Modernidade e Holocausto
Desumanização dos objetos burocráticos
interesse do ator em promover-se, sua ambição ou curiosidade
desinteressada, e por muitas outras circunstâncias, motivações e traços de
caráter pessoal — mas, em geral, mesmo com a ausência desses, o instinto
artesanal bastará. De modo geral, os atores querem superar-se; seja o
trabalho que for, querem fazê-lo bem. Uma vez distanciados, graças à
complexa diferenciação funcional dentro da burocracia, dos resultados
últimos da operação para a qual contribuem, suas preocupações morais
podem concentrar-se inteiramente na boa execução da tarefa à sua frente. A
moralidade resume-se ao comando para ser um bom, eficiente e diligente
especialista e trabalhador.
Desumanização dos objetos burocráticos
Outro efeito igualmente importante do contexto da ação burocrática é a
desumanização dos objetos da operação burocrática, a possibilidade de
expressá-los em termos puramente técnicos, eticamente neutros.
Associamos a desumanização às fotos horripilantes de prisioneiros dos
campos de concentração — humilhados com a redução de suas ações ao
nível mais básico de sobrevivência primitiva, com a proibição de usarem
símbolos culturais de dignidade humana (tanto corpóreos quanto
comportamentais), com sua privação até de um aspecto humano
reconhecível. Como disse Peter Marsh, “de pé junto à cerca em Auschwitz,
olhando esses esqueletos mirrados de pele encolhida e olhos encovados,
quem poderia acreditar que fossem realmente pessoas?”12 Essas fotos,
porém, representam apenas a manifestação extrema de uma tendência que
pode ser descoberta em todas as burocracias, por mais benignas e inócuas as
tarefas nas quais estejam empenhadas no momento. Sugiro que a discussão
da tendência desumanizante, em vez de enfocar suas manifestações mais
sensacionais e vis mas felizmente incomuns, deveria concentrar-se nas
manifestações mais universais e, por essa razão, potencialmente mais
perigosas.
A desumanização começa no ponto em que, graças ao distanciamento,
os objetos visados pela operação burocrática podem e são reduzidos a um
conjunto de medidas quantitativas. Para os administradores de ferrovias, a
única formulação significativa do seu objeto é em termos de toneladas por quilômetro. Eles não lidam com seres humanos, ovelhas ou arame farpado;
só lidam com a carga e isso significa uma entidade que consiste
inteiramente de medidas e desprovida de qualidade. Para a maioria dos
burocratas, mesmo uma categoria desse tipo — carga — é restrição presa
demais à qualidade. Eles lidam apenas com os efeitos financeiros de suas
ações. Seu objeto é o dinheiro. Dinheiro é o único objeto que aparece nas
pontas de entrada e saída, e decididamente, como diziam com astúcia os
antigos, pecunia non olet. Quando crescem, as companhias burocráticas
raramente se permitem ficar confinadas a uma área de atividade
qualitativamente definida. Elas se expandem lateralmente, guiadas em seus
movimentos por uma espécie de lucrotropismo — uma força de atração
gravitacional para os mais elevados índices de retorno do capital. Como nos
lembramos, toda a operação do Holocausto foi gerenciada pelo
departamento financeiro do Reichsicherheithauptamt. Sabemos que essa
atribuição, excepcionalmente, não pretendia ser um estratagema ou
camuflagem.
Reduzidos, como todos os outros objetos de gerenciamento burocrático,
a meros números desprovidos de qualidade, os objetos humanos perdem sua
identidade. Eles são sempre desumanizados — no sentido de que a língua
em que são narradas as coisas que acontecem a eles (ou que são feitas a
eles) preserva seus referenciais de qualquer avaliação ética. De fato, essa
língua não se adequa a frases normativo-morais. Só os humanos podem ser
objetos de proposições éticas. (As verdadeiras declarações morais por vezes
se extendem com efeito a outros seres vivos, não humanos; mas só podem
fazê-lo partindo de sua base antropomórfica original.) Os seres humanos
perdem essa capacidade assim que reduzidos a cifras.
A desumanização liga-se de modo inextricável à tendência mais
essencial, racionalizante, da moderna burocracia. Como todas as
burocracias afetam em alguma medida alguns objetos humanos, o impacto
negativo da desumanização é muito mais comum do que sugeriria o hábito
de identificá-lo quase totalmente com seus efeitos genocidas. Mandam os
soldados atirar em alvos, que caem quando são atingidos. Os empregados
de grandes companhias são encorajados a destruir a concorrência.
Funcionários de agências previdenciárias operam com abonos
discricionários numa hora e créditos pessoais em outra. Seus objetos são os
segurados com benefícios extras. É difícil perceber e lembrar os seres
humanos por trás de todos esses termos técnicos. A questão, no que concerne às metas burocráticas, é que é melhor não percebê-los e não
lembrá-los.
Uma vez efetivamente desumanizados e portanto cancelados como
sujeitos potenciais de demandas morais, os objetos humanos da execução de
tarefas burocráticas são vistos com indiferença ética, que logo vira
desaprovação e censura quando sua resistência ou falta de cooperação torna
mais lento o fluxo macio da rotina burocrática. Objetos desumanizados não
podem possivelmente ter uma “causa”, muito menos uma causa “justa”;
eles não têm interesses a serem considerados, com efeito nenhuma
reivindicação à subjetividade. Objetos humanos tornam-se portanto um
“fator incômodo”. Sua rebeldia reforça mais a autoestima e os laços de
camaradagem que unem os funcionários. Estes veem-se então como
companheiros numa luta difícil, que pede coragem, autossacrifício e
dedicação desinteressada à causa. Não são os objetos da ação burocrática
mas os seus sujeitos que sofrem e merecem compaixão e exaltação moral.
Podem com justiça sentir orgulho e confiança na própria dignidade, por
esmagarem as vítimas recalcitrantes — da mesma forma que sentem
orgulho de superar qualquer outro obstáculo. A desumanização dos objetos
e a autoavaliação moral positiva reforçam-se mutuamente. Os funcionários
podem servir com lealdade a qualquer meta e manter sua consciência moral
intacta.
A conclusão geral é que o modo de ação burocrático, tal como
desenvolvido no curso do processo civilizador, contém todos os elementos
técnicos que se revelaram necessários à execução de tarefas genocidas. Esse
modo pode ser colocado a serviço de um objetivo genocida sem maior
revisão de sua estrutura, mecanismos e normas comportamentais.
Além disso, ao contrário de difundida opinião, a burocracia não é
meramente um instrumento que pode ser usado com igual facilidade ora
com propósitos cruéis e moralmente desprezíveis, ora com propósitos
humanos profundos. Mesmo que se mova para onde quer que a empurrem,
a burocracia se parece mais com um lance de sorte nos dados. Tem uma
lógica e um momento próprios. O que torna certas soluções mais prováveis
e outras menos. Dado o impulso inicial (de acordo com um propósito), ela
transporá facilmente — como as vassouras do aprendiz de feiticeiro —
todos os limites em que teriam parado muitos dos que lhe deram aquele
primeiro impulso se ainda tivessem controle do processo por eles
desencadeado. A burocracia é programada para buscar a solução ótima, mais favorável. É programada para medir essa solução ótima em termos tais