Modernidade e Holocausto
Da heterofobia ao racismo
arma inteiramente nova usada na condução de batalhas pré-modernas ou
pelo menos não exclusivamente modernas.
Da heterofobia ao racismo
De maneira bastante comum (mas errônea), o racismo é encarado como
uma modalidade de ressentimento e preconceito entre grupos. Às vezes o
racismo é isolado, por sua intensidade emotiva, de outros sentimentos ou
crenças de categoria mais geral; outras vezes, é isolado por referência a
atributos hereditários, biológicos e extraculturais que ele, ao contrário de
variantes não racistas de animosidade grupal, normalmente contém. Em
alguns casos, pessoas que escrevem sobre racismo assinalam as pretensões
científicas que outros estereótipos não racistas mas similarmente negativos
de grupos estrangeiros geralmente não possuem. Seja qual for a
característica escolhida, porém, o hábito de analisar e interpretar o racismo
no quadro de uma categoria mais ampla de preconceito raramente é
rompido.
À medida que o racismo ganha destaque entre as formas
contemporâneas de ressentimento intergrupal, sendo a única dentre elas a
manifestar acentuada afinidade com o espírito científico da época, uma
tendência interpretativa inversa torna-se ainda mais saliente: a de estender a
noção de racismo de modo a abarcar todas as modalidades de
ressentimento. Todos os tipos de preconceito grupal são então interpretados
como outras tantas expressões de predisposições racistas inatas, naturais.
Pode-se provavelmente não ficar muito perturbado com essa troca de
posições, vendo-a filosoficamente apenas como uma questão de definições,
que podem afinal ser escolhidas ou rejeitadas à vontade. Num exame mais
detido, no entanto, a complacência parece imprudente. Com efeito, se toda
antipatia e toda animosidade intergrupais são formas de racismo e se a
tendência de manter os estrangeiros à distância e abominar sua proximidade
foi amplamente documentada pela pesquisa histórica e etnológica como
atributo praticamente constante e universal dos agrupamentos humanos,
então não há nada essencial e radicalmente novo no racismo que adquiriu
tamanha importância em nossa época: trata-se apenas de uma reencenação
da mesma peça, montada embora, admite-se, com diálogos um tanto atualizados. Em especial, a ligação íntima do racismo com outros aspectos
da vida moderna é sumariamente negada ou desfocada.
No seu recente estudo sobre o preconceito1, de impressionante erudição,
Pierre-André Taguieff trata o racismo como sinônimo de heterofobia
(ressentimento da diferença). Ambos ocorrem, afirma, “em três níveis” ou
em três formas distintas, segundo o nível crescente de sofisticação. O
“racismo primário” é, a seu ver, universal. É uma reação natural à presença
de um estranho desconhecido, a qualquer forma estrangeira e intrigante de
vida humana. Invariavelmente, a primeira resposta à estranheza é a
antipatia, que o mais das vezes leva à agressividade. A universalidade anda
de mãos dadas com a espontaneidade. O racismo primário não precisa de
inspiração ou instigação; nem de uma teoria para legitimar o ódio elementar
— embora possa eventual e deliberadamente ser estimulado e utilizado
como instrumento de mobilização política.2 Em tais circunstâncias ele pode
ser elevado a um nível mais complexo e se transformar num racismo
“secundário” (ou racionalizado). Essa transformação ocorre quando se
fornece (e se introjeta) uma teoria que cria bases lógicas para o
ressentimento. O Outro repelido é representado de má vontade ou
“objetivamente” como perigoso — em ambos os casos, uma ameaça ao
bem-estar do grupo ressentido. Por exemplo, a categoria repelida pode ser
pintada como conspirando com as forças do mal na forma construída pela
religião do grupo ressentido ou retratada como um concorrente econômico
inescrupuloso; a escolha do campo semântico em que se teoriza a
“periculosidade” do Outro repelido é presumivelmente ditada pelo enfoque
de momento na relevância, conflitos e divisões sociais. A xenofobia ou,
mais particularmente, o etnocentrismo (ambos surgidos na época do
nacionalismo desenfreado, quando uma das linhas de divisão com defesa
mais cerrada era traçada em termos de história, tradição e cultura comuns) é
um caso bem corriqueiro de “racismo secundário” contemporâneo.
Finalmente, o racismo “terciário” ou mistificador, que pressupõe os outros
dois níveis “inferiores”, distingue-se pela utilização de argumentos quase
biológicos.
Da forma como foi construída e interpretada por Taguieff, a
classificação tripartite parece logicamente falha; se o racismo secundário já
é caracterizado pela teorização do ressentimento primário, parece não haver
uma boa razão para destacar apenas uma das muitas ideologias possíveis
que podem ser (e são) utilizadas para esse fim como características de um racismo de “alto nível”. O racismo de terceiro nível parece muito uma
unidade do grupo secundário. Talvez Taguieff pudesse defender sua
classificação dessa acusação se, em vez de destacar teorias biológicas em
função de sua natureza supostamente “mistificadora” (pode-se argumentar
interminavelmente sobre o grau de mistificação de todas as demais teorias
racistas secundárias), assinalasse a tendência do argumento biológico a
enfatizar o caráter irreversível e incurável da prejudicial “alteridade” do
Outro. Poder-se-ia com efeito assinalar que — em nossa época de
artificialidade da ordem social, de suposta onipotência da educação e, de
modo mais amplo, de planejamento social — a biologia em geral e a
hereditariedade em particular representam para a opinião pública uma área
ainda infensa à manipulação cultural, algo com que ainda não sabemos
como lidar e como moldar e remodelar à nossa vontade. Taguieff, no
entanto, insiste que a moderna forma biológico-científica de racismo não
parece “diferente, em natureza, operação e função, dos tradicionais
discursos de exclusão por desqualificação” 3, concentrando-se em vez disso
no grau de “paranóia delirante” ou extremo “especulativismo” como
características específicas do “racismo terciário”.
Sugiro, ao contrário, que são precisamente a natureza, a função e o
modo de operação do racismo que diferem marcadamente da heterofobia
— esse difuso desconforto, embaraço ou ansiedade (sentimentais, mais que
práticos) que as pessoas sentem normalmente sempre que são confrontadas
com “ingredientes humanos” de sua situação que não compreendem
plenamente, com os quais não se relacionam de maneira fácil e não podem
esperar que se comportem de modo corriqueiro, familiar. A heterofobia
parece ser uma manifestação concentrada de um fenômeno de ansiedade
ainda mais amplo despertado pela sensação de que a pessoa não tem
controle da situação e assim não pode nem influenciar seu desdobramento
nem prever as consequências dos próprios atos. A heterofobia pode parecer
uma objetivação realista ou irreal dessa ansiedade — mas é provável que a
ansiedade em questão busque sempre um objeto para ancorar e que, por
conseguinte, a heterofobia seja um fenômeno bastante comum em todas as
épocas e mais comum ainda na era da modernidade, quando se tornaram
mais frequentes as ocasiões para a sensação de “descontrole” e mais
plausível sua interpretação como interferência de um grupo humano intruso.
Proponho também que, assim definida, a heterofobia deve ser
analiticamente diferenciada da inimizade competitiva, antagonismo mais específico gerado pelas práticas humanas de busca da identidade e
estabelecimento de limites. No último caso, os sentimentos de antipatia e
ressentimento parecem mais apêndices emocionais da atividade de
separação; separação que por si mesma requer uma atividade, um esforço,
uma ação continuada. O alienígena do primeiro caso, no entanto, não é
meramente uma categoria de pessoa cuja proximidade incomoda apesar de
sua clara separação e de ser fácil de localizar e manter à necessária
distância, mas um tipo de gente cuja “coletividade” não é óbvia, de
reconhecimento geral, podendo mesmo ser contestada e muitas vezes
escondida ou negada pelos membros do grupo estranho. O forasteiro, neste
caso, ameaça penetrar o grupo nativo e fundir-se com ele — se medidas
preventivas não forem tomadas e rigorosamente observadas. O elemento
estranho, portanto, ameaça a unidade e a identidade do grupo nativo, não
tanto por confundir o seu controle sobre um território ou sua liberdade de
ação pelos padrões conhecidos, mas por borrar a fronteira do próprio
território e apagar a diferença entre o modo de vida familiar (certo) e o
modo de vida estranho (errado). Este é o caso do “inimigo em nosso meio”
— que desencadeia um vivo alvoroço para traçar limites, o que por sua vez
gera uma pesada precipitação radioativa de antagonismo e ódio àqueles
considerados culpados ou suspeitos de jogo duplo, de ficar em cima do
muro.
O racismo difere tanto da heterofobia quando da inimizade competitiva.
A diferença não está nem na intensidade de sentimentos nem no tipo de
argumento usado para racionalizá-la. O racismo destaca-se por um costume
de que é parte integrante e que racionaliza: costume que combina
estratégias de arquitetura e jardinagem com a da medicina a serviço da
construção de uma ordem social artificial, pelo corte de elementos da
realidade presente que nem se adequam à realidade perfeita visada nem
podem ser mudados para que se adequem. Num mundo que se gaba de uma
capacidade sem precedentes de melhorar as condições humanas com a
reorganização das atividades em bases racionais, o racismo expressa a
convicção de que certa categoria de seres humanos não pode ser
incorporada à ordem racional, seja qual for o esforço que se faça. Num
mundo que se notabiliza pela contínua redução dos limites à manipulação
científica, tecnológica e cultural, o racismo proclama que certas falhas de
determinada categoria de pessoas não podem ser removidas ou retificadas
— que elas estão para além das fronteiras das práticas reformatórias e assim permanecerão para sempre. Num mundo que proclama a formidável