Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 16 de 52

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Modernidade e Holocausto

3. Modernidade, racismo e extermínio II

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Modernidade, racismo e extermínio II

 

Há um aparente paradoxo na história do racismo e do racismo nazista em

particular.

No caso de longe mais espetacular e mais conhecido dessa história, o

racismo serviu de instrumento para a mobilização de sentimentos e

ansiedades antimodernistas e foi aparentemente eficaz basicamente por

causa dessa conexão. Adolf Stöcker, Dietrich Eckart, Alfred Rosenberg,

Gregor Strasser, Joseph Goebbels e praticamente todos os demais profetas,

teóricos e ideólogos do nacional-socialismo usaram o fantasma da raça

judaica como grampo para prender os medos das vítimas do passado e das

presumíveis vítimas da modernização, que eles preparavam, à volkisch

sociedade ideal futura que se propunham a criar para impedir novos

avanços da modernidade. Na sua apelação ao horror profundamente

arraigado à rebelião social que a modernidade pressagiava, identificavam a

modernidade como o reinado dos valores econômicos e monetários e

atribuíam a características raciais dos judeus a responsabilidade por assalto

tão implacável ao modo de vida e aos padrões volkisch de valor humano. A

eliminação dos judeus foi então apresentada como sinônimo da rejeição à

ordem moderna. Isso dá a entender um caráter essencialmente pré-moderno

do racismo, sua afinidade natural, digamos assim, com emoções

antimodernas e sua seletiva adequação como veículo dessas emoções.

Por outro lado, porém, como concepção do mundo e, mais importante,

como instrumento efetivo de prática política, o racismo é impensável sem o

avanço da ciência moderna, da tecnologia moderna e das formas modernas

de poder estatal. Como tal, o racismo é estritamente um produto moderno.

A modernidade tornou possível o racismo. Também criou uma demanda de

racismo; uma era que declarava o ganho a única medida do valor humano

precisava de uma teoria da imputação para redimir as preocupações com o

traçado e a guarda de fronteiras nas novas condições em que cruzar fronteiras era mais fácil do que jamais fora. O racismo, em suma, é uma