Modernidade e Holocausto
Notas
PREFÁCIO
1. David G. Roskies, Against the Apocalypse, Response to Catastrophe in Modern Jewish Culture
(Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1984), p.252.
2. Cynthia Ozick, Art and Ardour (Nova York: Dutton, 1984), p.236.
3. Comparar com Steven Beller, “ Shading Light on the Nazi Darkness”, Jewish Quarterly,
inverno de 1988-89, p.36.
4. Janina Bauman, Winter in the Morning (Londres: Virago Press, 1986), p.1.
1. INTRODUÇÃO:
A SOCIOLOGIA DEPOIS DO HOLOCAUSTO
1. Ver Konrad Lorenz, On Agression (Nova York: Harcourt, Brace and World, 1977); Arthur
Koestler, Janus: a Summing Up (Londres: Hutchinson, 1978). Entre os muitos escritos que tentam utilizar teorias de falha imanente da natureza humana para explicar o Holocausto, Israel W. Charny, How Can We Commit the Unthinkable? (Boulder: Westview Press, 1982) ocupa lugar destacado. O livro contém uma investigação abrangente das teorias da natureza humana e aborda hipóteses tais como “ o homem é naturalmente mau”, “ o poder embriaga”, “ projetar num bode expiatório o que menos suportamos na gente” ou “ matar a humanidade do outro para preservar a própria” . Wendy Stellar Flory, “ The Psychology of Antisemitism”, in Antisemitism in the Contemporary World, Michael Curtis org. (Boulder: Westview Press, 1986), explica a ocorrência do Holocausto pela tenacidade do antissemitismo, do antissemitismo pelo preconceito generalizado, do preconceito pelo “ mais fundamental e intuitivo de todos os impulsos humanos — o egoísmo”, que por sua vez explica-se como “ resultado de outra característica humana… — o orgulho, que nos deixa prontos para ir aonde for para não ter que admitir para nós mesmos que estávamos errados” (p.240). Flory argumenta que a prevenção dos efeitos destrutivos do preconceito requer que a sociedade insista “ (como faz com outros tipos de egoísmo) que ele deve ser rigorosamente monitorado e restringido” (p.249).
2. Por exemplo, “ Angela Davis é transformada numa dona de casa judia a caminho de Dachau;
um corte dos tíquetes-refeição vira um exercício de genocídio; os vietnamitas que fugiram do seu país em botes se transformam nos infelizes refugiados judeus da década de 30” . Henry L. Feingold, “ How Unique is the Holocaust?”, in Genocide: Critical Issues of the Holocaust, Alex Grobman & Daniel Landes orgs. (Los Angeles: The Simon Wiesenthal Centre, 1983), p.398.
3. George M. Kren & Leon Rappoport, The Holocaust and the Crisis of Human Behaviour (Nova
York: Holmes & Meier, 1980), p.2.
4. Everett C. Hughes, “ Good People and Dirty Work”, Social Problems, verão de 1962, p.3-10.
5. Ver Helen Fein, Accounting for Genocide: National Response and Jewish Victimization during
the Holocaust (Nova York: Free Press, 1979).
6. Fein, Accounting for Genocide, p.34.
7. Nechama Tec, When Light Pierced the Darkness (Oxford: Oxford University Press, 1986),
p.193.
8. John Roth, “ Holocaust Business”, Annals of AAPSS, n.450 (julho de 1980), p.70.
9. Feingold, “ How Unique is the Holocaust”, p.399-400.
10. Edmund Stillman & William Pfaff, The Politics of Hysteria (Nova York: Harper & Row,
1964), p.30-1.
11. Raoul Hilberg, The Destruction of the European Jews (Nova York: Holmes & Meier, 1983),
vol.III, p.994.
12. Richard L. Rubenstein, The Cunning of History (Nova York: Harper, 1978), p.91, 195.
13. Ver Lyman H. Legters org., Western Society after the Holocaust (Boulder: Westview Press,
1983).
14. Nas palavras do ex-ministro das Relações Exteriores israelense Abba Eban, “ para o sr. Begin e
sua coorte, todo inimigo é um ‘nazista’, cada golpe vira uma ‘Auschwitz’” . E prossegue Eban: “ É hora de andarmos com os próprios pés e não com os dos seis milhões de mortos.” Citado por Michael R. Marrus, “ Is there a New Antisemitism?”, in Curtis, Antisemitism in the Contemporary World, p.177-8. Afirmações como a de Begin convidam a respostas semelhantes: assim, o Los Angeles Times lhe atribui “ a linguagem de Hitler”, enquanto outro jornalista americano escreve sobre os olhos dos árabes palestinos encarando-o sob fotos de crianças judias sendo levadas para as câmaras de gás: ver Edward Alexander em Antisemitism in the Modern World.
15. Kren & Rappoport, The Holocaust and the Crisis, p.126, 143.
16. Leo Kuper, Genocide: Its Political Use in the Twentieth Century (New Haven: Yale University
Press, 1981), p.161.
17. Christopher R. Browning, “ The German Bureaucracy and the Holocaust”, in Grobman &
Landes, Genocide, p.148.
18. Kuper, Genocide, p.121.
19. H.H. Gerth & C. Wright Mills orgs., From Max Weber (Londres: Routledge & Kegan Paul,
1970), p.214, 215. Na sua abrangente pesquisa e partidária avaliação do tratamento que o Holocausto recebe dos historiadores (The Holocaust and the Historians. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1981), Lucy S. Dawidowicz objeta contra a comparação do Holocausto a outros morticínios, como a aniquilação de Hiroshima e Nagasaki: “ O propósito do bombardeio foi demonstrar o superior poderio militar da América”; “ não foi motivado pelo desejo de exterminar o povo japonês” (p.17-8). Depois dessa observação evidentemente verdadeira, Dawidowicz deixa de perceber no entanto um ponto importante: o extermínio de duzentos mil japoneses foi concebido (e executado) como um meio eficaz pretendido para atingir o objetivo estabelecido; foi, com efeito, produto da mentalidade racional para a solução de problemas.
20. Ver Karl A. Schleuner, The Twisted Road to Auschwitz (University of Illinois Press, 1970).
21. Michael R. Marrus, The Holocaust in History (Boston: University Press of New England,
1987), p.41.
22. Gerth & Mills, From Max Weber, p.232.
23. Browning, “ The German Bureaucracy”, p.147.
24. Kren & Rappoport, The Holocaust and the Crisis, p.70.
25. Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem: a Report on the Banality of Evil (Nova York: Viking
Press, 1964), p.106.
26. Arendt, Eichmann in Jerusalem, p.69.
27. Hilberg, The Destruction of the European Jews, p.1011.
28. Ver Herbert C. Kelman, “ Violence without Moral Restraint”, Journal of Social Issues, vol.29
(1973), p.29-61.
29. Gerth & Mills, From Max Weber, p.95. Durante o seu julgamento, Eichmann insistiu que
obedeceu não apenas ordens, mas a lei. Arendt comenta que ele (e não somente ele necessariamente) travestiu o imperativo categórico de Kant de modo tal que, em vez da autonomia individual, passa a sustentar a subordinação burocrática: “ agir como se o princípio da sua ação fosse o mesmo que o do legislador ou da lei local”; Arendt, Eichmann in Jerusalem, p.136.
30. Citado por Robert Wolfe, “ Putative Threat to National Security at a Nurenberg Defence for
Genocide”, Annals of AAPSS, n.450 (julho de 1980), p.64.
31. Hilberg, The Destruction of the European Jews, p.1036-8, 1042.
32. Hilberg, The Destruction of the European Jews, p.1024.
33. John Lachs, Responsability of the Individual in Modern Society (Brighton: Harvester, 1981),
p.12-13, 58.
34. Philip Caputo, A Rumour of War (Nova York: Holt, Rinehart & Winston, 1977), p.229.
35. Fein, Accounting for Genocide, p.4.
36. Hilberg, The Destruction of the European Jews, p.1044.
37. Franklin M. Littell, “ Fundamentals in Holocaust Studies”, Annals of AAPSS, n.450 (julho de
1980), p.213.
38. Colin Gray, The Soviet-American Arms Race (Lexington: Saxon House, 1976), p.39, 40.
2. MODERNIDADE, RACISMO E EXTERMÍNIO I
1. Harry L. Feingold, Menorah, Programa de Estudos Judaicos da Virginia Commonwealth
University, n.4 (verão de 1985), p.2.
2. Norman Cohn, Warrant for Genocide (Londres: Eyre & Spottiswoode, 1967), p.267-8.
3. Feingold, Menorah, p.5
4. Walter Laqueur, Terrible Secret (Harmondsworth: Penguin Books, 1980).
5. Cohn, Warrant for Genocide, p.266-7.
6. Escrevi mais extensamente sobre isso em” Exit Visas and Entry Tickets”, Telos, inverno de
1988.
7. Eberhard Jäckel, Hitler in History (Boston: University Press of New England, 1964).
8. Ver Hitler’s Secret Book (Londres: Grove Press, 1964).
9. Cohn, Warrant for Genocide, p.252.
10. Citado por Walter Laqueur, A History of Zionism (Nova York, 1972), p.188.
11. Max Weinreich, Hitler’s Professors: The Part of Scholarship in Germany’ s Crimes against the
Jewish People (Nova York: Yiddish Scientific Institute, 1946), p.28.
12. W.D. Rubinstein, The Left, the Right, and the Jews (Londres: Croom Helm, 1982), p.78-9. Eu
enunciaria esta observação de modo diferente: não foi a violência específica que resultou do confronto de diversos antissemitismos, mas precisamente o fenômeno do antissemitismo que surgiu do confronto de perspectivas.
Deve-se ressaltar que a situação social contraditória dos judeus que persistiu até a Segunda Guerra
Mundial desaparece hoje rapidamente em quase todos os países ocidentais afluentes — com consequências até aqui difíceis de imaginar e calcular. Rubinstein fornece evidência estatística convincente de um maciço movimento dos judeus para o setor de classe média alta. O sucesso econômico, combinado com o desmantelamento das restrições políticas, reflete-se no perfil político da opinião judaica: “ Os judeus, hoje, são conservadores em bloco” (p.118), “ nem todos os neoconservadores são judeus mas a maioria dos seus líderes é” (p.124), o outrora liberal-progressista Commentary tornou-se um órgão militante da direita americana, o romance entre o establishment judaico e a direita fundamentalista está ficando cada vez mais quente. Num recente simpósio sobre “ o fim da bela amizade” entre os judeus e o socialismo (ver The Jewish Quarterly, no. 2, 1988), Melanie Phillips confidenciou: “ Tenho grande prazer em dizer aos meus amigos e conhecidos socialistas que ‘sou de uma minoria étnica’ e vê-los se enrolando, histéricos. Como pode ser? Sou poderosa. E a impressão dos socialistas é de que os judeus estão em posição de poder. Eles estão no governo, não estão? Eles dirigem coisas, comandam a indústria, são proprietários de terras.” Enquanto isso, George Friedman questionou, retórico: “ Os membros judeus do governo associaram-se a políticas impopulares. Quando a bolha atual finalmente estourar… o que acontecerá então? Onde a comunidade judaica estará nessa hora e onde estaremos nós em relação ao colapso e às frustrações da classe operária neste país?”
É interessante notar que a situação social dos judeus alemães imediatamente antes do período
nazista era bastante semelhante aos padrões atuais típicos na Europa ocidental e particularmente nos Estados Unidos. Cerca de três quartos dos judeus alemães viviam então do comércio, das atividades financeiras e das profissões liberais, especialmente a medicina e o direito (contra apenas um quarto da população não judaica). O que tornou os judeus particularmente visíveis foi o seu domínio da indústria editorial, cultural e jornalística (“ os jornalistas judeus eram notáveis em quase todo o espectro da imprensa liberal e de esquerda” — Donald L. Niewyk, The Jews in Weimar Germany. Manchester: Manchester University Press, 1980, p.15). Em função de sua situação de classe, os judeus alemães tendiam a seguir o resto da classe média nas posições políticas conservadoras. Se, apesar dessas tendências, tinham um apego acima da média a programas e partidos liberais, era sobretudo porque a direita alemã era manifestamente antissemita e, portanto, repelia de modo inflexível os recorrentes avanços judeus.
13. Anna Zuk, “ A mobile class. The subjective element in the social perception of Jews: the
example of eighteenth century Poland”, in Polin, vol.2 (Oxford: Basil Blackwell, 1987), p.163-78.
14. Ver Zygmunt Bauman, Legislators and Interpreters (Oxford: Polity Press, 1987).
15. Citado por George L. Mosse, Toward the Final Solution: A History of European Racism
(Londres: J.M. Dent & Son, 1978), p.154.
16. Joseph Marcus, Social and Political History of the Jews in Poland 1919-1939 (Berlim:
Mouton, 1983), p.97-8.
17. David Biale, Power and Powerlessness in Jewish History (Nova York: Schocken, 1986), p.132.
18. Hannah Arendt, Origins of Totalitarianism (Londres: Allen & Unwin, 1962), p.14.
19. P.G.J. Pulzer, The Rise of Political Antisemitism in Germany and Austria (Nova York: John
Wiley & Sons, 1964), p.311.
20. Arendt, Origins of Totalitarianism, p.20.
21. Arendt, Origins of Totalitarianism, p.22.
22. Jacob Katz, From Prejudice to Destruction: Anti-Semitism 1700-1933 (Cambridge, Mass.:
Harvard University Press, 1980), p.161, 87.
23. Pulzer, Rise of Political Antisemitism, p.138-9. Pode-se sentir o sabor do transe judeu em tais
casos por este exemplo: “ Na Galícia oriental e na fronteira entre Lituânia e Bielorrússia, a situação era muito mais complexa e perigosa, pois lá os judeus se achavam entre dois fogos, entre duas reivindicações nacionais em choque, como acontecia também com eles em outras regiões de múltiplas etnias na Europa oriental, como a Transilvânia, a Boêmia, a Morávia e a Eslováquia. Na Galícia oriental, a população judaica identificava-se fortemente com a cultura polonesa e aquiescera sem dúvida com a supremacia política dos poloneses antes da guerra. A maioria ignorava e talvez também desprezasse a língua ucraniana e era indiferente às aspirações nacionais ucranianas. Por outro lado, a República Ocidental Ucraniana, proclamada em Lwów no outono de 1918 e de vida curta, prometia aos judeus igualdade civil e autonomia nacional, enquanto os poloneses da região não faziam nenhum esforço para esconder suas tendências antissemíticas. Sem saber quem acabaria sendo o vencedor e sem querer rifar nem os poloneses nem os ucranianos, o Conselho Nacional Judaico local proclamou sua neutralidade… [A]lguns poloneses viram nisso um sinal de sentimento pró-ucraniano e se vingaram dos judeus de Lwów depois de tomarem a cidade em novembro de 1918. Os ucranianos também reclamaram da neutralidade judaica, interpretando-a como uma continuação da tradicional atitude judia favorável aos polacos.” (Ezra Mendelsohn, The Jews of East-Central Europe Between the World Wars. Bloomington: Indiana University Press, 1983, p.51-2.)
A história repetiu-se, quase ao pé da letra, durante a Segunda Guerra Mundial. Os judeus da
Polônia oriental saudaram a chegada do Exército Vermelho em 1939 como proteção contra os nazistas, aberta e veementemente antissemitas. De novo, o que restou dos judeus poloneses após a ocupação nazista viu o avanço das tropas soviéticas como a chegada de uma força libertadora inequívoca. Para muitos poloneses, tanto os alemães quanto os russos eram, primeiro e antes de mais nada, invasores estrangeiros.
24. Geoff Dench, Minorities in the Open Society: Prisoners of Ambivalence (Londres: RKP, 1986),
p.259.
25. Katz, From Prejudice to Destruction, p.3.
26. Patrick Girard, “ Historical Foundations of Antisemitism”, in Survivors, Victims, and
Perpetrators: Essays on the Nazi Holocaust, Joel E. Dinsdale org. (Washington: Hemisphere Publishing Company, 1980), p.70-1. Pierre-André Taguieff publicou recentemente um estudo abrangente dos fundamentos sociopsicológicos do racismo e fenômenos correlatos, entre os quais o ressentimento da mestiçagem [métissage, em francês no original] desempenha um papel central. Os mestiços diferem de modo significativo de casos aparentemente semelhantes de “ diluição de fronteiras” . Se os desclassificados sociais, os indivíduos declassés, são por assim dizer descategorizados, enquanto os imigrantes tendem a não ter categoria (são acategorizados; eles existem, digamos, fora da classificação dominante e, portanto, não solapam a autoridade desta), os mestiços são sobrecategorizados: eles forçam a superação dos campos semânticos, os quais precisam ser cuidadosamente delimitados, cercados e separados se a classificação dominante pretende manter sua autoridade. (Cf. La force du préjugé: essai sur le racisme et ses doubles. Paris: Éditions la Découverte, 1988, p.343.)
27. Arendt, Origins of Totalitarianism, p.87.
28. J.S. McClelland org., The French Right (Londres: Jonathan Cape, 1970), p.88, 32, 178.
3. MODERNIDADE, RACISMO E EXTERMÍNIO II
1. Ver Pierre-André Taguieff, La force du préjugé: essai sur le racisme et ses doubles (Paris: La
Découverte, 1988)
2. Taguieff, La force du préjugé, p.69-70. Albert Memmi, Le racisme (Paris: Gallimard, 1982),
sustenta que o “ racismo, não o antirracismo, é realmente universal” (p.157) e explica o mistério dessa suposta universalidade por referência a outro mistério: o medo instintivo invariavelmente inspirado por toda diferença. Não se compreende o diferente, que por essa razão se transforma em desconhecido — e o desconhecido é fonte de terror. Na opinião de Memmi, o horror do desconhecido “ é fruto da própria história da nossa espécie, no curso da qual o desconhecido sempre gerou perigo” (p.208). Sugere-se então que a pretensa universalidade do racismo é fruto de um aprendizado da espécie. Tendo assim adquirido uma base e fundamento pré-culturais, é essencialmente imune ao impacto do aprendizado individual.
3. Taguieff, La force du préjugé, p.91.
4. Alfred Rosenberg, Selected Writings (Londres: Jonathan Cape, 1970), p.196.
5. Arthur Gütt, “ Population Policy”, in Germany Speaks (Londres: Thornton Butterworth, 1938),
p.35, 52.
6. Walter Gross, “ National Socialist Racial Thought”, in Germany Speaks, p.68.
7. Ver Gerald Fleming, Hitler and the Final Solution (Oxford: Oxford University Press, 1986),
p.23-5.
8. Alfred Rosenberg org., Dietrich Eckart: Ein Vermächtnis (Munique: Frz. Eher, 1928). Citado
por George L. Mosse, Nazi Culture: A Documentary History (Nova York: Schocken Books, 1981), p.77.
9. George L. Mosse, Toward the Final Solution: A History of European Racism (Londres, J.M.
Dent & Son, 1978), p.2.
10. Mosse, Toward the Final Solution, p.20.
11. Ver Mosse, Toward the Final Solution, p.53.
12. Max Weinreich, Hitler’s Professors: The Part of Scholarship in Germany’s Crimes against the
Jewish People (Nova York: Yiddish Scientific Institute, 1946), p.56, 33.
13. H.R. Trevor-Roper, Hitler’s Table Talk (Londres, 1953), p.332.
14. Norman Cohn, Warrant for Genocide (Londres: Eyre & Spottiswoode, 1967), p.87. Há ampla
evidência de que a linguagem usada por Hitler quando discutia a “ questão judaica” não era escolhida apenas por seu valor retórico ou propagandístico. A atitude de Hitler em relação aos judeus era visceral, não cerebral. Ele de fato sentia a “ questão judaica” como uma questão de higiene — código comportamental com que tinha forte ligação e que o obcecava. Poderemos facilmente entender como a repugnância de Hitler pelos judeus emanava de e estava ligada a sua suscetibilidade autenticamente puritana face a tudo que dizia respeito a saúde e a higiene se considerarmos a resposta que deu em 1922 a uma pergunta do seu amigo Josef Hell: o que faria com os judeus se tivesse plenos poderes decisórios? Prometeu enforcar todos os judeus de Munique em patíbulos especialmente erguidos ao longo da Marienplatz, sem esquecer de frisar que os enforcados permaneceriam pendendo das forcas “ até federem; ficarão pendurados lá até onde permitirem os princípios de higiene” (citado por Fleming, Hitler and the Final Solution, p.17). Acrescentemos que essas palavras foram proferidas num acesso de raiva, num “ estado de paroxismo”, com Hitler aparentemente descontrolado; mesmo assim — ou talvez justamente por isso — o culto da higiene e a obsessão da saúde revelaram a que ponto submetiam a mente de Hitler.
15. Marlis G. Steinert, Hitler’s War and the Germans: Public Mood and Attitude during the Second
World War, trad. Thomas E.J. de Witt (Athens, Ohio: Ohio University Press, 1977), p.137.
16. Raoul Hilberg, The Destruction of the European Jews (Nova York: Holmes & Meier, 1983),
vol.III, p.1023.
17. Weinreich, Hitler’s Professors, p.31-3, 34. A experiência dos criadores de gado e outros
manipuladores biológicos foi utilizada pela ciência nacional-socialista não apenas para a solução da “ questão judaica” . Também inspirou toda a política social nazista. Andreas Walther, professor de sociologia em Hamburgo e principal sociólogo urbano da Alemanha nazista, ensinava que “ não se pode mudar a natureza humana pela educação e a influência do ambiente… O nacional-socialismo não repetirá os erros crassos das tentativas de melhoria urbana do passado, não se limitará à construção habitacional e às melhorias sanitárias. A pesquisa sociológica determinará quem ainda pode ser salvo… Casos sem esperança serão eliminados [ausmerzen].” Neue Wege zur Grosstadtsanierung (Stuttgart, 1936), p.4. Citado por Stanislaw Tyrowics, Swiatlo wiedzy zdeprawowanej (Poznan [Potsdam]: Instytut Zachodni, 1970), p.53.
18. Mosse, Toward the Final Solution, p.134.
19. Hannah Arendt, Origins of Totalitarianism (Londres: Allen & Unwin, 1962), p.87.
20. Diário de Joseph Goebbels, em Survivors, Victims, and Perpetrators: Essays on the Nazi
Holocaust, Joel E. Dinsdale org. (Washington: Hemisphere Publishing Company, 1980), p.311.
21. John R. Sabini & Maury Silver, “ Destroying the Innocent with a Clear Conscience: A
Sociopsychology of the Holocaust”, em Survivors, Victims, and Perpetrators, p.329.
22. Richard Grünberger, A Social History of the Third Reich (Londres: Weidenfeld & Nicholson,
1971), p.460.
23. Lawrence Stokes, “ The German People and the Destruction of the European Jewry”, in
Central European History, n.2 (1973), p.167-91.
24. Citado por Sarah Gordon, Hitler, Germans and the “Jewish Question” (Princeton: Princeton
University Press, 1984), p.159-60.
25. Ver Gordon, Hitler, Germans, p.171.
26. Christopher R. Browning, Fateful Months (Nova York: Holmes & Meier, 1985), p.106.
27. Le dossier Eichmann et la solution finale de la question juive (Paris: Centre de Documentation
Juive Contemporaine, 1960), p.52-3.
28. Gordon, Hitler, Germans, p.316.
29. Klaus von Beyme, Right-Wing Extremism in Western Europe (Londres: Frank Cass, 1988), p.5.
Num recente estudo, Michael Balfour investigou as condições e motivos que levaram vários estratos da sociedade alemã durante a República de Weimar a oferecer apoio entusiástico, brando ou caloroso à investida nazista sobre o poder ou, pelo menos, a evitar uma resistência ativa a essa investida. Muitas razões são enumeradas, razões gerais e específicas a determinados segmentos da população. O apelo direto exercido pelo antissemitismo nazista aparece, porém, com destaque apenas em um caso (no da parcela instruída da obere Mittelstand — classe média alta — que se sentia ameaçada pela “ competição desigual” dos judeus) e mesmo nesse caso meramente como um dos muitos fatores considerados atraentes ou pelo menos tentadores no programa nazista de revolução social. Ver Withstanding Hitler in Germany 1933-45 (Londres: Routledge, 1988), p.10-28.
30. Ver Bernd Martin, “ Antisemitism before and after the Holocaust”, in Jews, Antisemitism and
Culture in Vienna, Ivor Oxaal org. (Londres: Michael Pollak and Gerhard Botz, 1987).
31. Jewish Chronicle, 15 de julho de 1988, p.2.
32. Ver Gérard Fuchs, Ils resteront: le défi de l’immigration (Paris: Syros, 1987); Pierre Jouve &
Ali Magoudi, Les dits et les non-dits de Jean-Marie Le Pen: enquête et psychanalyse (Paris: La Découverte, 1988).
4. SINGULARIDADE E NORMALIDADE DO HOLOCAUSTO
1. Raul Hilberg, “ Significance of the Holocaust”, in The Holocaust: Ideology, Bureaucracy, and
Genocide, Henry Friedlander & Sybil Milton (Millwood, NY: Kraus International Publications, 1980), p.101-2.
2. Ver Colin Legum em The Observer, 12 de outubro de 1966.
3. Henry L. Feingold, “ How Unique is the Holocaust?”, in Genocide: Critical Issues of the
Holocaust, Alex Grobman & David Landes orgs. (Los Angeles: Simon Wiesenthal Centre, 1983), p.397.
4. Feingold, “ How Unique is the Holocaust?”, p.401.
5. Leo Kuper, Genocide: Its Political Use in the Twentieth Century (New Haven: Yale University
Press, 1981), p.137, 161. Os presságios de Kuper encontraram a mais sinistra confirmação nas palavras do embaixador do Iraque em Londres. Entrevistado no Canal 4 em 2 de setembro de 1988 sobre a continuação do genocídio dos curdos iraquianos, o embaixador retrucou indignado às acusações dizendo que os curdos, o bem-estar e o destino dos curdos eram assuntos internos do Iraque e que ninguém tinha o direito de interferir nas ações empreendidas por um Estado soberano dentro de suas fronteiras.
6. George A. Kren & Leon Rappoport, The Holocaust and the Crisis of Human Behaviour (Nova
York: Holmes & Meier, 1980), p.130, 143.
7. John P. Sabini & Mary Silver. “ Destroying the Innocent with a Clear Conscience: A
Sociopsychology of the Holocaust”, in Survivors, Victims, and Perpetrators: Essays in the Nazi Holocaust, Joel Dinsdale org. (Washington: Hemisphere Publishing Company, 1980), p.329-30.
8. Sarah Gordon, Hitler, Germans, and the “Jewish Question” (Princeton: Princeton University
Press, 1984), p.48-9.
9. Kren & Rappoport, The Holocaust and the Crisis, p.140.
10. Joseph Weizenbaum, Computer Power and Human Reason: From Judgement to Calculation
(São Francisco: W.H. Freeman, 1976), p.252.
11. Kren & Rappoport, The Holocaust and the Crisis, p.141.
12. Peter Marsh, Aggro: The Illusion of Violence (Londres: J.M. Dent & Sons, 1978), p.120.
13. Norbert Elias, The Civilising Process: State Formation and Civilisation, trad. Edmund Jephcott
(Oxford: Basil Blackwell, 1982), p.238-9.
14. Robert Proctor, Racial Hygiene: Medicine under the Nazis (Cambridge, Mass.: Harvard
University Press, 1988), p.4, 6.
15. Proctor, Racial Hygiene, p.315-24.
16. R.W. Darré, “ Marriage Laws and the Principles of Breeding” (1930), in Nazi Ideology before
1933: A Documentation, trad. Barbara Hiller e Leila J. Gupp (Manchester: Manchester University Press, 1978), p.115.
17. Weizenbaum, Computer Power, p.256.
18. Weizenbaum, Computer Power, p.275.
19. Weizenbaum, Computer Power, p.253.
20. Jacques Ellul, Technological System, trad. Joachim Neugroschel (Nova York: Continuum,
1980), p.272, 273.
5. PEDINDO A COLABORAÇÃO DAS VÍTIMAS
1. Hermann Erich Seifert, Der Jude an der Ostgrenze (Berlim: Eher, 1940), p.82. Citado por Max
Weinreich, Hitler’s Professors: The Part of Scholarship in Germany’s Crimes agaisnt the Jewish People (Nova York: Yiddish Scientific Institute, 1946), p.91. Dar às elites judaicas um papel importante na implantação dos seu planos de longo prazo para a solução da “ questão judaica” contrastou totalmente com o tratamento dispensado às elites das nações eslavas conquistadas, que deveriam ser escravizadas e não exterminadas. Por exemplo, as classes instruídas de etnia polonesa foram submetidas à perseguição e aniquilamento desde o primeiro dia da ocupação alemã, muito antes de deslanchar o extermínio dos judeus poloneses. Isso confundiu o governo polonês no exílio e a opinião pública polonesa em geral, levando-os a acreditar que os judeus haviam recebido dos alemães um status privilegiado em comparação com os polacos. Ver David Engel, In the Shadow of Auschwitz (University of North Carolina Press, 1987).
2. Citado por Leo Kuper, Genocide, Its Political Use in the Twentieth Century (New Haven: Yale
University Press, 1981), p.127.
3. Richard Grünberger, A Social History of the Third Reich (Londres: Weidenfeld & Nicholson,
1971), p.466.
4. Ver Hans Mommsen, “ Anti-Jewish Politics and the Implications of the Holocaust”, in The
Challenge of the Third Reich: The Adam von Trotta Memorial Lectures, Hedley Bull org. (Oxford: Clarendon Press, 1986), p.122-8.
5. Ian Kershaw, Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich (Oxford: Clarendon
Press, 1983), p.359, 364, 372.
6. Franklin H. Littell, “ The Credibility Crisis of the Modern University”, in The Holocaust:
Ideology, Bureaucracy, and Genocide, Henry Friedlander & Lythel Milton orgs. (Millwood, NY: Kraus International Publications, 1980), p.274, 277, 272.
7. Alan Beyerchen, “ The Physical Sciences”, in The Holocaust: Ideology, Bureaucracy, and
Genocide, p.158-9.
8. Léon Poliakoff, The History of Antisemitism (Oxford: Oxford University Press, 1985), vol.IV.
9. Joachim C. Fest, The Face of the Third Reich, trad. Michael Bullock (Harmondsworth: Penguin
Books, 1985), p.394.
10. Richard Grünberger, A Social History of the Third Reich, p.313.
11. Norman Cohen, Warrant for Genocide (Londres: Eyre & Spottiswoode, 1967), p.268.
12. Raul Hilberg, The Destruction of the European Jews (Nova York: Holmes & Meier, 1985),
vol.I, p.78-9, 76.
13. Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem (Nova York: Viking Press, 1964), p.132.
14. Arendt, Eichmann in Jerusalem, p.118. Este julgamento não era inteiramente fantasioso;
refletia uma longa tradição das práticas e opiniões das elites anfitriãs, que apenas Hitler e Himmler — não sem alguma resistência de suas próprias fileiras — ousaram derrubar. Já em 16 de dezembro de 1941, Wilhelm Kube, dirigente nazista experimentado, inescrupuloso e maduro, fez uma petição aos superiores em prol dos judeus alemães entregues a seus cuidados especiais [Sonderbehandlung]: “ [a]s pessoas que vêm de nossa esfera cultural são bem diferentes, admito, das hordas nativas incultas” (citado por Weinreich, Hitler’s Professors, p.155). Há um documento bizarro, produzido pelo Geheime Sicherheitsamt (Serviço Secreto de Segurança) de Berlim em 1º de março de 1940, que indicava o dr. Arthur Spier, diretor da Escola Talmúdica de Torá de Hamburgo, “ para criar na Reserva Judia da Polônia [que era então planejada para os arredores de Nisko] um sistema de educação geral judia similar ao instituído no Reich” . Este último era considerado, de longe, como superior a tudo o que os judeus inferiores, não bafejados pela cultura alemã, poderiam criar. Solomon Colodner, Jewish Education in Germany under the Nazis (Jewish Education Committee Press, 1964), p.33-4.
15. Citado por Lucjan Dobroszycki, “ Jewish Elites under German Rule”, in The Holocaust:
Ideology, Bureaucracy, and Genocide, p.223.
16. Jacques Adler, The Jews of Paris and the Final Solution (Oxford: Oxford University Press,
1987), p.223-4.
17. Hilberg, The Destruction of the European Jews, vol.III, p.1042.
18. Helen Fein, Accounting for Genocide (Nova York: Free Press, 1979), p.319.
19. Isaiah Trunk, Judenrat: The Jewish Councils in Eastern Europe under German Occupation
(Londres: Macmillan, 1972), p.401.
20. Citado por Trunk, Judenrat, p.407.
21. Trunk, Judenrat, p.418, 419.
22. Assim escreve Maimônides: “ Se os pagãos lhes disserem ‘dai-nos um dos vossos e o
mataremos, do contrário mataremos a todos vós’, deveriam ser todos mortos, pois não se entrega uma única alma judia.” Os fundamentos da Torá, 5/5. Também Pirkei Abboth: “ Um homem certa feita compareceu diante de Reba e lhe disse: ‘O governante da minha cidade ordenou-me que matasse uma pessoa e, se eu me recusasse, ele me mataria.’ Reba disse-lhe: ‘Seja morto, mas não mate. Você acha que o seu sangue é mais vermelho que o dele? Talvez o dele seja mais vermelho que o seu.’” (Pes. 25b). O Talmude de Jerusalém instrui: “ Um grupo de judeus viajava por uma estrada quando alguns gentios os encontraram e disseram: ‘Dai-nos um de vós para que o matemos, do contrário mataremos a todos vós!’ Mesmo que todos tivessem que ser mortos, não deveriam entregar uma só alma de Israel.” Na hipótese de os inimigos indicarem eles próprios uma pessoa específica que desejem punir, as opiniões das autoridades dividem-se. Mesmo esse caso, porém, o Talmude aconselha considerar à luz da seguinte história: “ Ulla bar Koshev era procurado pelo governo. Buscou refúgio com o rabino Joshua ben Levi em Lod. As forças do governo vieram e cercaram a cidade. Disseram: ‘Se não o entregardes a nós, destruiremos a cidade.’ O rabino Joshua foi a Ulla bar Koshev e o persuadiu a se entregar. [O profeta] Elias costumava aparecer ao rabino Joshua, mas daquele momento em diante deixou de fazê-lo. O rabino Joshua jejuou muitos dias e finalmente Elias lhe apareceu. ‘Devo aparecer a informantes?’ — perguntou. Disse o rabino Joshua: ‘Segui a lei.’ Elias retrucou: ‘Mas a lei é para santos?’” (Trumot 8:10).
23. Citado por Trunk, Judenrat, p.423.
24. Citado por Trunk, Judenrat, p.xxxii.
25. Citado por Trunk, Jewish Responses to Nazi Persecution: Collective and Individual Behaviour
in Extremis (Nova York: Stein & Day, 1979), p.75-6.
26. Mark Edelman, Ghetto walczy (Varsóvia: C.K. Bundu, 1945), p.12-4.
27. Hilberg, The Destruction of the European Jews, vol.III, p.1036.
28. Wladyslaw Szlengel, Co czytalem umarlym (Varsóvia, PIW, 1979), p.46, 49, 44.
29. Citado por Trunk, Judenrat, p.447-9.
6. A ÉTICA DA OBEDIÊNCIA (LENDO MILGRAM)
1. Stanley Milgram, The Individual in a Social World (Reading, Mass.: Addison and Wesley,
1971), p.98.
2. Richard Christie, “ Authoritarianism Re-examined”, in Studies in the Scope and Method of ‘The
Authoritarian Personality’, Richard Christie & Marie Jahöda orgs. (Glencoe, Ill.: Free Press, 1954), p.194.
3. Stanley Milgram, Obedience to Authority: An Experimental View (Londres: Tavistock, 1974),
p.xi.
4. Milgram, Obedience to Authority, p.121.
5. Milgram, Obedience to Authority, p.39.
6. John P. Sabini & Maury Silver, “ Destroying the Innocent with a Clear Conscience: A
Sociopsychology of the Holocaust”, in Survivors, Victims, and Perpetrators: Essays on the Nazi Holocaust, Joel Dinsdale org. (Washington: Hemisphere Publishing Corporation, 1980), p.342.
7. Milgram, Obedience to Authority, p.142, 146.
8. Milgram, Obedience to Authority, p.11.
9. Milgram, Obedience to Authority, p.104.
10. Milgram, Obedience to Authority, p.133.
11. Milgram, Obedience to Authority, p.107.
12. Milgram, The Individual in a Social World, p.96-7.
13. Ver Craig Haney, Curtis Banks & Philip Zimbardo, “ Interpersonal Dynamics in a Simulated
Prison”, International Journal of Criminology and Penology, vol.I (1973), p.69-97.
14. Ver Amitai A. Etzioni, “ A Model of Significant Research”, International Journal of
Psychiatry, vol.VI (1968), p.279-80.
15. John M. Steiner, “ The SS Yesterday and Today: A Sociopsychological View”, in Survivors,
Victims, and Perpetrators, p.431.
7. PARA UMA TEORIA SOCIOLÓGICA DA MORALIDADE
1. Ver Zygmunt Bauman, Legislators and Interpreters (Oxford: Polity Press, 1987), caps. 3, 4.
2. Em várias interpretações e elaborações de temas de Durkheim tem sido amplamente aceito que o
paradigma da “ produção social da moralidade” não se aplica à Sociedade com S maiúsculo, isto é, aquela que indica a sociedade nação-Estado plenamente equipada. Dentro dessa “ grande sociedade”, é reconhecida a presença de mais de um sistema moral com autoridade; alguns podem até ser contrários à natureza do sistema moral promovido pelas instituições da “ grande sociedade” . Para o nosso problema, no entanto, o ponto relevante não é o monismo ou pluralismo moral ou a “ grande sociedade”, mas o fato de que na perspectiva de Durkheim qualquer norma moral impositiva, por minúscula que seja na sua aplicação, tem que ter uma origem social e ser imposta por sanções coercitivas socialmente operantes. Nessa perspectiva, a imoralidade é sempre, por definição, antissocial (ou, ao contrário, o antissocial é por definição amoral); com efeito, a linguagem de Durkheim não permite a formulação de outra origem para o comportamento moral que não a social. A alternativa à conduta socialmente regulada é a produzida por impulsos animais, não humanos.
3. Richard L. Rubenstein, The Cunning of History (Nova York: Harper, 1978), p.91.
4. Richard L. Rubenstein & John Roth, Approaches to Auschwitz (São Francisco: SCM Press,
1987), p.324.
5. Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil (Nova York: Viking
Press, 1964), p.294-5. A Alemanha perdeu a guerra; então, os assassinatos cometidos na direção do país foram definidos como crimes e violações das regras morais que transcendem a autoridade do poder estatal. A União Soviética estava entre os vitoriosos; então, os assassinatos sancionados por seus governantes, embora bem menos odiosos que os alemães, ainda esperam tratamento similar — e isso apesar do árduo trabalho preliminar realizado de forma cada vez mais completa pela era da glasnost. Embora só uns poucos dos terríveis mistérios do genocídio stalinista tenham sido revelados, sabemos agora que os assassinatos em massa na URSS não foram menos sistemáticos e metódicos que os praticados mais tarde pelos alemães e que as técnicas usadas pelos Einsatzgruppen foram tentadas primeiro em escala maciça pela formidável burocracia da NKVD. Em 1988, por exemplo, um semanário bielo-russo, Literatura i Mastactva, publicou as descobertas de Z. Pozniak e J. Shmygaliev (“ Kuropaty — A estrada da morte”, posteriormente republicado pela Sovietskaya Estonia e pela Moskovskiye Novosti) sobre as sepulturas coletivas encontradas ao redor de todas as grandes cidades da Bielorrússia, repletas em 1937-40 com centenas de milhares de cadáveres, todos com buracos de bala na nuca ou no crânio. Junto com os “ inimigos do povo” de cada lugar, jaziam nessas fossas comuns cidadãos poloneses deportados dos territórios orientais da Polônia recém-anexados. “ A maioria dos objetos encontrados na fossa Nº 5 deve ter pertencido à intelligentsia. Entre eles havia artigos de toucador, óculos, monóculos e remédios em grande quantidade, além de calçados de boa qualidade, muitos feitos sob medida, sapatos femininos da moda e luvas elegantes. A julgar pelo inventário dos objetos encontrados e pelo fato de que em muitos casos estavam cuidadosamente embrulhados (e por outras evidências — como a presença de provisões alimentares e valises), pode-se concluir que as vítimas deixaram seus lares pouco antes de serem mortas e não foram mantidas prisioneiras em preparação para os assassinatos. É possível supor que foram ‘liquidadas’ (segundo a expressão corrente) sem julgamento.” (Citado por um informe polonês, “ Strzelano w tyl glowy”, Konfrontacje, novembro de 1988, p.19). Por tudo o que sabemos, as descobertas dos dois dinâmicos jornalistas são apenas a ponta proverbial de um iceberg.
6. Alfred Schutz, “ Sartre’s Theory of the Alter Ego”, in Collected Papers, vol.I (Haia: Martinus
Nijhoff, 1967), p.189.
7. Emmanuel Levinas, Ethics and Infinity: Conversations with Philippe Nemo, trad. Richard A.
Cohen (Pittsburgh: Duquesne University Press, 1982), p.95-101.
8. Hans Mommsen, “ Anti-Jewish Politics and the Interpretation of the Holocaust”, in The
Challenge of the Third Reich: The Adam von Trott Memorial Lectures, Hedley Bull org. (Oxford: Clarendon Press, 1986), p.117.
9. Arendt, Eichmann in Jerusalem, p.106.
10. Martin Broszat, “ The Third Reich and the German People”, in The Challenge of the Third
Reich, p.90.
11. Ver Karl A. Schleunes, The Twisted Road to Auschwitz: Nazi Policy Toward German Jews
1933-39 (University of Illinois Press, 1970), p.80-8.
12. Ver Ian Kershaw, Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich (Oxford:
Clarendon Press, 1983).
13. Dennis E. Showalter, Little Man, What Now? (Nova York: Archon Books, 1982), p.85.
14. Citado por Joachim C. Fest, The Face of the Third Reich (Harmondsworth: Penguin Books,
1985), p.177.
15. Kershaw, Popular Opinion and Political Dissent, p.275, 371-2.
16. Kershaw, Popular Opinion and Political Dissent, p.370.
17. Mommsen, “ Anti-Jewish Politics”, p.128.
18. Raul Hilberg, The Destruction of the European Jews, vol.III (Nova York: Holmes & Meier,
1987), p.999.
19. Ver Helen Fein, Accounting for Genocide: National Response and Jewish Victimization during
the Holocaust (Nova York: Free Press, 1979).
20. Mommsen, “ Anti-Jewish Politics”, p.136.
21. Mommsen, “ Anti-Jewish Politics”, p.140.
22. Philip Caputo, A Rumour of War (Nova York: Holt, Rinehart & Winston, 1977), p.229.
23. John Lachs, Responsability and the Individual in Modern Society (Brighton: Harvester, 1981),
p.12, 13, 57-8.
24. Christopher R. Browning, Fateful Months: Essays on the Emergence of the Final Solution
(Nova York: Holmes & Meier, 1985), p.66-7.
25. Christopher R. Browning, “ The Government Experts”, in The Holocaust: Ideology,
Bureaucracy, and Genocide, Harry Friedlander e Sybil Milton, orgs. (Millwood, NY: Kraus International Publications, 1980), p.190.
26. Browning, Fateful Months, p.64-5.
27. Nas suas conversações com Charbonnier, Claude Lévi-Strauss definiu nossa moderna
civilização como antropoêmica, por oposição às antropofágicas culturas “ primitivas”; estas “ devoram” seus adversários, enquanto nós os “ vomitamos” (separamos, segregamos, expurgamos, excluímos do nosso universo de obrigações humanas).
28. A atribuição pelo mito legitimador da Civilização Ocidental de todos os impulsos naturais (isto
é, pré-sociais) — e, portanto, da “ responsabilidade pelo outro” em condições de proximidade — à categoria de “ instintos animais” e pela mentalidade burocrática à categoria de forças irracionais é mais do que casualmente reminiscente da difamação de todas as tradições de base local e comunitária durante a cruzada cultural que acompanhou o enraizamento do Estado moderno e a promoção de suas pretensões universalistas e absolutistas. Ver Zygmunt Bauman, Legislators and Interpreters (Oxford: Polity Press, 1987), cap.4.
29. Raul Hilberg, “ The Significance of the Holocaust”, in The Holocaust: Ideology, Bureaucracy,
and Genocide, p.98, 99.
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