Duas Vezes Amor
Capítulo 35
Depois
É ousado Sawyer vir aqui para jantar. Para ser sincera, estou quase impressionada. Por um segundo, penso que meu pai poderia, de fato, partir para cima dele, mas, se Sawyer repara, não deixa transparecer – sorri afavelmente, conta histórias, é o filho pródigo preferido de todos. Imagino o que deve ter passado pela cabeça de Lydia ao convidá-lo, se é tão importante para ela enganar Sawyer e fazê-lo acreditar que somos uma família grande e feliz. Se ela está tentando convencer o filho a não ir embora de novo.
Sentamos a uma mesa, acomodamos a bebê, enchemos os copos e os pratos. Meu pai recita uma oração rápida e simples. Estou apenas atenta em parte à conversa ao redor – a opinião negativa de Lydia a respeito do novo filme de Woody Allen que viram recentemente, a risada de Soledad como o tilintar de sinos de vento. Parece que ouço do fundo de um poço.
– Está bem, Serena? – pergunta Lydia ao me entregar a cesta de bolinhos; as unhas curtas dela estão pintadas de um carmesim profundo e glamoroso. Por um segundo, me imagino atirando a coisa inteira nela. – Está tão quieta.
– Estou bem – murmuro, olhando para baixo, para o colo. Minhas unhas estão em frangalhos, as cutículas tão roídas que quase sangram.
Brindamos. Jantamos. Recosto-me à cadeira. Eu me sinto tão presa quanto nos primeiros dias da gravidez, como se pudesse literalmente entrar em combustão onde estou sentada e só diriam nossa, que tempo estranho tem feito. Como se eu nem existisse.
Hannah também não está com fome: não gostou do arroz, faz uma bagunça ao espalhá-lo pela bandeja na cadeira, agitando os braços e tagarelando. Depois de um momento, ela começa a reclamar.
– Ã-hã – replica ela, sem se distrair com o que tenho a oferecer, empurrando minha mão, irritada, quando tento chamar sua atenção com um rolinho amanteigado. – Não, Ma.
– Ela está cansada – explico quando a reclamação se torna um grito esganiçado e irritante. Lembro-me do dia no shopping e penso ah, bebê, por favor, agora não. – Ela não dormiu hoje.
– Eu pego ela – diz Lydia, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se ela tivesse reconfortado minha filha durante o último ano e meio e não nos ignorado completamente feito alguma gafe ínfima e vagamente embaraçosa, do jeito que a gente faz com um enorme e verde pedaço de espinafre alojado nos dentes de um companheiro de refeição. Ela estende os braços para Hannah enquanto coloco meu guardanapo na mesa, aquelas mãos perfeitas sob os braços gorduchos de neném de Hannah.
– Deixe comigo – falo, ficando de pé rápido demais. Consigo sentir o sangue subindo até o rosto.
Lydia me ignora, soltando o fecho de segurança da cadeirinha.
– Serena, querida, não tem problema...
– Não.
Isso a detém. Isso detém a todos, na verdade: a mesa inteira fica de súbito em silêncio, exceto pelo choro de minha filha temperamental.
– Tudo bem, então – diz Lydia baixinho. Ela ergue as mãos e depois se senta.
– Desculpe. – Estou envergonhada, mas, mais do que isso, estou com raiva. Sinto o ódio abrir caminho de algum lugar bem no fundo de mim, vermelho e poderoso. Tento explicar. – É só que... entende como isso parece para mim, não? Você com um interesse súbito depois de todo esse tempo?
Lydia ergue uma sobrancelha cuidadosamente feita.
– Acho que não entendo.
– Reena – começa papai. – Deixe isso pra lá.
– Não, Leo – fala Lydia, fria como a outra face do travesseiro no meio da noite. – Se Serena tem algo a dizer, por favor, deixe que diga.
– Você não quer saber de Hannah, nem de mim, há anos – digo a ela com a voz embargada. Penso em represas rompidas, as paredes cedendo. – Não fala comigo. Ninguém fala comigo. Sobre mim, talvez, mas talvez nem isso. Eu não saberia, porque este é o primeiro domingo desde que Hannah nasceu em que fui convidada para jantar. – Olho para Sawyer, meus olhos agitados como os de um animal encurralado. – Então, sabe, obrigada por me trazerem de volta ao clube.
– Reena... – Sawyer começa a dizer, mas ignoro, olho para nossos pais. Hannah ainda está chorando. Isso é loucura, é provavelmente um erro imenso, mas a verdade é que acabei de começar. Já me sinto mais poderosa do que em anos.
– Não sou idiota – digo, tirando a bebê da cadeirinha e agitando-a um pouco sobre o quadril. Mas é inútil; de maneira alguma vou conseguir acalmá-la enquanto eu mesma estiver tão agitada. – Estraguei tudo, mas não costumo ser burra. Não pensem que não sei como se sentem em relação a mim. Vocês todos deixaram muito claro como se sentem.
– Espere, o quê? – Sawyer interrompe de novo. Ele olha para a mãe. – O que vocês fizeram?
– Eu certamente não...
– Bem, Hannah pertence a nós dois. – Olho em volta da mesa de modo acusatório, Roger, meu pai, Lydia. – Eu e Sawyer. Nós transamos. Não somos casados. Desculpem. Sei que é incrivelmente ofensivo para todos vocês, e não tem problema, mas não consigo mais ficar sentada aqui fingindo e... me punindo. Tenho me punido há anos. – Paro por um segundo, dando de ombros com raiva. – Ninguém nem fez um chá de bebê para mim!
– Serena – diz meu pai. O rosto dele está vermelho como os tomates, as sobrancelhas unidas em uma linha espessa. – Acalme-se.
– Não consigo – disparei de volta, mas, mesmo conforme as palavras saem, consigo ouvir a voz começando a falhar. Deus, não quero chorar, chorar agora só vai me fazer parecer louca, vai destruir tudo o que estou tentando dizer, mas não consigo evitar. Estou tão imensamente cansada de carregar tudo isso dentro de mim, toda a culpa, a raiva e a solidão. Não consigo mais. É demais. – Desculpe por ter desapontado você, pai, e desculpe por ter trazido vergonha para esta família e por você me odiar, por achar que sou uma piranha, uma puta e tudo de mais imundo. – Estou em prantos agora, um choro forte e feio. Hannah se agarra aos meus braços. – Talvez eu mereça e talvez não, mas a questão é que não posso fazer nada a respeito disso agora. Queria mesmo que você me perdoasse logo. Como pode ser meu pai e não me perdoar? – Hannah está se agitando, puxando meu cabelo, e não consigo fazer nada para acalmá-la. – Estou falando sério! Por que só me amava quando eu era boa?
Olho para Soledad neste momento, o lindo rosto dela embaçado e distorcido entre minhas lágrimas.
– E, por favor, apenas pense uma vez? – Sacudo a cabeça, desesperada. – Sério? Como se eu não soubesse como tem sido difícil? Como se não tivesse sido difícil para mim.
– Alguém pode, por favor, me dizer que diabo está acontecendo? – Sawyer exige saber. Ele também está perdendo a calma, fica de pé agora, um toque do temperamento que lembro de quando estávamos juntos. Os olhos dele estão sombrios e com raiva.
– Pergunte a eles – digo, pegando minha filha aos berros, deixando o jantar intocado e seguindo para a porta. – Para mim, chega.
– Reena! – Sawyer está me segundo. – Reena, espere. – Ele segura a porta do motorista no momento em que estou prestes a batê-la, e faço uma careta.
– Quase arranquei seus dedos.
– Nada. – Sawyer sorri o que seria um sorriso muito fantástico se tomasse seu rosto todo. – Tenho reflexos rápidos.
– Eu lembro.
Ele abre mais a porta e se coloca na abertura para que eu não possa tentar fechá-la de novo.
– Deixe eu ir com você, tudo bem?
Sacudo a cabeça, fungando; definitivamente, estou com catarro no rosto. Não ando muito bonita nos últimos tempos.
– É uma viagem longa.
– Não tem problema.
– Eu pego a estrada.
– Não me importo.
Por dentro, sinto como se tivesse sido raspada com um garfo, oca como uma abóbora. Não sei como aquilo saiu tanto do controle. Dou de ombros e limpo o rosto, inclino a cabeça na direção do lado do carona.
– Então – digo a ele. – Entre.
Ficamos dez minutos na 95 antes de falarmos qualquer coisa, e, quando Sawyer fala, sua voz é baixa, o oceano na maré baixa.
– Ninguém organizou um chá de bebê para você? – pergunta ele.
– Não. – Sacudo a cabeça. – Mas foi uma coisa idiota de se dizer. Um exemplo idiota. Só me veio à cabeça.
– Não é idiota. É uma droga.
– É, bem. Sou uma grande decepção para a minha família. – Eu me concentro na estrada e tento parecer contida, tranquila, resignada. Sinto-me humilhada por ter perdido a calma como perdi; não ajo daquela forma, nunca. Sinto que preciso me recompor o mais rápido possível. – E para a sua, na verdade.
Sawyer sacode a cabeça. Ele parece enojado.
– Não sei por que estou chocado. É claro que usaram aquela porcaria católica com você. Madonas e putas e o que mais puderam pensar para fazer você se sentir minúscula. São hipócritas, todos eles.
– Não, não são.
– Pode, por favor, se irritar?
– É óbvio que estou irritada, Sawyer!
– Eu sei. – Sawyer sacode a cabeça, esfrega os cabelos com as mãos inquietas. – Desculpe. É só que... quanto mais penso nisso, mais irritado fico.
– É por isso que não penso nisso.
– Você é cheia de mentiras.
Dou de ombros.
– Apenas um pouco.
– Por que aturou?
– Bem, não podemos todos fugir – digo, então percebo que há uma linha tênue entre estar irritada e ser cruel, e provavelmente acabei de ultrapassá-la. – Desculpe – digo a ele, suspirando. Às vezes parece que meu relacionamento inteiro com Sawyer foi um grande pedido de desculpas. – Não quis dizer como disse.
– Claro que quis – diz ele, carinhoso.
– É, meio que quis. – Estou acabada como um trapo. Quase rio.
– De qualquer forma, eu não tinha para onde ir.
– Queria que tivesse me contado. Assim que cheguei, quero dizer. Queria que tivesse dito.
Olho por cima do ombro e troco de faixa.
– Era sua família, Sawyer.
– É, bem. – Ele estende a mão para trás para pegar o coelhinho de pano de Hannah, que ela deixou cair. Hannah sorri. – Você também é minha família.
Dirigimos por mais de uma hora, sem falar quase nada. Sawyer murmura. É estranhamente pacífico estar no carro com ele, tranquilizador; como se ele, Hannah e eu estivéssemos na nossa bolha climatizada, sem qualquer incômodo do mundo que corre lá fora. Sei que em algum momento precisaremos voltar e encarar a vida – sei que de modo algum pode durar –, mas Hannah está dormindo e Sawyer respira ao meu lado e, por um tempo, é bom fingir.
Estou entrando na garagem quando a mulher de Cade, Stefanie, sai correndo para a calçada, o rosto gorducho preocupado e contraído. Hesito, surpresa: Stefanie não estava no jantar. Um segundo depois disso, sou atingida por uma lufada fria de medo. Abro a porta o mais rápido que consigo, os pensamentos se atropelando e a lembrança do celular tocando na noite em que Allie morreu, como o olho de uma tempestade devastadora.
– O que aconteceu? – indago, alto o suficiente para acordar a bebê, lutando para soltar o cinto de segurança e sair. – Stef.
Stefanie ergue as mãos, sacode a cabeça loira cacheada.
– Reena – diz ela antes que eu consiga sair do carro. – É seu pai.