Modernidade e Holocausto
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
um ‘operador’ para transformá-lo numa ‘coisa desejável’.”10
Efeitos da divisão hierárquica e funcional do trabalho
O uso da violência é mais eficiente e menos dispendioso quando os meios
são submetidos a critérios instrumentais e racionais e, assim, dissociados da
avaliação moral dos fins. Como assinalei no primeiro capítulo, todas as
burocracias são boas nesse tipo de operação dissociativa. Pode-se mesmo
dizer que dele provêm a essência da estrutura e do processo burocráticos e,
com ela, o segredo desse tremendo crescimento do potencial mobilizador e
coordenador e da racionalidade e eficiência de ação, alcançados pela
civilização moderna graças ao desenvolvimento da administração
burocrática. A dissociação é, de modo geral, resultado de dois processos
paralelos, ambos centrais ao modelo burocrático de ação. O primeiro é a
meticulosa divisão funcional do trabalho (enquanto adicional à — e em
suas consequências distinta da — linear graduação do poder e
subordinação); o segundo é a substituição da responsabilidade moral pela
técnica.
Toda divisão de trabalho (tal divisão também resultante da mera
hierarquia de comando) cria uma distância entre a maioria dos contribuintes
para o resultado final da atividade coletiva e o resultado mesmo. Antes que
os últimos elos da cadeia burocrática de poder (os executores diretos)
enfrentem sua tarefa, a maioria das operações preparatórias que levaram a
ela já foi executada por pessoas que não tinham experiência pessoal e às
vezes nem o conhecimento da tarefa em questão. Ao contrário do que
ocorre numa unidade de trabalho pré-moderna, na qual todos os degraus da
hierarquia partilham as mesmas habilidades ocupacionais e o conhecimento
prático das operações de trabalho efetivamente aumenta à medida que se
galga a escada (o mestre sabe a mesma coisa que o artesão ou o aprendiz, só
que mais e melhor), as pessoas que ocupam degraus sucessivos na
burocracia moderna diferem marcadamente no tipo de especialização e
treinamento profissional exigidos pelo seu trabalho. Elas podem ser capazes
de se imaginar na posição dos subordinados; isso pode mesmo ajudar a
manter o “bom relacionamento humano” no local de trabalho, mas não é
condição para a execução adequada da tarefa nem da eficiência da burocracia como um todo. Com efeito, a maioria das burocracias não trata
seriamente a receita romântica que exige de cada burocrata, e
particularmente daqueles que ocupam o topo, que “comecem de baixo”, de
forma tal que no caminho para o alto possam adquirir e memorizar a
experiência de todo o escalão. Cientes da multiplicidade de talentos que
demandam as tarefas administrativas de várias magnitudes, a maioria das
burocracias trilha, em vez disso, caminhos distintos de recrutamento para os
diferentes níveis da hierarquia. Talvez seja verdade que cada soldado
carregue na mochila o bastão de um marechal, mas poucos marechais e,
aliás, poucos coronéis ou capitães levam baionetas de soldado na maleta.
O que essa distância prática e mental do produto final significa é que a
maioria dos funcionários da hierarquia burocrática pode dar ordens sem
pleno conhecimento dos seus efeitos. Em muitos casos achariam difícil
visualizar esses efeitos. Geralmente, têm apenas uma consciência abstrata e
distanciada deles — o tipo de conhecimento que é melhor expresso pela
estatística, que mede os resultados sem fazer qualquer julgamento, nenhum
julgamento moral com certeza. Nos seus arquivos e mentes os resultados
são no máximo representados em diagramas, como curvas ou setores de um
círculo; idealmente figurariam como uma coluna de números.
Representados gráfica ou numericamente, os resultados finais de suas
ordens são desprovidos de substância. Os gráficos medem o progresso do
trabalho, nada dizem da natureza da operação ou dos seus objetos. Eles
tornam tarefas de caráter amplamente diverso mutuamente intercambiáveis;
só o sucesso ou fracasso quantificável interessa e, encaradas desse ponto de
vista, as tarefas não diferem.
Todos esses efeitos de distanciamento criados pela divisão hierárquica
do trabalho são radicalmente ampliados uma vez que a divisão se torne
funcional. Agora não é apenas a falta de experiência pessoal direta na
efetiva execução da tarefa para a qual contribuem ordens sucessivas, mas
também a falta de similaridade entre a tarefa imediata e a tarefa do
escritório como um todo (uma não é uma versão em miniatura ou um ícone
da outra) que distancia o participante da tarefa executada pela burocracia
que integra. O impacto psicológico desse distanciamento é profundo e de
longo alcance. Uma coisa é dar uma ordem num avião para que se lancem
bombas, outra bem diferente é cuidar do fornecimento regular de aço a uma
fábrica de bombas. No primeiro caso, quem dá a ordem pode não ter
nenhuma impressão visual nítida da devastação que o bombardeio irá causar. No segundo caso, porém, o diretor de suprimentos da fábrica, se
quiser, não precisa pensar no uso a que se destinam as bombas. Mesmo o
conhecimento abstrato, uma mera noção, do resultado final é redundante e
sem dúvida irrelevante para o êxito da sua parte no processo. Numa divisão
funcional do trabalho, tudo o que alguém faz é em princípio multifinal, isto
é, pode ser combinado e integrado em mais de uma totalidade definidora de
sentido. Por si mesma, a função é desprovida de significado, e o significado
que será por fim a ela conferido não é de forma alguma preenchido pelas
ações dos seus executores. Serão “os outros” (na maioria dos casos,
anônimos e fora de alcance) que em algum momento, em alguma parte,
decidirão esse significado. “Será que os operários das indústrias químicas
produtoras de napalm se sentiriam responsáveis por bebês queimados?” —
perguntam Kren e Rappoport. “Será que esses operários teriam sequer
consciência de que outras pessoas poderiam racionalmente pensar que eles
eram responsáveis?”11 Claro que não. E não há razão burocrática por que
deveriam. A fragmentação do processo de queimar bebês numa série de
tarefas funcionais insignificantes e mutuamente separadas tornaram tal
consciência irrelevante — e extremamente difícil de alcançar. Lembrem-se
também do seguinte: são as indústrias químicas que produzem napalm, não
qualquer dos seus operários considerado individualmente…
O segundo processo responsável pelo distanciamento está intimamente
relacionado ao primeiro. A substituição da responsabilidade moral pela
técnica seria inconcebível sem a meticulosa dissecação e separação
funcional das tarefas. Pelo menos não seria concebível na mesma extensão.
A substituição tem lugar, em certo grau, já dentro da graduação puramente
linear do controle. Cada pessoa dentro da hierarquia de comando é
responsável perante o seu superior imediato e por isso está naturalmente
interessada na opinião dele e na sua aprovação do trabalho. Por mais que
essa aprovação lhe interesse, ela ainda é, embora apenas teoricamente,
consciente do que está fadado a ser o resultado final do seu trabalho. E
portanto há pelo menos uma chance abstrata de uma consciência ser medida
em relação a outra, a benevolência dos superiores confrontada com a
repulsa dos efeitos. E sempre que é possível uma comparação, também o é a
opção. Numa divisão puramente linear de comando, a responsabilidade
técnica permanece, pelo menos em tese, vulnerável. Pode ainda ser
chamada a se justificar moralmente e a competir com a consciência moral.
Um funcionário pode, por exemplo, achar que ao dar uma ordem específica seu superior excedeu a própria competência, ao passar do terreno de
interesse puramente técnico para outro carregado de significados éticos
(fuzilar soldados, por exemplo, tudo bem; já fuzilar bebês é diferente) e que
o dever de obedecer a uma ordem superior não chega ao ponto de justificar
uma coisa que o funcionário considere moralmente inaceitável. Todas essas
possibilidades teóricas desaparecem, no entanto, ou são consideravelmente
enfraquecidas quando a hierarquia linear de comando é suplementada ou
substituída pela divisão funcional e a separação de tarefas. O triunfo da
responsabilidade técnica é então completo, incondicional e, para todos os
efeitos práticos, incontestável.
A responsabilidade técnica difere da responsabilidade moral pelo fato de
esquecer que a ação é um meio para alcançar algo para além dela mesma.
Como as conexões exteriores da ação são efetivamente removidas do
campo visual, o próprio ato burocrático se torna um fim em si mesmo. Pode
ser julgado apenas pelos seus critérios intrínsecos de adequação e sucesso.
De mãos dadas com a arrogante autonomia relativa do funcionário
condicionado por sua especialização funcional, vai a distância que o separa
dos efeitos gerais do trabalho dividido, embora coordenado, da organização
como um todo. Uma vez isolados de suas longínquas consequências, a
maior parte dos atos funcionalmente especializados ou passa facilmente no
teste moral ou é moralmente indiferente. Quando desembaraçado de
preocupações morais, o ato pode ser julgado em termos racionais
inequívocos. O que importa então é se o ato foi executado de acordo com o
melhor conhecimento tecnológico disponível e se o resultado alcançou a
melhor relação custo-benefício. Os critérios são claros e fáceis de operar.
Para o nosso tema, dois efeitos desse contexto de ação burocrática são
mais importantes. Primeiro é o fato de que os talentos, conhecimentos
especializados, inventividade e dedicação dos atores, somados às
motivações pessoais que os levaram ao uso pleno dessas qualidades, podem
ser plenamente mobilizados e colocados a serviço do propósito burocrático
geral mesmo se (ou talvez porque) os atores detêm relativa autonomia
funcional em relação a esse propósito e mesmo se esse propósito não está
de acordo com a própria filosofia moral dos atores. Para colocar claramente,
o resultado é a irrelevância dos padrões morais para o sucesso técnico da
operação burocrática. O instinto artesanal, que segundo Thorstein Veblen
existe em todo ator, concentra-se inteiramente na execução adequada da
tarefa imediata. A dedicação prática à tarefa pode ser ainda melhorada pelo caráter covarde do ator e pela severidade dos seus superiores, ou pelo