Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 38 de 52

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Modernidade e Holocausto

Cumplicidade com as próprias atitudes

atormentadores condicionavam-se e validavam-se mutuamente.

O efeito da distância física e puramente psíquica é, portanto, ainda mais

aumentado pela natureza coletiva da ação prejudicial. Pode-se adivinhar

que mesmo se ganhos óbvios na economia e eficiência da ação produzidos

por sua organização e administração racionais não forem levados em conta,

o simples fato de que o opressor é membro de um grupo deve ser visto

como um tremendo fator a facilitar os atos de crueldade. É possível que

parte considerável da insensível eficiência burocrática se possa atribuir a

fatores outros que não o objetivo racional da divisão do trabalho ou cadeia

de comando: ao hábil e não necessariamente deliberado ou planejado

recurso à tendência natural de formação de grupo para ação cooperativa,

tendência sempre combinada com a delimitação de fronteiras e a exclusão

de forasteiros. Pela autoridade para recrutar seus integrantes e definir seus

objetivos, a organização burocrática é capaz de controlar as consequências

dessa tendência e assegurar que levem a um abismo ainda mais profundo e

intransponível entre os atores (isto é, membros da organização) e os objetos

da ação. Isso torna tanto mais fácil a transformação dos atores em

opressores e dos objetos em vítimas.

 

Cumplicidade com as próprias atitudes

 

Todo mundo que já entrou sem querer num atoleiro sabe muito bem que se

safar da enrascada é difícil muito mais porque todo esforço para sair resulta

em afundar ainda mais na lama. Pode-se mesmo definir o brejo como um

engenhoso sistema de tal forma construído que, por mais que se mexam os

objetos nele imersos, seus movimentos só aumentam o “poder de sucção”

do sistema.

Ações sequenciais parecem possuir a mesma qualidade. O grau em que o

ator se acha fadado a perpetuar a ação e em que optar é difícil tende a

aumentar a cada estágio. Os primeiros passos são fáceis e requerem pouco

tormento moral, se é que algum. Os passos seguintes são cada vez mais

desencorajadores. Por fim, dar esses passos se torna insuportável. No

entanto, o custo da retirada também já subiu a essa altura. Assim, a ânsia de

desistir é fraca quando os obstáculos à retirada são também fracos ou

inexistentes. Quando o desejo aumenta, os obstáculos que encontra são a cada estágio fortes o bastante para equilibrá-lo. Quando o ator é esmagado

pelo desejo de sair, é em geral tarde demais para fazê-lo. Milgram listou a

ação sequencial entre os principais “fatores constringentes” (isto é, fatores

que encerram o sujeito na sua situação). É tentador atribuir a força desse

fator específico ao impacto determinante das próprias ações passadas do

sujeito.

Sabini e Silver deram uma descrição brilhante e convincente de seu

mecanismo.

 

Os sujeitos da pesquisa entram na experiência reconhecendo alguns compromissos de cooperar

com o pesquisador; afinal, concordaram em participar, pegaram seu dinheiro e provavelmente

até certo ponto endossam o objetivo do progresso da ciência. (Os sujeitos da pesquisa de

Milgram ficavam sabendo que participariam de um estudo que visava a descobrir formas de

tornar mais eficiente o aprendizado.) Quando aquele que aprende comete seu primeiro erro, os

sujeitos da pesquisa são instados a lhe dar um choque. Um choque de 15 volts. Trata-se de

choque absolutamente inofensivo, imperceptível. Não há nenhuma questão moral até aqui.

Claro, o choque seguinte é mais forte, mas só um pouquinho. Com efeito, cada choque é

apenas um pouquinho mais forte que o anterior. A qualidade da ação do sujeito da pesquisa

muda de algo inteiramente inocente para algo inescrupuloso, mas por etapas. Onde exatamente

deve parar o sujeito da experiência? Em que ponto se cruza o limite entre esses dois tipos de

ação? Como é que o sujeito da pesquisa vai saber? É fácil de ver que deve haver um limite;

mas não é tão fácil ver onde ele está.

 

O fator mais importante no processo, no entanto, parece ser o seguinte:

 

Se o sujeito da experiência decide que dar o próximo choque não é permissível, então, uma vez

que ele é (em cada caso) apenas ligeiramente mais forte que o anterior, qual seria a justificação

para ter dado o último choque que deu? Negar a propriedade do passo que está a ponto de dar é

minar a propriedade do passo que acabou de dar, e isso mina a própria posição moral do

sujeito. Ele é pego nessa armadilha por seu gradual compromisso com a experiência. 6

 

No curso de uma ação sequencial, o ator se torna escravo de suas

próprias ações passadas. Essa imposição parece bem mais forte que outros

fatores constringentes. Pode com certeza durar mais que os fatores que no

início da sequência pareciam muito mais importantes e desempenhavam um

papel verdadeiramente decisivo. Em particular, a má vontade em reavaliar

(e condenar) a própria conduta passada da pessoa continuará sendo um

poderoso — e cada vez mais poderoso — estímulo para arrastar o passo,

muito depois do compromisso original à “causa” ter praticamente

desaparecido. Suaves e imperceptíveis passagens entre os estágios atraem o

ator para uma armadilha; a armadilha é a impossibilidade de abandonar a

experiência sem rever e rejeitar a avaliação dos próprios feitos como

corretos ou pelo menos inocentes. A armadilha, em outras palavras, é um paradoxo: não é possível se limpar sem se sujar. Esconder a sujeira