Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 17 de 52

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Modernidade e Holocausto

Da heterofobia ao racismo

arma inteiramente nova usada na condução de batalhas pré-modernas ou

pelo menos não exclusivamente modernas.

 

Da heterofobia ao racismo

 

De maneira bastante comum (mas errônea), o racismo é encarado como

uma modalidade de ressentimento e preconceito entre grupos. Às vezes o

racismo é isolado, por sua intensidade emotiva, de outros sentimentos ou

crenças de categoria mais geral; outras vezes, é isolado por referência a

atributos hereditários, biológicos e extraculturais que ele, ao contrário de

variantes não racistas de animosidade grupal, normalmente contém. Em

alguns casos, pessoas que escrevem sobre racismo assinalam as pretensões

científicas que outros estereótipos não racistas mas similarmente negativos

de grupos estrangeiros geralmente não possuem. Seja qual for a

característica escolhida, porém, o hábito de analisar e interpretar o racismo

no quadro de uma categoria mais ampla de preconceito raramente é

rompido.

À medida que o racismo ganha destaque entre as formas

contemporâneas de ressentimento intergrupal, sendo a única dentre elas a

manifestar acentuada afinidade com o espírito científico da época, uma

tendência interpretativa inversa torna-se ainda mais saliente: a de estender a

noção de racismo de modo a abarcar todas as modalidades de

ressentimento. Todos os tipos de preconceito grupal são então interpretados

como outras tantas expressões de predisposições racistas inatas, naturais.

Pode-se provavelmente não ficar muito perturbado com essa troca de

posições, vendo-a filosoficamente apenas como uma questão de definições,

que podem afinal ser escolhidas ou rejeitadas à vontade. Num exame mais

detido, no entanto, a complacência parece imprudente. Com efeito, se toda

antipatia e toda animosidade intergrupais são formas de racismo e se a

tendência de manter os estrangeiros à distância e abominar sua proximidade

foi amplamente documentada pela pesquisa histórica e etnológica como

atributo praticamente constante e universal dos agrupamentos humanos,

então não há nada essencial e radicalmente novo no racismo que adquiriu

tamanha importância em nossa época: trata-se apenas de uma reencenação

da mesma peça, montada embora, admite-se, com diálogos um tanto atualizados. Em especial, a ligação íntima do racismo com outros aspectos

da vida moderna é sumariamente negada ou desfocada.

No seu recente estudo sobre o preconceito1, de impressionante erudição,

Pierre-André Taguieff trata o racismo como sinônimo de heterofobia

(ressentimento da diferença). Ambos ocorrem, afirma, “em três níveis” ou

em três formas distintas, segundo o nível crescente de sofisticação. O

“racismo primário” é, a seu ver, universal. É uma reação natural à presença

de um estranho desconhecido, a qualquer forma estrangeira e intrigante de

vida humana. Invariavelmente, a primeira resposta à estranheza é a

antipatia, que o mais das vezes leva à agressividade. A universalidade anda

de mãos dadas com a espontaneidade. O racismo primário não precisa de

inspiração ou instigação; nem de uma teoria para legitimar o ódio elementar

— embora possa eventual e deliberadamente ser estimulado e utilizado

como instrumento de mobilização política.2 Em tais circunstâncias ele pode

ser elevado a um nível mais complexo e se transformar num racismo

“secundário” (ou racionalizado). Essa transformação ocorre quando se

fornece (e se introjeta) uma teoria que cria bases lógicas para o

ressentimento. O Outro repelido é representado de má vontade ou

“objetivamente” como perigoso — em ambos os casos, uma ameaça ao

bem-estar do grupo ressentido. Por exemplo, a categoria repelida pode ser

pintada como conspirando com as forças do mal na forma construída pela

religião do grupo ressentido ou retratada como um concorrente econômico

inescrupuloso; a escolha do campo semântico em que se teoriza a

“periculosidade” do Outro repelido é presumivelmente ditada pelo enfoque

de momento na relevância, conflitos e divisões sociais. A xenofobia ou,

mais particularmente, o etnocentrismo (ambos surgidos na época do

nacionalismo desenfreado, quando uma das linhas de divisão com defesa

mais cerrada era traçada em termos de história, tradição e cultura comuns) é

um caso bem corriqueiro de “racismo secundário” contemporâneo.

Finalmente, o racismo “terciário” ou mistificador, que pressupõe os outros

dois níveis “inferiores”, distingue-se pela utilização de argumentos quase

biológicos.

Da forma como foi construída e interpretada por Taguieff, a

classificação tripartite parece logicamente falha; se o racismo secundário já

é caracterizado pela teorização do ressentimento primário, parece não haver

uma boa razão para destacar apenas uma das muitas ideologias possíveis

que podem ser (e são) utilizadas para esse fim como características de um racismo de “alto nível”. O racismo de terceiro nível parece muito uma

unidade do grupo secundário. Talvez Taguieff pudesse defender sua

classificação dessa acusação se, em vez de destacar teorias biológicas em

função de sua natureza supostamente “mistificadora” (pode-se argumentar

interminavelmente sobre o grau de mistificação de todas as demais teorias

racistas secundárias), assinalasse a tendência do argumento biológico a

enfatizar o caráter irreversível e incurável da prejudicial “alteridade” do

Outro. Poder-se-ia com efeito assinalar que — em nossa época de

artificialidade da ordem social, de suposta onipotência da educação e, de

modo mais amplo, de planejamento social — a biologia em geral e a

hereditariedade em particular representam para a opinião pública uma área

ainda infensa à manipulação cultural, algo com que ainda não sabemos

como lidar e como moldar e remodelar à nossa vontade. Taguieff, no

entanto, insiste que a moderna forma biológico-científica de racismo não

parece “diferente, em natureza, operação e função, dos tradicionais

discursos de exclusão por desqualificação” 3, concentrando-se em vez disso

no grau de “paranóia delirante” ou extremo “especulativismo” como

características específicas do “racismo terciário”.

Sugiro, ao contrário, que são precisamente a natureza, a função e o

modo de operação do racismo que diferem marcadamente da heterofobia

— esse difuso desconforto, embaraço ou ansiedade (sentimentais, mais que

práticos) que as pessoas sentem normalmente sempre que são confrontadas

com “ingredientes humanos” de sua situação que não compreendem

plenamente, com os quais não se relacionam de maneira fácil e não podem

esperar que se comportem de modo corriqueiro, familiar. A heterofobia

parece ser uma manifestação concentrada de um fenômeno de ansiedade

ainda mais amplo despertado pela sensação de que a pessoa não tem

controle da situação e assim não pode nem influenciar seu desdobramento

nem prever as consequências dos próprios atos. A heterofobia pode parecer

uma objetivação realista ou irreal dessa ansiedade — mas é provável que a

ansiedade em questão busque sempre um objeto para ancorar e que, por

conseguinte, a heterofobia seja um fenômeno bastante comum em todas as

épocas e mais comum ainda na era da modernidade, quando se tornaram

mais frequentes as ocasiões para a sensação de “descontrole” e mais

plausível sua interpretação como interferência de um grupo humano intruso.

Proponho também que, assim definida, a heterofobia deve ser

analiticamente diferenciada da inimizade competitiva, antagonismo mais específico gerado pelas práticas humanas de busca da identidade e

estabelecimento de limites. No último caso, os sentimentos de antipatia e

ressentimento parecem mais apêndices emocionais da atividade de

separação; separação que por si mesma requer uma atividade, um esforço,

uma ação continuada. O alienígena do primeiro caso, no entanto, não é

meramente uma categoria de pessoa cuja proximidade incomoda apesar de

sua clara separação e de ser fácil de localizar e manter à necessária

distância, mas um tipo de gente cuja “coletividade” não é óbvia, de

reconhecimento geral, podendo mesmo ser contestada e muitas vezes

escondida ou negada pelos membros do grupo estranho. O forasteiro, neste

caso, ameaça penetrar o grupo nativo e fundir-se com ele — se medidas

preventivas não forem tomadas e rigorosamente observadas. O elemento

estranho, portanto, ameaça a unidade e a identidade do grupo nativo, não

tanto por confundir o seu controle sobre um território ou sua liberdade de

ação pelos padrões conhecidos, mas por borrar a fronteira do próprio

território e apagar a diferença entre o modo de vida familiar (certo) e o

modo de vida estranho (errado). Este é o caso do “inimigo em nosso meio”

— que desencadeia um vivo alvoroço para traçar limites, o que por sua vez

gera uma pesada precipitação radioativa de antagonismo e ódio àqueles

considerados culpados ou suspeitos de jogo duplo, de ficar em cima do

muro.

O racismo difere tanto da heterofobia quando da inimizade competitiva.

A diferença não está nem na intensidade de sentimentos nem no tipo de

argumento usado para racionalizá-la. O racismo destaca-se por um costume

de que é parte integrante e que racionaliza: costume que combina

estratégias de arquitetura e jardinagem com a da medicina a serviço da

construção de uma ordem social artificial, pelo corte de elementos da

realidade presente que nem se adequam à realidade perfeita visada nem

podem ser mudados para que se adequem. Num mundo que se gaba de uma

capacidade sem precedentes de melhorar as condições humanas com a

reorganização das atividades em bases racionais, o racismo expressa a

convicção de que certa categoria de seres humanos não pode ser

incorporada à ordem racional, seja qual for o esforço que se faça. Num

mundo que se notabiliza pela contínua redução dos limites à manipulação

científica, tecnológica e cultural, o racismo proclama que certas falhas de

determinada categoria de pessoas não podem ser removidas ou retificadas

— que elas estão para além das fronteiras das práticas reformatórias e assim permanecerão para sempre. Num mundo que proclama a formidável