Modernidade e Holocausto
2. Modernidade, racismo e extermínio I
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Modernidade, racismo e extermínio I
Poucos laços causais parecem mais transparentes que os que ligam o
antissemitismo ao Holocausto. Os judeus da Europa foram assassinados
porque os alemães que os mataram e os que os ajudaram a nível local
odiavam os judeus. O Holocausto foi o clímax espetacular de uma história
de séculos de ressentimento religioso, econômico, cultural e nacional. Esta
é a explicação do Holocausto que primeiro vem à mente. Ela “é lógica” (se
a pessoa se permitir paradoxos). E no entanto a aparente clareza dos laços
causais não resiste a um exame mais detalhado.
Graças à pesquisa histórica completa realizada nas últimas décadas,
sabemos agora que antes da ascensão dos nazistas ao poder e muito depois
de terem implantado seu domínio sobre a Alemanha, o antissemitismo do
povo alemão perdia para o ódio aos judeus em vários outros países
europeus. Muito antes de a República de Weimar dar os retoques finais ao
longo processo de emancipação dos judeus, a Alemanha era amplamente
vista pela comunidade judaica internacional como um refúgio da igualdade
e tolerância religiosas e nacionais. A Alemanha entrou este século com um
número muito maior de acadêmicos e profissionais judeus do que os
Estados Unidos ou a Grã-Bretanha atuais. O ressentimento popular com os
judeus não era nem profundo nem amplamente disseminado. Raramente ele
se manifestava em explosões de violência pública, tão comuns em outras
partes da Europa. As tentativas nazistas de trazer o antissemitismo à tona
com a encenação de espetáculos públicos de violência antijudaica
mostraram-se contraproducentes e tiveram que ser abandonadas. Um dos
mais eminentes historiadores do Holocausto, Henry L. Feingold concluiu
que, se tivessem sido feitas pesquisas de opinião pública para avaliar a
intensidade das atitudes antissemitas “durante a República de Weimar,
provavelmente teríamos descoberto que a antipatia dos alemães para com os
judeus era menor que a dos franceses”.1 Em nenhum momento do processo de extermínio o antissemitismo popular foi uma força ativa. No máximo se
dá a entender que contribuiu indiretamente para o assassinato em massa
através da indução à apatia com que a maioria dos alemães encarava a sorte
dos judeus quando tomava conhecimento dela ou se resignava à ignorância.
Nas palavras de Norman Cohn, “as pessoas não queriam se incomodar por
causa dos judeus. A própria indiferença generalizada, a facilidade com que
as pessoas se desvinculavam dos judeus e de sua sorte, era certamente em
parte resultado de um vago sentimento de que… os judeus eram um tanto
estranhos e perigosos”.2 Richard L. Rubenstein dá um passo ainda mais
adiante e sugere que a apatia alemã — a cooperação por omissão, por assim
dizer — não pode ser plenamente compreendida a não ser que se formule a
pergunta: “A maioria dos alemães considerava benéfica a eliminação dos
judeus?” 3 Há outros historiadores, porém, que explicaram de forma
convincente a “cooperação por omissão” através de fatores que não incluem
necessariamente quaisquer preconceitos quanto à natureza ou essência dos
judeus. Assim, Walter Laqueur enfatiza o fato de que “muito poucas
pessoas queriam saber da sorte dos judeus. A maioria dos indivíduos
enfrentava problemas bem mais importantes. Era um assunto desagradável,
especular não dava em nada e as discussões sobre a sorte dos judeus eram
desestimuladas. Análises da questão foram deixadas de lado, riscadas do
mapa.” 4
Há mais um problema que a explicação do Holocausto pelo
antissemitismo não está preparada para enfrentar. O antissemitismo —
religioso ou econômico, cultural ou racial, virulento ou brando — tem sido
há milênios um fenômeno quase ecumênico. E mesmo assim o Holocausto
foi um acontecimento sem precedentes. Em praticamente cada um dos seus
aspectos ele é único e não permite comparação com outros massacres, não
importa quão sangrentos, praticados contra grupos previamente
classificados como estranhos, hostis ou perigosos. Claramente, por ser
permanente e onipresente, o antissemitismo não pode ser responsabilizado
pela singularidade do Holocausto. Para complicar ainda mais a questão, está
longe de ser óbvio que a presença do antissemitismo, reconhecidamente
uma condição necessária da violência antijudaica, possa ser vista como sua
condição suficiente. Na opinião de Norman Cohn, um grupo organizado de
“matadores profissionais de judeus” (fenômeno não desvinculado do
antissemitismo, embora de forma alguma idêntico a ele) é a própria causa
material e operante da violência; sem ele, o ressentimento contra os judeus, por mais forte que fosse, dificilmente teria irrompido em ataques físicos