Duas Vezes Amor
Capítulo 24
Antes
Não levou muito tempo para ir da Prime Meridian à casa de estuque aos pedaços onde Sawyer estava morando com um monte de amigos. Ele desligou o rádio enquanto entrava com o carro na garagem, depois pegou minha mão e me levou escada acima até um pequeno deque, pela porta dos fundos destrancada. A cozinha era iluminada por uma lâmpada fluorescente pendurada ao teto, que projetava um brilho esverdeado sobre o piso de linóleo manchado, e os eletrodomésticos eram velhos: basicamente o que eu esperava ver, menos – reparei com um pequeno sorriso – uma vasilha de plástico com romãs sobre a mesa.
– Então, quem exatamente mora aqui? – perguntei por fim. Ele estava calado desde que havia me convidado para ir até lá, mas, enquanto tirava o casaco, Sawyer respondeu com tranquilidade, como se não tivesse havido uma pausa.
– Bem, eu e Iceman, mais o irmão de Animal, Lou, e o amigo de Lou, Charlie, o tempo todo. Mas às vezes outras pessoas ficam aqui. – Sawyer parou, seguiu para a geladeira. – Acho que todo mundo saiu hoje. Está com fome?
Sacudi a cabeça.
– Também não – concordou ele, e me beijou, pressionando meu corpo contra a geladeira e passando o dedo pela linha do meu maxilar. Senti meu corpo todo derreter. Meus braços se arrepiaram, e não consegui afastar a ideia de que o chão não era muito nivelado. O sangue, pensei vagamente, tinha dificuldade em chegar aos lugares aos quais precisava ir.
– Está com frio? – perguntou Sawyer quando minhas mãos gélidas roçaram a nuca dele, a etiqueta no colarinho da camiseta.
– Não.
– Está bem. – Então, em meu ouvido, embora não tivesse ninguém em volta para ouvir, mesmo que ele gritasse: – Quer sair desta cozinha?
– Hum. – Apenas por um segundo, soltei Sawyer para apoiar um braço atrás do corpo, contra o puxador da geladeira. Eu me sentia como os gatos que às vezes observava paralisados no meio da rua, tarde da noite, quando voltava da casa de Shelby. Parecia que eu havia chegado ao topo da plataforma mais alta e me lembrado de súbito que não sabia nadar.
Não tinha nada a ver com princípios religiosos. Eu era uma católica praticante, não devota; minha religião era algo incidental em comparação com o que estava acontecendo ali. Eu só estava... com medo. Não necessariamente de um modo ruim, mas do modo como havia sido criada para temer furacões: algo poderoso chegando, melhor cobrir os vidros com tábuas.
– Não tem problema, querida – disse Sawyer, tirando minha mão com cuidado da porta, entrelaçando nossos dedos. Só... é claro que ele saberia. – Podemos ficar bem aqui.
– Não. – Sacudi a cabeça, teimosa. – Vamos.
Sawyer me olhou bem de perto, uma das mãos em concha na lateral do meu rosto.
– Tem certeza?
– Sim.
– Reena...
– Sawyer. Você já fez isso antes, certo?
– Sim, Reena. – Ele sorriu daquele jeito presunçoso com que às vezes fazia, olhando para baixo. – Já fiz isso antes.
– Bem, então – respondi. – Me mostre.
Ele assentiu, mordeu o lábio inferior.
– Está bem.
O quarto de Sawyer tinha cheiro de limão, lustra-móveis Pledge e um toque de maconha. Ele não se incomodou em acender a luz – na verdade, nem tenho certeza se havia iluminação ali –, mas vi pelo brilho da lâmpada do corredor que o quarto era limpo, organizado e simples. Olhei ao redor: uma estante de livros, um rádio de aparência cara no chão, um colchão sem estrado. O armário estava entreaberto, e dentro havia uma enorme pilha de lixo – tênis, livros, outras porcarias de garoto adolescente que não consegui ver claramente à meia-luz. Sorri. Cade costumava fazer isso em casa, largar as porcarias no armário ou enfiá-las debaixo da cama quando Soledad o proibia de descer até que o quarto estivesse limpo – em geral, nas férias ou quando recebíamos visitas.
Pledge. Visita. Inclinei a cabeça.
– Posso fazer uma pergunta?
– Hum? Pode. – Sawyer baixou o braço e ligou o rádio, brincou com o botão das estações; conseguíamos receber o sinal da estação da USF de vez em quando, e, certo dia, Sawyer me contou que tinham um bom programa de blues tarde da noite.
– Você limpou para mim?
– O quê? Não. – Ele esticou o corpo um pouco rápido demais, passou a mão pelos cabelos um pouco rápido demais. – Não. Por quê?
– Limpou. Você limpou para mim.
– Reena... – Sawyer pareceu envergonhado. – Não quero que pense que eu estava, tipo, planejando trazer você aqui.
Sentei na beira da cama, sorri para ele.
– Não estava?
– Bem... – Sawyer sacudiu a cabeça. – Não sei, Reena. Não vou fingir que não pensei nisso. E este lugar é um lixo.
– Não é um lixo – menti.
– É um lixo. Se você viesse para cá, eu queria que ao menos fosse um lixo sem porcaria por todo lado.
– Quem é você? – perguntei, rindo. Eu me sentia bêbada, quase. Estava feliz por ter sentado.
– Sabe quem sou – disse ele, e eu estava prestes a responder, mas Sawyer LeGrande com muita, muita delicadeza, me empurrou para a cama, e foi o fim da conversa. – Reena – murmurou ele. – Me diga se quiser parar, está bem?
– É – falei, e sorri. – Não quero mesmo.
Sawyer me beijou por um bom tempo sobre as cobertas, então debaixo delas. Minha camisa foi para o chão do quarto com um suspiro. Havia uma pequena, mas inconfundível, cicatriz no peito dele, da cirurgia que tinha feito quando era pequeno; ele era salgado como o mar, e eu fiquei fascinada com as formas de seu corpo, as dobras entre os dedos, os músculos nas costas. Levei a mão ao botão da Levi’s, e ele respirou fundo, estremecendo.
– Vamos devagar, está bem? – disse ele para mim. – Vamos devagar.
Eu queria ficar acordada quando acabou. Queria olhar com atenção, me lembrar de cada detalhe para que pudesse escrever tudo depois e não esquecer, nunca mais, mas me senti sonolenta e preguiçosa.
– Pode ficar aqui? – murmurou Sawyer, e não lembro de responder, mas, quando acordei, o amanhecer chegava, cinzento, do lado de fora, e eu estava sozinha.
Estendi a mão para o piso de madeira frio a fim de pegar a camisa e tentei pensar e não entrar em pânico. Não tinha ouvido Sawyer ir embora. Os colegas dele teriam voltado àquela altura, não teriam? Que diabo eu faria, apenas descer as escadas e dizer oi? Entrei em pânico, estranhamente desorientada, total e completamente fora de controle.
Vesti a roupa o mais rápido possível, cruzei o quarto a fim de pegar os chinelos onde haviam caído, no canto perto da janela. Apoiei a mão no parapeito para me equilibrar ao calçá-los. E olhava para baixo quando alguma coisa brilhante chamou minha atenção: enfiado em um par de tênis estilo hipster de Sawyer, havia um saco plástico amassado, o celofane refletia a luz. Dentro vi meia dúzia de pequenos comprimidos brancos.
Puta merda.
Podiam ser Advil, pensei quando me abaixei para pegá-los, sabendo, ao imaginar aquilo, que estava sendo totalmente ridícula. Não tinha como aquilo não ser coisa ruim. Talvez fossem analgésicos, pensei, de modo racional, mas, obviamente, Sawyer não os tomaria para uma dor de cabeça de fim de dia.
Estava imaginando se haveria um modo de sair da casa sem ser vista quando ouvi alguém no corredor; enfiei o saquinho de volta onde encontrei, calcei os chinelos com sucesso. Sawyer empurrou a porta para abri-la, uma romã gorda em cada mão.
– Oi, moça – disse ele, tranquilo, sorrindo para mim como se vivesse em um mundo onde coisas boas acontecem com frequência e, quem sabe, eu fosse uma delas. – Dormiu bem?
– Hum. – Exalei, feliz por ele não ter me surpreendido fuxicando. Apesar de tudo, sorri ao ver Sawyer, com cara de sono e feliz. Vestia a calça jeans e a camisa da noite passada. – Oi – falei. – Bem.
Sawyer me entregou uma das romãs, se sentou de pernas cruzadas na cama.
– Você está bem?
– Ã-hã. – Assenti. – Acabei de acordar e... – Parei. Parecia idiota, agora, a ideia de pensar que ele havia desaparecido e me largado.
– O que achou, que eu tivesse ido embora? – Sawyer me beijou na têmpora. – Cara, você acha que eu sou um canalha. – Ele abriu a romã, xingando baixinho quando o suco pingou nos lençóis. Comeu as sementes por um minuto, então ergueu um pedaço da casca. Parecia curioso. – O que acontece se eu comer a parte dura? – perguntou.
Olhei para ele, ainda sorrindo, corada por ter a atenção total de Sawyer; mesmo os comprimidos pareciam menos sinistros de súbito, a pontada de pânico já se dissipava. Talvez eu estivesse errada, pensei. Talvez realmente não soubesse o que tinha visto.
– Uma romã vai brotar no seu estômago – respondi.
– Mesmo?
– Se tiver sorte.
Sawyer sorriu e afundou no colchão ao meu lado.
– Ah, eu sou muito sortudo – disse ele.
Era quase hora do almoço quando Sawyer me levou para casa. Entrei de fininho pela porta dos fundos, esperando subir sem ser vista, mas meu pai estava na cozinha tomando café.
– Como foi na casa de Shelby? – perguntou ele baixinho, um polegar circulando na beira da caneca.
– Bem – falei.
– Bem – repetiu ele. Então, enquanto eu seguia para as escadas: – Reena.
Oh-oh. Virei de costas, os olhos arregalados. Parecia que papai conseguia ver através de minha pele.
– Sim?
– Sente-se.
– Eu só ia...
– Serena. – A voz de papai se ergueu de súbito, e pensei em Moisés no Monte Sinai, na voz de Deus e na árvore em chamas. – Não sei se estava ou não na casa de Shelby ontem à noite, mas sei que isso precisa parar agora mesmo.
Hesitei e me fiz de desentendida. Minhas bochechas estavam muito quentes.
– O que precisa parar?
Os olhos dele se semicerraram.
– Por favor, não subestime minha inteligência.
– Não estou fazendo isso – falei. Eu me segurava à beirada do balcão, agarrada a ele com as pontas dos dedos. – Não estou.
– Por favor, não pense que sou tão ignorante que não sei o que está acontecendo entre você e Sawyer, está bem? – Papai pareceu tão desconfortável que quase tive pena dele. – Eu posso não saber o que é de fato e tenho a sensação, muito sinceramente, de que não quero saber o que é, mas estou dizendo agora que precisa pôr um fim nisso antes que faça algo de que vai se arrepender.
Olhei por instinto pela janela, mas é claro que não havia nada para ver ali: pedi que Sawyer me deixasse na metade do quarteirão.
Papai me viu olhando, esfregou a lateral do rosto com a mão.
– Reena – disse ele com mais suavidade agora. – Amo você. Mas está entrando numa fria. E acho que não sabe com o que está lidando.
Semicerrei os olhos para ele.
– O que quer dizer...
– Quero dizer que Sawyer tem muitos problemas.
Negação total foi meu primeiro instinto.
– Ah, papai, não tem, não.
– Há coisas que você não sabe a respeito dele, Serena. Há coisas que não sabe sobre o mundo. E talvez isso seja culpa minha, talvez eu tenha mantido você longe de...
– Pode parar? – pedi, em tom afiado. Foi o mais próximo do limite que já cheguei com papai, mas só... não queria ter aquela conversa. Não precisava de mais ninguém me dizendo todas as coisas que eu não sabia. – Não é assim. Ele não é apenas um cara qualquer... – Parei, tentando pensar em como explicar para ele. – Você conhece Sawyer.
Meu pai me olhou como se jamais tivesse me visto na vida, como se sinceramente não tivesse ideia do que fazer comigo.
– Sim, Reena – disse ele por fim. – Conheço.
Nós nos encaramos, em um impasse. Por um momento, desejei ter minha mãe – alguém para ficar do meu lado em tudo aquilo. Finalmente, dei de ombros e ergui o queixo.
– Posso ir?
Esperava uma discussão, mas papai apenas cedeu.
– Vá – disse ele, então, e, ao empurrar a porta para a sala, tive quase certeza de que o ouvi suspirar.