Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 26 de 52

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Modernidade e Holocausto

Desumanização dos objetos burocráticos

interesse do ator em promover-se, sua ambição ou curiosidade

desinteressada, e por muitas outras circunstâncias, motivações e traços de

caráter pessoal — mas, em geral, mesmo com a ausência desses, o instinto

artesanal bastará. De modo geral, os atores querem superar-se; seja o

trabalho que for, querem fazê-lo bem. Uma vez distanciados, graças à

complexa diferenciação funcional dentro da burocracia, dos resultados

últimos da operação para a qual contribuem, suas preocupações morais

podem concentrar-se inteiramente na boa execução da tarefa à sua frente. A

moralidade resume-se ao comando para ser um bom, eficiente e diligente

especialista e trabalhador.

 

Desumanização dos objetos burocráticos

 

Outro efeito igualmente importante do contexto da ação burocrática é a

desumanização dos objetos da operação burocrática, a possibilidade de

expressá-los em termos puramente técnicos, eticamente neutros.

Associamos a desumanização às fotos horripilantes de prisioneiros dos

campos de concentração — humilhados com a redução de suas ações ao

nível mais básico de sobrevivência primitiva, com a proibição de usarem

símbolos culturais de dignidade humana (tanto corpóreos quanto

comportamentais), com sua privação até de um aspecto humano

reconhecível. Como disse Peter Marsh, “de pé junto à cerca em Auschwitz,

olhando esses esqueletos mirrados de pele encolhida e olhos encovados,

quem poderia acreditar que fossem realmente pessoas?”12 Essas fotos,

porém, representam apenas a manifestação extrema de uma tendência que

pode ser descoberta em todas as burocracias, por mais benignas e inócuas as

tarefas nas quais estejam empenhadas no momento. Sugiro que a discussão

da tendência desumanizante, em vez de enfocar suas manifestações mais

sensacionais e vis mas felizmente incomuns, deveria concentrar-se nas

manifestações mais universais e, por essa razão, potencialmente mais

perigosas.

A desumanização começa no ponto em que, graças ao distanciamento,

os objetos visados pela operação burocrática podem e são reduzidos a um

conjunto de medidas quantitativas. Para os administradores de ferrovias, a

única formulação significativa do seu objeto é em termos de toneladas por quilômetro. Eles não lidam com seres humanos, ovelhas ou arame farpado;

só lidam com a carga e isso significa uma entidade que consiste

inteiramente de medidas e desprovida de qualidade. Para a maioria dos

burocratas, mesmo uma categoria desse tipo — carga — é restrição presa

demais à qualidade. Eles lidam apenas com os efeitos financeiros de suas

ações. Seu objeto é o dinheiro. Dinheiro é o único objeto que aparece nas

pontas de entrada e saída, e decididamente, como diziam com astúcia os

antigos, pecunia non olet. Quando crescem, as companhias burocráticas

raramente se permitem ficar confinadas a uma área de atividade

qualitativamente definida. Elas se expandem lateralmente, guiadas em seus

movimentos por uma espécie de lucrotropismo — uma força de atração

gravitacional para os mais elevados índices de retorno do capital. Como nos

lembramos, toda a operação do Holocausto foi gerenciada pelo

departamento financeiro do Reichsicherheithauptamt. Sabemos que essa

atribuição, excepcionalmente, não pretendia ser um estratagema ou

camuflagem.

Reduzidos, como todos os outros objetos de gerenciamento burocrático,

a meros números desprovidos de qualidade, os objetos humanos perdem sua

identidade. Eles são sempre desumanizados — no sentido de que a língua

em que são narradas as coisas que acontecem a eles (ou que são feitas a

eles) preserva seus referenciais de qualquer avaliação ética. De fato, essa

língua não se adequa a frases normativo-morais. Só os humanos podem ser

objetos de proposições éticas. (As verdadeiras declarações morais por vezes

se extendem com efeito a outros seres vivos, não humanos; mas só podem

fazê-lo partindo de sua base antropomórfica original.) Os seres humanos

perdem essa capacidade assim que reduzidos a cifras.

A desumanização liga-se de modo inextricável à tendência mais

essencial, racionalizante, da moderna burocracia. Como todas as

burocracias afetam em alguma medida alguns objetos humanos, o impacto

negativo da desumanização é muito mais comum do que sugeriria o hábito

de identificá-lo quase totalmente com seus efeitos genocidas. Mandam os

soldados atirar em alvos, que caem quando são atingidos. Os empregados

de grandes companhias são encorajados a destruir a concorrência.

Funcionários de agências previdenciárias operam com abonos

discricionários numa hora e créditos pessoais em outra. Seus objetos são os

segurados com benefícios extras. É difícil perceber e lembrar os seres

humanos por trás de todos esses termos técnicos. A questão, no que concerne às metas burocráticas, é que é melhor não percebê-los e não

lembrá-los.

Uma vez efetivamente desumanizados e portanto cancelados como

sujeitos potenciais de demandas morais, os objetos humanos da execução de

tarefas burocráticas são vistos com indiferença ética, que logo vira

desaprovação e censura quando sua resistência ou falta de cooperação torna

mais lento o fluxo macio da rotina burocrática. Objetos desumanizados não

podem possivelmente ter uma “causa”, muito menos uma causa “justa”;

eles não têm interesses a serem considerados, com efeito nenhuma

reivindicação à subjetividade. Objetos humanos tornam-se portanto um

“fator incômodo”. Sua rebeldia reforça mais a autoestima e os laços de

camaradagem que unem os funcionários. Estes veem-se então como

companheiros numa luta difícil, que pede coragem, autossacrifício e

dedicação desinteressada à causa. Não são os objetos da ação burocrática

mas os seus sujeitos que sofrem e merecem compaixão e exaltação moral.

Podem com justiça sentir orgulho e confiança na própria dignidade, por

esmagarem as vítimas recalcitrantes — da mesma forma que sentem

orgulho de superar qualquer outro obstáculo. A desumanização dos objetos

e a autoavaliação moral positiva reforçam-se mutuamente. Os funcionários

podem servir com lealdade a qualquer meta e manter sua consciência moral

intacta.

A conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como

desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos

técnicos que se revelaram necessários à execução de tarefas genocidas. Esse

modo pode ser colocado a serviço de um objetivo genocida sem maior

revisão de sua estrutura, mecanismos e normas comportamentais.

Além disso, ao contrário de difundida opinião, a burocracia não é

meramente um instrumento que pode ser usado com igual facilidade ora

com propósitos cruéis e moralmente desprezíveis, ora com propósitos

humanos profundos. Mesmo que se mova para onde quer que a empurrem,

a burocracia se parece mais com um lance de sorte nos dados. Tem uma

lógica e um momento próprios. O que torna certas soluções mais prováveis

e outras menos. Dado o impulso inicial (de acordo com um propósito), ela

transporá facilmente — como as vassouras do aprendiz de feiticeiro —

todos os limites em que teriam parado muitos dos que lhe deram aquele

primeiro impulso se ainda tivessem controle do processo por eles

desencadeado. A burocracia é programada para buscar a solução ótima, mais favorável. É programada para medir essa solução ótima em termos tais