Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 10 de 52

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Modernidade e Holocausto

Incompatibilidade judaica, do cristianismo à modernidade

fricção. Elucidavam regras de comportamento que, se observadas

estreitamente, podiam garantir a coexistência pacífica numa situação

potencialmente dominada pelo conflito e explosiva. Como Simmel

explicou, a institucionalização ritualística transformou o conflito num

instrumento de socialização e coesão social. Na medida em que sejam

efetivas, as práticas de separação não precisam do apoio de uma atitude

hostil. A redução do comércio a trocas estritamente ritualizadas exigia

apenas devoção às regras e uma repulsa treinada a suas transgressões.

Também exigia, certamente, a aceitação pelos alvos da separação de um

status inferior àquele da comunidade anfitriã e sua anuência à autoridade do

anfitrião para definir, reforçar ou alterar esse status. Ao longo da maior

parte da história da diáspora, porém, a lei foi em geral uma rede de

privilégios e esbulhos, não se ouvindo falar na ideia de igualdade legal e,

particularmente, social, ou pelo menos ela não chegou a ser considerada

como proposta prática. Até o advento da modernidade, a separação dos

judeus foi pouco mais que um exemplo da separação universal das unidades

da preordenada cadeia do ser.

 

Incompatibilidade judaica, do cristianismo à modernidade

 

Isso não significa, claro, que a separação dos judeus não foi escolhida

dentre outros exemplos de segregação e teorizada como um caso especial de

significado inteiramente próprio. Para as elites culturais da Europa pré-

moderna — clero, teólogos e filósofos cristãos — ocupadas, como todas as

elites culturais, com o sentido da descoberta ao acaso e com a lógica da

espontaneidade na experiência de vida, os judeus eram uns esquisitos; uma

entidade que desafiava a clareza cognitiva e a harmonia moral do universo.

Não pertencem nem ao grupo dos gentios, os ainda não convertidos, nem ao

dos hereges caídos em desgraça, que marcavam as duas fronteiras

zelosamente defendidas e defensáveis da cristandade. Os judeus estavam,

por assim dizer, incomodamente em cima do muro, desse modo

comprometendo sua inexpugnabilidade. Ao mesmo tempo, eram os

veneráveis ancestrais do cristianismo e seus odiosos e execráveis detratores.

Sua rejeição dos ensinamentos cristãos não podia ser descartada como uma

manifestação de ignorância pagã sem perigo sério para a verdade do

cristianismo. Nem podia ser desprezada como — em princípio — um erro corrigível de uma ovelha perdida. Os judeus não eram simplesmente infiéis

pré ou pós-conversão, mas pessoas que de plena consciência recusavam-se

a aceitar a verdade quando tinham uma chance de admiti-la. Sua presença

constituía um permanente desafio à certeza da evidência cristã. O desafio só

podia ser rejeitado ou pelo menos se tornar menos perigoso explicando-se a

obstinação judaica por uma premeditação criminosa, más intenções e

corrupção moral. Acrescentemos um fator que vai aparecer volta e meia na

nossa argumentação como um dos aspectos mais salientes e básicos do

antissemitismo: os judeus eram, por assim dizer, coextensivos e coterminais

com o cristianismo. Por essa razão, eram diferentes de todas as demais

partes perturbadoras e não assimiladas do mundo cristão. Ao contrário de

qualquer outra heresia, eles não constituíam nem um problema local nem

um episódio com começo claramente definido e, portanto, felizmente, com

um fim. Em vez disso, eram concomitantes ao cristianismo de forma

constante e onipresente, quase um alter ego da Igreja de Cristo.

A coexistência da cristandade com os judeus não foi, portanto, um caso

de conflito e inimizade. Foi certamente isso, mas também mais. O

cristianismo não podia se reproduzir e certamente não podia reproduzir sua

dominação ecumênica sem resguardar e reforçar as bases do isolamento

judeu — a visão de si mesmo como herdeiro e conquistador de Israel. A

autoidentidade do cristianismo era, com efeito, o isolamento dos judeus. Ele

nascera da rejeição por parte dos judeus. O cristianismo só podia teorizar

sua própria existência como oposição contínua aos judeus. A permanente

teimosia judaica era a evidência de que a missão cristã ainda estava por

concluir. A admissão judaica do erro, a rendição à verdade cristã e, quem

sabe, uma futura conversão em massa serviam como modelo do triunfo

decisivo do cristianismo. De novo à maneira de um verdadeiro alter ego, o

cristianismo atribuiu aos judeus uma missão escatológica, que exagerou a

visibilidade e importância dos judeus, emprestando-lhes poderoso e sinistro

fascínio que de outra forma dificilmente possuiriam.

A presença dos judeus na cristandade, no seu território e na sua história,

não foi portanto nem marginal nem contingente. Sua característica não era

igual à de nenhum outro grupo minoritário; era um aspecto da

autoidentidade cristã. A teoria cristã dos judeus ia além, pois, da

generalização das práticas de exclusão; era mais do que uma tentativa de

sistematização daquela vaga e difusa experiência de diferenciação que se

origina de, e informa, práticas de separação tipo casta. Mais do que uma reflexão sobre as origens populares, intercâmbios amistosos ou hostis, a

teoria cristã dos judeus era sujeita a uma lógica diferente — a da

autorreprodução da Igreja e sua dominação ecumênica. Daí a relativa

autonomia da “questão judaica” no tocante à experiência popular nos

campos social, econômico e cultural. Daí também a relativa facilidade com

a qual essa questão podia ser isolada do contexto da vida diária e tornada

imune ao teste da experiência cotidiana. Para os hospedeiros cristãos, os

judeus eram simultaneamente objetos concretos do intercâmbio diário e

exemplares de uma categoria definida independentemente de tal

intercâmbio. A última característica dos judeus não era nem indispensável

nem inevitável do ponto de vista da primeira. Precisamente por essa razão

ela podia ser separada de forma relativamente fácil da primeira e usada

como um recurso em ações só vagamente, se é que de alguma forma,

ligadas a práticas cotidianas. Na teoria da Igreja sobre os judeus, o

antissemitismo assumiu uma forma na qual “pode existir quase

independente da real situação dos judeus na sociedade… O mais

extraordinário de tudo é que pode ser encontrado entre pessoas que nunca

puseram os olhos num judeu e em países onde não existem judeus há

séculos”.9 Essa forma mostrou-se capaz de persistir por muito tempo após o

declínio do domínio espiritual da Igreja e do seu domínio sobre a visão

popular de mundo. A idade moderna já herdou “o judeu” firmemente

separado dos homens e mulheres judeus que habitavam suas cidades e

aldeias. Tendo desempenhado com sucesso o papel de alter ego da Igreja,

ele estava pronto para ser lançado em papel semelhante em relação aos

novos agentes seculares da integração social.

O aspecto mais espetacular e fértil do conceito de “judeu” tal como

construído pelas práticas da Igreja de Cristo era sua inerente ausência de

lógica. O conceito era carregado de elementos que não combinavam nem

podiam ser reconciliados entre si. A simples incoerência de sua mistura

marcava a mítica entidade que se supunha poder reconciliá-los como

poderosa força demoníaca, força ao mesmo tempo intensamente fascinante

e repulsiva e, acima de tudo, assustadora. O judeu conceitual era o campo

de batalha em que se travava a interminável luta pela autoidentidade da

Igreja, pela clareza de suas fronteiras temporais e espaciais. O judeu

conceitual era uma entidade semanticamente sobrecarregada, abrangendo e

misturando significados que deveriam ser mantidos em separado, e por essa

razão um adversário natural de qualquer força preocupada em traçar fronteiras e mantê-las estanques, seguras. O judeu conceitual era visqueux

(no sentido sartriano), repugnante (no sentido de Mary Douglas) — imagem

construída para acomodar e desafiar a ordem das coisas, como o próprio

resumo e encarnação de tal desafio (escrevi extensamente sobre a relação

mútua entre a atividade cultural universal de traçar fronteiras e a produção

igualmente universal da repugnância no terceiro capítulo de Culture as

Praxis). Construído dessa maneira, o judeu conceitual desempenhou uma

função de importância primordial; ele visualizava as horríveis

consequências da transgressão de fronteiras, de não permanecer

inteiramente a coberto de qualquer conduta que não a de lealdade

incondicional e opção inequívoca; ele era o protótipo e arquétipo de toda

inconformidade, heterodoxia, anomalia e aberração. Como evidência da

sinistra e perturbadora exorbitância do desvio, o judeu conceitual

desacreditava de antemão a alternativa àquela ordem de coisas definida,

narrada e praticada pela Igreja. Por essa razão, era um guarda de fronteira

altamente confiável daquela ordem de coisas. O judeu conceitual tinha uma

mensagem: a alternativa a essa ordem, aqui e agora, não é outra ordem,

mas o caos e a devastação.

Acredito que a produção da incompatibilidade judaica como subproduto

da autoconstituição e autorreprodução da Igreja Cristã foi uma importante

causa do destaque dos judeus dentre aqueles Demônios Interiores Europeus

que Norman Cohn descreveu de forma tão clara no seu memorável estudo

da caça europeia às bruxas. Descoberta bem notável de Cohn (e que

encontrou ampla confirmação em inúmeros outros estudos do problema) é a

aparente falta de correlação entre a intensidade do medo de bruxas e os

medos irracionais em geral, de um lado, e os avanços do conhecimento

científico e o nível geral da racionalidade cotidiana, de outro. Por sinal, a

explosão do método científico moderno e os grandes passos rumo à

racionalização da vida cotidiana nos primeiros tempos da história moderna

coincidiram com o mais feroz e depravado episódio de caça às bruxas na

história. Parece que a irracionalidade dos mitos de bruxaria e da caça às

bruxas teve muito pouco a ver com o retardamento da Razão. Estava, por

outro lado, mais intimamente ligado à intensidade das ansiedades e tensões

provocadas ou geradas pelo colapso do ancien régime e o advento da ordem

moderna. As velhas garantias desapareceram, enquanto as novas emergiam

com lentidão e sem probabilidade de alcançar a solidez das antigas.

Diferenças seculares foram ignoradas, distâncias seguras sumiram, estranhos saíram de suas reservas e mudaram-se para a casa ao lado,