Modernidade e Holocausto
4. Singularidade e normalidade do Holocausto
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Singularidade e normalidade do Holocausto
Até então, o mal — pois um nome tem que ser dado a essa
assombrosa conjunção de circunstâncias apenas aparentemente
inesperadas — infiltrara-se aos poucos, em silêncio, em estágios
que pareciam inofensivos… Ainda assim, revendo as coisas, fazendo
uma análise retrospectiva, parecia óbvio que o acúmulo de sinais
não resultava de mera casualidade. Possuíam ao contrário, por
assim dizer, uma dinâmica própria, embora ainda secreta, como
uma corrente subterrânea que vai aumentando, encorpando e, de
repente, impetuosamente, aflora; bastava voltar atrás, à época em
que surgiram os primeiros sinais ameaçadores, e traçar um gráfico,
um quadro clínico, de sua irresistível ascensão.
Juan Goytisolo, Paisagens depois da batalha
“Vocês não ficariam mais felizes se eu pudesse mostrar que todos os que
perpetraram [o crime] eram loucos?” — pergunta o grande historiador do
Holocausto, Raul Hilberg. Mas é exatamente isso que ele não pode mostrar.
A verdade que ele de fato mostra não traz nenhum alívio, é improvável que
deixe alguém feliz. Os criminosos foram pessoas educadas de sua época.
Esta é a questão crucial sempre que indagamos o significado da Civilização
Ocidental depois de Auschwitz. Nossa evolução foi além da nossa
compreensão; já não podemos fingir que temos pleno alcance do
funcionamento de nossas instituições sociais, estruturas burocráticas e
tecnologia.1
Isso é sem dúvida má notícia para os filósofos, sociólogos, teólogos e
todos os outros homens e mulheres cultos profissionalmente ocupados em
compreender e explicar. As conclusões de Hilberg significam que eles não
fizeram direito o seu trabalho: não podem explicar o que aconteceu e por
que, nem podem nos ajudar a compreender. Esta acusação já é ruim o bastante no que concerne aos cientistas (está fadada a inquietar os
estudiosos e pode mesmo mandá-los, como se diz, de volta à prancheta),
mas não é em si motivo para alarme geral. Houve, afinal, muitos outros
acontecimentos importantes no passado que não compreendemos
plenamente. Às vezes isso nos irrita, mas em geral não ficamos muito
perturbados. Afinal de contas — eis o nosso consolo — tais acontecimentos
do passado são assunto de interesse acadêmico.
Mas será que são? Não é o Holocausto que achamos difícil de entender
em toda a sua monstruosidade. É a nossa Civilização Ocidental que o
Holocausto tornou quase incompreensível — e isto numa época em que
achamos ter chegado a um acordo com ela, em que perscrutamos os seus
mais íntimos impulsos e desvendamos até as suas perspectivas, numa época
em que sua expansão cultural atinge uma dimensão planetária sem
precedentes. Se Hilberg tem razão ao afirmar que nossas instituições sociais
mais decisivas nos escapam ao controle prático e ao alcance mental, então
não são apenas os acadêmicos profissionais que devem se preocupar.
Verdade, o Holocausto aconteceu há quase meio século. Verdade, seus
resultados imediatos estão ficando rapidamente para trás. A geração que
viveu essa experiência direta praticamente já desapareceu. Mas — e este é
um terrível e sinistro “mas” — aqueles aspectos de nossa civilização
outrora familiares e que o Holocausto tornou de novo misteriosos ainda
fazem bem parte de nossa vida. Não foram eliminados. Também não o foi,
portanto, a possibilidade do Holocausto.
Desdenhamos tal possibilidade. Damos as costas a esses poucos
obcecados que se irritam com a nossa indiferença. Reservamos para eles um
nome especial, depreciativo — são os “profetas do caos”, do juízo final. É
fácil desprezar seus angustiados alertas. Já não somos vigilantes? Não
condenamos a violência, a imoralidade, a crueldade? Não aplicamos todo o
nosso engenho e os nossos consideráveis recursos, cada vez maiores, para
combatê-las? Além disso, há seja lá o que for em nossas vidas que indique a
mera possibilidade de uma catástrofe? A vida está melhorando e ficando
mais confortável. No geral, nossas instituições parecem firmes. Contra o
inimigo estamos todos protegidos, e nossos amigos certamente não farão
nada de mau. Confiados, de tempos em tempos ouvimos falar de
atrocidades que algum povo não muito civilizado e por isso mesmo
espiritualmente afastado comete contra vizinhos igualmente bárbaros. Os
euês massacram um milhão de ibôs, depois de chamá-los de vermes,