insistiu Allie. – Sou a pior. Sinto saudades de doer. Venha. Meus pais têm um evento beneficente da firma de advocacia esta noite. Venha – disse Allie quando hesitei. – Vai se lembrar do quanto me ama.

Pensei por uma fração de segundo em recusar, alegando outros planos para passar mais uma noite assistindo reprises de Law & Order com Soledad, mas, no fim, seria muito deprimente. Além do mais, eu também sentia saudades de doer.

– É – falei após um minuto. Cheguei ao final da revista Travel + Leisure e atirei as páginas lustrosas ao chão. – É claro.

Percorri de bicicleta as ruas familiares que davam na propriedade dos pais de Allie, tudo verde e úmido como a floresta tropical. Meus pneus derrapavam no asfalto. Apoiei a bicicleta na lateral da garagem e cocei distraidamente uma mordida de pernilongo entre o ombro e o pescoço enquanto esperava que Allie abrisse a porta.

Quem a abriu foi Lauren Werner.

– Serena! – disse ela, a voz como uma bala açucarada e levemente pegajosa, não havia nada de orgânico ali. – Não sabia que viria.

Eu a encarei por um minuto, olhei para a blusa justa e os cabelos castanhos como mel.

– É – falei por fim. Eu estava vestindo jeans largo dobrado como calça capri, uma camiseta regata branca da Hanes que poderia ter sido de meu irmão e tamancos Birkenstock. – Idem.

– Allie está por aqui em algum lugar – disse ela, liderando o caminho pelo saguão da entrada como se eu nunca tivesse estado ali, como se precisasse que alguém me indicasse a direção do banheiro e me dissesse onde pendurar o casaco imaginário. Eu a segui inocentemente. Na sala, havia meia dúzia de jovens que eu reconhecia dos corredores da escola, talvez uma ou duas séries a nossa frente, uma garota de minha aula de química; um garoto que trabalhava no balcão da Bump & Grind. Vi mais umas duas pessoas na cozinha: não era uma festa grande, com certeza, mas, mesmo assim, aquilo parecia um sonho em que você está em algum lugar que reconhece, mas parece estranhamente diferente, tudo meio fora do normal. – Sempre me esqueço que vocês são amigas.

– Hã, é – falei vagamente, me esforçando para ignorar o mau humor habitual dela e ainda tentando me recompor. O ar-condicionado não estava funcionando, e o corredor estava tépido e úmido como um aquário. – Somos amigas.

Nesse momento, Allie surgiu, corada e sorrindo, e envolveu meu pescoço com os braços magricelas.

– Oi! – disse, e naquele segundo ela parecia tão feliz em me ver que me esqueci de mim mesma e sorri. Era o que Allie tinha de bom, um dos motivos pelos quais eu a amava tanto: quando concentrava sua energia empolgante em alguém, essa pessoa se sentia o centro do universo. – Você veio!

– Eu vim – respondi, deixando que Allie me girasse no piso frio em uma dancinha. – Sabe – disse depois que ela me soltou e, parando de dançar, começou a me puxar de leve pelo corredor –, você deveria ter mencionado ao telefone que metade da escola estaria na sua casa, assim eu poderia, sabe como é, ter tomado banho.

– Do que está falando? – perguntou Allie, e franziu a testa. – Você está linda.

– Eu pareço ter doze anos.

– Parece artística e bacana.

– Sei. – Ri com deboche. – Não pareço artística nem bacana...

– Oi, Reena.

Dei um salto, olhei ao redor e tentei não arquejar alto demais: ali estava Sawyer, em pé atrás de mim, de jeans e camiseta, corrente de couro no pulso. Segurava um copo de plástico perto dos lábios.

– Oi – falei.

Via Sawyer com bastante frequência, na verdade, no restaurante ou sentado diante de nós na igreja aos domingos, ou tendo aulas com papai em minha casa. Por mais que pensasse nele – e pensava muito – era razoavelmente capaz de segurar as pontas quando ele estava por perto, com o cuidado de não dar na vista e tornar minha vida completamente insuportável.

Eu jamais o vira na cozinha de Allie. Jamais o vira passar o braço casualmente pelos ombros dela, uma das mãos deslizando pelos cabelos finos de minha amiga. Ver aquilo naquele momento foi lento e doloroso, como um músculo se estirando. Eu não sabia para onde olhar.

No fim, não importou, pois ele a levou dali sem esforço; apenas deu um passo para trás e Allie o seguiu, como se Sawyer fosse um ímã ou um som de alta frequência.

– Pegue uma bebida e desça para o porão – gritou ela para mim, distraída. – Vamos jogar flip cup em um minuto, o de beber e virar o copo.

E então ela foi embora.

Fiquei de pé ali por um segundo. Tentei parecer muito, muito calma. Por fim, passei pelas duas garotas no balcão, atravessei as portas de correr e o pátio coberto, evitando o caminho iluminado formado pelo refletor instalado nos fundos da casa. Fui direto para o balanço, que estava molhado da tempestade daquela tarde, o ar ainda tão úmido que parecia que eu respirava teias de aranha.

Sentei.

Não era exatamente tímida. Nunca foi isso. Eu só não sabia como fazer aquilo, só isso, os papos e o social do colégio. Mais do que isso, não estava a fim de aprender. A vida inteira, Cade implicara comigo por minha total inabilidade para lidar com mais de um ou dois amigos de uma vez; dez minutos na cozinha lotada de Allie fizeram com que me sentisse algum animal selvagem largado em um hábitat totalmente estranho, um tigre na tundra ou um pinguim num bosque. Eu não era impopular. Só era... despreparada.

Era diferente quando eu tinha Allie comigo para me ajudar a enfrentar as situações, pensei enquanto estava sentada ali. Ela falava quando eu sentia que minha língua estava amarrada, vocalizava os sentimentos por nós duas: Reena e eu achamos aquele filme idiota, Reena e eu adoraríamos ir. Ultimamente, no entanto, parecia que ela não tinha tempo nem paciência para interpretar meus silêncios, e, além do mais, havia tomado a pessoa que eu mais desejava no mundo inteiro.

Era minha culpa, pensei de novo, balançando-me devagar para trás e para a frente sem saber o que fazer. Eu não sabia como me abrir para as pessoas. Não sabia como ser o tipo de pessoa que se abre. Não conseguia entender como Allie...

– O que você está fazendo?

Sawyer se aproximou de fininho pela grama encharcada e ciciante, as mãos nos bolsos. Eu não o vi chegar. Ele também desviou do refletor.

– Hum. – Procurei uma desculpa plausível e, como não encontrei nenhuma, tive que contar a verdade. – Me escondendo.

Sawyer ergueu as sobrancelhas, parou e recostou-se ao escorrega. Ele estava descalço e sua aparência era casual, muito à vontade em ser quem era, todo músculo e ossos.

– De alguma coisa específica?

De todos, na verdade, mas isso não parecia o tipo de coisa que eu podia dizer a Sawyer LeGrande.

– Essa – comecei, enrolando – é uma pergunta muito boa.

– Bem. – Sawyer se sentou no balanço ao meu lado e se balançou um pouco para trás e para a frente, as longas pernas paradas, muito casual, como se fizéssemos aquilo o tempo todo. – Você é péssima em se esconder, porque eu a encontrei, tipo, em um segundo.

– Você estava me procurando? – disparei e, então, antes que ele pudesse responder: – Eu não estava brincando de esconde-esconde.

Sawyer pensou.

– Não – disse ele por fim. – Acho que não. – Sawyer se balançou por mais um minuto, calado. Nunca tínhamos ficado sozinhos daquele jeito antes. – Essa não é bem a sua praia, não é? – perguntou ele.

– Qual? – perguntei, só um pouco defensiva. Senti minha espinha se enrijecer, um reflexo: ele chegou bem perto de acertar um nervo. As pontas de meus dedos se enroscaram na borda do balanço. – Pessoas se divertindo?

Sawyer gargalhou, parecendo achar a resposta inteligente, como se eu pudesse ter um segredo para compartilhar.

– Não foi o que eu quis dizer. Um monte de vagabundos fazendo nada. Não sei. Lauren Werner.

Isso chamou minha atenção, como se apenas Sawyer já não fosse suficiente. Semicerrei os olhos um pouco, tentando compreender a expressão no rosto dele. Estava uma escuridão frustrante lá fora; era ótimo para ficar deprimida, lógico, mas tudo o que eu queria era empurrar Sawyer para a luz e apenas... olhar.

– Achei que você e Lauren Werner fossem amigos.

Sawyer deu de ombros.

– Nós somos, acho. Mas ela é... Sei lá... – Ele parou. Parecia estar pensando a respeito, como se não tivesse decidido por completo quanto queria revelar. – Sabe como é.

– Eu sei de verdade – respondi, e o modo como falei fez Sawyer cair na gargalhada de novo. Sorri. Tentei me lembrar da última vez que o tinha feito rir... há muito tempo, sem dúvida, quando ainda éramos criancinhas correndo por aí com meu irmão, brincando de pega-pega no bosque atrás da casa dele. Eles costumavam levar uma eternidade para me pegar, na época. Eu congelava e ficava em silêncio entre as árvores.

Ficamos sentados ali por mais um minuto, balançando. Eu conseguia ouvir os sapos coaxando acima de minha cabeça. Dentro da casa da Allie, algo caiu no chão, seguido por um rompante de gargalhadas. Eu me retraí.

– Você já quis ter de novo, tipo, oito anos? – perguntou Sawyer, de súbito.

Pisquei para ele, sobressaltada: parecia que ele conseguia abrir minha cabeça e ver dentro dela. Precisei de um segundo para me recuperar, tirei os pés dos tamancos e os esfreguei, com cuidado, na grama fria e úmida.

– Não. – Parecia estranhamente perigoso olhar para ele, como encarar o sol. – Só queria ter idade suficiente para ir embora.

Sawyer não respondeu pelo que pareceu uma eternidade. Por fim, olhei para a frente e o vi me encarar de volta. Algo estranho, novo e pessoal aconteceu entre nós na escuridão, um olhar longo demais para ser acidental. Mais um momento se passou, e ele sorriu.

– Se faz alguma diferença – disse ele e, nesse momento, tocou o ossinho de meu tornozelo com o dele, suavemente –, acho que você parece artística.

– Eu não... – comecei, mas lá vinha Allie atravessando o gramado, uma mancha escura entre a poça de luz que Sawyer e eu tínhamos tão cuidadosamente evitado, como uma atriz no palco, buscando seu lugar.

– Aí estão vocês! – gritou ela alegremente, tão linda mesmo de jeans e regata, curvilínea e de cabelos cacheados. É claro que Sawyer a teria escolhido. – Meus dois preferidos.

– Aqui estamos – concordou Sawyer, os olhos em mim por um segundo a mais antes de voltar a atenção para Allie. – Reena estava se escondendo.

– É porque ela está com raiva de mim – disse Allie, com a sutileza de um elefante, tocando a corrente e dando uma sacudida em meu balanço. Ela cheirava a limonada com malte e ao perfume da mãe.

Sawyer inclinou a cabeça para o lado.

– Não sei quanto a isso – disse ele ao se levantar. – Vejo você lá dentro. – Ele olhou para mim mais uma vez, brevemente. – Até mais, Reena.

– Do que vocês estavam falando? – perguntou ela depois que Sawyer foi embora, tomando o lugar dele no balanço e girando em um círculo para que a corrente se torcesse, e soltou o balanço em uma descarga de tontura. – Você e o menino rei.

– Nada – respondi, e dei de ombros. Coloquei os sapatos nos pés de novo com certa urgência, como se talvez precisasse correr para algum lugar no futuro imediato. – Ele só queria saber o que eu estava fazendo aqui fora.

Allie me olhou de esguelha, o rosto se contorcendo um pouco, como se não confiasse que eu fosse dizer a verdade.

– O que estava fazendo aqui fora? – perguntou ela.

– Sério? – Fiquei boquiaberta, uma fagulha quente de irritação se acendeu em meu peito. – Quero dizer... sério?

Allie hesitou, os olhos cinzentos arregalados e inocentes – aquela expressão dela de não sei como isso foi parar na minha bolsa, em geral reservada para os pais e para os seguranças de shoppings. Não gostei de Allie ter olhado para mim daquele jeito.

– O quê?

– Você me deixou completamente desnorteada com aquelas pessoas lá dentro!

Não conseguia me entender com Allie ultimamente. Parecia que eu precisava me agarrar a ela com as unhas.

– Vim assistir TV e comer pizza ou algo assim, não jogar flip cup com um bando de desconhecidos.

– Eles não são desconhecidos – corrigiu Allie com o tom de voz afiado. Um raio longínquo piscou a distância, surgiu e sumiu. – São todos da escola. E eu sabia que você não viria se dissesse que Lauren estaria aqui, então...

– É – interrompi. Ela não estava me ouvindo. – Eu sei. É isso que estou dizendo.

– Bem, o que mais posso fazer? – perguntou Allie, bufando um pouco. – Eles são meus amigos também, Reena. Eu gosto deles. Não são, tipo, pessoas ruins ou enganadoras. São legais.

– Eu nunca disse que não eram legais – argumentei. – Nem mesmo disse que eles são o motivo pelo qual você desapareceu totalmente da face da terra o verão inteiro, o que...

– Já pedi desculpa! – A voz dela ficou mais alta, quase choramingando. – Se você parasse de dificultar tanto que eu a inclua...

– Talvez eu não queira ser incluída, Al! Odeio isso tudo! Só quero fazer coisas normais, como sempre...

– Jogar baralho e assistir Punk, a levada da breca? – Allie franziu a testa. O ar estava pesado ali fora, opressivo. Eu queria subir na bicicleta e sair correndo. – É isso que quer fazer, de verdade? Isso ainda é divertido para você? Por favor, Reena – insistiu ela quando não respondi. – As pessoas gostam de você. Só pensam que você não gosta delas.

– Bem, eu não gosto delas, em geral.

– Você nem as conhece! – explodiu Allie e, então, com maldade: – Você gosta do Sawyer.

E isso. Nossa. Isso doeu.

– Tudo bem. – Fiquei de pé nesse momento, limpei as palmas das mãos suadas na parte de trás do jeans, molhada pela água do balanço, porque não, não, não teríamos aquela conversa, não ali, não quando eu já estava me sentindo estranha e sozinha e com saudades de casa, com vergonha de tudo o que queria e não tinha. Olhei para a fileira de palmeiras no limite da propriedade, tentando manter a compostura. De repente, até o quintal pareceu sinistro, lugares familiares que tinham se tornado ameaçadores e estranhos no escuro. – Você quer ganhar esta briga, Al, pode ganhar, tudo bem. A gente se vê.

– Você está certa – disse Allie imediatamente, levantando-se e me seguindo pelo gramado. – Desculpe. Não estou tentando ser cruel.

– Ah, mesmo? – Parei e a encarei, as mãos nos quadris. Queria apertar o rewind naquela noite e naquele verão, queria que aquele universo alternativo bizarro se dobrasse sobre si mesmo de novo e que tudo voltasse ao modo como deveria ser. Já desejou ter oito anos?

– Não! – exclamou Allie. – Estou tentando conversar com você. Nossa! Sinto saudades! Quero conversar com você sobre as coisas.

– Sério? – perguntei friamente, e Allie revirou os olhos. – Tipo o quê, exatamente?

– Não sei. – Ela deu de ombros, quase indefesa, as mãos magricelas agitando-se diante do corpo como libélulas. – Sabe o que quero dizer. Ele é... não sei. Ele não é o que pensamos que era.

– Ele é um vampiro? – perguntei com sarcasmo.

Isso a deixou com raiva.

– Está bem – disse Allie, irritada. – Você quer ganhar esta briga, Reena? Pode ganhar. Pode me dar um gelo. Mas só estou tentando ser honesta com você. Sei que acha que sou uma pessoa horrível e sei que acha que fiz uma coisa horrível, como se o tivesse roubado de você ou algo assim...

– Eu nunca disse isso...

– Mas eu fiz um favor a você. Se não aguenta vir até minha casa e jogar flip cup com Lauren Werner, definitivamente não aguentaria transar com Sawyer LeGrande.

Eu me detive por um segundo. Fiquei de pé ali. Pensei, muito claramente, na palavra arrasada.

– Olha, Reena. – Assim que disse isso, Allie soube que tinha ultrapassado algum limite, uma linha tão nitidamente demarcada que, depois de invadida, dividiria nossas vidas em quando éramos crianças e quando não éramos, precisamente cortada entre o antes e o agora. Olhei para ela por mais um momento, então me virei. Um trovão soou acima de minha cabeça, alto e agourento. Uma tempestade estava prestes a começar.

– Reena – gritou Allie atrás de mim, com mais convicção desta vez, mas a essa altura eu já tinha ido embora.