Modernidade e Holocausto
A sociedade como fábrica de moralidade
primeiros anos alcançou independência face ao pensamento religioso e
mágico ao elaborar uma linguagem que podia produzir relatos completos
sem jamais recorrer a noções como propósito ou vontade. A ciência é de
fato um jogo de linguagem com uma regra que proíbe o uso de vocabulário
teleológico. Não usar termos teleológicos não é condição suficiente para
que uma sentença pertença ao discurso científico, mas é sem dúvida uma
condição necessária.
Na medida em que a sociologia lutava para conformar-se às regras do
discurso científico, a moralidade e fenômenos correlatos participavam
desconfortavelmente do universo social gerado, teorizado e pesquisado
pelas descrições sociológicas dominantes. Os sociólogos concentraram por
isso sua atenção na tarefa de simular a distinção qualitativa dos fenômenos
morais ou acomodá-los numa classe de fenômenos que podem ser descritos
sem recurso à linguagem teleológica. Entre eles, as duas tarefas e os
esforços que impunham levaram à negação de uma forma independente de
existência das normas morais; se de algum modo reconhecida como fator
isolado da realidade social, à moralidade se atribuiu uma condição
secundária e derivativa, que em princípio deveria torná-la explicável por
referência a fenômenos não morais — isto é, fenômenos plena e
inequivocamente receptivos a tratamento não teleológico. Com efeito, a
própria ideia da abordagem especificamente sociológica do estudo da
moralidade virou sinônimo da estratégia da, por assim dizer, redução
sociológica, uma estratégia que procede pela suposição de que os
fenômenos morais na sua totalidade podem ser exaustivamente explicados
em termos das instituições não morais que lhes conferiram sua força
indutora.
A sociedade como fábrica de moralidade
A estratégia da explicação social causal das normas morais (isto é, de
conceber a moralidade como, em princípio, dedutível das condições sociais
e produzida por processos sociais) remonta pelo menos a Montesquieu.
Suas sugestões de que, por exemplo, a poligamia resulta seja de um excesso
de mulheres ou de um envelhecimento particularmente precoce das
mulheres em certas condições climáticas podem ser citadas hoje nos livros de história sobretudo para ilustrar, por contraste, o progresso feito pela
ciência social desde seus primórdios; e, no entanto, o modelo de explicação
exemplificado pelas hipóteses de Montesquieu permaneceria no geral
inquestionado ainda por longo tempo. Tornou-se senso comum na ciência
social, raramente desafiado, que a própria persistência de uma norma moral
é testemunho da presença de uma necessidade coletiva que ela vem atender;
e que, consequentemente, todo estudo científico da moralidade deve tentar
revelar tais necessidades e reconstruir os mecanismos sociais que — pela
imposição de normas — garantem sua satisfação.
Com a aceitação dessa suposição teórica e da estratégia interpretativa
correlata, o que seguiu foi sobretudo raciocínio circular, melhor talvez
expresso por Kluckhohn, que insistiu que a norma ou costume moral não
existiria se não fosse funcional (isto é, útil para a satisfação de necessidades
ou para domar tendências de comportamento de outro modo destrutivas —
como, por exemplo, a redução da ansiedade e a canalização da
agressividade inata através da magia navajo); e que o desaparecimento de
uma necessidade que havia originado e sustentado a norma logo levaria ao
desaparecimento da própria norma. Qualquer falha da norma moral em
servir ao seu objetivo específico (isto é, sua incapacidade de dar conta de
forma adequada da necessidade original) teria resultados similares. Esta
prática do estudo científico da moralidade foi codificada da forma mais
explícita por Malinowski, que ressaltou a instrumentalidade essencial da
moralidade, sua condição subordinada em relação a “necessidades humanas
essenciais”, como comida, segurança ou proteção face a um clima
inclemente.
Confrontado com o problema, Durkheim (cujo tratamento dos
fenômenos morais virou cânone do saber sociológico e virtualmente definiu
o significado da abordagem especificamente sociológica do estudo da
moralidade) rejeitou o apelo para relacionar normas a necessidades; afinal,
ele criticava duramente a visão aceita de que as normas morais obrigatórias
numa sociedade específica devem ter alcançado sua obrigatoriedade através
do processo de análise e opção conscientes (quanto mais racionais). Em
aparente oposição ao senso comum etnográfico da época, Durkheim insistiu
que a essência da moralidade deveria ser buscada precisamente na força
obrigatória que ela exibe, mais que na sua correspondência racional com as
necessidades que os membros da sociedade procuram satisfazer; uma norma
é uma norma não porque foi selecionada por sua adequação à tarefa de promover e defender os interesses dos membros, mas porque os membros
— através do aprendizado ou das consequências mais amargas da
transgressão — se convencem de sua forçosa presença. A crítica de
Durkheim às interpretações correntes dos fenômenos morais não se voltava,
no entanto, contra o princípio da “explicação racional” como tal. Menos
ainda pretendia minar a prática do reducionismo sociológico. Desse ponto
de vista, a divergência de Durkheim face à prática interpretativa
estabelecida representava não mais que um desentendimento de família. O
que parecia ser expressão de discordância radical esfriou, afinal, com a
transferência de ênfase das necessidades individuais para as sociais; ou
melhor, para uma suprema necessidade, agora considerada prioritária dentre
todas, quer afirmada em relação a indivíduos, quer a grupos: a necessidade
de integração social. Qualquer sistema moral destina-se a servir à contínua
existência e à preservação da identidade da sociedade que apoia sua força
indutora através da socialização e das sanções punitivas. A persistência da
sociedade é alcançada e sustentada pela imposição de restrições sobre as
predileções naturais (associais, pressociais) dos membros da sociedade:
forçando-os a agir de uma forma que não contradiga a necessidade de
manter a unidade societária.
Quando nada, a revisão de Durkheim tornou o raciocínio sociológico
sobre a moralidade mais circular do que nunca. Se o único fundamento
existencial da moralidade é a vontade da sociedade e sua única função
permitir que a sociedade sobreviva, então a própria questão da avaliação
substantiva de sistemas morais específicos é efetivamente removida da
agenda sociológica. De fato, com a integração social reconhecida como
único quadro de referência dentro do qual pode-se fazer a avaliação, não há
como comparar e avaliar diferencialmente vários sistemas morais. A
necessidade que cada sistema serve surge dentro da sociedade na qual está
aninhada e o que importa é que deve haver um sistema moral em cada
sociedade, e não a substância das normas morais que esta ou aquela
sociedade vem a impor para manter sua unidade. En gros, diria Durkheim,
cada sociedade tem a moralidade que precisa. E a necessidade social sendo
a única substância da moralidade, todos os sistemas morais são iguais
unicamente pelo fato de que podem ser legitimamente — objetivamente,
cientificamente — medidos e avaliados: na sua utilidade para a satisfação
daquela necessidade.
Mas o tratamento de Durkheim para a moralidade não se limitou a uma
reafirmação imperiosa da velha visão das normas morais como produtos
sociais. Talvez a mais formidável influência de Durkheim sobre a prática da
ciência social tenha sido a concepção da sociedade como sendo, no
essencial, uma força ativamente moralizadora: “O homem é um ser moral
apenas porque vive em sociedade.” “A moralidade, em todas as suas
formas, nunca é encontrada a não ser em sociedade.” “O indivíduo
submete-se à sociedade e essa submissão é a condição de sua libertação.
Pois a liberdade do homem consiste na libertação face às forças físicas
cegas, irracionais; ele a alcança opondo a estas a grande força inteligente da
sociedade, sob cuja proteção se abriga. Colocando-se sob a asa da
sociedade, ele se torna também, em certa medida, dependente dela. Mas
trata-se de uma dependência libertadora; não há contradição nisso.” Estas e
outras frases memoráveis de Durkheim refletem até hoje na prática
sociológica. Toda moralidade vem da sociedade; não há vida moral fora da
sociedade; a sociedade é melhor entendida como uma fábrica produtora de
moralidade; a sociedade promove o comportamento moralmente regulado e
marginaliza, suprime ou impede a imoralidade. A alternativa ao aperto
moral da sociedade não é a autonomia humana, mas a regra das paixões
animais. Justamente porque os impulsos pré-sociais do animal humano são
egoístas, cruéis e ameaçadores é que devem ser domados e subjugados se é
que a vida social deva ser mantida. Tirem a coerção social e os seres
humanos recuarão à barbárie da qual foram apenas precariamente afastados
pela força da sociedade.
Essa arraigada confiança nos contratos sociais como fatores de
enobrecimento, elevação e humanização vai contra a própria insistência de
Durkheim de que as ações são más porque socialmente proibidas, não
socialmente proibidas porque más. O frio e cético cientista em Durkheim
desmascara toda pretensão de que haja substância outra no mal além da sua
rejeição por uma força poderosa o bastante para transformar sua vontade em
norma impositiva. Mas o esquentado patriota e crente devoto da
superioridade e progresso da vida civilizada não pode deixar de sentir que
aquilo que foi rejeitado é de fato mau e que a rejeição deve ter sido um ato
emancipador e dignificante.
Este sentimento combina com a consciência da forma de vida que, tendo
atingido e garantido sua superioridade material, só poderia se convencer da
superioridade das regras sob as quais vive. Foi, afinal, não a “sociedade como tal”, uma categoria teórica abstrata, mas a moderna sociedade
ocidental que serviu de padrão à missão moralizadora. Só do proselitismo
de guerra santa típico do “jardim” que é a moderna sociedade ocidental1
poderia derivar a autoconfiança que permitiu ver a imposição das regras
como processo de humanização, em vez de substituição de uma forma de
humanismo por outra. A mesma autoconfiança permitiu pôr de lado, como
exemplos de desumanidade ou pelo menos como suspeitas e potencialmente
perigosas, as manifestações de humanidade não socialmente reguladas (quer
desprezadas, inesperadas ou não plenamente submetidas). A visão teórica,
no final, legitimou a soberania da sociedade sobre seus membros, assim
como sobre seus opositores.
Uma vez reformulada essa autoconfiança como teoria social, seguiriam-
se importantes consequências para a interpretação da moralidade. Por
definição, os motivos pré-sociais ou associais não podiam ser morais. Pela
mesma razão, a possibilidade de que pelo menos certos padrões morais
podem se enraizar em fatores existenciais não afetados por regras sociais
contingentes de coabitação não podia ser adequadamente formulada, quanto
mais ser considerada seriamente. Menos ainda se poderia conceber, sem
cair em contradição, que certas pressões morais exercidas pelo modo de
existência humano, pelo simples fato de “estar com outros”, possam em
certas circunstâncias ser neutralizadas ou substituídas por forças sociais
contrárias; que, em outras palavras, a sociedade — além ou ao contrário de
sua “função moralizadora” — possa, pelo menos ocasionalmente, atuar
como uma força “silenciadora da moralidade”.
Enquanto a moralidade for entendida como produto social e explicada
em termos causais por referência aos mecanismos que, se funcionam
adequadamente, garantem seu “abastecimento constante”, os eventos que
ofendem os difusos mas arraigados sentimentos morais e desafiam a
concepção comum do bem e do mal (da conduta própria e imprópria)
tenderão a ser vistos como resultado de uma falha ou má administração da
“indústria moral”. O sistema fabril serviu como metáfora das mais
poderosas para tecer o modelo teórico da sociedade moderna, e a visão da
produção social da moralidade oferece um eminente exemplo de sua
influência. A ocorrência de conduta imoral é interpretada como resultado de
um abastecimento inadequado de normas morais, ou um abastecimento de
normas erradas (isto é, normas com uma força indutora insuficiente); tal
abastecimento falho, por sua vez, é devido a falhas técnicas ou administrativas da “fábrica social da moralidade” — na melhor das