Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 11 de 52

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Modernidade e Holocausto

Em cima do muro

identidades seguras perderam durabilidade e força. O que restava das velhas

fronteiras precisava de uma desesperada defesa e novas fronteiras tinham

que ser construídas em torno de novas identidades — desta vez, ademais,

sob condições de movimento universal e mudança acelerada. Lutar contra o

“imundo”, o inimigo arquetípico da clareza e da segurança das linhas

divisórias e identidades, tinha que ser um importante instrumento na

realização das duas tarefas. Essa luta estava fadada a atingir uma ferocidade

sem precedentes, uma vez que as próprias tarefas eram de uma magnitude

sem precedentes.

Afirma o presente estudo que o envolvimento ativo ou passivo, direto ou

indireto nas intensas preocupações da era moderna com o traçado e a

manutenção de fronteiras continuaria sendo o aspecto mais característico e

definidor do judeu conceitual. Proponho que o judeu conceitual foi

historicamente construído como a “repugnância” do mundo ocidental. Ele

foi colocado em cima de praticamente toda barricada erguida pelos

sucessivos conflitos que dilaceraram a sociedade ocidental nos seus vários

estágios e em várias dimensões. O próprio fato de que o judeu conceitual

ficou com um pé lá e outro cá em tantas barricadas diferentes, erguidas em

tantas frentes aparentemente sem relação entre si, dotou sua repelência de

uma intensidade exorbitante desconhecida em outras partes. Sua

multidimensional falta de clareza e a própria multidimensionalidade era

uma incompatibilidade cognitiva extra não encontrada em todas as outras

(simples, porque confinadas, isoladas e funcionalmente especializadas)

categorias “repulsivas” geradas por conflitos de fronteiras.

 

Em cima do muro

 

Pelas razões discutidas acima, o fenômeno do antissemitismo não pode ser

realmente concebido como um caso numa categoria mais ampla de

antagonismos nacionais, religiosos ou culturais. Nem foi o antissemitismo

um caso de interesses econômicos conflitantes (embora tais interesses

tenham sido frequentemente levantados em argumentos a favor do

antissemitismo em nossa competitiva idade moderna, que vê a si mesma em

termos de grupos de interesse trancados num jogo sem vencedores ou

perdedores) — ele foi sustentado inteiramente pelos interesses autodefinidores e autoafirmativos de seus praticantes. Foi um caso de