Modernidade e Holocausto
O grupo arco-íris
demarcação de fronteiras, não de contestação de fronteiras. Por tudo isso,
ele desafia uma explicação em termos de choque casual de fatores locais.
Sua incrível capacidade de servir a tantas preocupações e objetivos
diferentes e sem mútua relação está enraizada precisamente na sua
universalidade, extemporaneidade e extraterritorialidade únicas. Serve tão
bem a tantas questões locais porque não está ligado de forma causal a
nenhuma. A adaptação do judeu conceitual às circunstâncias envolvendo
diferentes contenciosos, muitas vezes contraditórios entre si mas sempre
inflamados, exacerbou continuamente sua incoerência inata. Isso o tornou,
contudo, ainda mais adequado e convincente como explicação, aumentando,
por assim dizer, sua potência demoníaca. De nenhuma outra categoria social
do Ocidente poderia ser dito o que Leo Pinsker escreveu a respeito dos
judeus em 1882: “Para os vivos, o judeu é um morto; para os nativos, um
estranho errante; para os pobres e explorados, um milionário; para os
patriotas, um apátrida.” 10 Ou o que se disse novamente, de forma atualizada
mas praticamente inalterada, em 1946: “O judeu poderia ser definido como
a encarnação de tudo que causa ressentimento, medo ou desprezo. Era
portador do bolchevismo, mas, de modo bem curioso, ao mesmo tempo
representava o espírito liberal da podre democracia ocidental.
Economicamente, era tanto capitalista quanto socialista. Era acusado de
indolente pacifismo, mas, por estranha coincidência, também era o eterno
instigador das guerras.” 11 Ou mesmo o que W.D. Rubinstein escreveu
recentemente com referência a apenas uma das inúmeras dimensões da
viscosidade judaica: a combinação do antissemitismo voltado para a massa
judaica “com essas variantes do antissemitismo voltadas para a elite judaica
pode ter emprestado ao antissemitismo europeu sua virulência peculiar:
havia ressentimentos contra outros grupos na qualidade de elites ou massas,
mas nos dois casos talvez só contra os judeus”.12
O grupo arco-íris
Anna Zuk, da Universidade de Lublin, sugeriu recentemente que os judeus
podem ser considerados uma “classe móvel”, “uma vez que são motivo de
emoções que os grupos de posição social mais elevada geralmente nutrem
pelas classes inferiores e, inversamente, que os estratos mais baixos nutrem
pelos grupos de status social mais elevado”.13 Ela examina em detalhe esse choque de perspectivas cognitivas na Polônia do século XVIII, que trata
como exemplo de um fenômeno sociológico mais geral de grande
importância para a compreensão do antissemitismo. No último século antes
da divisão, os judeus poloneses eram de modo geral empregados da nobreza
e dos pequenos fidalgos. Executavam todo tipo de funções públicas
altamente impopulares que o poder político e econômico da nobreza
fundiária requeria, como a coleta de rendas e administrar a distribuição da
produção camponesa, atuando como “intermediários” e, em termos
psicossociais, como um escudo dos verdadeiros senhores da terra. Os
judeus adequavam-se a esse papel melhor que qualquer outra categoria,
uma vez que não aspiravam (não podiam aspirar) à ascensão social que seu
importante papel poderia oferecer. Impossibilitados de competir social e
politicamente com seus senhores, buscavam então recompensas meramente
financeiras. Daí não apenas estarem política e socialmente abaixo dos
senhores, mas condenados a permanecer nessa posição inferior. Os senhores
podiam tratá-los e os tratavam como a todos os demais funcionários das
classes inferiores: com desprezo social e aversão cultural. A imagem que a
nobreza fazia dos judeus não diferia do estereótipo geral dos socialmente
inferiores. Como os camponeses e o povinho urbano, os judeus eram vistos
pelos fidalgos como incivilizados, sujos, ignorantes e avaros. Como outros
plebeus, eram mantidos à distância. Uma vez que, devido a suas funções
econômicas, algum contato não podia ser evitado, as regras de sua
segregação social eram observadas de forma ainda mais meticulosa e
anunciadas de modo mais explícito e com maior precisão — e no geral
recebiam mais atenção que outras relações de classe que não ocasionavam
qualquer ambiguidade e assim podiam ser perpetuadas sem problemas.
Para os camponeses e o povo das cidades, no entanto, os judeus tinham
uma imagem inteiramente diferente. O serviço que prestavam aos senhores
da terra e exploradores dos produtores primários era, afinal, não apenas
econômico, mas protetor; eles isolavam a nobreza e a fidalguia da ira e da
fúria popular. Em vez de buscar seu verdadeiro alvo, o descontente parava e
descarregava em cima do intermediário. Para as classes inferiores, os judeus
eram o inimigo — eram os únicos exploradores que essas classes
conheciam pessoalmente. Só tinham experiência direta da crueldade
judaica. Pelo que sabiam, os judeus eram a classe dominante. Não admira
que “os judeus que se encontravam em posição tão baixa e desprivilegiada
na sociedade quanto aqueles que os atacavam virassem objeto de agressão dirigida contra as classes superiores”. Os judeus foram colocados numa
“posição intermediária como elo altamente visível que se tornou alvo para a
agressão das classes inferiores e oprimidas”.
Dos dois lados, os judeus enredavam-se na luta de classes, fenômeno de
forma alguma ligado à especificidade judaica e por si só insuficiente para
explicar as características próprias da judeofobia. O que tornou realmente
especial a posição dos judeus na guerra de classes foi que se tornaram alvo
de dois antagonismos mutuamente opostos e contraditórios. Cada um dos
adversários enredados na luta de classes via os intermediários judeus do
outro lado da barricada. A metáfora prismática e o conceito de grupo arco-
íris parece servir melhor a essa situação que o de “classe móvel”.
Dependendo do lado pelo qual se olhasse os judeus, eles — como os
prismas — involuntariamente refratavam visões inteiramente diversas: uma
de classe inferior, rude, sem requinte, brutal, e outra de classe superior,
cruel e arrogante.
A pesquisa de Zuk confinou-se a um período que vai até o limiar da
modernização polaca. Revelam-se por isso as plenas consequências da
dualidade de visão que ela captou de forma tão brilhante. Havia pouca
comunicação entre as classes sociais nos tempos pré-modernos. Por isso
havia pouca oportunidade para as duas perspectivas e os dois estereótipos
que geraram convergirem e eventualmente se fundirem numa mistura
incongruente típica do antissemitismo moderno. Devido à escassez do
intercâmbio entre classes, cada um dos antagonistas travava, por assim
dizer, sua própria “guerra privada” contra os judeus, os quais —
particularmente no caso das classes mais baixas — podiam ser relacionados
pela Igreja a elaborações ideológicas apenas superficialmente ligadas às
verdadeiras causas do conflito. (Não apenas durante o massacre instigado
por Pedro, o Eremita, nas municipalidades da Renânia, os príncipes, condes
e bispos locais tentaram defender “seus judeus” de acusações gritantemente
descabidas, sem pertinência com os motivos de queixa que os judeus
poderiam atrair sobre si.)
Foi só com o advento da modernidade que as várias visões sem
consistência lógica sobre essa “casta” claramente estranha dos judeus (isto
é, já isolada por práticas sistemáticas de segregação) foram juntadas,
confrontadas e eventualmente misturadas. A modernidade trouxe, entre
outras coisas, um novo papel para as ideias — porque o Estado buscou sua
eficiência funcional na mobilização ideológica, por causa de sua acentuada tendência à uniformidade (manifestada da maneira mais espetacular na
prática das cruzadas culturais), por causa da sua missão “civilizadora” e
agudo proselitismo14 e devido a uma tentativa de colocar classes e
localidades anteriormente periféricas em íntimo contato espiritual com o
centro gerador de ideias do corpo político. O resultado geral de tudo isso foi
um forte aumento na abrangência e intensidade da comunicação entre as
classes; além de suas facetas tradicionais, a dominação de classe tomou a
forma de orientação espiritual e também a de produção e disseminação de
ideais culturais e fórmulas de fidelidade política. Uma das consequências
foi o choque e confrontação de imagens dos judeus anteriormente
separadas. Sua incompatibilidade, antes não notada, tornou-se então um
problema e um desafio. Como tudo o mais na sociedade em rápido processo
de modernização, o problema tinha que ser “racionalizado”. A contradição
tinha que ser resolvida; ou pela total rejeição da imagem herdada, por sua
inevitável incompatibilidade, ou através de um argumento racional que
desse base nova e aceitável à mesma incompatibilidade.
Com efeito, ambas as estratégias foram tentadas na Europa no começo
da idade moderna. Por um lado, a flagrante irracionalidade da situação dos
judeus era apontada como mais um exemplo do absurdo geral da ordem
feudal e como uma das superstições que bloqueavam o avanço da razão. A
patente diferença e idiossincrasia dos judeus não eram vistas de forma
alguma como diversas dos inúmeros particularismos que o ancien régime
tolerou e que a nova ordem estava decidida a eliminar. Como muitas outras
excentricidades locais, esta foi entendida fundamentalmente como um
problema cultural — isto é, um traço que diligente esforço cultural podia e
estava fadado a erradicar. Não faltaram profecias de que, uma vez estendida
aos judeus a igualdade legal recém-aviada, sua diferença logo se evaporaria
e os judeus — isto é, eles e tantos outros indivíduos livres e detentores de
direitos civis — logo se dissolveriam na nova sociedade cultural e
legalmente uniforme.
Por outro lado, no entanto, o advento da modernidade foi acompanhado
de processos que apontavam na direção exatamente oposta. Foi como se a já
arraigada incompatibilidade, tendo feito carreira como fator “escorregadio”,
semanticamente perturbador e subversivo em uma realidade de outra forma
ordeira e transparente, tendesse a se acomodar às novas condições e a
expandir-se atacando novas incompatibilidades; adquiriu novas e modernas
dimensões, e a falta de conexão entre elas criou por si mesma uma incompatibilidade, uma espécie de meta-incompatibilidade. Os judeus, já
construídos como “imundos” em termos religiosos e de classe, eram mais
que qualquer outra categoria vulneráveis ao impacto de novas tensões e
contradições que as sublevações sociais da revolução modernizadora não
podiam deixar de gerar. Para a maioria dos integrantes da sociedade, o
advento da modernidade significou a destruição da ordem e da segurança; e
mais uma vez os judeus foram encarados como situados perto do centro do
processo destruidor. A rápida e incompreensível ascensão e transformação
social dos judeus parecia resumir a devastação produzida pela promoção da
modernidade a tudo que era habitual, familiar e seguro.
Durante séculos, os judeus foram isolados com segurança em bolsões
em parte compulsórios, em parte livremente escolhidos; agora saíam da
reclusão, compravam propriedades e alugavam casas em distritos antes
exclusivamente cristãos, tornavam-se parte da realidade do dia a dia e
sócios de um discurso difuso não confinado a intercâmbios ritualizados.
Durante séculos os judeus foram visualmente identificáveis: levavam a
segregação, por assim dizer, na manga, simbólica e literalmente. Agora
vestiam-se como todos os demais, de acordo com a situação social de cada
um e não com a inclusão em uma casta. Durante séculos eles foram uma
casta de párias, legitimamente olhados de cima até pelo mais inferior dos
cristãos. Agora, alguns dos párias ascendiam a posições de influência e
prestígio social — em função de sua capacidade intelectual ou do dinheiro,
agora plenamente reconhecido como força determinante de status — e
aparentemente não tolhidos nem desqualificados por considerações de
classe e pedigree. Na verdade, a sorte dos judeus resumia a assustadora
extensão da reviravolta social e servia como claro e impositivo lembrete da
erosão das velhas certezas, da dissolução e evaporação de tudo antes
considerado sólido e duradouro. Quem se sentisse desequilibrado,
ameaçado ou deslocado, podia fácil — e racionalmente — entender a
própria ansiedade atribuindo a turbulência vivida a uma marca da
subversiva incompatibilidade judaica.
E assim os judeus foram apanhados no mais feroz dos conflitos
históricos: o que opunha o mundo pré-moderno e a modernidade que
avançava. O conflito encontrou sua primeira expressão na aberta resistência
das classes e estratos sociais do ancien régime que estavam a ponto de ser
desarraigados, deserdados e afastados de suas seguras posições sociais pela
nova ordem que só podiam ver como um caos. Com a primeira rebelião antimodernista derrotada e o triunfo da modernidade não mais posto em