Modernidade e Holocausto
Consequências morais do processo civilizador
divindade ou fonte sagrada de autoridade”)35 faz um bocado para iluminar
os fatores sociopsicológicos por trás da aterradora eficiência desse método.
O “universo de obrigação” designa os limites exteriores do território social
dentro do qual se pode colocar alguma questão moral com algum sentido.
Do outro lado da fronteira não há preceitos morais amarrando ninguém e
avaliações morais não fazem sentido. Para tornar invisível a humanidade
das vítimas é preciso apenas retirá-las do universo da obrigação.
Na visão nazista do mundo, medida por um valor superior e inconteste
dos direitos da germanidade, excluir os judeus do universo da obrigação só
era necessário para privá-los da participação na nação e comunidade do
Estado alemão. Diz outra frase pungente de Hilberg: “Quando o primeiro
servidor público escreveu numa norma do funcionalismo a primeira
definição de ‘não ariano’, nos primeiros dias de 1933, a sorte dos judeus
europeus estava selada.”36 Para induzir à cooperação (ou apenas à inação ou
indiferença) dos europeus não germânicos, era preciso mais. Despojando os
judeus de sua alemanidade, o que bastava para a SS alemã, não era
evidentemente o bastante para nações que, mesmo se gostassem das ideias
propagadas pelos novos senhores da Europa, tinham razões para temer e
ressentir-se com suas pretensões ao monopólio da virtude humana. Uma vez
que o objetivo de uma Alemanha judenfrei transformou-se na meta de uma
Europa judenfrei, a expulsão dos judeus da nação alemã tinha que ser
suplantada por sua total desumanização. Daí a ligação predileta de Frank
entre “judeus e piolhos”, a mudança de discurso expressa no transplante da
“questão judaica” forma o contexto da autodefesa racial no universo
linguístico da “autopurificação” e da “higiene política”, os cartazes com
alertas sobre o tifo nas paredes dos guetos e, por fim, a autorização dos
produtos químicos para o último ato da Deutsche Gesellschaft für
Schädlingsbekämpung — a Companhia Alemã de Fumigação.
Consequências morais do processo civilizador
Embora estejam disponíveis outras imagens sociológicas do processo
civilizador, a mais comum (e amplamente aceita) é a que impõe como seus
pontos centrais a supressão de atos irracionais e essencialmente antissociais
e a gradual mas persistente eliminação da violência da vida social (mais
precisamente, a concentração da violência sob controle do Estado, onde é usada para guardar os perímetros da comunidade nacional e as condições da
ordem social). O que funde os dois pontos centrais num só é a visão da
sociedade civilizada — pelo menos na nossa forma ocidental moderna —
como, primeiro e antes de mais nada, uma força moral; como um sistema de
instituições que cooperam e se completam mutuamente na imposição de
uma ordem normativa e do império da lei, que por sua vez preservam
condições de paz social e segurança individual mal defendidas em cenários
pré-civilizados.
Esta visão não é necessariamente enganosa. À luz do Holocausto, no
entanto, certamente ela parece parcial. Ao mesmo tempo que abre a exame
importantes tendências da história recente, exclui da discussão outras não
menos cruciais. Concentrando-se numa faceta do processo histórico, ela
traça uma linha divisória arbitrária entre a norma e a anormalidade. Ao tirar
a legitimidade de alguns aspectos recorrentes/elásticos da civilização, ela
falsamente sugere que são de natureza casual e transitória, ao mesmo tempo
encobrindo a formidável ressonância entre os seus atributos mais eminentes
e as pressuposições normativas da modernidade. Em outras palavras, ela
desvia a atenção da permanência do potencial alternativo e destrutivo do
processo civilizador e efetivamente silencia e marginaliza a crítica que
insiste na duplicidade do moderno acordo social.
Proponho que uma importante lição do Holocausto está na necessidade
de tratar a crítica seriamente e assim expandir o modelo teórico do processo
civilizador, de forma a incluir sua tendência a degradar, censurar e
deslegitimizar as motivações éticas da ação social. Precisamos avaliar a
evidência de que o processo civilizador é, entre outras coisas, um processo
de despojar a avaliação moral do uso e exibição da violência e emancipar
os anseios de racionalidade da interferência de normas éticas e inibições
morais. Como a promoção da racionalidade à exclusão de critérios
alternativos de ação, e em particular a tendência a subordinar o uso da
violência a cálculos racionais, foi de há muito reconhecida como uma
característica da civilização moderna, fenômenos como o Holocausto
devem ser reconhecidos como resultados legítimos da tendência
civilizadora e seu potencial constante.
Lida de novo, com o benefício da percepção tardia, a explicação de
Weber sobre as condições e o mecanismo de racionalização revela essas
importantes conexões, no entanto até aqui subestimadas. Vemos mais
claramente que as condições de gestão racional do negócio — como a notória separação entre a família e o trabalho ou entre renda privada e erário
público — funcionam ao mesmo tempo como fatores poderosos em isolar
do intercâmbio com processos governados por outras normas (por
definição, irracionais) a ação racional orientada para o fim e assim torná-la
imune ao impacto coercivo dos postulados de assistência recíproca,
solidariedade, respeito mútuo etc., que se apoiam nas práticas das
organizações não empresariais. Esse feito geral da tendência
racionalizadora foi codificado e institucionalizado, sem qualquer surpresa,
na burocracia moderna. Submetido à mesma releitura retrospectiva, revela o
silenciamento da moralidade como sua maior preocupação; como, de fato, a
condição fundamental do seu sucesso como instrumento de coordenação
racional da ação. E também revela sua capacidade de gerar a solução tipo
Holocausto enquanto persegue, de forma impecavelmente racional, sua
atividade diária de resolução de problemas.
Qualquer reescritura da teoria do processo civilizador nas linhas
sugeridas envolveria por necessidade uma mudança na própria sociologia.
A natureza e estilo da sociologia foram harmonizados à mesmíssima
sociedade moderna que ela teorizou e investigou; a sociologia
comprometeu-se desde seu surgimento num relacionamento mimético com
seu objeto — ou melhor, com a imaginação desse objeto que construiu e
aceitou como moldura do seu próprio discurso. E assim a sociologia
promoveu, como seus próprios critérios de adequação, os mesmos
princípios de ação racional que visualizou como constitutivos de seu objeto.
Também promoveu, como regras de ligação do próprio discurso, a
inadmissibilidade de problemáticas éticas sob qualquer forma que não a da
ideologia apoiada na comunidade e portanto heterogênea ao discurso
sociológico (científico, racional). Expressões como “a santidade da vida
humana” soam tão estranhas num seminário de sociologia como nas salas
assépticas e sem fumaça de um escritório burocrático.
Ao observar tais princípios na sua prática profissional, a sociologia não
fez mais que participar da cultura científica. Como parte e parcela do
processo racionalizante, essa cultura não pode escapar a um segundo olhar.
O silêncio moral autoimposto da ciência revelou, afinal, alguns dos seus
aspectos menos divulgados quando a questão da produção e destinação dos
cadáveres em Auschwitz foi enunciada como um “problema médico”. Não
é fácil descartar as advertências de Franklin M. Littell sobre a crise de
credibilidade da universidade moderna: “Em que espécie de escola de medicina se formaram Mengele e colegas? Que departamentos de
antropologia prepararam a equipe do ‘Instituto de Hereditariedade
Ancestral’ da Universidade de Estrasburgo?”37 Para não especular a quem
serve essa carapuça, para evitar a tentação de descartar essas questões como
de mera importância histórica, não é preciso ir além da análise que Colin
Gray faz do impulso por trás da corrida nuclear contemporânea:
“Necessariamente, os cientistas e tecnólogos de cada lado estão ‘correndo’
para diminuir sua própria ignorância (o inimigo não é a tecnologia
soviética; são as incógnitas físicas que atraem a atenção científica)…
Equipes altamente motivadas, tecnologicamente competentes e
adequadamente fundamentadas de pesquisadores produzirão
inevitavelmente uma série infindável de ideias novas em folha (ou
aperfeiçoadas) sobre armas.” 38
Uma primeira versão deste capítulo foi publicada no British Journal of
Sociology, em dezembro de 1988.
* Jano, antigo deus romano de dupla face ao qual se consagrou o mês de janeiro. (N.T.)
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