Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 51 de 52

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Modernidade e Holocausto

8. Pós-reflexão: Racionalidade e vergonha

8

 

Pós-reflexão

 

Racionalidade e vergonha

 

Uma história de Sobibor: quatorze internos tentaram escapar. Em questão

de horas foram todos capturados e levados à praça de assembleia do campo

para serem confrontados com os demais prisioneiros. Lá, disseram-lhes:

“Daqui a pouco vocês vão morrer, é claro. Mas, antes, cada um vai escolher

um companheiro para morrer junto.” Eles reagiram: “Nunca!” Ao que

replicou calmamente o comandante: “Se vocês se recusarem, eu mesmo

farei a escolha. Só que, nesse caso, escolherei cinquenta em vez de

quatorze.” Não precisou cumprir a ameaça.

Em Shoah, Lanzmann mostra um sobrevivente que conseguiu fugir de

Treblinka e se lembra que, quando o gás diminuía nos alimentadores das

câmaras, membros do Sonderkommando tinham suas rações de comida

suspensas e, como não eram mais úteis, eram ameaçados de extermínio.

Suas perspectivas de sobrevivência renasciam quando novos grupos

judaicos eram recolhidos e carregados nos trens para Treblinka.

Também no filme de Lanzmann, um antigo integrante de um desses

comandos especiais, hoje barbeiro em Tel-Aviv, conta que, quando raspava

o cabelo das vítimas para a fabricação de colchões alemães, não revelava o

objetivo daquilo e incitava as pessoas a irem mais rápido para o que

supunham ser um banho público.

Na discussão iniciada pelo profundo e comovedor artigo “Poloneses

pobres veem o gueto”, publicado pelo professor Jan Blonski em 1987 nas

páginas do respeitado semanário católico polonês Tygodnik Powszechny,

Jerzy Jastrzebowski lembrou uma história contada por um membro mais

velho de sua família. A família se oferecera para esconder um velho amigo,

um judeu que parecia polaco e falava o polonês elegante de um aristocrata,

mas recusou-se a fazer o mesmo por suas três irmãs, que pareciam judias e falavam com acentuado sotaque judeu. O amigo recusou-se a ser salvo

sozinho. Jastrzebowski comenta:

 

Tivesse sido diferente a decisão da minha família, havia nove chances contra uma de que

seríamos todos fuzilados. [Na Polônia ocupada pelos nazistas, a punição por esconder ou

ajudar judeus era a morte.] A probabilidade de que nosso amigo e suas irmãs sobrevivessem

naquelas condições seriam talvez menores ainda. E, no entanto, a pessoa que me contava esse

drama de família, repetindo “o que a gente podia fazer? Não havia nada que a gente pudesse

fazer!”, não me olhava nos olhos. Ele sabia que eu percebia uma mentira, embora todos os

fatos fossem verdadeiros.

 

Outro que contribuiu para a discussão, Kazimierz Dziewanowski,

escreveu:

 

Se no nosso país, na nossa presença e diante dos nossos olhos, milhões de inocentes foram

mortos, isso é tão terrível, uma tragédia tão imensa que é natural, humano, compreensível que

aqueles que sobreviveram se sintam assombrados e não consigam recuperar a calma… É

impossível provar que se poderia ter feito mais do que foi feito, embora também seja possível

provar que se poderia ter feito mais.

 

Wladyslaw Bartoszewski, que durante a ocupação foi encarregado da

assistência polonesa aos judeus, comentou: “Só pode dizer que fez tudo o

que podia aquele que pagou por isso com a morte.”

De longe a mensagem mais chocante de Lanzmann é a racionalidade do

mal (ou seria o mal da racionalidade?). Hora após hora dessa interminável

agonia que é assistir Shoah, a terrível, humilhante verdade revela-se e

desfila toda a sua obscena nudez: quão poucos homens armados foram

necessários para matar milhões.

Espantoso como estavam amedrontados aqueles homens armados, a que

ponto conscientes da fragilidade do seu domínio sobre o gado humano. Seu

poder assentava-se sobre os condenados que viviam num mundo de faz de

conta, o mundo que eles, os homens armados, definiam e narravam para

suas vítimas. Nesse mundo, a obediência era racional, a racionalidade era a

obediência. A racionalidade compensava — pelo menos por um tempo —

mas naquele mundo não havia outro tempo, mais dilatado. Cada passo no

caminho para a morte era cuidadosamente elaborado de forma a ser

calculável em termos de perdas e lucros, recompensa e castigo. Música e ar

fresco eram a recompensa pela longa, interminável sufocação na viagem

como gado. Um banho completo, com vestiários e barbeiros, toalha e sabão,

era uma saudação libertária para quem abandonava piolhos, sujeira e o

fedor do suor e dos excrementos humanos. Pessoas racionais entram serenas, mansas, alegremente, numa câmara de gás se puderem acreditar

simplesmente que se trata de uma casa de banhos.

Os integrantes do Sonderkommando sabiam que dizer aos banhistas que

a casa de banho era uma câmara de gás era transgressão punível com a

morte imediata. O crime não pareceria tão abominável e a punição não seria

tão dura se as vítimas fossem levadas à morte simplesmente por medo ou

resignação suicida. Mas para fundar sua ordem apenas no medo a SS

precisaria de mais tropas, braços e dinheiro. A racionalidade era mais

eficiente, mais fácil de obter e mais barata. E assim, para destruí-las, os SS

cultivavam cuidadosamente a racionalidade das vítimas.

Entrevistado recentemente na TV britânica, um alto comandante da área

de segurança sul-africana deu com a língua nos dentes: o verdadeiro perigo

da organização negra Congresso Nacional Africano, disse ele, não está nos

atos de sabotagem e terrorismo, por mais espetaculares e custosos, mas em

induzir a população negra ou grande parte dela a desrespeitar “a lei e a

ordem”; se isso acontecesse, mesmo o melhor serviço secreto e as mais

poderosas forças de segurança seriam inúteis (temor justificado

recentemente pela experiência da Intifada). O terror é eficiente enquanto o

balão da racionalidade não é furado. O governante mais sinistro, cruel e

sanguinolento deve ser um firme pregador e defensor da racionalidade —

do contrário, perecerá. Dirigindo-se aos súditos, ele deve “apelar à razão”.

Deve proteger a razão, louvar as virtudes do cálculo dos custos e resultados,

defender a lógica em oposição às paixões e aos valores que irracionalmente

não levam em conta os custos e se recusam a obedecer à lógica.

Em geral, todos os governantes podem confiar que a racionalidade esteja

do seu lado. Mas os governantes nazistas, além do mais, truncaram de tal

forma as regras do jogo que a racionalidade da sobrevivência tornaria

irracionais todos os outros motivos da ação humana. Dentro do mundo

moldado segundo os padrões nazistas, a razão era inimiga da moralidade. A

lógica requeria o apoio ao crime. A defesa racional da própria

sobrevivência apelava a não resistir à destruição dos outros. Tal

racionalidade lançava os sofredores uns contra os outros e obliterava sua

humanidade comum. Também fazia deles uma ameaça e um inimigo para

todos os outros ainda não marcados para morrer e por enquanto desfrutando

do papel de espectadores. Indulgente, o nobre credo da racionalidade

absolvia tanto as vítimas como os espectadores da acusação de imoralidade

e da consciência culpada. Tendo reduzido a vida humana ao cálculo da autopreservação, esta racionalidade roubava à vida humana sua

humanidade.

O regime nazista de há muito desapareceu, mas seu legado venenoso

está longe de morto. Nossa persistente inabilidade para chegar a um acordo

sobre o significado do Holocausto, nossa incapacidade de desmascarar e

desarmar a armadilha homicida, nossa disposição de continuar brincando de

história com os dados viciados da razão que descarta os clamores da

moralidade como irrelevantes ou loucos, nossa submissão à autoridade do

cálculo custos-benefícios como argumento contra os mandamentos éticos

— tudo isso evidencia a corrupção que o Holocausto expôs mas fez pouco,

ao que parece, para desacreditar.

Dois anos da minha tenra infância foram marcados pelas heroicas mas

infrutíferas tentativas do meu avô de me apresentar aos tesouros da

sabedoria bíblica. Talvez ele não fosse um professor muito inspirado, talvez

eu fosse um aluno ingrato e obtuso. O fato é que não me lembro de quase

nada das suas lições. Uma história, contudo, penetrou fundo o meu cérebro

e me perseguiu por muitos anos. Era a história de um santo sábio que

encontrou um mendigo na estrada quando viajava com um jumento

carregado de sacas de comida. O mendigo pediu algo para comer. “Espere”,

disse o sábio, “primeiro tenho que desamarrar os sacos.” Antes, porém, que

terminasse de fazê-lo, a prolongada fome cobrou seu tributo e o mendigo

morreu. Então o sábio começou a rezar: “Castigue-me, Senhor, por não ter

salvo a vida do meu próximo!” O choque que essa história me causou é

praticamente a única coisa que eu lembro das intermináveis homilias do

meu avô. Ela chocava-se com toda a lavagem cerebral a que me submetiam

as professoras naquela época e a que me submetem desde então. A história

chocava-me por ilógica (e com efeito o era) e, portanto, como errada (o que

não era). Foi preciso o Holocausto para me convencer de que a segunda

coisa não decorria necessariamente da primeira.

Mesmo sabendo que não se poderia fazer muito mais do que foi feito

para salvar as vítimas do Holocausto (pelo menos não sem custos adicionais

provavelmente formidáveis), isso não significa que as aflições morais

possam ser postas para descansar. Nem que a vergonha de uma pessoa

moral seja infundada (mesmo que sua irracionalidade em termos de

autopreservação possa ser provada de fato com facilidade). Para esse

sentimento de vergonha — condição indispensável à vitória sobre o lento

veneno que é o pernicioso legado do Holocausto — são irrelevantes os cálculos mais escrupulosos e historicamente acurados do número daqueles

que “poderiam” e daqueles que “não poderiam” ajudar, daqueles que

“poderiam” e daqueles que “não poderiam” ser ajudados.

Mesmo os mais sofisticados métodos quantitativos de investigação dos

“fatos” não nos levariam muito longe em matéria de solução objetiva (isto

é, universalmente irrefutável) para a questão da responsabilidade moral.

Não há método científico para decidir se os vizinhos decentes falharam em

impedir o transporte dos judeus para os campos de concentração porque os

judeus eram passivos e dóceis demais ou se os judeus raramente

conseguiram escapar dos seus perseguidores porque não tinham para onde

fugir, por sentirem a hostilidade ou indiferença do meio. Também não há

métodos científicos para decidir se os residentes prósperos do gueto de

Varsóvia podiam ter feito mais para aliviar a provação dos pobres que

morriam de fome e de frio nas ruas ou se os judeus alemães poderiam ter-se

rebelado contra a deportação dos Ostjuden [judeus do leste] ou se os judeus

com cidadania francesa poderiam ter feito algo para impedir que os “judeus

estrangeiros” fossem encarcerados. Pior ainda, no entanto, é que o cálculo

das possibilidades objetivas e dos custos só obscurece a essência moral do

problema.

A questão não é saber se os que sobreviveram coletivamente —

combatentes que por vezes não podiam ser mais do que espectadores,

espectadores que por vezes só podiam temer se tornar vítimas — deveriam

sentir vergonha ou orgulho de si mesmos. A questão é que somente a

vergonha libertadora pode ajudar a recuperar o significado moral da

terrível experiência histórica e assim ajudar a exorcizar o espectro do

Holocausto, que até hoje assombra a consciência humana e nos faz

negligenciar a vigilância no presente em prol de vivermos em paz com o

passado. A opção não é entre vergonha e orgulho, mas entre o orgulho da

vergonha moralmente purificadora e a vergonha do orgulho moralmente

devastador. Não sei como reagiria se um estranho batesse à minha porta e

me pedisse para sacrificar a mim mesmo e a minha família para salvar a

vida dele. Tal dilema me foi poupado. Tenho certeza, porém, de que se me

recusasse a abrigá-lo, seria plenamente capaz de me justificar com os outros

e comigo mesmo argumentando que, pelo número de vidas salvas e

perdidas, despachar o estranho foi uma decisão inteiramente racional.

Tenho certeza, também, de que sentiria aquela vergonha irracional e ilógica

mas por demais humana. E no entanto tenho certeza igualmente de que, não fosse por essa vergonha, a decisão de despedir o estranho iria me corroer até

o fim dos meus dias.

O mundo desumano criado por uma tirania homicida desumanizou as

suas vítimas e aqueles que assistiram passivamente à vitimação, o que

obteve pressionando uns e outros a usar a lógica da autopreservação como

meio de se absolverem da inação e insensibilidade moral. Ninguém pode

ser considerado culpado pelo simples fato de ceder sob tal pressão. Mas

ninguém pode se furtar à autocensura moral por tal capitulação. E só

quando nos sentimos envergonhados de nossas fraquezas podemos

finalmente destroçar a prisão mental que sobreviveu a seus construtores e

carcereiros. A tarefa, hoje, é destruir esse poder que tem a tirania de manter

prisioneiras suas vítimas e testemunhas muito depois de desmantelada a

prisão.

Ano após ano o Holocausto vai encolhendo para o nível de um episódio

histórico, que além disso recua mais e mais no passado. A importância de

lembrá-lo consiste cada vez menos na necessidade de punir os criminosos

ou ajustar contas ainda não saldadas. Os criminosos que escaparam a

julgamento são hoje velhos de senilidade bem avançada, como também o

são ou logo serão a maioria dos que sobreviveram a seus crimes. Mesmo

que outro assassino seja descoberto, arrancado de seu esconderijo e

submetido a uma justiça tardia, será cada vez mais difícil enfrentar a

enormidade dos seus crimes com a santa dignidade do processo legal.

(Disso é testemunho a embaraçosa experiência dos processos Demianiuk e

Barbie.) Há também cada vez menos sobreviventes que eram maduros o

suficiente na época das câmaras de gás para decidir se abriam ou fechavam

a porta aos estranhos em busca de ajuda. Se o pagamento pelos crimes

cometidos e o ajuste de contas esgotassem a importância histórica do

Holocausto, poder-se-ia deixar esse horrível episódio onde aparentemente

se encontra — no passado — e aos cuidados de historiadores profissionais.

A verdade, no entanto, é que o acerto de contas é apenas uma das razões

para lembrar o Holocausto para sempre. E, aliás, uma razão menor — o que

nunca porém foi tão evidente quanto agora, quando essa razão perde rápido

o que quer que lhe tenha sobrado de importância prática.

Hoje, mais do que em qualquer outra época, o Holocausto não é uma

propriedade privada (se é que já o foi) — nem dos que o perpetraram, para

serem punidos; nem de suas vítimas diretas, para reivindicarem uma

simpatia especial, favores ou indulgência em nome de sofrimentos passados; nem de suas testemunhas, em busca de redenção ou certificados

de inocência. A importância atual do Holocausto está na lição que ele traz

para toda a humanidade.

A lição do Holocausto é a facilidade com que a maioria das pessoas,

colocadas numa situação em que não existe boa escolha ou que a torna

muito cara, arranja uma justificativa para escapar ao dever moral (ou não

consegue aderir a ele), adotando em vez disso os preceitos do interesse

racional e da autopreservação. Em um sistema em que a racionalidade e a

ética apontam em sentidos opostos, o grande perdedor é a humanidade. O

mal pode fazer o trabalho sujo, apostando que a maioria das pessoas a

maior parte do tempo evita fazer coisas imprudentes e temerárias — como

resistir ao mal, por exemplo. O mal não precisa nem de seguidores

entusiasmados nem do aplauso de um público — basta o instinto de

autopreservação, estimulado pelo reconfortante pensamento de que ainda

não chegou a minha hora, graças a Deus: me curvando inteiramente, ainda

posso escapar.

E há uma outra lição do Holocausto, de não menos importância. Se a

primeira lição é um alerta, a segunda é uma esperança. É a segunda lição

que faz valer a pena repetir a primeira.

Esta segunda lição nos diz que colocar a autopreservação acima do

dever moral não é algo de modo nenhum predeterminado, inevitável e

inelutável. Podemos ser pressionados a fazê-lo, mas não somos forçados a

isso, de maneira que não se pode de fato jogar a responsabilidade da ação

nos que pressionaram para tal. Não importa quantas pessoas optaram pelo

dever moral acima da racionalidade da autopreservação — o que

realmente importa é que alguns fizeram essa opção. O mal não é todo-

poderoso. Pode-se resistir a ele. O testemunho dos poucos que resistiram

desmantela a autoridade lógica da autopreservação — ele revela afinal do

que se trata: de uma escolha. Fica-se a imaginar quantos precisariam

desafiar essa lógica para incapacitar o mal. Existirá um limiar de desafio

além do qual a tecnologia do mal bate pino e é obrigada a parar?

 

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