Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 21 de 52

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Modernidade e Holocausto

4. Singularidade e normalidade do Holocausto

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Singularidade e normalidade do Holocausto

 

Até então, o mal — pois um nome tem que ser dado a essa

assombrosa conjunção de circunstâncias apenas aparentemente

inesperadas — infiltrara-se aos poucos, em silêncio, em estágios

que pareciam inofensivos… Ainda assim, revendo as coisas, fazendo

uma análise retrospectiva, parecia óbvio que o acúmulo de sinais

não resultava de mera casualidade. Possuíam ao contrário, por

assim dizer, uma dinâmica própria, embora ainda secreta, como

uma corrente subterrânea que vai aumentando, encorpando e, de

repente, impetuosamente, aflora; bastava voltar atrás, à época em

que surgiram os primeiros sinais ameaçadores, e traçar um gráfico,

um quadro clínico, de sua irresistível ascensão.

Juan Goytisolo, Paisagens depois da batalha

 

“Vocês não ficariam mais felizes se eu pudesse mostrar que todos os que

perpetraram [o crime] eram loucos?” — pergunta o grande historiador do

Holocausto, Raul Hilberg. Mas é exatamente isso que ele não pode mostrar.

A verdade que ele de fato mostra não traz nenhum alívio, é improvável que

deixe alguém feliz. Os criminosos foram pessoas educadas de sua época.

Esta é a questão crucial sempre que indagamos o significado da Civilização

Ocidental depois de Auschwitz. Nossa evolução foi além da nossa

compreensão; já não podemos fingir que temos pleno alcance do

funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e

tecnologia.1

Isso é sem dúvida má notícia para os filósofos, sociólogos, teólogos e

todos os outros homens e mulheres cultos profissionalmente ocupados em

compreender e explicar. As conclusões de Hilberg significam que eles não

fizeram direito o seu trabalho: não podem explicar o que aconteceu e por

que, nem podem nos ajudar a compreender. Esta acusação já é ruim o bastante no que concerne aos cientistas (está fadada a inquietar os

estudiosos e pode mesmo mandá-los, como se diz, de volta à prancheta),

mas não é em si motivo para alarme geral. Houve, afinal, muitos outros

acontecimentos importantes no passado que não compreendemos

plenamente. Às vezes isso nos irrita, mas em geral não ficamos muito

perturbados. Afinal de contas — eis o nosso consolo — tais acontecimentos

do passado são assunto de interesse acadêmico.

Mas será que são? Não é o Holocausto que achamos difícil de entender

em toda a sua monstruosidade. É a nossa Civilização Ocidental que o

Holocausto tornou quase incompreensível — e isto numa época em que

achamos ter chegado a um acordo com ela, em que perscrutamos os seus

mais íntimos impulsos e desvendamos até as suas perspectivas, numa época

em que sua expansão cultural atinge uma dimensão planetária sem

precedentes. Se Hilberg tem razão ao afirmar que nossas instituições sociais

mais decisivas nos escapam ao controle prático e ao alcance mental, então

não são apenas os acadêmicos profissionais que devem se preocupar.

Verdade, o Holocausto aconteceu há quase meio século. Verdade, seus

resultados imediatos estão ficando rapidamente para trás. A geração que

viveu essa experiência direta praticamente já desapareceu. Mas — e este é

um terrível e sinistro “mas” — aqueles aspectos de nossa civilização

outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda

fazem bem parte de nossa vida. Não foram eliminados. Também não o foi,

portanto, a possibilidade do Holocausto.

Desdenhamos tal possibilidade. Damos as costas a esses poucos

obcecados que se irritam com a nossa indiferença. Reservamos para eles um

nome especial, depreciativo — são os “profetas do caos”, do juízo final. É

fácil desprezar seus angustiados alertas. Já não somos vigilantes? Não

condenamos a violência, a imoralidade, a crueldade? Não aplicamos todo o

nosso engenho e os nossos consideráveis recursos, cada vez maiores, para

combatê-las? Além disso, há seja lá o que for em nossas vidas que indique a

mera possibilidade de uma catástrofe? A vida está melhorando e ficando

mais confortável. No geral, nossas instituições parecem firmes. Contra o

inimigo estamos todos protegidos, e nossos amigos certamente não farão

nada de mau. Confiados, de tempos em tempos ouvimos falar de

atrocidades que algum povo não muito civilizado e por isso mesmo

espiritualmente afastado comete contra vizinhos igualmente bárbaros. Os

euês massacram um milhão de ibôs, depois de chamá-los de vermes,