Modernidade e Holocausto
Incompatibilidade judaica, do cristianismo à modernidade
fricção. Elucidavam regras de comportamento que, se observadas
estreitamente, podiam garantir a coexistência pacífica numa situação
potencialmente dominada pelo conflito e explosiva. Como Simmel
explicou, a institucionalização ritualística transformou o conflito num
instrumento de socialização e coesão social. Na medida em que sejam
efetivas, as práticas de separação não precisam do apoio de uma atitude
hostil. A redução do comércio a trocas estritamente ritualizadas exigia
apenas devoção às regras e uma repulsa treinada a suas transgressões.
Também exigia, certamente, a aceitação pelos alvos da separação de um
status inferior àquele da comunidade anfitriã e sua anuência à autoridade do
anfitrião para definir, reforçar ou alterar esse status. Ao longo da maior
parte da história da diáspora, porém, a lei foi em geral uma rede de
privilégios e esbulhos, não se ouvindo falar na ideia de igualdade legal e,
particularmente, social, ou pelo menos ela não chegou a ser considerada
como proposta prática. Até o advento da modernidade, a separação dos
judeus foi pouco mais que um exemplo da separação universal das unidades
da preordenada cadeia do ser.
Incompatibilidade judaica, do cristianismo à modernidade
Isso não significa, claro, que a separação dos judeus não foi escolhida
dentre outros exemplos de segregação e teorizada como um caso especial de
significado inteiramente próprio. Para as elites culturais da Europa pré-
moderna — clero, teólogos e filósofos cristãos — ocupadas, como todas as
elites culturais, com o sentido da descoberta ao acaso e com a lógica da
espontaneidade na experiência de vida, os judeus eram uns esquisitos; uma
entidade que desafiava a clareza cognitiva e a harmonia moral do universo.
Não pertencem nem ao grupo dos gentios, os ainda não convertidos, nem ao
dos hereges caídos em desgraça, que marcavam as duas fronteiras
zelosamente defendidas e defensáveis da cristandade. Os judeus estavam,
por assim dizer, incomodamente em cima do muro, desse modo
comprometendo sua inexpugnabilidade. Ao mesmo tempo, eram os
veneráveis ancestrais do cristianismo e seus odiosos e execráveis detratores.
Sua rejeição dos ensinamentos cristãos não podia ser descartada como uma
manifestação de ignorância pagã sem perigo sério para a verdade do
cristianismo. Nem podia ser desprezada como — em princípio — um erro corrigível de uma ovelha perdida. Os judeus não eram simplesmente infiéis
pré ou pós-conversão, mas pessoas que de plena consciência recusavam-se
a aceitar a verdade quando tinham uma chance de admiti-la. Sua presença
constituía um permanente desafio à certeza da evidência cristã. O desafio só
podia ser rejeitado ou pelo menos se tornar menos perigoso explicando-se a
obstinação judaica por uma premeditação criminosa, más intenções e
corrupção moral. Acrescentemos um fator que vai aparecer volta e meia na
nossa argumentação como um dos aspectos mais salientes e básicos do
antissemitismo: os judeus eram, por assim dizer, coextensivos e coterminais
com o cristianismo. Por essa razão, eram diferentes de todas as demais
partes perturbadoras e não assimiladas do mundo cristão. Ao contrário de
qualquer outra heresia, eles não constituíam nem um problema local nem
um episódio com começo claramente definido e, portanto, felizmente, com
um fim. Em vez disso, eram concomitantes ao cristianismo de forma
constante e onipresente, quase um alter ego da Igreja de Cristo.
A coexistência da cristandade com os judeus não foi, portanto, um caso
de conflito e inimizade. Foi certamente isso, mas também mais. O
cristianismo não podia se reproduzir e certamente não podia reproduzir sua
dominação ecumênica sem resguardar e reforçar as bases do isolamento
judeu — a visão de si mesmo como herdeiro e conquistador de Israel. A
autoidentidade do cristianismo era, com efeito, o isolamento dos judeus. Ele
nascera da rejeição por parte dos judeus. O cristianismo só podia teorizar
sua própria existência como oposição contínua aos judeus. A permanente
teimosia judaica era a evidência de que a missão cristã ainda estava por
concluir. A admissão judaica do erro, a rendição à verdade cristã e, quem
sabe, uma futura conversão em massa serviam como modelo do triunfo
decisivo do cristianismo. De novo à maneira de um verdadeiro alter ego, o
cristianismo atribuiu aos judeus uma missão escatológica, que exagerou a
visibilidade e importância dos judeus, emprestando-lhes poderoso e sinistro
fascínio que de outra forma dificilmente possuiriam.
A presença dos judeus na cristandade, no seu território e na sua história,
não foi portanto nem marginal nem contingente. Sua característica não era
igual à de nenhum outro grupo minoritário; era um aspecto da
autoidentidade cristã. A teoria cristã dos judeus ia além, pois, da
generalização das práticas de exclusão; era mais do que uma tentativa de
sistematização daquela vaga e difusa experiência de diferenciação que se
origina de, e informa, práticas de separação tipo casta. Mais do que uma reflexão sobre as origens populares, intercâmbios amistosos ou hostis, a
teoria cristã dos judeus era sujeita a uma lógica diferente — a da
autorreprodução da Igreja e sua dominação ecumênica. Daí a relativa
autonomia da “questão judaica” no tocante à experiência popular nos
campos social, econômico e cultural. Daí também a relativa facilidade com
a qual essa questão podia ser isolada do contexto da vida diária e tornada
imune ao teste da experiência cotidiana. Para os hospedeiros cristãos, os
judeus eram simultaneamente objetos concretos do intercâmbio diário e
exemplares de uma categoria definida independentemente de tal
intercâmbio. A última característica dos judeus não era nem indispensável
nem inevitável do ponto de vista da primeira. Precisamente por essa razão
ela podia ser separada de forma relativamente fácil da primeira e usada
como um recurso em ações só vagamente, se é que de alguma forma,
ligadas a práticas cotidianas. Na teoria da Igreja sobre os judeus, o
antissemitismo assumiu uma forma na qual “pode existir quase
independente da real situação dos judeus na sociedade… O mais
extraordinário de tudo é que pode ser encontrado entre pessoas que nunca
puseram os olhos num judeu e em países onde não existem judeus há
séculos”.9 Essa forma mostrou-se capaz de persistir por muito tempo após o
declínio do domínio espiritual da Igreja e do seu domínio sobre a visão
popular de mundo. A idade moderna já herdou “o judeu” firmemente
separado dos homens e mulheres judeus que habitavam suas cidades e
aldeias. Tendo desempenhado com sucesso o papel de alter ego da Igreja,
ele estava pronto para ser lançado em papel semelhante em relação aos
novos agentes seculares da integração social.
O aspecto mais espetacular e fértil do conceito de “judeu” tal como
construído pelas práticas da Igreja de Cristo era sua inerente ausência de
lógica. O conceito era carregado de elementos que não combinavam nem
podiam ser reconciliados entre si. A simples incoerência de sua mistura
marcava a mítica entidade que se supunha poder reconciliá-los como
poderosa força demoníaca, força ao mesmo tempo intensamente fascinante
e repulsiva e, acima de tudo, assustadora. O judeu conceitual era o campo
de batalha em que se travava a interminável luta pela autoidentidade da
Igreja, pela clareza de suas fronteiras temporais e espaciais. O judeu
conceitual era uma entidade semanticamente sobrecarregada, abrangendo e
misturando significados que deveriam ser mantidos em separado, e por essa
razão um adversário natural de qualquer força preocupada em traçar fronteiras e mantê-las estanques, seguras. O judeu conceitual era visqueux
(no sentido sartriano), repugnante (no sentido de Mary Douglas) — imagem
construída para acomodar e desafiar a ordem das coisas, como o próprio
resumo e encarnação de tal desafio (escrevi extensamente sobre a relação
mútua entre a atividade cultural universal de traçar fronteiras e a produção
igualmente universal da repugnância no terceiro capítulo de Culture as
Praxis). Construído dessa maneira, o judeu conceitual desempenhou uma
função de importância primordial; ele visualizava as horríveis
consequências da transgressão de fronteiras, de não permanecer
inteiramente a coberto de qualquer conduta que não a de lealdade
incondicional e opção inequívoca; ele era o protótipo e arquétipo de toda
inconformidade, heterodoxia, anomalia e aberração. Como evidência da
sinistra e perturbadora exorbitância do desvio, o judeu conceitual
desacreditava de antemão a alternativa àquela ordem de coisas definida,
narrada e praticada pela Igreja. Por essa razão, era um guarda de fronteira
altamente confiável daquela ordem de coisas. O judeu conceitual tinha uma
mensagem: a alternativa a essa ordem, aqui e agora, não é outra ordem,
mas o caos e a devastação.
Acredito que a produção da incompatibilidade judaica como subproduto
da autoconstituição e autorreprodução da Igreja Cristã foi uma importante
causa do destaque dos judeus dentre aqueles Demônios Interiores Europeus
que Norman Cohn descreveu de forma tão clara no seu memorável estudo
da caça europeia às bruxas. Descoberta bem notável de Cohn (e que
encontrou ampla confirmação em inúmeros outros estudos do problema) é a
aparente falta de correlação entre a intensidade do medo de bruxas e os
medos irracionais em geral, de um lado, e os avanços do conhecimento
científico e o nível geral da racionalidade cotidiana, de outro. Por sinal, a
explosão do método científico moderno e os grandes passos rumo à
racionalização da vida cotidiana nos primeiros tempos da história moderna
coincidiram com o mais feroz e depravado episódio de caça às bruxas na
história. Parece que a irracionalidade dos mitos de bruxaria e da caça às
bruxas teve muito pouco a ver com o retardamento da Razão. Estava, por
outro lado, mais intimamente ligado à intensidade das ansiedades e tensões
provocadas ou geradas pelo colapso do ancien régime e o advento da ordem
moderna. As velhas garantias desapareceram, enquanto as novas emergiam
com lentidão e sem probabilidade de alcançar a solidez das antigas.
Diferenças seculares foram ignoradas, distâncias seguras sumiram, estranhos saíram de suas reservas e mudaram-se para a casa ao lado,