Modernidade e Holocausto
Algumas peculiaridades do isolamento judaico
contra vizinhos judeus.
Os pogroms como explosões espontâneas de fúria popular parecem ser um mito e não há de
fato um só caso confirmado de habitantes de uma cidade ou aldeia terem simplesmente caído
sobre os vizinhos judeus e os assassinado. Isso se aplica mesmo à Idade Média… Na era
moderna, a iniciativa popular esteve ainda menos em evidência, pois os próprios grupos
organizados só foram efetivos quando detinham o poder de decisão política e participavam de
algum governo.5
Em outras palavras, o argumento de que a violência antijudaica em geral
e particularmente o caso específico do Holocausto se explicam como uma
“culminação dos sentimentos antijudaicos”, um “antissemitismo mais
intenso” ou a “erupção do ressentimento popular contra os judeus” é frágil e
tem pouca base na história ou em evidências atuais. Por si só, o
antissemitismo não oferece explicação do Holocausto (de maneira mais
geral, argumentaríamos, o antissemitismo não é em si mesmo uma
explicação satisfatória de qualquer genocídio). Se é verdade que o
antissemitismo foi funcional e talvez indispensável para a concepção e
concretização do Holocausto, é igualmente verdade que o antissemitismo
dos planejadores e administradores do assassinato em massa deve ter
diferido em alguns aspectos importantes dos sentimentos antijudaicos, se é
que os havia, dos executores, colaboradores e vítimas complacentes. É
também verdade que para tornar possível o Holocausto, o antissemitismo de
qualquer tipo tinha que ser fundido com certos fatores de caráter
inteiramente diferente. Mais do que investigar os mistérios da psicologia
individual, precisamos desemaranhar os mecanismos sociais e políticos
capazes de produzir tais fatores extras e examinar sua reação
potencialmente explosiva às tradições dos antagonismos intergrupais.
Algumas peculiaridades do isolamento judaico
Depois que o termo “antissemitismo” foi cunhado e ganhou uso
generalizado no final do século XIX, reconheceu-se que o fenômeno que o
novo termo tentava captar tinha um longo passado, entrando fundo pela
Antiguidade; admitiu-se uma continuidade quase ininterrupta de evidência
histórica do ressentimento e discriminação contra os judeus por mais de
dois milênios. Quase consensualmente, os historiadores remontam os
primórdios do antissemitismo à destruição do segundo templo (70 d.C.) e ao começo da diáspora em massa, embora se tenha feito pesquisa muito
interessante de opiniões e práticas, digamos, protoantissemíticas que
chegam ao exílio babilônico. (Um estudo provocante e controvertido sobre
antissemitismo “pagão” foi publicado no início da década de 1920 pelo
historiador soviético Salomo Luria.)
Etimologicamente, “antissemitismo” não é um termo feliz, pois não
define bem aquilo a que se refere (no geral, é amplo demais) e erra o
verdadeiro alvo das práticas que pretende isolar. (Os nazistas, os praticantes
mais dedicados do antissemitismo na história conhecida, ficaram cada vez
mais frios com esse termo, particularmente durante a guerra, quando a
clareza semântica do conceito transformou-se em questão política perigosa,
uma vez que o termo era ostensivamente aplicado também a alguns dos
mais dedicados aliados dos alemães.) Em aplicações práticas, no entanto, a
controvérsia semântica foi no geral evitada e o conceito focalizou sem erro
o alvo pretendido. “Antisemitismo” representa o ressentimento contra os
judeus. Refere-se à concepção dos judeus como um grupo estranho, hostil e
indesejável e às práticas que derivam dessa concepção e a sustentam.
O antissemitismo difere em um importante aspecto de outros casos de
duradoura hostilidade intergrupal: as relações sociais de que as ideias e
práticas do antissemitismo podem ser um aspecto nunca são relações entre
dois grupos territorialmente estabelecidos que se confrontam em pé de
igualdade; são, ao invés disso, relações entre uma maioria e uma minoria,
entre uma população “hospedeira” e um grupo menor que vive no seu meio,
embora mantendo uma identidade separada, e por essa razão — por ser o
lado mais fraco — tornando-se o elemento marcado da oposição, nomeado
como “eles” para se diferenciar de “nós”, os nativos. Os alvos do
antissemitismo ocupam, de regra, o status semanticamente confuso e
psicologicamente debilitado de estrangeiros dentro de casa, dessa forma
ultrapassando uma fronteira vital que deveria ser traçada com clareza e
mantida intacta e inexpugnável; e é mais provável que a intensidade do
antissemitismo continue proporcional à urgência e ferocidade da atitude de
traçar e definir fronteiras.6 O mais comum é o antissemitismo ser uma
manifestação exterior da ânsia de preservação de fronteiras e das tensões
emocionais e preocupações práticas que provoca.
É óbvio que tais características únicas do antissemitismo ligam-se de
forma inextrincável ao fenômeno da diáspora. A diáspora judaica, no
entanto, mais uma vez difere da maioria dos outros exemplos de migração e reassentamento de grupos humanos. Uma característica espetacular da
diáspora judaica é a simples extensão de tempo histórico em que esses
“estrangeiros no nosso meio” preservaram sua separação, tanto no sentido
de continuidade diacrônica como de autoidentidade sincrônica. Ao contrário
da maioria dos casos de reassentamento, portanto, as reações eliminadoras
de fronteiras à presença judaica tiveram tempo suficiente para se sedimentar
e institucionalizar como rituais codificados com uma capacidade
autorreprodutora embutida, que por sua vez reforçou ainda mais a
realimentação da separação. Outra característica peculiar da diáspora
judaica foi a universalidade da falta de lar dos judeus, qualidade que talvez
partilhassem apenas com os ciganos. A ligação original dos judeus com a
terra de Israel ficou cada vez mais tênue através dos séculos, praticamente
só não perdendo a dimensão espiritual. Esta, no entanto, era contestada pela
população hospedeira, uma vez que a terra de Israel tornara-se a Terra Santa
reivindicada pelos anfitriões em nome de sua própria herança espiritual.
Ainda que ressentidos com a presença judaica em seu próprio país, os
anfitriões iriam ressentir-se ainda mais violentamente com a retomada da
Terra Santa pelo povo que viam como seus pretendentes ilegítimos.
A permanente e irremediável falta de lar dos judeus foi parte integrante
de sua identidade praticamente desde o início da sua história de diáspora.
Com efeito, esse fato foi usado como principal argumento nazista contra os
judeus e empregado por Hitler para fundamentar a alegação de que a
hostilidade antijudaica era de um tipo radicalmente diferente dos
antagonismos comuns entre nações ou raças rivais.
(Como Eberhard Jäckel7 demonstrou, era a permanente e onipresente
falta de lar dos judeus que mais do que qualquer outra coisa separava-os aos
olhos de Hitler de outras nações que ele odiava e queria escravizar ou
destruir. Hitler acreditava8 que, não tendo Estado territorial, os judeus não
podiam participar da universal luta pelo poder na sua forma ordinária de
guerra para conquista de território e assim tinham que apelar a métodos
indecentes, sub-reptícios e desleais que faziam deles um inimigo
particularmente sinistro e formidável; um inimigo, ademais, improvável de
ser jamais saciado ou pacificado e por isso fadado a ser destruído para se
tornar inofensivo.)
E no entanto, na Europa pré-moderna, a qualidade peculiar da alteridade
judaica não impediu no geral sua acomodação na ordem social dominante.
A acomodação foi possível por causa da tensão e conflito relativamente baixos gerados pelos processos de traçar e guardar fronteiras. Mas também
foi facilitada pela estrutura segmentária da sociedade pré-moderna e a
normalidade da separação entre os segmentos. Numa sociedade dividida em
classes ou castas, os judeus eram apenas uma classe ou casta dentre muitas.
O judeu como indivíduo era definido pela casta a que pertencia e pelos
privilégios e fardos específicos de que a casta gozava ou que tinha de
carregar. Mas o mesmo se aplicava a cada um dos demais membros da
mesma sociedade. Os judeus eram postos à parte, mas o fato de serem
postos à parte de forma alguma os tornava únicos. Sua condição, como a
dos demais agrupamentos tipo casta, ganhou forma e foi com efeito
perpetuada e defendida pelas práticas gerais relacionadas à manutenção da
pureza e prevenção da poluição. Ainda que variadas, essas práticas eram
unidas por uma função comum: a de criar uma distância segura e de torná-la
o mais intransponível possível. A separação de grupos era alcançada
mantendo-se-os fisicamente à parte (reduzindo a um mínimo os contatos,
assim mesmo estritamente controlados e ritualizados), marcando os
membros individuais do grupo para torná-los visíveis como aliados, ou
induzindo à separação espiritual entre os grupos de modo a impedir sua
osmose cultural e o nivelamento das oposições culturais que isso poderia
gerar. Por séculos, o judeu foi alguém que viveu num bairro separado da
cidade e usava uma roupa notavelmente típica (ocasionalmente prescrita por
lei, em especial quando a tradição comunitária não conseguia preservar a
uniformidade da distinção). A separação de domicílios não bastava, porém,
pois na maioria dos casos as economias do gueto e da comunidade anfitriã
entrelaçavam-se e precisavam portanto de contatos físicos regulares. A
distância territorial tinha pois que ser suplementada por um ritual
inteiramente codificado visando a formalização e funcionalização das
relações que não pudessem ser evitadas. Relações que resistissem à
formalização e à redução funcional eram de modo geral proibidas ou pelo
menos desencorajadas. Como na maioria dos rituais de manutenção de casta
e de luta contra a poluição, as proibições do connubium e da convivência
(assim como de todo commercium, exceto o estritamente funcional)
estavam entre as mais violentamente impostas e observadas.
Um importante ponto a lembrar é que todas essas medidas
aparentemente antagônicas eram ao mesmo tempo veículos de integração
social. Desfaziam entre si o perigo que um “estranho dentro” não pode
senão apresentar para a autoidentidade e a autoprodução do grupo hospedeiro. Criavam condições sob as quais era concebível coabitar sem