Duas Vezes Amor

Katie Cotugno · Capítulo 7 de 53

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Duas Vezes Amor

Capítulo 7

Depois

Uma característica do sul da Flórida é que em todo lugar que se vai o ar-condicionado é forte, inclusive na igreja. Faz dezoito graus dentro da Nossa Senhora da Medalha Milagrosa quando entramos na igreja no domingo, e é assim desde que Deus inventou o sistema de ar-condicionado central. Para todo o sempre, amém.

Somos famílias da igreja, os LeGrande e nós: batismos e crismas, jantares com espaguete e escola dominical. Meu pai e Soledad se casaram neste prédio. No ensino fundamental, eu costumava parar a fim de acender velas para minha mãe. Mesmo quando estava deprimida e grávida, eu me sentava logo atrás dos pais de Sawyer todo fim de semana no sétimo banco, à direita, e, embora ache que a esta altura a família dele e a minha se amem e se odeiem com igual intensidade, o Credo é apenas mais uma coisa que sempre fizemos juntos, até o fim.

Hoje, mal acabei de enfiar os braços gordinhos de Hannah no suéter que Soledad terminou esta semana quando Sawyer entra acompanhado por Roger e Lydia, as mãos dentro dos bolsos do jeans escuro e os óculos escuros pendurados da abertura em V da camisa de botão. Todos, até mesmo Sawyer, usam camisa social para ir à missa.

– Oi, gente – sussurra ele quando os LeGrande deslizam para a fileira diante de nós. Meu pai o ignora. Meu irmão apenas olha com raiva. A esposa dele, Stefanie, está boquiaberta de um modo que me faz querer socar sua cara redonda e estranha: Sim, Stef, ele é bonito. Sim, Stef, ele está de volta.

Meu Deus, gente. Recomponham-se.

Soledad é aparentemente o único membro de minha família com um mínimo de graça, não que isso seja novidade.

– Oi, Sawyer – responde ela, a voz marcada, como sempre, por traços da infância passada em Cuba. Ao lado de Sawyer, a mãe dele está radiante, iluminada, e por que não estaria? Exatamente como a história prometeu, o filho pródigo retornou. – É bom ver você.

Sawyer dá um beijo na bochecha de Soledad antes de se virar e olhar para Hannah, e, por quase um minuto inteiro, os dois se encaram em silêncio. Não respiro por um momento. Sawyer sempre foi cheio de hábitos nervosos, perpetuamente tamborilando os dedos ou esfregando com força um músculo no pescoço – é uma das coisas que encantam as garotas –, mas agora ele fica parado como uma estátua, parecendo que o sangue tinha secado em suas veias.

Lydia pigarreia. Hannah se mexe. Sawyer olha para mim como se eu tivesse partido o coração pulsante dele.

– Bom trabalho. – É tudo o que diz, e dou risada.

Quando estávamos juntos, eu costumava passar as manhãs de domingo na igreja cutucando as costas de Sawyer, esperava até que ninguém estivesse olhando e, em silêncio, puxava o elástico da cueca dele, que aparecia por cima da calça. Ele esticava o braço para trás e segurava minha mão, nós dois fazíamos uma guerra de polegares até que Soledad ou Lydia reparassem e cutucassem um de nós ou os dois na lateral do corpo.

– Preste atenção – ciciavam elas, e então se voltavam para o padre e nos deixavam em paz.

Éramos namoradinhos. Uma coisa que aconteceu. Agora acabou. Não tem problema.

No meio do salmo, a agitação de Hannah se transforma em choramingo; o corpo dela está morno e pesado em meus braços. Está de mau humor, só isso. Não dormiu bem na noite passada – nós duas dormimos mal ontem, na verdade –, mas neste segundo parece que ela sabe o que estou sentindo, toda aquela intuição infantil assustadora. Neste segundo, parece que ela sabe.

Pego-a no colo e sigo para o corredor, porque em mais um minuto nós duas vamos perder a calma, bem no meio de uma leitura da carta de Paulo para os Coríntios: Ouçam, conto-lhes um mistério. Saímos às pressas pelas portas dos fundos, direto para um choque de luz ofuscante.

– Eu nunca gostei muito do apóstolo Paulo mesmo – digo a Hannah depois que nos escondemos no pátio do lado de fora da igreja, feito de arenito e povoado por meia dúzia de estátuas em tamanho natural de anjos e santos, como um coquetel religioso esquisito cujo anfitrião é o apóstolo Bartolomeu. Coloco Hannah de pé e deixo que ela caminhe. O verão no condado de Broward é cruel e assombrado, todas as palmeiras e o emaranhado verde das uvas-bravas envolvem a gruta no gramado. Hannah segura um feixe de barba-de-velho com as mãos gordinhas.

– Minha nossa – digo. – O que você pegou aí, menina?

– Minha nossa – repete ela, e sorrio. Hannah é uma criança linda, de cabelos escuros e olhos amendoados, mesmo levando em conta que sou suspeita, já que a gerei. Desconhecidos nos abordam e dizem isso o tempo todo. – Minha nossa!

Sento-me em um banco de madeira para observá-la. Uma Virgem Maria taciturna vigia do alto de uma fonte seca no canto do pátio, um pedaço de gesso faltante onde o véu deveria tocar o vestido. Penso em minha própria mãe, de quem mal me lembro – apenas uma cascata de cabelo preto e o leve cheiro de lavanda –, e imagino se ela teria algum segredo para compartilhar. Passo o polegar pela ponta afiada da pedra, esperando. Soledad reza a Maria para praticamente tudo, e jura que Maria atende sempre, mas se essa mãe ou a minha tiverem algum conselho para dar, no momento, elas estão se contendo.

– Que grande ajuda vocês são – digo a elas e salto para pegar minha filha antes que ela caia.