Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 7 de 52

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Modernidade e Holocausto

Consequências morais do processo civilizador

divindade ou fonte sagrada de autoridade”)35 faz um bocado para iluminar

os fatores sociopsicológicos por trás da aterradora eficiência desse método.

O “universo de obrigação” designa os limites exteriores do território social

dentro do qual se pode colocar alguma questão moral com algum sentido.

Do outro lado da fronteira não há preceitos morais amarrando ninguém e

avaliações morais não fazem sentido. Para tornar invisível a humanidade

das vítimas é preciso apenas retirá-las do universo da obrigação.

Na visão nazista do mundo, medida por um valor superior e inconteste

dos direitos da germanidade, excluir os judeus do universo da obrigação só

era necessário para privá-los da participação na nação e comunidade do

Estado alemão. Diz outra frase pungente de Hilberg: “Quando o primeiro

servidor público escreveu numa norma do funcionalismo a primeira

definição de ‘não ariano’, nos primeiros dias de 1933, a sorte dos judeus

europeus estava selada.”36 Para induzir à cooperação (ou apenas à inação ou

indiferença) dos europeus não germânicos, era preciso mais. Despojando os

judeus de sua alemanidade, o que bastava para a SS alemã, não era

evidentemente o bastante para nações que, mesmo se gostassem das ideias

propagadas pelos novos senhores da Europa, tinham razões para temer e

ressentir-se com suas pretensões ao monopólio da virtude humana. Uma vez

que o objetivo de uma Alemanha judenfrei transformou-se na meta de uma

Europa judenfrei, a expulsão dos judeus da nação alemã tinha que ser

suplantada por sua total desumanização. Daí a ligação predileta de Frank

entre “judeus e piolhos”, a mudança de discurso expressa no transplante da

“questão judaica” forma o contexto da autodefesa racial no universo

linguístico da “autopurificação” e da “higiene política”, os cartazes com

alertas sobre o tifo nas paredes dos guetos e, por fim, a autorização dos

produtos químicos para o último ato da Deutsche Gesellschaft für

Schädlingsbekämpung — a Companhia Alemã de Fumigação.

 

Consequências morais do processo civilizador

 

Embora estejam disponíveis outras imagens sociológicas do processo

civilizador, a mais comum (e amplamente aceita) é a que impõe como seus

pontos centrais a supressão de atos irracionais e essencialmente antissociais

e a gradual mas persistente eliminação da violência da vida social (mais

precisamente, a concentração da violência sob controle do Estado, onde é usada para guardar os perímetros da comunidade nacional e as condições da

ordem social). O que funde os dois pontos centrais num só é a visão da

sociedade civilizada — pelo menos na nossa forma ocidental moderna —

como, primeiro e antes de mais nada, uma força moral; como um sistema de

instituições que cooperam e se completam mutuamente na imposição de

uma ordem normativa e do império da lei, que por sua vez preservam

condições de paz social e segurança individual mal defendidas em cenários

pré-civilizados.

Esta visão não é necessariamente enganosa. À luz do Holocausto, no

entanto, certamente ela parece parcial. Ao mesmo tempo que abre a exame

importantes tendências da história recente, exclui da discussão outras não

menos cruciais. Concentrando-se numa faceta do processo histórico, ela

traça uma linha divisória arbitrária entre a norma e a anormalidade. Ao tirar

a legitimidade de alguns aspectos recorrentes/elásticos da civilização, ela

falsamente sugere que são de natureza casual e transitória, ao mesmo tempo

encobrindo a formidável ressonância entre os seus atributos mais eminentes

e as pressuposições normativas da modernidade. Em outras palavras, ela

desvia a atenção da permanência do potencial alternativo e destrutivo do

processo civilizador e efetivamente silencia e marginaliza a crítica que

insiste na duplicidade do moderno acordo social.

Proponho que uma importante lição do Holocausto está na necessidade

de tratar a crítica seriamente e assim expandir o modelo teórico do processo

civilizador, de forma a incluir sua tendência a degradar, censurar e

deslegitimizar as motivações éticas da ação social. Precisamos avaliar a

evidência de que o processo civilizador é, entre outras coisas, um processo

de despojar a avaliação moral do uso e exibição da violência e emancipar

os anseios de racionalidade da interferência de normas éticas e inibições

morais. Como a promoção da racionalidade à exclusão de critérios

alternativos de ação, e em particular a tendência a subordinar o uso da

violência a cálculos racionais, foi de há muito reconhecida como uma

característica da civilização moderna, fenômenos como o Holocausto

devem ser reconhecidos como resultados legítimos da tendência

civilizadora e seu potencial constante.

Lida de novo, com o benefício da percepção tardia, a explicação de

Weber sobre as condições e o mecanismo de racionalização revela essas

importantes conexões, no entanto até aqui subestimadas. Vemos mais

claramente que as condições de gestão racional do negócio — como a notória separação entre a família e o trabalho ou entre renda privada e erário

público — funcionam ao mesmo tempo como fatores poderosos em isolar

do intercâmbio com processos governados por outras normas (por

definição, irracionais) a ação racional orientada para o fim e assim torná-la

imune ao impacto coercivo dos postulados de assistência recíproca,

solidariedade, respeito mútuo etc., que se apoiam nas práticas das

organizações não empresariais. Esse feito geral da tendência

racionalizadora foi codificado e institucionalizado, sem qualquer surpresa,

na burocracia moderna. Submetido à mesma releitura retrospectiva, revela o

silenciamento da moralidade como sua maior preocupação; como, de fato, a

condição fundamental do seu sucesso como instrumento de coordenação

racional da ação. E também revela sua capacidade de gerar a solução tipo

Holocausto enquanto persegue, de forma impecavelmente racional, sua

atividade diária de resolução de problemas.

Qualquer reescritura da teoria do processo civilizador nas linhas

sugeridas envolveria por necessidade uma mudança na própria sociologia.

A natureza e estilo da sociologia foram harmonizados à mesmíssima

sociedade moderna que ela teorizou e investigou; a sociologia

comprometeu-se desde seu surgimento num relacionamento mimético com

seu objeto — ou melhor, com a imaginação desse objeto que construiu e

aceitou como moldura do seu próprio discurso. E assim a sociologia

promoveu, como seus próprios critérios de adequação, os mesmos

princípios de ação racional que visualizou como constitutivos de seu objeto.

Também promoveu, como regras de ligação do próprio discurso, a

inadmissibilidade de problemáticas éticas sob qualquer forma que não a da

ideologia apoiada na comunidade e portanto heterogênea ao discurso

sociológico (científico, racional). Expressões como “a santidade da vida

humana” soam tão estranhas num seminário de sociologia como nas salas

assépticas e sem fumaça de um escritório burocrático.

Ao observar tais princípios na sua prática profissional, a sociologia não

fez mais que participar da cultura científica. Como parte e parcela do

processo racionalizante, essa cultura não pode escapar a um segundo olhar.

O silêncio moral autoimposto da ciência revelou, afinal, alguns dos seus

aspectos menos divulgados quando a questão da produção e destinação dos

cadáveres em Auschwitz foi enunciada como um “problema médico”. Não

é fácil descartar as advertências de Franklin M. Littell sobre a crise de

credibilidade da universidade moderna: “Em que espécie de escola de medicina se formaram Mengele e colegas? Que departamentos de

antropologia prepararam a equipe do ‘Instituto de Hereditariedade

Ancestral’ da Universidade de Estrasburgo?”37 Para não especular a quem

serve essa carapuça, para evitar a tentação de descartar essas questões como

de mera importância histórica, não é preciso ir além da análise que Colin

Gray faz do impulso por trás da corrida nuclear contemporânea:

“Necessariamente, os cientistas e tecnólogos de cada lado estão ‘correndo’

para diminuir sua própria ignorância (o inimigo não é a tecnologia

soviética; são as incógnitas físicas que atraem a atenção científica)…

Equipes altamente motivadas, tecnologicamente competentes e

adequadamente fundamentadas de pesquisadores produzirão

inevitavelmente uma série infindável de ideias novas em folha (ou

aperfeiçoadas) sobre armas.” 38

 

Uma primeira versão deste capítulo foi publicada no British Journal of

Sociology, em dezembro de 1988.

 

* Jano, antigo deus romano de dupla face ao qual se consagrou o mês de janeiro. (N.T.)

 

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