Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 42 de 52

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Modernidade e Holocausto

A natureza social do mal

 

A maioria das conclusões decorrentes das experiências de Milgram pode ser

vista como variações de um tema central: a crueldade relaciona-se a certos

padrões de interação social de maneira muito mais íntima que às

características de personalidade ou outras idiossincrasias individuais dos

seus executores. A crueldade é social na origem, muito mais que fruto do

caráter. Sem dúvida alguns indivíduos tendem a ser cruéis se colocados

num contexto que enfraquece as pressões morais e legitima a

desumanidade.

Se restou alguma dúvida a esse respeito depois de Milgram,

provavelmente vai sumir após um exame detido das descobertas de outra

experiência, esta de Philip Zimbardo.13 A partir dessa experiência, mesmo o

fator potencialmente perturbador da autoridade de uma instituição

universalmente reverenciada (a ciência), incorporada na pessoa do

pesquisador, foi eliminado. Na experiência de Zimbardo não havia nenhuma

autoridade estabelecida externa pronta a tirar a responsabilidade dos ombros

do sujeito da pesquisa. Toda autoridade que em última análise operou no

seu contexto experimental foi gerada pelos próprios sujeitos. A única coisa

que Zimbardo fez foi desencadear o processo ao dividir os sujeitos em

posições dentro de um padrão codificado de interação.

Na experiência de Zimbardo (planejada para durar quinze dias, mas

interrompida após uma semana por medo de dano irreparável ao corpo e à

mente dos sujeitos), os voluntários foram divididos ao acaso em

prisioneiros e guardas de prisão. Ambos os lados receberam os atavios

simbólicos de sua posição. Os prisioneiros, por exemplo, usavam bonés

apertados que simulavam cabeças raspadas e luvas que lhes davam uma

aparência ridícula. Os guardas usavam uniformes e óculos escuros que

impediam os prisioneiros de olhar dentro dos seus olhos. Nenhum dos lados

podia dirigir-se ao outro por nomes individuais, a regra era uma estrita

impessoalidade. Havia uma longa lista de pequenas regras invariavelmente

humilhantes para os prisioneiros, que os privavam de toda dignidade

humana. Esse foi o ponto de partida. O que seguiu ultrapassou e deixou

bem para trás o engenho dos planejadores. A iniciativa do guardas (jovens

do sexo masculino e idade universitária escolhidos ao acaso, peneirados

cuidadosamente para evitar qualquer sinal de anormalidade) não conheceu

limites. Uma autêntica “cadeia cismogenética”, hipótese outrora formulada por Gregory Bateson, pôs-se em movimento. A construída superioridade

dos guardas redundou na submissão dos prisioneiros, o que por sua vez

tentava os guardas a exibir mais o seu poder, o que então se refletia, como

era de esperar, em mais auto-humilhação dos prisioneiros… Os guardas

forçavam os prisioneiros a cantar canções obscenas, a defecar em baldes

que não permitiam fossem esvaziados, a limpar privadas com as mãos nuas;

e, quanto mais faziam isso, mais agiam como se estivessem convencidos da

natureza não humana dos prisioneiros e menos se sentiam constrangidos em

inventar e administrar medidas de um grau ainda mais estarrecedor de

desumanidade.

A súbita transfiguração de simpáticos e decentes rapazes americanos em

quase monstros do tipo supostamente encontrado apenas em lugares como

Auschwitz ou Treblinka foi terrível. Mas também desconcertante. Isso

levou alguns observadores a supor que na maioria das pessoas, se não em

todas, vive um pequeno SS esperando para vir à tona (Amitai Erzioni

sugeriu que Milgram teria descoberto o “Eichmann latente” escondido no

homem comum).14 John Steiner cunhou o conceito de efeito adormecido

para denotar a capacidade normalmente apagada mas por vezes despertada

de ser cruel.

 

O efeito adormecido refere-se à característica latente de personalidade de indivíduos propensos

à violência, tais como autocratas, tiranos ou terroristas, quando as adequadas relações se

estabelecem sob sete chaves. O adormecido é então despertado do estágio normativo de seu

padrão de comportamento e as características inativas da personalidade propensa à violência

são ativadas. De alguma forma, todas as pessoas estão adormecidas, na medida em que

possuem um potencial violento que pode ser desencadeado sob condições específicas. 15

 

E no entanto a orgia de crueldade que surpreendeu Zimbardo e colegas

resultou, clara e inequivocamente, de um vicioso arranjo social e não do

vício dos participantes. Se os sujeitos da experiência recebessem os papéis

opostos, trocados, o resultado final não seria diferente. O que importava era

a existência de uma polaridade e não quem se situava nos seus respectivos

pólos. O que importava mesmo era que algumas pessoas receberam um

poder total, exclusivo e imoderado sobre algumas outras. Se há um fator

adormecido em cada um de nós, pode continuar assim para sempre se tal

situação não ocorrer. Nesse caso jamais saberíamos da sua existência.

O ponto mais pungente, parece, é a facilidade com que a maioria das

pessoas se encaixa no papel que requer crueldade ou pelo menos cegueira

moral — bastando que esse papel tenha sido devidamente fortalecido e legitimado por uma autoridade superior. Devido à surpreendente frequência

com que ocorre esse “encaixe no papel” em todas as experiências

conhecidas, o conceito de efeito adormecido parece não ser mais que uma

muleta metafísica. Realmente não precisamos dele para explicar a

conversão em massa à crueldade. O conceito, no entanto, aplica-se com

propriedade àqueles casos relativamente raros em que indivíduos

encontraram força e coragem para resistir ao comando da autoridade e se

recusar a executá-lo por acharem que é contrário a suas próprias

convicções. Algumas pessoas comuns, normalmente cumpridoras da lei,

despretensiosas, nada rebeldes nem aventureiras, resistiram àqueles no

poder e, sem pensar nas consequências, deram prioridade à sua própria

consciência — bem parecidas com aquelas poucas pessoas, esparsas, agindo

sozinhas, que desafiaram o poder onipotente e inescrupuloso e arriscaram as

próprias vidas para tentar salvar as vítimas do Holocausto. Seria vão

procurar os “determinantes” sociais, políticos ou religiosos de sua

singularidade. Sua consciência moral, adormecida na ausência de uma

oportunidade para a militância mas então despertada, era realmente seu

único bem e atributo pessoal — ao contrário da imoralidade, que tinha que

ser socialmente produzida.

Sua capacidade para resistir ao mal foi um elemento “adormecido” a

maior parte de suas vidas. Poderia ter permanecido assim para sempre, caso

em que não saberíamos de sua existência. Mas essa ignorância seria uma

boa notícia.

 

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