Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 13 de 52

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Modernidade e Holocausto

Dimensões modernas da incompatibilidade

dúvida, o conflito passaria a ser secreto e no seu novo estado latente

assinalaria a sua presença no medo agudo do vazio, na ânsia nunca saciada

por certeza e segurança, nas paranóicas mitologias da conspiração e na

busca frenética de uma identidade sempre esquiva. Por fim, a modernidade

forneceria a seu inimigo armas sofisticadas que só a sua derrota tornava

possíveis. A ironia da história permitiria descarregar as fobias

antimodernistas através de canais e formas que só a modernidade podia

desenvolver. Os demônios interiores da Europa seriam exorcizados com os

sofisticados produtos da tecnologia, administração científica e o poder

concentrado do Estado — tudo conquistas supremas da modernidade.

A incompatibilidade judaica foi feita sob medida para esse ato histórico

de extrema incompatibilidade. Os judeus continuaram encarnação visível de

demônios interiores quando os exorcismos foram oficialmente

desautorizados e forçados à clandestinidade. Na maior parte da história

moderna os judeus foram os principais portadores de tensões e ansiedades

que a modernidade declarou mortas, levadas a uma intensidade sem

precedentes e munidas de formidáveis instrumentos de expressão.

 

Dimensões modernas da incompatibilidade

 

Ricos mas desprezíveis, os judeus forneciam um para-raios natural para

desviar as primeiras descargas da energia antimodernista. Constituíam o

ponto em que o formidável poder do dinheiro encontrava o desprezo social,

a condenação moral e a aversão estética. Era exatamente o que a hostilidade

ao moderno, particularmente à sua forma capitalista, precisava para ancorar.

Se pelo menos o capitalismo pudesse ser relacionado aos judeus, poderia

ser condenado ao mesmo tempo como estranho, antinatural, perigoso, hostil

e eticamente repulsivo. Foi fácil fazer essa conexão: o poder do dinheiro

tinha sido confinado às margens da sociedade e (com a insolente

denominação de usura) dobrado ao fardo de legítima condenação enquanto

os judeus permaneceram encerrados no gueto; agora movera-se para o

centro dos acontecimentos e (com o prestigioso nome de capital) reclamava

autoridade e respeito social quando os judeus apareciam nas ruas do centro

da cidade.

O primeiro impacto da modernidade na situação dos judeus europeus foi

sua escolha como alvo primário da resistência antimodernista. Os

primeiros antissemitas modernos foram porta-vozes da antimodernidade,

pessoas como Fourier, Proudhon, Toussenel, unidas na sua implacável

hostilidade ao poder do dinheiro, ao capitalismo, à tecnologia e ao sistema

industrial. O antissemitismo mais virulento da sociedade industrial

primitiva estava ligado ao anticapitalismo na sua versão pré-capitalista; tal

oposição à ordem capitalista esperava estancar o avanço da maré, deter o

desenvolvimento, restaurar a ordem “natural” real ou imaginária que os

novos barões do dinheiro estavam decididos a desmantelar. Por razões

sumariamente esboçadas acima, o poder do dinheiro e os judeus estavam

correlacionados. Um laço causal entre as duas coisas era sugerido e para

todos os efeitos práticos corroborado por sua correspondência metafórica —

sua “afinidade espiritual”, por assim dizer, ou, para usar o termo favorito de

Weber, sua afinidade eletiva. Era muito mais fácil resistir a esse capitalismo

que lançara sua sombra sinistra sobre a ética de trabalho e a acalentada

independência do artífice se ele fosse identificado com essa força

reconhecidamente estranha e desacreditada. Para Fourier e Toussenel, o

judeu representava tudo o que eles detestavam na maré montante do

capitalismo e na metrópole urbana que se espraiava. O veneno respingado

no judeu pretendia atingir a nova, assustadora e repulsiva ordem social.

Segundo Proudhon, o judeu “é, por temperamento, um antiprodutor, [não é]

nem agricultor nem mesmo um verdadeiro mercador”.15

Por definição, a versão antimodernista do antissemitismo podia manter

sua fachada de racionalidade e seu apelo popular enquanto parecesse

possível e realista a esperança de deter o avanço da nova ordem e substituí-

la por uma utopia pequeno-burguesa mascarada de paraíso perdido. Na

verdade, essa forma de antissemitismo foi se esgotando aos poucos até

meados do século XIX, quando fracassou a última grande tentativa de

mudar os rumos da história e a vitória da nova ordem tinha que ser aceita,

ainda que de forma relutante, como definitiva e irreversível. A ligação entre

o poder do dinheiro e o temperamento ou espírito judaico, estabelecida na

forma primitiva de oposição anticapitalista, antimoderna e pequeno-

burguesa, estava destinada a ser absorvida e inventivamente readaptada por

suas formas posteriores. Às vezes oculta, ocasionalmente irrompendo no

palco, ela nunca foi removida para longe da corrente central da resistência anticapitalista. E desempenhou papel importante na história do socialismo

europeu.

Foi de fato Karl Marx, o pai do socialismo científico (isto é, do

socialismo decidido a superar e deixar para trás, em vez de deter, o avanço

capitalista; que reconheceu a irrevogabilidade da transformação capitalista e

aceitou sua natureza progressista; e que prometeu começar a construir uma

sociedade nova e melhor no ponto a que o progresso capitalista levara o

progresso universal do homem), que fez o antissemitismo anticapitalista

mudar de aparência, de antiquada para avançada. Ao fazê-lo, tornou o

antissemitismo potencialmente útil à oposição anticapitalista numa época

em que seria derrubada e rejeitada a última ilusão de que o capitalismo era

uma doença temporária que poderia ser curada ou exorcizada. Marx aceitou

a afinidade eletiva entre o “espírito do judaísmo” e o do capitalismo; ambos

destacavam-se por promover o interesse pessoal, pechinchar e correr atrás

de dinheiro. Ambos tinham que ser tirados do caminho para que a

convivência humana se fizesse em base mais sadia e segura. O capitalismo

e o judaísmo partilhavam o mesmo destino. Triunfaram juntos e morrerão

juntos. Um não pode sobreviver ao outro; cada um tem que ser destruído

para o outro desaparecer. A emancipação face ao capitalismo significará a

emancipação face ao judaísmo e vice-versa.

A tendência a identificar o judaísmo com dinheiro, poder e, na verdade,

com todos os males do capitalismo que as pessoas sofriam e condenavam,

continuaria endêmica nos movimentos socialistas europeus, muitas vezes

escondida logo abaixo da superfície. Surtos antissemitas eram frequentes

nas maiores democracias do continente — a alemã e a austro-húngara. Em

1874, o líder da social-democracia alemã, August Bebel, prodigalizou

elogios aos ensinamentos virulentamente antissemíticos de Karl Eugen

Dührer — o que levou Engels a produzir, dois anos depois, um livro-

resposta ao autoeleito profeta do socialismo germânico; fez isso, porém,

não para defender os judeus, mas para salvar a posição de Marx como

autoridade ideológica do crescente movimento trabalhista. No entanto, em

várias ocasiões, esforços para conter os sentimentos antijudaicos no seu

pretendido papel — o de acompanhante inevitável embora menor da

posição anticapitalista — não funcionaram e as prioridades foram

invertidas: o capitalismo foi rebaixado a derivativo da ameaça judaica.

Assim, a maioria dos seguidores de August Blanqui, indômito mártir

francês da guerra anticapitalista, fora levada por seu maior amigo, Ernest Granger, direto das barricadas da Comuna de Paris para as fileiras do

nascente movimento nacional-socialista. Só com o advento do movimento

nazista a oposição popular ao capitalismo finalmente se dividiu e polarizou-

se, com o ramo socialista adotando a luta intransigente contra o

antissemitismo como um dos elementos necessários no seu esforço para

deter a maré montante do fascismo.

Se no Ocidente a mais empedernida resistência à nova ordem industrial

ocorreu sobretudo entre os pequenos proprietários urbanos e rurais, no

Leste a reação padrão foi uma ampla frente anticapitalista, antiurbana e

antiliberal. Com a influência social e a dominação política da aristocracia

fundiária ainda intactas, as ocupações urbanas eram mantidas na base

inferior da escala de prestígio e tratadas com um misto de aversão e

desprezo. Todos os meios de enriquecimento, à exceção do casamento e da

renda agrícola, eram considerados indignos da verdadeira nobreza; mesmo

a agricultura, como todas as demais atividades econômicas, era

tradicionalmente deixada a cargo de empregados contratados ou arrendada a

pessoas de status e qualidade reconhecidamente inferiores. Com as elites

nativas indiferentes ou hostis ao desafio da modernização, os judeus —

aceitos como estrangeiros do ponto de vista cultural — eram uma das

poucas categorias livres das insuportáveis garras dos valores aristocráticos,

elegantes, e portanto capazes de, e interessadas em, aproveitar as

oportunidades abertas no Ocidente pelas revoluções industrial, financeira e

tecnológica. Sua iniciativa, no entanto, foi recebida pela opinião pública

dominada pela nobreza com uma hostilidade absoluta. Em seu cuidadoso

estudo da industrialização polonesa no século XIX (processo não

dessemelhante ao que ocorreu no resto da Europa oriental), Joseph Marcus

concluiu que a chegada da indústria foi tratada pelas elites nativas,

dominada pela aristocracia, como uma calamidade nacional.

 

Enquanto empresários judeus construíam as ferrovias, um importante economista polaco, J.

Supinski, queixava-se de que “as ferrovias são um abismo em que enormes recursos estão

afundando, não deixando outros traços além da plataforma construída e dos trilhos sobre ela”.

Quando os judeus construíram plantas industriais, proprietários de terras acusaram-nos de

destruir a agricultura, que supostamente carecia de braços. Quando as fábricas começaram a

funcionar, seus proprietários passaram a ser não somente odiados pela elite literária e social

polonesa, mas também sentiam pena deles por terem trocado as delícias do campo e a liberdade

e prazeres da boemia pelo árido ambiente de uma fábrica, que escraviza e destrói o homem.

Deve ficar claro que uma sociedade que participava dessas atitudes, que considerava o bem-

estar material sem importância e ganhar dinheiro coisa desprezível, não podia produzir as

qualidades empresariais exigidas numa era de industrialização capitalista. Também não é de

surpreender que os únicos promotores do progresso industrial na Polônia fossem os judeus

locais e imigrantes estrangeiros.

A burguesia judaica tornou-se também a principal propagadora de ideias liberais do

Ocidente. A opinião pública polonesa, aristocrática e católica conservadora, encarava essas

ideias e o “materialismo ocidental” em geral como uma ameaça à tradição e ao “espírito

nacional” da Polônia.16

 

Os judeus nativos, que aos olhos da atônita nobreza se transformavam na

burguesia judaica, ameaçavam as elites estabelecidas de mais de uma

forma. Eles exemplificavam a competição entre um novo poder social de

base financeira e industrial, contra o poder tradicional baseado na

propriedade da terra e dos favores políticos da herança fundiária. Também

resumiam a dissimulação da outrora íntima relação entre o grau de prestígio

e o de influência; um grupo de funcionários, da mais baixa consideração,

buscava posições de poder galgando uma escada que pegou no monte de

lixo dos valores descartados. Para a nobreza ávida em manter a liderança

nacional, a industrialização apresentava uma dupla ameaça, por causa do

que estava sendo feito e de quem o fazia. A iniciativa econômica dos judeus

combinava o perigo para o poder social estabelecido com um golpe para a

ordem social como um todo, que esse poder sustentava e que o sustentava.

Era fácil, portanto, ligar os judeus mesmo à nova confusão e instabilidade.

Os judeus eram vistos como uma força sinistra e destrutiva, como agentes

do caos e da desordem; como aquela típica substância pegajosa,

escorregadia, que apaga as fronteiras entre as coisas que devem ser

mantidas separadas, que torna todas as escadas hierárquicas escorregadias,

funde tudo o que tem solidez e profana tudo o que é sagrado.

Com efeito, quando o impulso assimilatório dos judeus aproximou-se do

limite de absorção das sociedades que os recebiam, as elites culturais

judaicas inclinaram-se com mais força para a crítica social e foram vistas

por muito conservador nativo como força inerentemente desestabilizadora.

À medida que se avizinhava o século XX, como resume David Biale de

forma inteligente, “os liberais, nacionalistas e revolucionários judeus, que

divergiam em tudo o mais, concordaram todos que as sociedades da Europa,

em sua forma contemporânea, não eram hospitaleiras aos judeus. Só

mudando a sociedade de algum modo ou mudando a relação dos judeus

com ela poderiam ser resolvidos os problemas dos judeus na Europa…

‘Normalidade’ agora significava experiências sociais, ideais utópicos que

nunca existiram”.17

O apego à herança liberal do Iluminismo dava uma dimensão extra à

“viscosidade” judaica. Como nenhum outro grupo, os judeus tinham

interesse na cidadania que o liberalismo promovia. Como diz a memorável

frase de Hannah Arendt, “em contraste com todos os outros grupos, os

judeus eram definidos e sua posição determinada pelo corpo político. Uma

vez, no entanto, que esse corpo político não tinha qualquer outra realidade

social, eles estavam, socialmente falando, no vazio.”18 Essa foi a realidade

com os judeus em toda a história pré-moderna da Europa. Eles eram

Königjuden, propriedade e tutelados do rei, do príncipe ou senhor local, de

acordo com o estágio ou variedade da ordem feudal. Seu status tinha origem

e sustentatação política. Além disso, estavam coletivamente livres de

complicações sociais; permaneciam fora da estrutura social, o que em

termos práticos significava a irrelevância ou quase irrelevância das

afinidades ou conflitos de classe para definir sua existência. Como extensão

do Estado no seio da sociedade, os judeus eram inerentemente

extraterritoriais no sentido social. Por causa disso, só podiam servir, para

ambos os lados, como um abafador na relação muitas vezes tensa e

conflituosa entre a sociedade e seus senhores políticos, sempre levando os

primeiros e mais fortes golpes quando os conflitos se acercavam do ponto

de fervura. Qualquer proteção com que podiam contar vinha do Estado,

embora fosse precisamente esse fato que os tornava e mantinha tão

implacavelmente dependentes da benevolência dos governantes políticos e

tão impotentes quando confrontados com a maldade ou ganância

principescos. A incongruência de sua posição — num vazio entre o Estado

e a sociedade — refletia-se como era de esperar numa reação igualmente

incongruente aos deslocamentos sociais e políticos que marcaram o advento

da modernidade. Romper a velha dependência face aos governantes

políticos requeria a formação de uma base social não política e, assim, uma

autonomia política. O liberalismo prometia exatamente isso, com sua ênfase

na autoconstrução e autoafirmação de indivíduos livres. E, no entanto, o

direito de praticar os mandamentos liberais parecia depender, como todos os

outros privilégios de que eventualmente gozaram os judeus no passado, de

decisões políticas. A emancipação em relação ao Estado só podia vir — era

o que parecia — do próprio Estado. Enquanto outros grupos se contentavam

em defender seu poder social contra a excessiva intromissão do Estado, os

judeus não podiam adquirir tal poder sem um Estado intromissor, preparado

para desmantelar completamente os monopólios e bolsões estreitamente defendidos pelo velho sistema de classes. Para as elites instituídas, os