Modernidade e Holocausto
Dimensões modernas da incompatibilidade
dúvida, o conflito passaria a ser secreto e no seu novo estado latente
assinalaria a sua presença no medo agudo do vazio, na ânsia nunca saciada
por certeza e segurança, nas paranóicas mitologias da conspiração e na
busca frenética de uma identidade sempre esquiva. Por fim, a modernidade
forneceria a seu inimigo armas sofisticadas que só a sua derrota tornava
possíveis. A ironia da história permitiria descarregar as fobias
antimodernistas através de canais e formas que só a modernidade podia
desenvolver. Os demônios interiores da Europa seriam exorcizados com os
sofisticados produtos da tecnologia, administração científica e o poder
concentrado do Estado — tudo conquistas supremas da modernidade.
A incompatibilidade judaica foi feita sob medida para esse ato histórico
de extrema incompatibilidade. Os judeus continuaram encarnação visível de
demônios interiores quando os exorcismos foram oficialmente
desautorizados e forçados à clandestinidade. Na maior parte da história
moderna os judeus foram os principais portadores de tensões e ansiedades
que a modernidade declarou mortas, levadas a uma intensidade sem
precedentes e munidas de formidáveis instrumentos de expressão.
Dimensões modernas da incompatibilidade
Ricos mas desprezíveis, os judeus forneciam um para-raios natural para
desviar as primeiras descargas da energia antimodernista. Constituíam o
ponto em que o formidável poder do dinheiro encontrava o desprezo social,
a condenação moral e a aversão estética. Era exatamente o que a hostilidade
ao moderno, particularmente à sua forma capitalista, precisava para ancorar.
Se pelo menos o capitalismo pudesse ser relacionado aos judeus, poderia
ser condenado ao mesmo tempo como estranho, antinatural, perigoso, hostil
e eticamente repulsivo. Foi fácil fazer essa conexão: o poder do dinheiro
tinha sido confinado às margens da sociedade e (com a insolente
denominação de usura) dobrado ao fardo de legítima condenação enquanto
os judeus permaneceram encerrados no gueto; agora movera-se para o
centro dos acontecimentos e (com o prestigioso nome de capital) reclamava
autoridade e respeito social quando os judeus apareciam nas ruas do centro
da cidade.
O primeiro impacto da modernidade na situação dos judeus europeus foi
sua escolha como alvo primário da resistência antimodernista. Os
primeiros antissemitas modernos foram porta-vozes da antimodernidade,
pessoas como Fourier, Proudhon, Toussenel, unidas na sua implacável
hostilidade ao poder do dinheiro, ao capitalismo, à tecnologia e ao sistema
industrial. O antissemitismo mais virulento da sociedade industrial
primitiva estava ligado ao anticapitalismo na sua versão pré-capitalista; tal
oposição à ordem capitalista esperava estancar o avanço da maré, deter o
desenvolvimento, restaurar a ordem “natural” real ou imaginária que os
novos barões do dinheiro estavam decididos a desmantelar. Por razões
sumariamente esboçadas acima, o poder do dinheiro e os judeus estavam
correlacionados. Um laço causal entre as duas coisas era sugerido e para
todos os efeitos práticos corroborado por sua correspondência metafórica —
sua “afinidade espiritual”, por assim dizer, ou, para usar o termo favorito de
Weber, sua afinidade eletiva. Era muito mais fácil resistir a esse capitalismo
que lançara sua sombra sinistra sobre a ética de trabalho e a acalentada
independência do artífice se ele fosse identificado com essa força
reconhecidamente estranha e desacreditada. Para Fourier e Toussenel, o
judeu representava tudo o que eles detestavam na maré montante do
capitalismo e na metrópole urbana que se espraiava. O veneno respingado
no judeu pretendia atingir a nova, assustadora e repulsiva ordem social.
Segundo Proudhon, o judeu “é, por temperamento, um antiprodutor, [não é]
nem agricultor nem mesmo um verdadeiro mercador”.15
Por definição, a versão antimodernista do antissemitismo podia manter
sua fachada de racionalidade e seu apelo popular enquanto parecesse
possível e realista a esperança de deter o avanço da nova ordem e substituí-
la por uma utopia pequeno-burguesa mascarada de paraíso perdido. Na
verdade, essa forma de antissemitismo foi se esgotando aos poucos até
meados do século XIX, quando fracassou a última grande tentativa de
mudar os rumos da história e a vitória da nova ordem tinha que ser aceita,
ainda que de forma relutante, como definitiva e irreversível. A ligação entre
o poder do dinheiro e o temperamento ou espírito judaico, estabelecida na
forma primitiva de oposição anticapitalista, antimoderna e pequeno-
burguesa, estava destinada a ser absorvida e inventivamente readaptada por
suas formas posteriores. Às vezes oculta, ocasionalmente irrompendo no
palco, ela nunca foi removida para longe da corrente central da resistência anticapitalista. E desempenhou papel importante na história do socialismo
europeu.
Foi de fato Karl Marx, o pai do socialismo científico (isto é, do
socialismo decidido a superar e deixar para trás, em vez de deter, o avanço
capitalista; que reconheceu a irrevogabilidade da transformação capitalista e
aceitou sua natureza progressista; e que prometeu começar a construir uma
sociedade nova e melhor no ponto a que o progresso capitalista levara o
progresso universal do homem), que fez o antissemitismo anticapitalista
mudar de aparência, de antiquada para avançada. Ao fazê-lo, tornou o
antissemitismo potencialmente útil à oposição anticapitalista numa época
em que seria derrubada e rejeitada a última ilusão de que o capitalismo era
uma doença temporária que poderia ser curada ou exorcizada. Marx aceitou
a afinidade eletiva entre o “espírito do judaísmo” e o do capitalismo; ambos
destacavam-se por promover o interesse pessoal, pechinchar e correr atrás
de dinheiro. Ambos tinham que ser tirados do caminho para que a
convivência humana se fizesse em base mais sadia e segura. O capitalismo
e o judaísmo partilhavam o mesmo destino. Triunfaram juntos e morrerão
juntos. Um não pode sobreviver ao outro; cada um tem que ser destruído
para o outro desaparecer. A emancipação face ao capitalismo significará a
emancipação face ao judaísmo e vice-versa.
A tendência a identificar o judaísmo com dinheiro, poder e, na verdade,
com todos os males do capitalismo que as pessoas sofriam e condenavam,
continuaria endêmica nos movimentos socialistas europeus, muitas vezes
escondida logo abaixo da superfície. Surtos antissemitas eram frequentes
nas maiores democracias do continente — a alemã e a austro-húngara. Em
1874, o líder da social-democracia alemã, August Bebel, prodigalizou
elogios aos ensinamentos virulentamente antissemíticos de Karl Eugen
Dührer — o que levou Engels a produzir, dois anos depois, um livro-
resposta ao autoeleito profeta do socialismo germânico; fez isso, porém,
não para defender os judeus, mas para salvar a posição de Marx como
autoridade ideológica do crescente movimento trabalhista. No entanto, em
várias ocasiões, esforços para conter os sentimentos antijudaicos no seu
pretendido papel — o de acompanhante inevitável embora menor da
posição anticapitalista — não funcionaram e as prioridades foram
invertidas: o capitalismo foi rebaixado a derivativo da ameaça judaica.
Assim, a maioria dos seguidores de August Blanqui, indômito mártir
francês da guerra anticapitalista, fora levada por seu maior amigo, Ernest Granger, direto das barricadas da Comuna de Paris para as fileiras do
nascente movimento nacional-socialista. Só com o advento do movimento
nazista a oposição popular ao capitalismo finalmente se dividiu e polarizou-
se, com o ramo socialista adotando a luta intransigente contra o
antissemitismo como um dos elementos necessários no seu esforço para
deter a maré montante do fascismo.
Se no Ocidente a mais empedernida resistência à nova ordem industrial
ocorreu sobretudo entre os pequenos proprietários urbanos e rurais, no
Leste a reação padrão foi uma ampla frente anticapitalista, antiurbana e
antiliberal. Com a influência social e a dominação política da aristocracia
fundiária ainda intactas, as ocupações urbanas eram mantidas na base
inferior da escala de prestígio e tratadas com um misto de aversão e
desprezo. Todos os meios de enriquecimento, à exceção do casamento e da
renda agrícola, eram considerados indignos da verdadeira nobreza; mesmo
a agricultura, como todas as demais atividades econômicas, era
tradicionalmente deixada a cargo de empregados contratados ou arrendada a
pessoas de status e qualidade reconhecidamente inferiores. Com as elites
nativas indiferentes ou hostis ao desafio da modernização, os judeus —
aceitos como estrangeiros do ponto de vista cultural — eram uma das
poucas categorias livres das insuportáveis garras dos valores aristocráticos,
elegantes, e portanto capazes de, e interessadas em, aproveitar as
oportunidades abertas no Ocidente pelas revoluções industrial, financeira e
tecnológica. Sua iniciativa, no entanto, foi recebida pela opinião pública
dominada pela nobreza com uma hostilidade absoluta. Em seu cuidadoso
estudo da industrialização polonesa no século XIX (processo não
dessemelhante ao que ocorreu no resto da Europa oriental), Joseph Marcus
concluiu que a chegada da indústria foi tratada pelas elites nativas,
dominada pela aristocracia, como uma calamidade nacional.
Enquanto empresários judeus construíam as ferrovias, um importante economista polaco, J.
Supinski, queixava-se de que “as ferrovias são um abismo em que enormes recursos estão
afundando, não deixando outros traços além da plataforma construída e dos trilhos sobre ela”.
Quando os judeus construíram plantas industriais, proprietários de terras acusaram-nos de
destruir a agricultura, que supostamente carecia de braços. Quando as fábricas começaram a
funcionar, seus proprietários passaram a ser não somente odiados pela elite literária e social
polonesa, mas também sentiam pena deles por terem trocado as delícias do campo e a liberdade
e prazeres da boemia pelo árido ambiente de uma fábrica, que escraviza e destrói o homem.
Deve ficar claro que uma sociedade que participava dessas atitudes, que considerava o bem-
estar material sem importância e ganhar dinheiro coisa desprezível, não podia produzir as
qualidades empresariais exigidas numa era de industrialização capitalista. Também não é de
surpreender que os únicos promotores do progresso industrial na Polônia fossem os judeus
locais e imigrantes estrangeiros.
A burguesia judaica tornou-se também a principal propagadora de ideias liberais do
Ocidente. A opinião pública polonesa, aristocrática e católica conservadora, encarava essas
ideias e o “materialismo ocidental” em geral como uma ameaça à tradição e ao “espírito
nacional” da Polônia.16
Os judeus nativos, que aos olhos da atônita nobreza se transformavam na
burguesia judaica, ameaçavam as elites estabelecidas de mais de uma
forma. Eles exemplificavam a competição entre um novo poder social de
base financeira e industrial, contra o poder tradicional baseado na
propriedade da terra e dos favores políticos da herança fundiária. Também
resumiam a dissimulação da outrora íntima relação entre o grau de prestígio
e o de influência; um grupo de funcionários, da mais baixa consideração,
buscava posições de poder galgando uma escada que pegou no monte de
lixo dos valores descartados. Para a nobreza ávida em manter a liderança
nacional, a industrialização apresentava uma dupla ameaça, por causa do
que estava sendo feito e de quem o fazia. A iniciativa econômica dos judeus
combinava o perigo para o poder social estabelecido com um golpe para a
ordem social como um todo, que esse poder sustentava e que o sustentava.
Era fácil, portanto, ligar os judeus mesmo à nova confusão e instabilidade.
Os judeus eram vistos como uma força sinistra e destrutiva, como agentes
do caos e da desordem; como aquela típica substância pegajosa,
escorregadia, que apaga as fronteiras entre as coisas que devem ser
mantidas separadas, que torna todas as escadas hierárquicas escorregadias,
funde tudo o que tem solidez e profana tudo o que é sagrado.
Com efeito, quando o impulso assimilatório dos judeus aproximou-se do
limite de absorção das sociedades que os recebiam, as elites culturais
judaicas inclinaram-se com mais força para a crítica social e foram vistas
por muito conservador nativo como força inerentemente desestabilizadora.
À medida que se avizinhava o século XX, como resume David Biale de
forma inteligente, “os liberais, nacionalistas e revolucionários judeus, que
divergiam em tudo o mais, concordaram todos que as sociedades da Europa,
em sua forma contemporânea, não eram hospitaleiras aos judeus. Só
mudando a sociedade de algum modo ou mudando a relação dos judeus
com ela poderiam ser resolvidos os problemas dos judeus na Europa…
‘Normalidade’ agora significava experiências sociais, ideais utópicos que
nunca existiram”.17
O apego à herança liberal do Iluminismo dava uma dimensão extra à
“viscosidade” judaica. Como nenhum outro grupo, os judeus tinham
interesse na cidadania que o liberalismo promovia. Como diz a memorável
frase de Hannah Arendt, “em contraste com todos os outros grupos, os
judeus eram definidos e sua posição determinada pelo corpo político. Uma
vez, no entanto, que esse corpo político não tinha qualquer outra realidade
social, eles estavam, socialmente falando, no vazio.”18 Essa foi a realidade
com os judeus em toda a história pré-moderna da Europa. Eles eram
Königjuden, propriedade e tutelados do rei, do príncipe ou senhor local, de
acordo com o estágio ou variedade da ordem feudal. Seu status tinha origem
e sustentatação política. Além disso, estavam coletivamente livres de
complicações sociais; permaneciam fora da estrutura social, o que em
termos práticos significava a irrelevância ou quase irrelevância das
afinidades ou conflitos de classe para definir sua existência. Como extensão
do Estado no seio da sociedade, os judeus eram inerentemente
extraterritoriais no sentido social. Por causa disso, só podiam servir, para
ambos os lados, como um abafador na relação muitas vezes tensa e
conflituosa entre a sociedade e seus senhores políticos, sempre levando os
primeiros e mais fortes golpes quando os conflitos se acercavam do ponto
de fervura. Qualquer proteção com que podiam contar vinha do Estado,
embora fosse precisamente esse fato que os tornava e mantinha tão
implacavelmente dependentes da benevolência dos governantes políticos e
tão impotentes quando confrontados com a maldade ou ganância
principescos. A incongruência de sua posição — num vazio entre o Estado
e a sociedade — refletia-se como era de esperar numa reação igualmente
incongruente aos deslocamentos sociais e políticos que marcaram o advento
da modernidade. Romper a velha dependência face aos governantes
políticos requeria a formação de uma base social não política e, assim, uma
autonomia política. O liberalismo prometia exatamente isso, com sua ênfase
na autoconstrução e autoafirmação de indivíduos livres. E, no entanto, o
direito de praticar os mandamentos liberais parecia depender, como todos os
outros privilégios de que eventualmente gozaram os judeus no passado, de
decisões políticas. A emancipação em relação ao Estado só podia vir — era
o que parecia — do próprio Estado. Enquanto outros grupos se contentavam
em defender seu poder social contra a excessiva intromissão do Estado, os
judeus não podiam adquirir tal poder sem um Estado intromissor, preparado
para desmantelar completamente os monopólios e bolsões estreitamente defendidos pelo velho sistema de classes. Para as elites instituídas, os