Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 9 de 52

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Modernidade e Holocausto

Algumas peculiaridades do isolamento judaico

contra vizinhos judeus.

 

Os pogroms como explosões espontâneas de fúria popular parecem ser um mito e não há de

fato um só caso confirmado de habitantes de uma cidade ou aldeia terem simplesmente caído

sobre os vizinhos judeus e os assassinado. Isso se aplica mesmo à Idade Média… Na era

moderna, a iniciativa popular esteve ainda menos em evidência, pois os próprios grupos

organizados só foram efetivos quando detinham o poder de decisão política e participavam de

algum governo.5

 

Em outras palavras, o argumento de que a violência antijudaica em geral

e particularmente o caso específico do Holocausto se explicam como uma

“culminação dos sentimentos antijudaicos”, um “antissemitismo mais

intenso” ou a “erupção do ressentimento popular contra os judeus” é frágil e

tem pouca base na história ou em evidências atuais. Por si só, o

antissemitismo não oferece explicação do Holocausto (de maneira mais

geral, argumentaríamos, o antissemitismo não é em si mesmo uma

explicação satisfatória de qualquer genocídio). Se é verdade que o

antissemitismo foi funcional e talvez indispensável para a concepção e

concretização do Holocausto, é igualmente verdade que o antissemitismo

dos planejadores e administradores do assassinato em massa deve ter

diferido em alguns aspectos importantes dos sentimentos antijudaicos, se é

que os havia, dos executores, colaboradores e vítimas complacentes. É

também verdade que para tornar possível o Holocausto, o antissemitismo de

qualquer tipo tinha que ser fundido com certos fatores de caráter

inteiramente diferente. Mais do que investigar os mistérios da psicologia

individual, precisamos desemaranhar os mecanismos sociais e políticos

capazes de produzir tais fatores extras e examinar sua reação

potencialmente explosiva às tradições dos antagonismos intergrupais.

 

Algumas peculiaridades do isolamento judaico

 

Depois que o termo “antissemitismo” foi cunhado e ganhou uso

generalizado no final do século XIX, reconheceu-se que o fenômeno que o

novo termo tentava captar tinha um longo passado, entrando fundo pela

Antiguidade; admitiu-se uma continuidade quase ininterrupta de evidência

histórica do ressentimento e discriminação contra os judeus por mais de

dois milênios. Quase consensualmente, os historiadores remontam os

primórdios do antissemitismo à destruição do segundo templo (70 d.C.) e ao começo da diáspora em massa, embora se tenha feito pesquisa muito

interessante de opiniões e práticas, digamos, protoantissemíticas que

chegam ao exílio babilônico. (Um estudo provocante e controvertido sobre

antissemitismo “pagão” foi publicado no início da década de 1920 pelo

historiador soviético Salomo Luria.)

Etimologicamente, “antissemitismo” não é um termo feliz, pois não

define bem aquilo a que se refere (no geral, é amplo demais) e erra o

verdadeiro alvo das práticas que pretende isolar. (Os nazistas, os praticantes

mais dedicados do antissemitismo na história conhecida, ficaram cada vez

mais frios com esse termo, particularmente durante a guerra, quando a

clareza semântica do conceito transformou-se em questão política perigosa,

uma vez que o termo era ostensivamente aplicado também a alguns dos

mais dedicados aliados dos alemães.) Em aplicações práticas, no entanto, a

controvérsia semântica foi no geral evitada e o conceito focalizou sem erro

o alvo pretendido. “Antisemitismo” representa o ressentimento contra os

judeus. Refere-se à concepção dos judeus como um grupo estranho, hostil e

indesejável e às práticas que derivam dessa concepção e a sustentam.

O antissemitismo difere em um importante aspecto de outros casos de

duradoura hostilidade intergrupal: as relações sociais de que as ideias e

práticas do antissemitismo podem ser um aspecto nunca são relações entre

dois grupos territorialmente estabelecidos que se confrontam em pé de

igualdade; são, ao invés disso, relações entre uma maioria e uma minoria,

entre uma população “hospedeira” e um grupo menor que vive no seu meio,

embora mantendo uma identidade separada, e por essa razão — por ser o

lado mais fraco — tornando-se o elemento marcado da oposição, nomeado

como “eles” para se diferenciar de “nós”, os nativos. Os alvos do

antissemitismo ocupam, de regra, o status semanticamente confuso e

psicologicamente debilitado de estrangeiros dentro de casa, dessa forma

ultrapassando uma fronteira vital que deveria ser traçada com clareza e

mantida intacta e inexpugnável; e é mais provável que a intensidade do

antissemitismo continue proporcional à urgência e ferocidade da atitude de

traçar e definir fronteiras.6 O mais comum é o antissemitismo ser uma

manifestação exterior da ânsia de preservação de fronteiras e das tensões

emocionais e preocupações práticas que provoca.

É óbvio que tais características únicas do antissemitismo ligam-se de

forma inextrincável ao fenômeno da diáspora. A diáspora judaica, no

entanto, mais uma vez difere da maioria dos outros exemplos de migração e reassentamento de grupos humanos. Uma característica espetacular da

diáspora judaica é a simples extensão de tempo histórico em que esses

“estrangeiros no nosso meio” preservaram sua separação, tanto no sentido

de continuidade diacrônica como de autoidentidade sincrônica. Ao contrário

da maioria dos casos de reassentamento, portanto, as reações eliminadoras

de fronteiras à presença judaica tiveram tempo suficiente para se sedimentar

e institucionalizar como rituais codificados com uma capacidade

autorreprodutora embutida, que por sua vez reforçou ainda mais a

realimentação da separação. Outra característica peculiar da diáspora

judaica foi a universalidade da falta de lar dos judeus, qualidade que talvez

partilhassem apenas com os ciganos. A ligação original dos judeus com a

terra de Israel ficou cada vez mais tênue através dos séculos, praticamente

só não perdendo a dimensão espiritual. Esta, no entanto, era contestada pela

população hospedeira, uma vez que a terra de Israel tornara-se a Terra Santa

reivindicada pelos anfitriões em nome de sua própria herança espiritual.

Ainda que ressentidos com a presença judaica em seu próprio país, os

anfitriões iriam ressentir-se ainda mais violentamente com a retomada da

Terra Santa pelo povo que viam como seus pretendentes ilegítimos.

A permanente e irremediável falta de lar dos judeus foi parte integrante

de sua identidade praticamente desde o início da sua história de diáspora.

Com efeito, esse fato foi usado como principal argumento nazista contra os

judeus e empregado por Hitler para fundamentar a alegação de que a

hostilidade antijudaica era de um tipo radicalmente diferente dos

antagonismos comuns entre nações ou raças rivais.

(Como Eberhard Jäckel7 demonstrou, era a permanente e onipresente

falta de lar dos judeus que mais do que qualquer outra coisa separava-os aos

olhos de Hitler de outras nações que ele odiava e queria escravizar ou

destruir. Hitler acreditava8 que, não tendo Estado territorial, os judeus não

podiam participar da universal luta pelo poder na sua forma ordinária de

guerra para conquista de território e assim tinham que apelar a métodos

indecentes, sub-reptícios e desleais que faziam deles um inimigo

particularmente sinistro e formidável; um inimigo, ademais, improvável de

ser jamais saciado ou pacificado e por isso fadado a ser destruído para se

tornar inofensivo.)

E no entanto, na Europa pré-moderna, a qualidade peculiar da alteridade

judaica não impediu no geral sua acomodação na ordem social dominante.

A acomodação foi possível por causa da tensão e conflito relativamente baixos gerados pelos processos de traçar e guardar fronteiras. Mas também

foi facilitada pela estrutura segmentária da sociedade pré-moderna e a

normalidade da separação entre os segmentos. Numa sociedade dividida em

classes ou castas, os judeus eram apenas uma classe ou casta dentre muitas.

O judeu como indivíduo era definido pela casta a que pertencia e pelos

privilégios e fardos específicos de que a casta gozava ou que tinha de

carregar. Mas o mesmo se aplicava a cada um dos demais membros da

mesma sociedade. Os judeus eram postos à parte, mas o fato de serem

postos à parte de forma alguma os tornava únicos. Sua condição, como a

dos demais agrupamentos tipo casta, ganhou forma e foi com efeito

perpetuada e defendida pelas práticas gerais relacionadas à manutenção da

pureza e prevenção da poluição. Ainda que variadas, essas práticas eram

unidas por uma função comum: a de criar uma distância segura e de torná-la

o mais intransponível possível. A separação de grupos era alcançada

mantendo-se-os fisicamente à parte (reduzindo a um mínimo os contatos,

assim mesmo estritamente controlados e ritualizados), marcando os

membros individuais do grupo para torná-los visíveis como aliados, ou

induzindo à separação espiritual entre os grupos de modo a impedir sua

osmose cultural e o nivelamento das oposições culturais que isso poderia

gerar. Por séculos, o judeu foi alguém que viveu num bairro separado da

cidade e usava uma roupa notavelmente típica (ocasionalmente prescrita por

lei, em especial quando a tradição comunitária não conseguia preservar a

uniformidade da distinção). A separação de domicílios não bastava, porém,

pois na maioria dos casos as economias do gueto e da comunidade anfitriã

entrelaçavam-se e precisavam portanto de contatos físicos regulares. A

distância territorial tinha pois que ser suplementada por um ritual

inteiramente codificado visando a formalização e funcionalização das

relações que não pudessem ser evitadas. Relações que resistissem à

formalização e à redução funcional eram de modo geral proibidas ou pelo

menos desencorajadas. Como na maioria dos rituais de manutenção de casta

e de luta contra a poluição, as proibições do connubium e da convivência

(assim como de todo commercium, exceto o estritamente funcional)

estavam entre as mais violentamente impostas e observadas.

Um importante ponto a lembrar é que todas essas medidas

aparentemente antagônicas eram ao mesmo tempo veículos de integração

social. Desfaziam entre si o perigo que um “estranho dentro” não pode

senão apresentar para a autoidentidade e a autoprodução do grupo hospedeiro. Criavam condições sob as quais era concebível coabitar sem