Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 8 de 52

Páginas do PDF

Modernidade e Holocausto

2. Modernidade, racismo e extermínio I

2

 

Modernidade, racismo e extermínio I

 

Poucos laços causais parecem mais transparentes que os que ligam o

antissemitismo ao Holocausto. Os judeus da Europa foram assassinados

porque os alemães que os mataram e os que os ajudaram a nível local

odiavam os judeus. O Holocausto foi o clímax espetacular de uma história

de séculos de ressentimento religioso, econômico, cultural e nacional. Esta

é a explicação do Holocausto que primeiro vem à mente. Ela “é lógica” (se

a pessoa se permitir paradoxos). E no entanto a aparente clareza dos laços

causais não resiste a um exame mais detalhado.

Graças à pesquisa histórica completa realizada nas últimas décadas,

sabemos agora que antes da ascensão dos nazistas ao poder e muito depois

de terem implantado seu domínio sobre a Alemanha, o antissemitismo do

povo alemão perdia para o ódio aos judeus em vários outros países

europeus. Muito antes de a República de Weimar dar os retoques finais ao

longo processo de emancipação dos judeus, a Alemanha era amplamente

vista pela comunidade judaica internacional como um refúgio da igualdade

e tolerância religiosas e nacionais. A Alemanha entrou este século com um

número muito maior de acadêmicos e profissionais judeus do que os

Estados Unidos ou a Grã-Bretanha atuais. O ressentimento popular com os

judeus não era nem profundo nem amplamente disseminado. Raramente ele

se manifestava em explosões de violência pública, tão comuns em outras

partes da Europa. As tentativas nazistas de trazer o antissemitismo à tona

com a encenação de espetáculos públicos de violência antijudaica

mostraram-se contraproducentes e tiveram que ser abandonadas. Um dos

mais eminentes historiadores do Holocausto, Henry L. Feingold concluiu

que, se tivessem sido feitas pesquisas de opinião pública para avaliar a

intensidade das atitudes antissemitas “durante a República de Weimar,

provavelmente teríamos descoberto que a antipatia dos alemães para com os

judeus era menor que a dos franceses”.1 Em nenhum momento do processo de extermínio o antissemitismo popular foi uma força ativa. No máximo se

dá a entender que contribuiu indiretamente para o assassinato em massa

através da indução à apatia com que a maioria dos alemães encarava a sorte

dos judeus quando tomava conhecimento dela ou se resignava à ignorância.

Nas palavras de Norman Cohn, “as pessoas não queriam se incomodar por

causa dos judeus. A própria indiferença generalizada, a facilidade com que

as pessoas se desvinculavam dos judeus e de sua sorte, era certamente em

parte resultado de um vago sentimento de que… os judeus eram um tanto

estranhos e perigosos”.2 Richard L. Rubenstein dá um passo ainda mais

adiante e sugere que a apatia alemã — a cooperação por omissão, por assim

dizer — não pode ser plenamente compreendida a não ser que se formule a

pergunta: “A maioria dos alemães considerava benéfica a eliminação dos

judeus?” 3 Há outros historiadores, porém, que explicaram de forma

convincente a “cooperação por omissão” através de fatores que não incluem

necessariamente quaisquer preconceitos quanto à natureza ou essência dos

judeus. Assim, Walter Laqueur enfatiza o fato de que “muito poucas

pessoas queriam saber da sorte dos judeus. A maioria dos indivíduos

enfrentava problemas bem mais importantes. Era um assunto desagradável,

especular não dava em nada e as discussões sobre a sorte dos judeus eram

desestimuladas. Análises da questão foram deixadas de lado, riscadas do

mapa.” 4

Há mais um problema que a explicação do Holocausto pelo

antissemitismo não está preparada para enfrentar. O antissemitismo —

religioso ou econômico, cultural ou racial, virulento ou brando — tem sido

há milênios um fenômeno quase ecumênico. E mesmo assim o Holocausto

foi um acontecimento sem precedentes. Em praticamente cada um dos seus

aspectos ele é único e não permite comparação com outros massacres, não

importa quão sangrentos, praticados contra grupos previamente

classificados como estranhos, hostis ou perigosos. Claramente, por ser

permanente e onipresente, o antissemitismo não pode ser responsabilizado

pela singularidade do Holocausto. Para complicar ainda mais a questão, está

longe de ser óbvio que a presença do antissemitismo, reconhecidamente

uma condição necessária da violência antijudaica, possa ser vista como sua

condição suficiente. Na opinião de Norman Cohn, um grupo organizado de

“matadores profissionais de judeus” (fenômeno não desvinculado do

antissemitismo, embora de forma alguma idêntico a ele) é a própria causa

material e operante da violência; sem ele, o ressentimento contra os judeus, por mais forte que fosse, dificilmente teria irrompido em ataques físicos