Modernidade e Holocausto
A natureza social do mal
A maioria das conclusões decorrentes das experiências de Milgram pode ser
vista como variações de um tema central: a crueldade relaciona-se a certos
padrões de interação social de maneira muito mais íntima que às
características de personalidade ou outras idiossincrasias individuais dos
seus executores. A crueldade é social na origem, muito mais que fruto do
caráter. Sem dúvida alguns indivíduos tendem a ser cruéis se colocados
num contexto que enfraquece as pressões morais e legitima a
desumanidade.
Se restou alguma dúvida a esse respeito depois de Milgram,
provavelmente vai sumir após um exame detido das descobertas de outra
experiência, esta de Philip Zimbardo.13 A partir dessa experiência, mesmo o
fator potencialmente perturbador da autoridade de uma instituição
universalmente reverenciada (a ciência), incorporada na pessoa do
pesquisador, foi eliminado. Na experiência de Zimbardo não havia nenhuma
autoridade estabelecida externa pronta a tirar a responsabilidade dos ombros
do sujeito da pesquisa. Toda autoridade que em última análise operou no
seu contexto experimental foi gerada pelos próprios sujeitos. A única coisa
que Zimbardo fez foi desencadear o processo ao dividir os sujeitos em
posições dentro de um padrão codificado de interação.
Na experiência de Zimbardo (planejada para durar quinze dias, mas
interrompida após uma semana por medo de dano irreparável ao corpo e à
mente dos sujeitos), os voluntários foram divididos ao acaso em
prisioneiros e guardas de prisão. Ambos os lados receberam os atavios
simbólicos de sua posição. Os prisioneiros, por exemplo, usavam bonés
apertados que simulavam cabeças raspadas e luvas que lhes davam uma
aparência ridícula. Os guardas usavam uniformes e óculos escuros que
impediam os prisioneiros de olhar dentro dos seus olhos. Nenhum dos lados
podia dirigir-se ao outro por nomes individuais, a regra era uma estrita
impessoalidade. Havia uma longa lista de pequenas regras invariavelmente
humilhantes para os prisioneiros, que os privavam de toda dignidade
humana. Esse foi o ponto de partida. O que seguiu ultrapassou e deixou
bem para trás o engenho dos planejadores. A iniciativa do guardas (jovens
do sexo masculino e idade universitária escolhidos ao acaso, peneirados
cuidadosamente para evitar qualquer sinal de anormalidade) não conheceu
limites. Uma autêntica “cadeia cismogenética”, hipótese outrora formulada por Gregory Bateson, pôs-se em movimento. A construída superioridade
dos guardas redundou na submissão dos prisioneiros, o que por sua vez
tentava os guardas a exibir mais o seu poder, o que então se refletia, como
era de esperar, em mais auto-humilhação dos prisioneiros… Os guardas
forçavam os prisioneiros a cantar canções obscenas, a defecar em baldes
que não permitiam fossem esvaziados, a limpar privadas com as mãos nuas;
e, quanto mais faziam isso, mais agiam como se estivessem convencidos da
natureza não humana dos prisioneiros e menos se sentiam constrangidos em
inventar e administrar medidas de um grau ainda mais estarrecedor de
desumanidade.
A súbita transfiguração de simpáticos e decentes rapazes americanos em
quase monstros do tipo supostamente encontrado apenas em lugares como
Auschwitz ou Treblinka foi terrível. Mas também desconcertante. Isso
levou alguns observadores a supor que na maioria das pessoas, se não em
todas, vive um pequeno SS esperando para vir à tona (Amitai Erzioni
sugeriu que Milgram teria descoberto o “Eichmann latente” escondido no
homem comum).14 John Steiner cunhou o conceito de efeito adormecido
para denotar a capacidade normalmente apagada mas por vezes despertada
de ser cruel.
O efeito adormecido refere-se à característica latente de personalidade de indivíduos propensos
à violência, tais como autocratas, tiranos ou terroristas, quando as adequadas relações se
estabelecem sob sete chaves. O adormecido é então despertado do estágio normativo de seu
padrão de comportamento e as características inativas da personalidade propensa à violência
são ativadas. De alguma forma, todas as pessoas estão adormecidas, na medida em que
possuem um potencial violento que pode ser desencadeado sob condições específicas. 15
E no entanto a orgia de crueldade que surpreendeu Zimbardo e colegas
resultou, clara e inequivocamente, de um vicioso arranjo social e não do
vício dos participantes. Se os sujeitos da experiência recebessem os papéis
opostos, trocados, o resultado final não seria diferente. O que importava era
a existência de uma polaridade e não quem se situava nos seus respectivos
pólos. O que importava mesmo era que algumas pessoas receberam um
poder total, exclusivo e imoderado sobre algumas outras. Se há um fator
adormecido em cada um de nós, pode continuar assim para sempre se tal
situação não ocorrer. Nesse caso jamais saberíamos da sua existência.
O ponto mais pungente, parece, é a facilidade com que a maioria das
pessoas se encaixa no papel que requer crueldade ou pelo menos cegueira
moral — bastando que esse papel tenha sido devidamente fortalecido e legitimado por uma autoridade superior. Devido à surpreendente frequência
com que ocorre esse “encaixe no papel” em todas as experiências
conhecidas, o conceito de efeito adormecido parece não ser mais que uma
muleta metafísica. Realmente não precisamos dele para explicar a
conversão em massa à crueldade. O conceito, no entanto, aplica-se com
propriedade àqueles casos relativamente raros em que indivíduos
encontraram força e coragem para resistir ao comando da autoridade e se
recusar a executá-lo por acharem que é contrário a suas próprias
convicções. Algumas pessoas comuns, normalmente cumpridoras da lei,
despretensiosas, nada rebeldes nem aventureiras, resistiram àqueles no
poder e, sem pensar nas consequências, deram prioridade à sua própria
consciência — bem parecidas com aquelas poucas pessoas, esparsas, agindo
sozinhas, que desafiaram o poder onipotente e inescrupuloso e arriscaram as
próprias vidas para tentar salvar as vítimas do Holocausto. Seria vão
procurar os “determinantes” sociais, políticos ou religiosos de sua
singularidade. Sua consciência moral, adormecida na ausência de uma
oportunidade para a militância mas então despertada, era realmente seu
único bem e atributo pessoal — ao contrário da imoralidade, que tinha que
ser socialmente produzida.
Sua capacidade para resistir ao mal foi um elemento “adormecido” a
maior parte de suas vidas. Poderia ter permanecido assim para sempre, caso
em que não saberíamos de sua existência. Mas essa ignorância seria uma
boa notícia.
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