Modernidade e Holocausto
A racionalidade individual a serviço da destruição coletiva
certo eleitorado que, beneficiado pelas sucessivas mudanças de política,
daria satisfeito seu apoio aos desafortunados funcionários comunitários e
assim conferia legitimidade e autoridade ao jogo do momento. A cada
estágio da destruição — exceto o último — houve indivíduos e grupos
ansiosos em se salvar como podiam, em defender o que podiam, em se
livrar do que fosse possível e assim, embora de forma oblíqua, cooperar.
A racionalidade individual a serviço da destruição coletiva
A desumana opressão de tipo nazista deixa reconhecidamente pouco espaço
para manobra; muitas das opções para as quais as pessoas são treinadas ou
educadas a fazer em condições normais estão excluídas ou fora de alcance.
Sob condições excepcionais, a conduta é por definição excepcional; mas é
excepcional por sua forma aberta e consequências palpáveis, não
necessariamente pelos princípios de escolha e os motivos que a guiam. Ao
longo de toda a jornada para a destruição final, a maioria das pessoas, a
maior parte do tempo, não ficou completamente sem opção. E onde há
opção há uma chance de se comportar racionalmente. E foi o que a maioria
das pessoas fez: comportou-se racionalmente. Embora com total domínio
dos meios de coerção, os nazistas perceberam que a racionalidade
significava cooperação; que tudo o que os judeus faziam para servir aos
seus próprios interesses aproximava um pouco mais o objetivo nazista do
êxito completo.
A cooperação é talvez uma noção vaga demais e muito abrangente. Pode
ser duro e injusto considerar a mera resistência a uma rebelião aberta
(seguindo-se, em vez disso, a rotina estabelecida) como um ato de
colaboração. Todas as responsabilidades dos futuros Conselhos Judeus
expressas no Schnellbrief de Heydrich diziam respeito aos serviços que os
líderes judeus eram obrigados a prestar às autoridades alemãs; Heydrich
não se preocupou com outras funções que os Judenräte poderiam achar
úteis ou necessárias. Supostamente contava que tais funções seriam
exercidas por iniciativa própria dos conselhos, a partir da consideração
racional das necessidades de uma comunidade amontoada num pequeno
espaço e confrontada com a necessidade de garantir sua coexistência e
meios de sobrevivência. Se havia essa estratégia, revelou-se bem escolhida. Os Conselhos Judeus não precisavam de instruções alemãs para cuidar das
necessidades religiosas, educacionais, culturais e de saúde dos judeus. Ao
assumir esses cuidados, eles já aceitavam a contragosto o papel de escalão
mais baixo da hierarquia administrativa alemã. Sua atividade, que tirou das
mãos dos alemães todos os problemas relativos à vida diária dos judeus, já
era uma colaboração, de certa forma. Nisso, porém, o papel das autoridades
comunitárias judias, apesar do extremismo do regime opressor, não era
essencialmente diferente dos papéis normalmente desempenhados pelas
lideranças de minorias oprimidas ao tornar possível a continuidade da
repressão (com efeito, mera reprodução do regime opressor). Não era
essencialmente diferente, também, das formas tradicionais de autogoverno
judeu (particularmente na Polônia e algumas outras partes da Europa
oriental) e da autonomia estritamente preservada da kehila.
No começo da ocupação alemã — e antes que os Judenräte se tornassem
um elo oficial na estrutura administrativa alemã —, os anciãos da kehila de
antes da guerra assumiram a tarefa de representar os interesses judeus
negociando um modus vivendi com as novas autoridades. Por hábito e
treino, tentaram empregar os velhos e comprovados métodos de redigir
petições e reclamações, de obter audiência para tratar de suas queixas, de
negociar — e subornar. Não se opuseram à decisão alemã de concentrar os
judeus nos guetos. Cercar e apartar os judeus do resto da população parecia
boa proteção contra a molestação e os pogroms. Parecia também um
método bem aceito de fortalecer o autogoverno judeu e preservar um estilo
de vida judeu num ambiente hostil e ameaçador. Parecia, em outras
palavras, que o confinamento nos guetos servia — naquelas circunstâncias
— aos interesses judeus e que a aceitação do confinamento era uma atitude
racional para todos aqueles com interesses judeus próximos ao coração.
Ao mesmo tempo, entretanto, a aceitação do confinamento nos guetos
significava se tornar joguete nas mãos dos nazistas. A longo prazo, os
guetos revelariam seu papel como instrumentos de concentração — o
estágio preliminar necessário no caminho da deportação e destruição. Nesse
meio tempo, entretanto, os guetos permitiam também que apenas um
funcionário alemão exercesse a completa supervisão de dezenas de milhares
de judeus — com a ajuda dos próprios judeus, que forneciam mão de obra
burocrática e operária, a infraestrutura de comando da vida diária e os
órgãos responsáveis pela manutenção da lei e da ordem. Nesse sentido, todo
autogoverno judeu significava objetivamente cooperação. E o elemento de colaboração na atividade dos Judenräte estava destinado a crescer com o
tempo à custa de todas as outras funções. As decisões racionais tomadas
num dia em nome da defesa dos interesses judeus modificavam o contexto
da ação de tal forma que a tomada racional de decisões ficava tanto mais
difícil no dia seguinte; e as opções estavam fadadas a se tornar inteiramente
impossíveis outro dia depois.
O estudo definitivo de Isaiah Trunk sobre os Judenräte não deixa dúvida
quanto à frenética e desesperada luta dos Conselhos Judeus para encontrar
soluções racionais para problemas cada vez mais perturbadores e graves.
Não era culpa deles que, ante a força superior dos alemães e a total
eliminação das inibições morais alcançada pela engrenagem burocrática da
guerra antijudaica, não houvesse solução no quadro de suas opções que não
servisse aos objetivos alemães. O aparato burocrático alemão foi posto a
serviço de uma meta incompreensível na sua irracionalidade. A meta era a
aniquilação dos judeus; todos, velhos e jovens, inválidos e capazes,
passivos economicamente e ativos em potencial. Não havia como, portanto,
os judeus se insinuarem na burocracia alemã da destruição, se fazerem úteis
ou qualquer outra coisa desejável ou pelo menos tolerável. A guerra, em
outras palavras, estava perdida para os judeus antes de começar. E no
entanto, a cada fase dessa guerra havia decisões a tomar, passos a serem
dados, propósitos a perseguir racionalmente. A cada dia havia uma ocasião
e uma demanda de conduta racional. Foi porque o objetivo último da
operação Holocausto desafiava todo cálculo racional que seu sucesso pôde
ser construído a partir das ações racionais de suas vítimas em perspectiva.
Muito antes de ser concebido o Holocausto, o talentoso mas infeliz K., o
inspetor fundiário de Kafka em O Castelo, passou pela mesma experiência.
Ele fracassou em sua luta solitária contra o Castelo não porque agisse de
modo irracional, mas porque, ao contrário, saiu do seu natural para utilizar a
razão em sua relação com um poder que — erroneamente suposto —
responderia racionalmente a aberturas racionais; o que, de fato, não
aconteceu.
Um dos episódios mais tristes, na breve e sangrenta história dos guetos,
foi a campanha de salvamento pelo trabalho empreendida por iniciativa dos
Conselhos Judeus em alguns dos maiores guetos da Europa oriental. O
antissemitismo no Leste europeu, antes da guerra, acusava os judeus de
parasitismo econômico; como comerciantes e intermediários todos eram,
além do mais, improdutivos, constituindo no geral um grupo de que o resto da população prescindiria. Quando os invasores alemães fizeram desse
caráter prescindível dos judeus um objetivo declarado do seu programa,
passou a fazer sentido mais do que nunca buscar o contrário dessa intenção
com provas tangíveis das utilidades dos judeus. As circunstâncias pareciam
particularmente propícias para tal estratégia, uma vez que os alemães, com
seus recursos esticados até o limite pela guerra, certamente deveriam
acolher com simpatia qualquer bem ou força produtiva em que pudessem
botar as mãos. Dificilmente se poderia acusar Chaim Rumkowski, o Präses
do gueto de Lodz e de longe o mais veemente apóstolo da fé industrial, de
reagir de modo irracional à ameaça alemã. Sem dúvida, ele subestimou a
irracionalidade homicida dos alemães e superestimou sua inerente
racionalidade metódica (ou, de maneira mais geral, o poder dos valores e
princípios, que ostensivamente guiavam a forma organizada de mundo sob
o ponto de vista da eficiência). É no entanto difícil ver o que mais ele
poderia ter feito mesmo se tivesse consciência do seu equívoco. Tinha que
se comportar como se os adversários fossem de fato agentes de atuação
racional — não havia como decidir o próprio curso de ação individual sem
fazer tal suposição. Em terra de cego, quem tinha um olho era rei. No
mundo racional da moderna burocracia, o aventureiro irracional é o ditador.
E assim, de certa forma, Rumkowski comportou-se de acordo com a
única forma de racionalidade que se lhe oferecia, por mais enganosa e
traiçoeira que fosse. “Em inúmeras ocasiões, em todas as suas declarações
públicas, tanto antes como durante os ‘reassentamentos’, ele repetiu
incansavelmente que a existência física do gueto dependia unicamente do
trabalho útil para os alemães e que em nenhuma circunstância, mesmo as
mais trágicas, deveria o gueto dar essa justificativa para sua continuidade.”
19 Rumkowski em Lodz, Ephraim Barash em Bialystok, Gens em Vilna e
muitos outros falaram diversas vezes e com convicção, do impacto de seu
trabalho diligente sobre a predisposição dos senhores alemães. Pareciam
acreditar que, uma vez demonstradas a produtividade e a lucratividade da
mão de obra judaica, comissões e subsídios alemães substituiriam as
deportações e o assassinato aleatório; ou assim, pelo menos, falavam ou se
esforçavam em acreditar. Nesse processo, não deram pequena contribuição
ao esforço de guerra alemão. Eles trabalharam para adiar a derrota final
da mesmíssima força sinistra que jurava destruí-los. Antes que a sinuosa
estrada chegasse a Aushwitz, muitas pontes sobre o rio Kwai foram
construídas por habilidosas e entusiasmadas mãos judias.
Os funcionários da burocracia alemã menos comprometidos
ideologicamente ficavam de fato impressionados — por razões puramente
pragmáticas, na verdade. Que os judeus fossem humanos com um lugar
permanente no esquema das coisas não era coisa que lhes passava pela
cabeça, mas certamente aceitavam que explorar o industrioso zelo judaico
fazia mais sentido econômico (e militar) do que o extermínio de uma força
de trabalho tão dedicada e disciplinada. Há evidência de que alguns
comandantes militares no leste ficaram particularmente interessados em
adiar o morticínio quando descobriram que a maioria dos artesãos locais,
com habilidades indispensáveis para manter em funcionamento a máquina
militar, era formada de judeus. Suas frias tentativas de defender o trabalho
escravo judeu das metralhadoras dos Einsatzgruppen foram prontamente
desautorizadas assim que descobertas pelas autoridades supremas, que
sabiam que considerações racionais só eram admissíveis se, e na medida em
que tornassem mais próximo o objetivo irracional. A resolução do
Ministério dos Territórios Orientais Ocupados não deixava margem a
argumentação: “Como questão de princípio, nenhum fator econômico deve
ser levado em consideração na solução da questão judaica. Se algum
problema surgir no futuro, deve-se pedir a orientação do mais alto chefe de
polícia ou SS.”20 No geral, o trabalho “útil” iniciado pelo Conselho Judaico
não parece ter salvo ninguém (embora tenha de fato prolongado a vida de
alguns). Elogios prodigalizados por Rumkowski e Barash aos talentosos,
entusiasmados e, portanto, “insubstituíveis” trabalhadores judeus não
podiam mudar o fato sombrio de que eram judeus. Mesmo quando
azeitavam a máquina de guerra germânica, os trabalhadores eram primeiro
judeus e só depois “úteis”. Em geral tarde demais.
O verdadeiro teste de racionalidade veio quando os Judenräte foram
instruídos a cuidar do “reassentamento”. Tendo mobilizado toda a sua força
operacional para combater a crescente pressão russa, os nazistas mal
podiam se permitir colocar os próprios soldados a serviço da Solução Final.
Dessa vez aceitaram que precisavam de fato do trabalho judeu. Os
Judenräte foram feitos responsáveis por todas as tarefas de preparação
exigidas pelo morticínio. Tinham que fornecer listas detalhadas dos
residentes nos guetos destinados à deportação. Tinham que selecioná-los
primeiro. Depois tinham que enviá-los aos trens de carga. Caso a pessoa
resistisse ou se escondesse, a polícia judia tinha que encontrar o rebelde e forçá-lo a obedecer. Idealmente, os nazistas limitariam seu próprio papel ao
de observadores afastados.
Se era o caso de matar os judeus indiscriminadamente, de uma tacada, a
escolha (ou melhor, a ausência de escolha) seria clara e inequívoca para
todos. Um apelo à resistência geral, por menos esperança que oferecesse,
seria a reação óbvia, uma vez que a única alternativa era “marchar como
ovelhas para o matadouro”. Do ponto de vista dos alemães, tal clareza
aumentaria consideravelmente o custo da operação. Os alemães não seriam
nesse caso capazes de usar o ímpeto racional das vítimas a serviço de sua
própria destruição. Simplesmente, as vítimas não iriam cooperar. Utilizar a
racionalidade das vítimas era uma solução bem mais racional. Portanto,
sempre que possível, os nazistas tentavam evitar deportações totais.
Pareciam preferir fazer a tarefa à prestação.
Nas cidades em que o extermínio dos judeus foi feito a prestações, os alemães os
tranquilizavam após cada “ação”, garantindo-lhes que era a última… Toda essa conversa, toda
essa fraude intencional a sangue frio, no processo da Solução Final foi usada pelos alemães
para sossegar os judeus em pânico, diminuir seu estado de alerta e desorientá-los
completamente, de forma que até o último minuto eles não tinham noção do que realmente
significava “reassentamento”. O instinto de sobrevivência, que leva as pessoas a resistirem ante
a ideia da destruição iminente e a se apegarem a um fiapo de esperança, era aqui um joguete
nas mãos dos executores. 21
Em muitas cidadezinhas das regiões ocidentais da URSS, logo
transformadas num inferno pelo exército invasor alemão, estratagemas
complexos eram desnecessários. Segundo as instruções de Hitler às tropas,
a guerra contra a URSS era diferente de qualquer outra — tudo era
permitido, não havia regras. A Wehrmacht e particularmente os
Einsatzgruppen agiam como se a única regra que ainda valia era mate o
máximo que puder. Os judeus eram pastoreados até o bosque ou ravina mais
próximos e abatidos a fogo de metralhadora. Não havia escassez de
entusiásticos auxiliares ucranianos e nenhum escrúpulo entre soldados
temperados pela “guerra diferente de todas”. Só em alguns lugares onde a
população judia era particularmente numerosa ou a necessidade de artesãos
judeus, particularmente aguda, davam-se ao trabalho de estabelecer
conselhos e criar uma polícia judaica — o que fora norma nos territórios
poloneses conquistados anteriormente. Onde quer que se estabelecessem
guetos, a colaboração judia na sua própria destruição era desejada e, em
geral, obtida.
Num estágio relativamente inicial, os conselhos sabiam — ou pelo
menos podiam, a não ser que se esforçassem muito para não saber — qual
era o verdadeiro propósito das “seleções” que lhes mandavam fazer.
Pouquíssimos membros dos conselhos se recusavam cabalmente a cooperar.
Alguns cometiam suicídio, outros juntavam-se voluntariamente ao
transporte para os campos de extermínio, muitas vezes tendo que enganar
os alemães, que ainda precisavam dos conselheiros vivos. A maioria, no
entanto, dava continuidade às sucessivas “ações finais”. Estas não eram
carentes de explicações racionais e convincentes para a sua conduta. Com a
tradição judaica condenando a barganha da sobrevivência de alguns à custa
de outros22, as explicações só podiam ser extraídas do folclore da era
moderna, racional, e envoltas na linguagem da tecnologia moderna. Muito
usado, como era de esperar, foi o jogo quantitativo: é melhor preservar a
vida de muitos que a de poucos, matar menos é menos odioso que matar
mais. Sacrificar alguns para salvar muitos — foi o refrão mais frequente e
recorrente nas apologias gravadas dos líderes de conselhos judeus. Numa
curiosa distorção mental, a condenação à morte era vista como nobre defesa
da vida, moralmente recomendável. “Não decidimos quem vai morrer;
apenas decidimos quem vai viver.” Não bastava fazer o papel de Deus;
muitos líderes de Judenräte queriam ser lembrados como benevolentes,
como deuses protetores. E assim, tendo mandado milhares de velhos,
doentes e crianças para a morte, Rumkowski declarou em 4 de setembro de
1942: “Não éramos… motivados pelo pensamento de quantos seriam
perdidos, mas pela consideração dos muitos que poderiam ser salvos.” 23
Outros apelaram às ricas metáforas da medicina moderna e se
paramentaram de cirurgiões salva-vidas: “É necessário cortar uma perna
para salvar o corpo” ou “se necessário, deve-se amputar um braço estragado
para salvar a vida”.
Tudo isso dito e as condenações à morte apresentadas como uma
conquista louvável da moderna mente racional, combinada com o cálido
coração judaico, uma questão continuava a importunar até o colaborador
mais autocondescendente: se a amputação é inevitável, eu é que tenho de
fazê-la? E de forma ainda mais obsessiva: uma vez que alguns devem
morrer para que outros possam viver, quem sou eu para decidir quem deve
ser sacrificado e por quem?
Há provas de que perguntas como essas atormentaram de fato muitos
dos conselheiros e líderes judeus, mesmo aqueles (particularmente esses) que não se recusavam a servir e não procuravam escapar pelo suicídio. A
despedida digna de Cherniakov em Varsóvia é bem conhecida; mas a lista
de suicídios é extensa e o número de conselheiros judeus que traçaram a
linha que seus padrões morais não lhes permitiam cruzar foi grande e ainda
não está contado. Aqui estão apenas alguns exemplos ao acaso. Antes de
cometer suicídio, o Präses dos Judenräte de Rowne, o dr. Bergman, disse
aos alemães que só poderia mandar para “reassentamento” a ele mesmo e
sua família. Motel Shajkin, de Kosow Poleski, rejeitou ironicamente a
oferta do Stadtkomissar de poupá-lo. David Liberman, de Lukow, jogou na
cara do supervisor alemão o dinheiro recebido em tentativa de suborno,
depois de rasgá-lo em pedaços e gritar: “Aqui está o seu pagamento pela
nossa viagem, tirano sangrento!” Foi morto ali mesmo. Confrontado com a
ordem nazista de selecionar um contingente de judeus para o “trabalho na
Rússia”, todo o Conselho Judeu de Bereza Kartuska cometeu suicídio na
reunião de 1º de setembro de 1942.
Quanto aos outros, covardes ou audaciosos demais para viver,
precisavam desesperadamente de uma resposta, uma desculpa, uma
justificativa, um argumento moral ou racional. Na maioria dos casos
registrados, buscavam esta última, aparentemente a mais aceitável para o
resto e a mais convincente. Após cada “ação” sucessiva, aqueles como Gens
e Rumkowski sentiam a necessidade de convocar assembleias gerais dos
prisioneiros restantes do gueto para explicar por que decidiram “fazê-lo nós
mesmos”. (No caso de Gens, “fazê-lo” significou mandar 400 velhos e
crianças de Oszmania para o local de execução e ordenar a policiais judeus
que os matassem.) A assembleia de prisioneiros, atordoada, era então
submetida a uma exibição da mente racional, ao cálculo numérico. “Se
deixássemos a tarefa aos alemães, muitos mais teriam morrido.” Ou ainda
de forma mais pessoal: “Se eu me recusasse a estar no comando, os alemães
teriam colocado em meu lugar um homem muito mais cruel e sinistro, com
consequências inimagináveis.” O “ganho” racionalmente calculado era
então refundido em obrigação moral: “Sim, é meu dever sujar minhas
mãos”, decidiu Gens, o Deus autonomeado dos judeus de Vilna, o matador
que morreu convencido de que era o Salvador.
A estratégia do “salve-se quem puder” foi seguida até o último judeu ser
enterrado numa vala ucraniana ou subir em fumaça por uma chaminé de
Treblinka. Foi seguida por pessoas armadas de lógica e bem treinadas na
arte do pensamento racional. A própria estratégia era um triunfo e uma última honraria de racionalidade. Havia sempre algo ou alguém para salvar