Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 33 de 52

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Modernidade e Holocausto

A racionalidade individual a serviço da destruição coletiva

certo eleitorado que, beneficiado pelas sucessivas mudanças de política,

daria satisfeito seu apoio aos desafortunados funcionários comunitários e

assim conferia legitimidade e autoridade ao jogo do momento. A cada

estágio da destruição — exceto o último — houve indivíduos e grupos

ansiosos em se salvar como podiam, em defender o que podiam, em se

livrar do que fosse possível e assim, embora de forma oblíqua, cooperar.

 

A racionalidade individual a serviço da destruição coletiva

 

A desumana opressão de tipo nazista deixa reconhecidamente pouco espaço

para manobra; muitas das opções para as quais as pessoas são treinadas ou

educadas a fazer em condições normais estão excluídas ou fora de alcance.

Sob condições excepcionais, a conduta é por definição excepcional; mas é

excepcional por sua forma aberta e consequências palpáveis, não

necessariamente pelos princípios de escolha e os motivos que a guiam. Ao

longo de toda a jornada para a destruição final, a maioria das pessoas, a

maior parte do tempo, não ficou completamente sem opção. E onde há

opção há uma chance de se comportar racionalmente. E foi o que a maioria

das pessoas fez: comportou-se racionalmente. Embora com total domínio

dos meios de coerção, os nazistas perceberam que a racionalidade

significava cooperação; que tudo o que os judeus faziam para servir aos

seus próprios interesses aproximava um pouco mais o objetivo nazista do

êxito completo.

A cooperação é talvez uma noção vaga demais e muito abrangente. Pode

ser duro e injusto considerar a mera resistência a uma rebelião aberta

(seguindo-se, em vez disso, a rotina estabelecida) como um ato de

colaboração. Todas as responsabilidades dos futuros Conselhos Judeus

expressas no Schnellbrief de Heydrich diziam respeito aos serviços que os

líderes judeus eram obrigados a prestar às autoridades alemãs; Heydrich

não se preocupou com outras funções que os Judenräte poderiam achar

úteis ou necessárias. Supostamente contava que tais funções seriam

exercidas por iniciativa própria dos conselhos, a partir da consideração

racional das necessidades de uma comunidade amontoada num pequeno

espaço e confrontada com a necessidade de garantir sua coexistência e

meios de sobrevivência. Se havia essa estratégia, revelou-se bem escolhida. Os Conselhos Judeus não precisavam de instruções alemãs para cuidar das

necessidades religiosas, educacionais, culturais e de saúde dos judeus. Ao

assumir esses cuidados, eles já aceitavam a contragosto o papel de escalão

mais baixo da hierarquia administrativa alemã. Sua atividade, que tirou das

mãos dos alemães todos os problemas relativos à vida diária dos judeus, já

era uma colaboração, de certa forma. Nisso, porém, o papel das autoridades

comunitárias judias, apesar do extremismo do regime opressor, não era

essencialmente diferente dos papéis normalmente desempenhados pelas

lideranças de minorias oprimidas ao tornar possível a continuidade da

repressão (com efeito, mera reprodução do regime opressor). Não era

essencialmente diferente, também, das formas tradicionais de autogoverno

judeu (particularmente na Polônia e algumas outras partes da Europa

oriental) e da autonomia estritamente preservada da kehila.

No começo da ocupação alemã — e antes que os Judenräte se tornassem

um elo oficial na estrutura administrativa alemã —, os anciãos da kehila de

antes da guerra assumiram a tarefa de representar os interesses judeus

negociando um modus vivendi com as novas autoridades. Por hábito e

treino, tentaram empregar os velhos e comprovados métodos de redigir

petições e reclamações, de obter audiência para tratar de suas queixas, de

negociar — e subornar. Não se opuseram à decisão alemã de concentrar os

judeus nos guetos. Cercar e apartar os judeus do resto da população parecia

boa proteção contra a molestação e os pogroms. Parecia também um

método bem aceito de fortalecer o autogoverno judeu e preservar um estilo

de vida judeu num ambiente hostil e ameaçador. Parecia, em outras

palavras, que o confinamento nos guetos servia — naquelas circunstâncias

— aos interesses judeus e que a aceitação do confinamento era uma atitude

racional para todos aqueles com interesses judeus próximos ao coração.

Ao mesmo tempo, entretanto, a aceitação do confinamento nos guetos

significava se tornar joguete nas mãos dos nazistas. A longo prazo, os

guetos revelariam seu papel como instrumentos de concentração — o

estágio preliminar necessário no caminho da deportação e destruição. Nesse

meio tempo, entretanto, os guetos permitiam também que apenas um

funcionário alemão exercesse a completa supervisão de dezenas de milhares

de judeus — com a ajuda dos próprios judeus, que forneciam mão de obra

burocrática e operária, a infraestrutura de comando da vida diária e os

órgãos responsáveis pela manutenção da lei e da ordem. Nesse sentido, todo

autogoverno judeu significava objetivamente cooperação. E o elemento de colaboração na atividade dos Judenräte estava destinado a crescer com o

tempo à custa de todas as outras funções. As decisões racionais tomadas

num dia em nome da defesa dos interesses judeus modificavam o contexto

da ação de tal forma que a tomada racional de decisões ficava tanto mais

difícil no dia seguinte; e as opções estavam fadadas a se tornar inteiramente

impossíveis outro dia depois.

O estudo definitivo de Isaiah Trunk sobre os Judenräte não deixa dúvida

quanto à frenética e desesperada luta dos Conselhos Judeus para encontrar

soluções racionais para problemas cada vez mais perturbadores e graves.

Não era culpa deles que, ante a força superior dos alemães e a total

eliminação das inibições morais alcançada pela engrenagem burocrática da

guerra antijudaica, não houvesse solução no quadro de suas opções que não

servisse aos objetivos alemães. O aparato burocrático alemão foi posto a

serviço de uma meta incompreensível na sua irracionalidade. A meta era a

aniquilação dos judeus; todos, velhos e jovens, inválidos e capazes,

passivos economicamente e ativos em potencial. Não havia como, portanto,

os judeus se insinuarem na burocracia alemã da destruição, se fazerem úteis

ou qualquer outra coisa desejável ou pelo menos tolerável. A guerra, em

outras palavras, estava perdida para os judeus antes de começar. E no

entanto, a cada fase dessa guerra havia decisões a tomar, passos a serem

dados, propósitos a perseguir racionalmente. A cada dia havia uma ocasião

e uma demanda de conduta racional. Foi porque o objetivo último da

operação Holocausto desafiava todo cálculo racional que seu sucesso pôde

ser construído a partir das ações racionais de suas vítimas em perspectiva.

Muito antes de ser concebido o Holocausto, o talentoso mas infeliz K., o

inspetor fundiário de Kafka em O Castelo, passou pela mesma experiência.

Ele fracassou em sua luta solitária contra o Castelo não porque agisse de

modo irracional, mas porque, ao contrário, saiu do seu natural para utilizar a

razão em sua relação com um poder que — erroneamente suposto —

responderia racionalmente a aberturas racionais; o que, de fato, não

aconteceu.

Um dos episódios mais tristes, na breve e sangrenta história dos guetos,

foi a campanha de salvamento pelo trabalho empreendida por iniciativa dos

Conselhos Judeus em alguns dos maiores guetos da Europa oriental. O

antissemitismo no Leste europeu, antes da guerra, acusava os judeus de

parasitismo econômico; como comerciantes e intermediários todos eram,

além do mais, improdutivos, constituindo no geral um grupo de que o resto da população prescindiria. Quando os invasores alemães fizeram desse

caráter prescindível dos judeus um objetivo declarado do seu programa,

passou a fazer sentido mais do que nunca buscar o contrário dessa intenção

com provas tangíveis das utilidades dos judeus. As circunstâncias pareciam

particularmente propícias para tal estratégia, uma vez que os alemães, com

seus recursos esticados até o limite pela guerra, certamente deveriam

acolher com simpatia qualquer bem ou força produtiva em que pudessem

botar as mãos. Dificilmente se poderia acusar Chaim Rumkowski, o Präses

do gueto de Lodz e de longe o mais veemente apóstolo da fé industrial, de

reagir de modo irracional à ameaça alemã. Sem dúvida, ele subestimou a

irracionalidade homicida dos alemães e superestimou sua inerente

racionalidade metódica (ou, de maneira mais geral, o poder dos valores e

princípios, que ostensivamente guiavam a forma organizada de mundo sob

o ponto de vista da eficiência). É no entanto difícil ver o que mais ele

poderia ter feito mesmo se tivesse consciência do seu equívoco. Tinha que

se comportar como se os adversários fossem de fato agentes de atuação

racional — não havia como decidir o próprio curso de ação individual sem

fazer tal suposição. Em terra de cego, quem tinha um olho era rei. No

mundo racional da moderna burocracia, o aventureiro irracional é o ditador.

E assim, de certa forma, Rumkowski comportou-se de acordo com a

única forma de racionalidade que se lhe oferecia, por mais enganosa e

traiçoeira que fosse. “Em inúmeras ocasiões, em todas as suas declarações

públicas, tanto antes como durante os ‘reassentamentos’, ele repetiu

incansavelmente que a existência física do gueto dependia unicamente do

trabalho útil para os alemães e que em nenhuma circunstância, mesmo as

mais trágicas, deveria o gueto dar essa justificativa para sua continuidade.”

19 Rumkowski em Lodz, Ephraim Barash em Bialystok, Gens em Vilna e

muitos outros falaram diversas vezes e com convicção, do impacto de seu

trabalho diligente sobre a predisposição dos senhores alemães. Pareciam

acreditar que, uma vez demonstradas a produtividade e a lucratividade da

mão de obra judaica, comissões e subsídios alemães substituiriam as

deportações e o assassinato aleatório; ou assim, pelo menos, falavam ou se

esforçavam em acreditar. Nesse processo, não deram pequena contribuição

ao esforço de guerra alemão. Eles trabalharam para adiar a derrota final

da mesmíssima força sinistra que jurava destruí-los. Antes que a sinuosa

estrada chegasse a Aushwitz, muitas pontes sobre o rio Kwai foram

construídas por habilidosas e entusiasmadas mãos judias.

Os funcionários da burocracia alemã menos comprometidos

ideologicamente ficavam de fato impressionados — por razões puramente

pragmáticas, na verdade. Que os judeus fossem humanos com um lugar

permanente no esquema das coisas não era coisa que lhes passava pela

cabeça, mas certamente aceitavam que explorar o industrioso zelo judaico

fazia mais sentido econômico (e militar) do que o extermínio de uma força

de trabalho tão dedicada e disciplinada. Há evidência de que alguns

comandantes militares no leste ficaram particularmente interessados em

adiar o morticínio quando descobriram que a maioria dos artesãos locais,

com habilidades indispensáveis para manter em funcionamento a máquina

militar, era formada de judeus. Suas frias tentativas de defender o trabalho

escravo judeu das metralhadoras dos Einsatzgruppen foram prontamente

desautorizadas assim que descobertas pelas autoridades supremas, que

sabiam que considerações racionais só eram admissíveis se, e na medida em

que tornassem mais próximo o objetivo irracional. A resolução do

Ministério dos Territórios Orientais Ocupados não deixava margem a

argumentação: “Como questão de princípio, nenhum fator econômico deve

ser levado em consideração na solução da questão judaica. Se algum

problema surgir no futuro, deve-se pedir a orientação do mais alto chefe de

polícia ou SS.”20 No geral, o trabalho “útil” iniciado pelo Conselho Judaico

não parece ter salvo ninguém (embora tenha de fato prolongado a vida de

alguns). Elogios prodigalizados por Rumkowski e Barash aos talentosos,

entusiasmados e, portanto, “insubstituíveis” trabalhadores judeus não

podiam mudar o fato sombrio de que eram judeus. Mesmo quando

azeitavam a máquina de guerra germânica, os trabalhadores eram primeiro

judeus e só depois “úteis”. Em geral tarde demais.

O verdadeiro teste de racionalidade veio quando os Judenräte foram

instruídos a cuidar do “reassentamento”. Tendo mobilizado toda a sua força

operacional para combater a crescente pressão russa, os nazistas mal

podiam se permitir colocar os próprios soldados a serviço da Solução Final.

Dessa vez aceitaram que precisavam de fato do trabalho judeu. Os

Judenräte foram feitos responsáveis por todas as tarefas de preparação

exigidas pelo morticínio. Tinham que fornecer listas detalhadas dos

residentes nos guetos destinados à deportação. Tinham que selecioná-los

primeiro. Depois tinham que enviá-los aos trens de carga. Caso a pessoa

resistisse ou se escondesse, a polícia judia tinha que encontrar o rebelde e forçá-lo a obedecer. Idealmente, os nazistas limitariam seu próprio papel ao

de observadores afastados.

Se era o caso de matar os judeus indiscriminadamente, de uma tacada, a

escolha (ou melhor, a ausência de escolha) seria clara e inequívoca para

todos. Um apelo à resistência geral, por menos esperança que oferecesse,

seria a reação óbvia, uma vez que a única alternativa era “marchar como

ovelhas para o matadouro”. Do ponto de vista dos alemães, tal clareza

aumentaria consideravelmente o custo da operação. Os alemães não seriam

nesse caso capazes de usar o ímpeto racional das vítimas a serviço de sua

própria destruição. Simplesmente, as vítimas não iriam cooperar. Utilizar a

racionalidade das vítimas era uma solução bem mais racional. Portanto,

sempre que possível, os nazistas tentavam evitar deportações totais.

Pareciam preferir fazer a tarefa à prestação.

 

Nas cidades em que o extermínio dos judeus foi feito a prestações, os alemães os

tranquilizavam após cada “ação”, garantindo-lhes que era a última… Toda essa conversa, toda

essa fraude intencional a sangue frio, no processo da Solução Final foi usada pelos alemães

para sossegar os judeus em pânico, diminuir seu estado de alerta e desorientá-los

completamente, de forma que até o último minuto eles não tinham noção do que realmente

significava “reassentamento”. O instinto de sobrevivência, que leva as pessoas a resistirem ante

a ideia da destruição iminente e a se apegarem a um fiapo de esperança, era aqui um joguete

nas mãos dos executores. 21

 

Em muitas cidadezinhas das regiões ocidentais da URSS, logo

transformadas num inferno pelo exército invasor alemão, estratagemas

complexos eram desnecessários. Segundo as instruções de Hitler às tropas,

a guerra contra a URSS era diferente de qualquer outra — tudo era

permitido, não havia regras. A Wehrmacht e particularmente os

Einsatzgruppen agiam como se a única regra que ainda valia era mate o

máximo que puder. Os judeus eram pastoreados até o bosque ou ravina mais

próximos e abatidos a fogo de metralhadora. Não havia escassez de

entusiásticos auxiliares ucranianos e nenhum escrúpulo entre soldados

temperados pela “guerra diferente de todas”. Só em alguns lugares onde a

população judia era particularmente numerosa ou a necessidade de artesãos

judeus, particularmente aguda, davam-se ao trabalho de estabelecer

conselhos e criar uma polícia judaica — o que fora norma nos territórios

poloneses conquistados anteriormente. Onde quer que se estabelecessem

guetos, a colaboração judia na sua própria destruição era desejada e, em

geral, obtida.

Num estágio relativamente inicial, os conselhos sabiam — ou pelo

menos podiam, a não ser que se esforçassem muito para não saber — qual

era o verdadeiro propósito das “seleções” que lhes mandavam fazer.

Pouquíssimos membros dos conselhos se recusavam cabalmente a cooperar.

Alguns cometiam suicídio, outros juntavam-se voluntariamente ao

transporte para os campos de extermínio, muitas vezes tendo que enganar

os alemães, que ainda precisavam dos conselheiros vivos. A maioria, no

entanto, dava continuidade às sucessivas “ações finais”. Estas não eram

carentes de explicações racionais e convincentes para a sua conduta. Com a

tradição judaica condenando a barganha da sobrevivência de alguns à custa

de outros22, as explicações só podiam ser extraídas do folclore da era

moderna, racional, e envoltas na linguagem da tecnologia moderna. Muito

usado, como era de esperar, foi o jogo quantitativo: é melhor preservar a

vida de muitos que a de poucos, matar menos é menos odioso que matar

mais. Sacrificar alguns para salvar muitos — foi o refrão mais frequente e

recorrente nas apologias gravadas dos líderes de conselhos judeus. Numa

curiosa distorção mental, a condenação à morte era vista como nobre defesa

da vida, moralmente recomendável. “Não decidimos quem vai morrer;

apenas decidimos quem vai viver.” Não bastava fazer o papel de Deus;

muitos líderes de Judenräte queriam ser lembrados como benevolentes,

como deuses protetores. E assim, tendo mandado milhares de velhos,

doentes e crianças para a morte, Rumkowski declarou em 4 de setembro de

1942: “Não éramos… motivados pelo pensamento de quantos seriam

perdidos, mas pela consideração dos muitos que poderiam ser salvos.” 23

Outros apelaram às ricas metáforas da medicina moderna e se

paramentaram de cirurgiões salva-vidas: “É necessário cortar uma perna

para salvar o corpo” ou “se necessário, deve-se amputar um braço estragado

para salvar a vida”.

Tudo isso dito e as condenações à morte apresentadas como uma

conquista louvável da moderna mente racional, combinada com o cálido

coração judaico, uma questão continuava a importunar até o colaborador

mais autocondescendente: se a amputação é inevitável, eu é que tenho de

fazê-la? E de forma ainda mais obsessiva: uma vez que alguns devem

morrer para que outros possam viver, quem sou eu para decidir quem deve

ser sacrificado e por quem?

Há provas de que perguntas como essas atormentaram de fato muitos

dos conselheiros e líderes judeus, mesmo aqueles (particularmente esses) que não se recusavam a servir e não procuravam escapar pelo suicídio. A

despedida digna de Cherniakov em Varsóvia é bem conhecida; mas a lista

de suicídios é extensa e o número de conselheiros judeus que traçaram a

linha que seus padrões morais não lhes permitiam cruzar foi grande e ainda

não está contado. Aqui estão apenas alguns exemplos ao acaso. Antes de

cometer suicídio, o Präses dos Judenräte de Rowne, o dr. Bergman, disse

aos alemães que só poderia mandar para “reassentamento” a ele mesmo e

sua família. Motel Shajkin, de Kosow Poleski, rejeitou ironicamente a

oferta do Stadtkomissar de poupá-lo. David Liberman, de Lukow, jogou na

cara do supervisor alemão o dinheiro recebido em tentativa de suborno,

depois de rasgá-lo em pedaços e gritar: “Aqui está o seu pagamento pela

nossa viagem, tirano sangrento!” Foi morto ali mesmo. Confrontado com a

ordem nazista de selecionar um contingente de judeus para o “trabalho na

Rússia”, todo o Conselho Judeu de Bereza Kartuska cometeu suicídio na

reunião de 1º de setembro de 1942.

Quanto aos outros, covardes ou audaciosos demais para viver,

precisavam desesperadamente de uma resposta, uma desculpa, uma

justificativa, um argumento moral ou racional. Na maioria dos casos

registrados, buscavam esta última, aparentemente a mais aceitável para o

resto e a mais convincente. Após cada “ação” sucessiva, aqueles como Gens

e Rumkowski sentiam a necessidade de convocar assembleias gerais dos

prisioneiros restantes do gueto para explicar por que decidiram “fazê-lo nós

mesmos”. (No caso de Gens, “fazê-lo” significou mandar 400 velhos e

crianças de Oszmania para o local de execução e ordenar a policiais judeus

que os matassem.) A assembleia de prisioneiros, atordoada, era então

submetida a uma exibição da mente racional, ao cálculo numérico. “Se

deixássemos a tarefa aos alemães, muitos mais teriam morrido.” Ou ainda

de forma mais pessoal: “Se eu me recusasse a estar no comando, os alemães

teriam colocado em meu lugar um homem muito mais cruel e sinistro, com

consequências inimagináveis.” O “ganho” racionalmente calculado era

então refundido em obrigação moral: “Sim, é meu dever sujar minhas

mãos”, decidiu Gens, o Deus autonomeado dos judeus de Vilna, o matador

que morreu convencido de que era o Salvador.

A estratégia do “salve-se quem puder” foi seguida até o último judeu ser

enterrado numa vala ucraniana ou subir em fumaça por uma chaminé de

Treblinka. Foi seguida por pessoas armadas de lógica e bem treinadas na

arte do pensamento racional. A própria estratégia era um triunfo e uma última honraria de racionalidade. Havia sempre algo ou alguém para salvar