Modernidade e Holocausto
Cumplicidade com as próprias atitudes
atormentadores condicionavam-se e validavam-se mutuamente.
O efeito da distância física e puramente psíquica é, portanto, ainda mais
aumentado pela natureza coletiva da ação prejudicial. Pode-se adivinhar
que mesmo se ganhos óbvios na economia e eficiência da ação produzidos
por sua organização e administração racionais não forem levados em conta,
o simples fato de que o opressor é membro de um grupo deve ser visto
como um tremendo fator a facilitar os atos de crueldade. É possível que
parte considerável da insensível eficiência burocrática se possa atribuir a
fatores outros que não o objetivo racional da divisão do trabalho ou cadeia
de comando: ao hábil e não necessariamente deliberado ou planejado
recurso à tendência natural de formação de grupo para ação cooperativa,
tendência sempre combinada com a delimitação de fronteiras e a exclusão
de forasteiros. Pela autoridade para recrutar seus integrantes e definir seus
objetivos, a organização burocrática é capaz de controlar as consequências
dessa tendência e assegurar que levem a um abismo ainda mais profundo e
intransponível entre os atores (isto é, membros da organização) e os objetos
da ação. Isso torna tanto mais fácil a transformação dos atores em
opressores e dos objetos em vítimas.
Cumplicidade com as próprias atitudes
Todo mundo que já entrou sem querer num atoleiro sabe muito bem que se
safar da enrascada é difícil muito mais porque todo esforço para sair resulta
em afundar ainda mais na lama. Pode-se mesmo definir o brejo como um
engenhoso sistema de tal forma construído que, por mais que se mexam os
objetos nele imersos, seus movimentos só aumentam o “poder de sucção”
do sistema.
Ações sequenciais parecem possuir a mesma qualidade. O grau em que o
ator se acha fadado a perpetuar a ação e em que optar é difícil tende a
aumentar a cada estágio. Os primeiros passos são fáceis e requerem pouco
tormento moral, se é que algum. Os passos seguintes são cada vez mais
desencorajadores. Por fim, dar esses passos se torna insuportável. No
entanto, o custo da retirada também já subiu a essa altura. Assim, a ânsia de
desistir é fraca quando os obstáculos à retirada são também fracos ou
inexistentes. Quando o desejo aumenta, os obstáculos que encontra são a cada estágio fortes o bastante para equilibrá-lo. Quando o ator é esmagado
pelo desejo de sair, é em geral tarde demais para fazê-lo. Milgram listou a
ação sequencial entre os principais “fatores constringentes” (isto é, fatores
que encerram o sujeito na sua situação). É tentador atribuir a força desse
fator específico ao impacto determinante das próprias ações passadas do
sujeito.
Sabini e Silver deram uma descrição brilhante e convincente de seu
mecanismo.
Os sujeitos da pesquisa entram na experiência reconhecendo alguns compromissos de cooperar
com o pesquisador; afinal, concordaram em participar, pegaram seu dinheiro e provavelmente
até certo ponto endossam o objetivo do progresso da ciência. (Os sujeitos da pesquisa de
Milgram ficavam sabendo que participariam de um estudo que visava a descobrir formas de
tornar mais eficiente o aprendizado.) Quando aquele que aprende comete seu primeiro erro, os
sujeitos da pesquisa são instados a lhe dar um choque. Um choque de 15 volts. Trata-se de
choque absolutamente inofensivo, imperceptível. Não há nenhuma questão moral até aqui.
Claro, o choque seguinte é mais forte, mas só um pouquinho. Com efeito, cada choque é
apenas um pouquinho mais forte que o anterior. A qualidade da ação do sujeito da pesquisa
muda de algo inteiramente inocente para algo inescrupuloso, mas por etapas. Onde exatamente
deve parar o sujeito da experiência? Em que ponto se cruza o limite entre esses dois tipos de
ação? Como é que o sujeito da pesquisa vai saber? É fácil de ver que deve haver um limite;
mas não é tão fácil ver onde ele está.
O fator mais importante no processo, no entanto, parece ser o seguinte:
Se o sujeito da experiência decide que dar o próximo choque não é permissível, então, uma vez
que ele é (em cada caso) apenas ligeiramente mais forte que o anterior, qual seria a justificação
para ter dado o último choque que deu? Negar a propriedade do passo que está a ponto de dar é
minar a propriedade do passo que acabou de dar, e isso mina a própria posição moral do
sujeito. Ele é pego nessa armadilha por seu gradual compromisso com a experiência. 6
No curso de uma ação sequencial, o ator se torna escravo de suas
próprias ações passadas. Essa imposição parece bem mais forte que outros
fatores constringentes. Pode com certeza durar mais que os fatores que no
início da sequência pareciam muito mais importantes e desempenhavam um
papel verdadeiramente decisivo. Em particular, a má vontade em reavaliar
(e condenar) a própria conduta passada da pessoa continuará sendo um
poderoso — e cada vez mais poderoso — estímulo para arrastar o passo,
muito depois do compromisso original à “causa” ter praticamente
desaparecido. Suaves e imperceptíveis passagens entre os estágios atraem o
ator para uma armadilha; a armadilha é a impossibilidade de abandonar a
experiência sem rever e rejeitar a avaliação dos próprios feitos como
corretos ou pelo menos inocentes. A armadilha, em outras palavras, é um paradoxo: não é possível se limpar sem se sujar. Esconder a sujeira