Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 12 de 52

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Modernidade e Holocausto

O grupo arco-íris

demarcação de fronteiras, não de contestação de fronteiras. Por tudo isso,

ele desafia uma explicação em termos de choque casual de fatores locais.

Sua incrível capacidade de servir a tantas preocupações e objetivos

diferentes e sem mútua relação está enraizada precisamente na sua

universalidade, extemporaneidade e extraterritorialidade únicas. Serve tão

bem a tantas questões locais porque não está ligado de forma causal a

nenhuma. A adaptação do judeu conceitual às circunstâncias envolvendo

diferentes contenciosos, muitas vezes contraditórios entre si mas sempre

inflamados, exacerbou continuamente sua incoerência inata. Isso o tornou,

contudo, ainda mais adequado e convincente como explicação, aumentando,

por assim dizer, sua potência demoníaca. De nenhuma outra categoria social

do Ocidente poderia ser dito o que Leo Pinsker escreveu a respeito dos

judeus em 1882: “Para os vivos, o judeu é um morto; para os nativos, um

estranho errante; para os pobres e explorados, um milionário; para os

patriotas, um apátrida.” 10 Ou o que se disse novamente, de forma atualizada

mas praticamente inalterada, em 1946: “O judeu poderia ser definido como

a encarnação de tudo que causa ressentimento, medo ou desprezo. Era

portador do bolchevismo, mas, de modo bem curioso, ao mesmo tempo

representava o espírito liberal da podre democracia ocidental.

Economicamente, era tanto capitalista quanto socialista. Era acusado de

indolente pacifismo, mas, por estranha coincidência, também era o eterno

instigador das guerras.” 11 Ou mesmo o que W.D. Rubinstein escreveu

recentemente com referência a apenas uma das inúmeras dimensões da

viscosidade judaica: a combinação do antissemitismo voltado para a massa

judaica “com essas variantes do antissemitismo voltadas para a elite judaica

pode ter emprestado ao antissemitismo europeu sua virulência peculiar:

havia ressentimentos contra outros grupos na qualidade de elites ou massas,

mas nos dois casos talvez só contra os judeus”.12

 

O grupo arco-íris

 

Anna Zuk, da Universidade de Lublin, sugeriu recentemente que os judeus

podem ser considerados uma “classe móvel”, “uma vez que são motivo de

emoções que os grupos de posição social mais elevada geralmente nutrem

pelas classes inferiores e, inversamente, que os estratos mais baixos nutrem

pelos grupos de status social mais elevado”.13 Ela examina em detalhe esse choque de perspectivas cognitivas na Polônia do século XVIII, que trata

como exemplo de um fenômeno sociológico mais geral de grande

importância para a compreensão do antissemitismo. No último século antes

da divisão, os judeus poloneses eram de modo geral empregados da nobreza

e dos pequenos fidalgos. Executavam todo tipo de funções públicas

altamente impopulares que o poder político e econômico da nobreza

fundiária requeria, como a coleta de rendas e administrar a distribuição da

produção camponesa, atuando como “intermediários” e, em termos

psicossociais, como um escudo dos verdadeiros senhores da terra. Os

judeus adequavam-se a esse papel melhor que qualquer outra categoria,

uma vez que não aspiravam (não podiam aspirar) à ascensão social que seu

importante papel poderia oferecer. Impossibilitados de competir social e

politicamente com seus senhores, buscavam então recompensas meramente

financeiras. Daí não apenas estarem política e socialmente abaixo dos

senhores, mas condenados a permanecer nessa posição inferior. Os senhores

podiam tratá-los e os tratavam como a todos os demais funcionários das

classes inferiores: com desprezo social e aversão cultural. A imagem que a

nobreza fazia dos judeus não diferia do estereótipo geral dos socialmente

inferiores. Como os camponeses e o povinho urbano, os judeus eram vistos

pelos fidalgos como incivilizados, sujos, ignorantes e avaros. Como outros

plebeus, eram mantidos à distância. Uma vez que, devido a suas funções

econômicas, algum contato não podia ser evitado, as regras de sua

segregação social eram observadas de forma ainda mais meticulosa e

anunciadas de modo mais explícito e com maior precisão — e no geral

recebiam mais atenção que outras relações de classe que não ocasionavam

qualquer ambiguidade e assim podiam ser perpetuadas sem problemas.

Para os camponeses e o povo das cidades, no entanto, os judeus tinham

uma imagem inteiramente diferente. O serviço que prestavam aos senhores

da terra e exploradores dos produtores primários era, afinal, não apenas

econômico, mas protetor; eles isolavam a nobreza e a fidalguia da ira e da

fúria popular. Em vez de buscar seu verdadeiro alvo, o descontente parava e

descarregava em cima do intermediário. Para as classes inferiores, os judeus

eram o inimigo — eram os únicos exploradores que essas classes

conheciam pessoalmente. Só tinham experiência direta da crueldade

judaica. Pelo que sabiam, os judeus eram a classe dominante. Não admira

que “os judeus que se encontravam em posição tão baixa e desprivilegiada

na sociedade quanto aqueles que os atacavam virassem objeto de agressão dirigida contra as classes superiores”. Os judeus foram colocados numa

“posição intermediária como elo altamente visível que se tornou alvo para a

agressão das classes inferiores e oprimidas”.

Dos dois lados, os judeus enredavam-se na luta de classes, fenômeno de

forma alguma ligado à especificidade judaica e por si só insuficiente para

explicar as características próprias da judeofobia. O que tornou realmente

especial a posição dos judeus na guerra de classes foi que se tornaram alvo

de dois antagonismos mutuamente opostos e contraditórios. Cada um dos

adversários enredados na luta de classes via os intermediários judeus do

outro lado da barricada. A metáfora prismática e o conceito de grupo arco-

íris parece servir melhor a essa situação que o de “classe móvel”.

Dependendo do lado pelo qual se olhasse os judeus, eles — como os

prismas — involuntariamente refratavam visões inteiramente diversas: uma

de classe inferior, rude, sem requinte, brutal, e outra de classe superior,

cruel e arrogante.

A pesquisa de Zuk confinou-se a um período que vai até o limiar da

modernização polaca. Revelam-se por isso as plenas consequências da

dualidade de visão que ela captou de forma tão brilhante. Havia pouca

comunicação entre as classes sociais nos tempos pré-modernos. Por isso

havia pouca oportunidade para as duas perspectivas e os dois estereótipos

que geraram convergirem e eventualmente se fundirem numa mistura

incongruente típica do antissemitismo moderno. Devido à escassez do

intercâmbio entre classes, cada um dos antagonistas travava, por assim

dizer, sua própria “guerra privada” contra os judeus, os quais —

particularmente no caso das classes mais baixas — podiam ser relacionados

pela Igreja a elaborações ideológicas apenas superficialmente ligadas às

verdadeiras causas do conflito. (Não apenas durante o massacre instigado

por Pedro, o Eremita, nas municipalidades da Renânia, os príncipes, condes

e bispos locais tentaram defender “seus judeus” de acusações gritantemente

descabidas, sem pertinência com os motivos de queixa que os judeus

poderiam atrair sobre si.)

Foi só com o advento da modernidade que as várias visões sem

consistência lógica sobre essa “casta” claramente estranha dos judeus (isto

é, já isolada por práticas sistemáticas de segregação) foram juntadas,

confrontadas e eventualmente misturadas. A modernidade trouxe, entre

outras coisas, um novo papel para as ideias — porque o Estado buscou sua

eficiência funcional na mobilização ideológica, por causa de sua acentuada tendência à uniformidade (manifestada da maneira mais espetacular na

prática das cruzadas culturais), por causa da sua missão “civilizadora” e

agudo proselitismo14 e devido a uma tentativa de colocar classes e

localidades anteriormente periféricas em íntimo contato espiritual com o

centro gerador de ideias do corpo político. O resultado geral de tudo isso foi

um forte aumento na abrangência e intensidade da comunicação entre as

classes; além de suas facetas tradicionais, a dominação de classe tomou a

forma de orientação espiritual e também a de produção e disseminação de

ideais culturais e fórmulas de fidelidade política. Uma das consequências

foi o choque e confrontação de imagens dos judeus anteriormente

separadas. Sua incompatibilidade, antes não notada, tornou-se então um

problema e um desafio. Como tudo o mais na sociedade em rápido processo

de modernização, o problema tinha que ser “racionalizado”. A contradição

tinha que ser resolvida; ou pela total rejeição da imagem herdada, por sua

inevitável incompatibilidade, ou através de um argumento racional que

desse base nova e aceitável à mesma incompatibilidade.

Com efeito, ambas as estratégias foram tentadas na Europa no começo

da idade moderna. Por um lado, a flagrante irracionalidade da situação dos

judeus era apontada como mais um exemplo do absurdo geral da ordem

feudal e como uma das superstições que bloqueavam o avanço da razão. A

patente diferença e idiossincrasia dos judeus não eram vistas de forma

alguma como diversas dos inúmeros particularismos que o ancien régime

tolerou e que a nova ordem estava decidida a eliminar. Como muitas outras

excentricidades locais, esta foi entendida fundamentalmente como um

problema cultural — isto é, um traço que diligente esforço cultural podia e

estava fadado a erradicar. Não faltaram profecias de que, uma vez estendida

aos judeus a igualdade legal recém-aviada, sua diferença logo se evaporaria

e os judeus — isto é, eles e tantos outros indivíduos livres e detentores de

direitos civis — logo se dissolveriam na nova sociedade cultural e

legalmente uniforme.

Por outro lado, no entanto, o advento da modernidade foi acompanhado

de processos que apontavam na direção exatamente oposta. Foi como se a já

arraigada incompatibilidade, tendo feito carreira como fator “escorregadio”,

semanticamente perturbador e subversivo em uma realidade de outra forma

ordeira e transparente, tendesse a se acomodar às novas condições e a

expandir-se atacando novas incompatibilidades; adquiriu novas e modernas

dimensões, e a falta de conexão entre elas criou por si mesma uma incompatibilidade, uma espécie de meta-incompatibilidade. Os judeus, já

construídos como “imundos” em termos religiosos e de classe, eram mais

que qualquer outra categoria vulneráveis ao impacto de novas tensões e

contradições que as sublevações sociais da revolução modernizadora não

podiam deixar de gerar. Para a maioria dos integrantes da sociedade, o

advento da modernidade significou a destruição da ordem e da segurança; e

mais uma vez os judeus foram encarados como situados perto do centro do

processo destruidor. A rápida e incompreensível ascensão e transformação

social dos judeus parecia resumir a devastação produzida pela promoção da

modernidade a tudo que era habitual, familiar e seguro.

Durante séculos, os judeus foram isolados com segurança em bolsões

em parte compulsórios, em parte livremente escolhidos; agora saíam da

reclusão, compravam propriedades e alugavam casas em distritos antes

exclusivamente cristãos, tornavam-se parte da realidade do dia a dia e

sócios de um discurso difuso não confinado a intercâmbios ritualizados.

Durante séculos os judeus foram visualmente identificáveis: levavam a

segregação, por assim dizer, na manga, simbólica e literalmente. Agora

vestiam-se como todos os demais, de acordo com a situação social de cada

um e não com a inclusão em uma casta. Durante séculos eles foram uma

casta de párias, legitimamente olhados de cima até pelo mais inferior dos

cristãos. Agora, alguns dos párias ascendiam a posições de influência e

prestígio social — em função de sua capacidade intelectual ou do dinheiro,

agora plenamente reconhecido como força determinante de status — e

aparentemente não tolhidos nem desqualificados por considerações de

classe e pedigree. Na verdade, a sorte dos judeus resumia a assustadora

extensão da reviravolta social e servia como claro e impositivo lembrete da

erosão das velhas certezas, da dissolução e evaporação de tudo antes

considerado sólido e duradouro. Quem se sentisse desequilibrado,

ameaçado ou deslocado, podia fácil — e racionalmente — entender a

própria ansiedade atribuindo a turbulência vivida a uma marca da

subversiva incompatibilidade judaica.

E assim os judeus foram apanhados no mais feroz dos conflitos

históricos: o que opunha o mundo pré-moderno e a modernidade que

avançava. O conflito encontrou sua primeira expressão na aberta resistência

das classes e estratos sociais do ancien régime que estavam a ponto de ser

desarraigados, deserdados e afastados de suas seguras posições sociais pela

nova ordem que só podiam ver como um caos. Com a primeira rebelião antimodernista derrotada e o triunfo da modernidade não mais posto em