Modernidade e Holocausto
O Holocausto como teste da modernidade
A necessidade de levantar essa questão parece extremamente urgente,
constituindo parte do legado do Holocausto desprezada da maneira mais
ignóbil, mas suas consequências devem ser cuidadosamente consideradas.
Nada mais fácil que reagir de forma exagerada à aparente falência das
visões sociológicas tradicionais. Uma vez arruinada a esperança de conter a
experiência do Holocausto na moldura teórica da disfunção (modernidade
incapaz de suprimir os fatores essencialmente estranhos da irracionalidade,
pressões civilizatórias fracassando em subjugar impulsos emocionais
violentos, socialização imprópria e portanto incapaz de produzir o
necessário volume de motivações morais), pode-se ficar facilmente tentado
a buscar a saída “óbvia” do impasse teórico; proclamar o Holocausto um
“paradigma” da civilização moderna, seu produto “natural”, “normal”
(quem sabe talvez também comum), sua “tendência histórica”. Nesta
versão, o Holocausto seria promovido ao status de verdade da modernidade
(em vez de reconhecido como uma possibilidade que a modernidade
contém) — a verdade apenas superficialmente encoberta pela fórmula
ideológica imposta por aqueles que se beneficiam da “grande mentira”. De
uma forma perversa, tendo esta visão (trataremos dela mais detalhadamente
no quarto capítulo) supostamente elevado o significado histórico e
sociológico do Holocausto, só pode diminuir a sua importância, uma vez
que os horrores do genocídio ficarão virtualmente indistinguíveis de outros
sofrimentos que a sociedade moderna sem dúvida gera diariamente e de
forma abundante.
O Holocausto como teste da modernidade
Poucos anos atrás, um jornalista do Le Monde entrevistou um punhado de
ex-vítimas de sequestro. Uma das coisas mais interessantes que descobriu
foi uma incidência anormalmente alta de divórcios entre os casais que
passaram juntos pela agonia da experiência de reféns. Intrigado, sondou os
divorciados para saber as razões de sua decisão. A maioria dos
entrevistados lhe disse que nunca pensara em divórcio antes do sequestro.
Durante o apavorante episódio, no entanto, “abriram seus olhos” e “viram
os companheiros sob nova luz”. Maridos habitualmente bons “revelaram-
se” criaturas egoístas, preocupadas exclusivamente com o próprio
estômago; dinâmicos homens de negócio exibiram uma covardia asquerosa;
“homens vividos” e escolados desmoronaram e pouco fizeram além de lamentar sua iminente danação. O jornalista perguntou-se qual das duas
encarnações de que esses Janos* pareciam capazes era a verdadeira face e
qual era a máscara. Concluiu que a questão estava mal formulada. Nenhuma
era “mais verdadeira” que a outra. Ambas eram possibilidades contidas o
tempo todo no caráter das vítimas — simplesmente vinham à tona em
momentos diferentes e em diferentes circunstâncias. A “boa” face parecia
normal apenas porque as condições normais a favoreciam mais que a outra.
Mas a outra estava sempre presente, embora normalmente invisível. O
aspecto mais fascinante dessa descoberta, no entanto, é que, não fosse pela
ousadia dos sequestradores, a “outra face” provavelmente teria permanecido
para sempre escondida. Os cônjuges teriam continuado a gostar de seu
casamento, inconscientes das qualidades pouco sedutoras que
circunstâncias extraordinárias e inesperadas poderiam revelar em pessoas
que eles achavam conhecer e das quais gostavam pelo que conheciam.
O parágrafo de Nechama Tec que citamos anteriormente termina com a
seguinte observação: “Não fosse pelo Holocausto, a maioria desses
ajudantes teria continuado seus caminhos independentes, alguns
empreendendo ações caridosas, outros levando uma vida simples e modesta.
Eram heróis adormecidos, que no geral não se distinguiam dos outros ao
redor.” Uma das conclusões demonstradas de forma mais poderosa (e
convincente) no estudo é a da impossibilidade de “discernir de antemão” os
sinais, sintomas ou indicadores da disponibilidade individual para o
sacrifício ou da covardia diante da adversidade; ou seja, de distinguir, fora
do contexto que lhes dá vida ou simplesmente os “desperta”, a
probabilidade de sua manifestação posterior.
John Roth coloca a mesma questão da potencialidade versus realidade (a
primeira constituindo um modo ainda não revelado da segunda e esta sendo
um modo já realizado — e portanto empiricamente acessível — da
primeira) em contato direto com o nosso problema:
Houvesse o poder nazista prevalecido, e a autoridade para determinar o que deve ser teria
achado que nenhuma lei natural foi transgredida e nenhum crime contra deus e a humanidade
foi cometido no Holocausto. Mas seria uma questão saber se as unidades de trabalho escravo
deveriam continuar, expandir-se ou ser extintas dos negócios. Tais decisões teriam sido
tomadas de modo racional.8
O indizível horror que permeia nossa memória coletiva do Holocausto
(ligado de maneira nada fortuita ao premente desejo de não encarar essa
memória de frente) é a corrosiva suspeita de que o Holocausto possa ter sido mais do que uma aberração, mais do que um desvio no caminho de
outra forma reto do progresso, mais do que um tumor canceroso no corpo
de outra forma sadio da sociedade civilizada; a suspeita, em suma, de que o
Holocausto não foi uma antítese da civilização moderna e de tudo o que ela
representa (ou pensamos que representa). Suspeitamos (ainda que nos
recusemos a admiti-lo) que o Holocausto pode ter meramente revelado um
reverso da mesma sociedade moderna cujo verso, mais familiar, tanto
admiramos. E que as duas faces estão presas confortavelmente e de forma
perfeita ao mesmo corpo. O que a gente talvez mais tema é que as duas
faces não possam mais existir uma sem a outra, como verso e reverso de
uma moeda.
Muitas vezes nos detemos no limiar da aterradora verdade. E assim
Henry Feingold insiste que o episódio do Holocausto foi com efeito um
fenômeno novo na longa, e no geral irrepreensível, história da sociedade
moderna; um fenômeno que não havia como esperar ou prever, como o
surgimento de nova cadeia maligna de um vírus supostamente domado:
A Solução Final marca o momento crítico em que o sistema industrial europeu saiu errado; em
vez de favorecer a vida, o que era a esperança original do Iluminismo, começou a consumi-la.
Foi por força desse sistema industrial e do espírito a ele ligado que a Europa conseguiu
dominar o mundo.
Como se os talentos necessários e exibidos no serviço da dominação
mundial fossem qualitativamente diferentes daqueles que garantiram a
eficiência da Solução Final. E no entanto Feingold está encarando a verdade
de frente:
[Auschwitz] foi também uma extensão mundana do moderno sistema fabril. Em vez de
produzir bens, a matéria-prima eram seres humanos e o produto final, a morte, com tantas
unidades por dia cuidadosamente registradas nos mapas de produção do administrador. As
chaminés, que são o próprio símbolo do moderno sistema fabril, despejavam uma fumaça acre
de carne humana sendo queimada. A malha ferroviária da Europa moderna, com sua brilhante
organização, passou a transportar uma nova matéria-prima para as fábricas. E da mesma
maneira que fazia com outros tipos de carga. Nas câmaras de gás as vítimas inalavam gases
letais desprendidos por pelotas de ácido prússico, produzidas pela avançada indústria química
da Alemanha. Engenheiros projetaram os crematórios; administradores de empresa projetaram
o sistema burocrático, que funcionava com um capricho e eficiência que nações mais atrasadas
invejariam. Mesmo o próprio plano global era um reflexo do moderno espírito científico
desvirtuado. O que testemunhamos não foi nada menos que um esquema de engenharia social
em massa…9
A verdade é que todos os “ingredientes” do Holocausto — todas as
inúmeras coisas que o tornaram possível — foram normais; “normais” não
no sentido do que é familiar, do que não passa de mais um exemplo numa
vasta categoria de fenômenos de há muito plenamente descritos, explicados
e assimilados (ao contrário, a experiência do Holocausto era nova e
desconhecida), mas no sentido de plenamente acompanhar tudo o que
sabemos sobre nossa civilização, seu espírito condutor, suas prioridades,
sua visão imanente do mundo — e dos caminhos adequados para buscar a
felicidade humana e uma sociedade perfeita. Nas palavras de Stillman e
Pfaff:
Há mais do que uma conexão inteiramente fortuita entre a tecnologia aplicada na linha de
produção em massa, com sua visão de abundância material universal, e a tecnologia aplicada
no campo de concentração, com sua visão da morte em profusão. Podemos querer negar a
conexão, mas o fato é que Buchenwald é tão ocidental quanto o Rio Rouge de Detroit — não
podemos desprezar Buchenwald como mera aberração casual em um mundo ocidental
essencialmente sadio.10
Relembremos também a conclusão a que chegou Raul Hilberg no final
do seu magistral e insuperado estudo sobre a consumação do Holocausto:
“A máquina de destruição não era, pois, estruturalmente diferente da
sociedade alemã organizada como um todo. A máquina de destruição era a
comunidade organizada num dos seus papéis especiais.” 11
Richard L. Rubenstein extraiu o que me parece a lição máxima do
Holocausto. “Ele dá testemunho”, escreveu, “do avanço da civilização.” Foi
um avanço, permitam acrescentar, em duplo sentido. O poderio industrial e
o conhecimento tecnológico de que se gaba a nossa civilização galgaram
novas altitudes com a Solução Final ao assumir com êxito uma tarefa de
magnitude sem precedentes. Nesta mesma Solução Final nossa sociedade
revelou-nos uma capacidade até então insuspeitada. Ensinados a respeitar e
admirar a eficiência técnica e o bom design, não podemos senão admitir
que, na exaltação do progresso material trazido por nossa civilização,
subestimamos gravemente seu verdadeiro potencial.
O mundo dos campos da morte e a sociedade que engendra revelam o lado progressivamente
mais obscuro da civilização judaico-cristã. Civilização significa escravidão, guerras,
exploração e campos da morte. Também significa higiene médica, elevadas ideias religiosas,
belas artes e requintada música. É um erro imaginar que civilização e crueldade selvagem
sejam antíteses… Em nosso tempo as crueldades, como muitos outros aspectos do nosso
mundo, passaram a ser administradas de maneira muito mais efetiva que em qualquer época
anterior. Não deixaram e não deixarão de existir. Tanto a criação como a destruição são
aspectos inseparáveis do que chamamos civilização.12
Hilberg é um historiador, Rubenstein é um teólogo. Examinei com
afinco obras de sociólogos em busca de declarações que expressassem uma
consciência semelhante da urgência da tarefa postulada pelo Holocausto;
em busca de evidências de que o Holocausto apresenta, entre outras coisas,
um desafio à sociologia como uma profissão e um corpo de conhecimento
acadêmico. Quando comparado ao trabalho feito por historiadores ou
teólogos, o grosso da sociologia acadêmica parece antes um exercício de
esquecimento e de fechamento dos olhos. De modo geral, as lições do
Holocausto deixaram poucos vestígios no senso comum sociológico, que
inclui, entre muitos outros, artigos de fé como os benefícios do governo da
razão sobre a emoção, a superioridade da racionalidade sobre (o que senão)
a ação irracional e o choque endêmico entre as demandas de eficiência e as
inclinações morais de que as “relações pessoais” estão impregnadas de
forma tão irremediável. Por mais altas e pungentes, vozes de protesto contra
essa fé ainda não penetraram as muralhas do establishment sociológico.
Não sei de muitas ocasiões em que sociólogos, na qualidade de
sociólogos, enfrentaram publicamente a evidência do Holocausto. Uma
dessas ocasiões (embora em escala modesta) foi no simpósio sobre A
sociedade ocidental depois do Holocausto, realizado em 1978 pelo Instituto
para o Estudo dos Problemas Sociais Contemporâneos.13 Durante o
simpósio, Richard L. Rubenstein apresentou uma tentativa, talvez
emocional demais, de reler, à luz da experiência do Holocausto, alguns dos
mais conhecidos diagnósticos de Weber sobre as tendências da sociedade
moderna. Rubenstein queria descobrir se as coisas de que temos
conhecimento hoje mas que Weber naturalmente desconhecia poderiam ter
sido previstas (pelo próprio Weber e por seus leitores), pelo menos como
uma possibilidade, a partir do que Weber sabia, percebia ou teorizava. Ele
achou ter encontrado uma resposta positiva para a questão ou pelo menos
assim deu a entender: que na exposição que Weber faz da burocracia
moderna, do espírito racional, do princípio de eficiência, da mentalidade
científica, da relegação de valores ao reino da subjetividade etc. não foi
registrado qualquer mecanismo capaz de excluir a possibilidade dos
excessos nazistas; que, além disso, não havia nada nos tipos ideais de
Weber que requeresse a definição das atividades do Estado nazista como
excessos. Por exemplo, “nenhum horror perpetrado pelos profissionais médicos ou pelos tecnocratas alemães foi inconsistente com a visão de que
os valores são inerentemente subjetivos e que a ciência é intrinsecamente
instrumental e livre de valor.” Guenther Roth, eminente weberiano e
sociólogo de alta e merecida reputação, não tentou esconder seu desagrado:
“Minha discordância com o professor Rubenstein é total. Não há uma única
sentença na sua apresentação que eu possa aceitar.” Provavelmente irritado
com a possível ameaça à memória de Weber (ameaça escondida, por assim
dizer, na própria ideia de “previsão”), Guenther Roth lembrou à assembleia
que Weber era um liberal, amava a constituição e defendia o direito de voto
da classe operária (e assim, presumivelmente, não podia ser lembrado em
conexão com uma coisa tão abominável como o Holocausto). Evitou,
porém, discutir a essência do argumento de Rubenstein. Além disso, privou-
se da possibilidade de considerar seriamente as “consequências
imprevistas” do crescente domínio da razão que Weber identificou como
atributo central da modernidade e para cuja análise deu uma contribuição
das mais essenciais. Não aproveitou a ocasião para enfrentar sem rodeios o
“outro lado” das visões perceptivas legadas pelos clássicos da tradição
sociológica; nem a oportunidade para meditar se nosso triste conhecimento,
não disponível para os clássicos, pode capacitar-nos a descobrir nas suas
percepções coisas de cujas plenas consequências eles não poderiam ter
senão uma consciência confusa.
Com toda a probabilidade, Guenther Roth não é o único sociólogo que
faria comício em defesa das benditas verdades de nossa tradição comum,
apesar das evidências contra elas; apenas a maioria dos sociólogos não foi
forçada a fazê-lo de modo tão franco. De modo geral, não precisamos nos
preocupar com o desafio do Holocausto em nossa prática profissional
diária. Profissionalmente, quase conseguimos esquecê-lo ou pelo menos o
arquivamos no setor de “interesses especializados”, de onde não tem
qualquer chance de alcançar a corrente central da disciplina. Se
eventualmente abordado em textos sociológicos, o Holocausto é no máximo
apresentado como triste exemplo do que uma indomada agressividade
humana inata pode fazer e, então, usado como pretexto para exaltar os
benefícios de domá-la através de um aumento da pressão civilizatória e
outra lufada de resolução de problemas por especialistas. Na pior das
hipóteses, é lembrado como uma experiência privada dos judeus, como
assunto dos judeus e daqueles que os odeiam (“privatização” para a qual não contribuíram pouco inúmeros porta-vozes do Estado de Israel, levados