Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 32 de 52

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Modernidade e Holocausto

O jogo do “salve-se quem puder”

De uma forma ou de outra, a solidão dos judeus se tornou completa na

Alemanha. Viviam agora num mundo sem vizinhos. Para tudo que dizia

respeito ao seu destino, os outros alemães podiam não ter existido. O único

outro agente do mundo judeu era o poder nazista; não importava como os

judeus definiam sua situação, ela estava reduzida a apenas um fator: as

ações que seus perseguidores nazistas achavam útil empreender. Como

seres racionais, os judeus tinham que ajustar a própria conduta às respostas

que os nazistas esperavam. Como seres racionais, tinham que supor a

existência de uma ligação lógica entre ações e reações e portanto também

certas ações como mais razoáveis e aconselháveis que outras. Como seres

racionais, tinham que ser guiados pelos mesmos princípios

comportamentais que os defendidos por seus burocráticos carcereiros:

eficiência, ganho mais elevado, gastos menores. Uma vez que os nazistas

detinham o comando inconteste e indisputado das regras e das apostas em

jogo, podiam usar essa racionalidade judaica como um recurso na busca de

suas próprias metas. Podiam arranjar as regras e as apostas de tal modo que

cada passo racional aprofundaria o desamparo de suas vítimas em

perspectiva e aproximá-las-ia mais alguns centímetros da sua destruição

final.

 

O jogo do “salve-se quem puder”

 

O jogo em que os judeus foram forçados pelos nazistas a entrar era de vida

ou morte e, portanto, a ação racional no caso deles só podia visar ao — e

ser medida pelo — aumento das suas chances de escapar à destruição ou de

limitar a escala dessa destruição. O mundo de valores estava reduzido a um

— sobreviver (ou era pelo menos ofuscado por esse objetivo). Isso está bem

claro agora, mas não estava necessariamente claro para as vítimas da época

e certamente não nos estágios iniciais da “estrada sinuosa para Auschwitz”.

Já sabemos que os próprios nazistas, incluindo seus líderes, não começaram

a guerra contra os judeus com uma noção clara de suas consequências

últimas; a guerra começou com o modesto objetivo da Entfernung, de

afastar os judeus da raça alemã e, a longo prazo, tornar a Alemanha

judenrein; foi no curso, e sob o impacto da perseguição burocrática desse

objetivo, que, em algum estágio posterior a destruição física dos judeus

tornou-se não só “racional” como também a “solução”, e tecnologicamente

factível. Mas mesmo quando a decisão fatal de Hitler de assassinar os judeus russos abriu para os zelos “especialistas judeus” novos horizontes e

opções antes não aventadas, manter em segredo a natureza da Solução Final

era parte integrante e crucial do projeto nazista. Levar as vítimas às câmaras

de gás era chamado “realocação” e a identidade dos campos de extermínio

era dissolvida numa vaga ideia: “o leste”. Quando porta-vozes dos guetos

procuravam comandantes das SS para saber se eram verdade os boatos

insistentes sobre iminentes morticínios, os alemães negavam

categoricamente. O segredo era mantido até, literalmente, o último

momento. Um crime pelo qual os membros judeus de um Sonderkommando

[comando especial] que servisse nas câmaras de gás e crematórios eram

punidos com a morte imediata era contar aos recém-chegados

desembarcados dos vagões de gado que o edifício que viam da plataforma

não era um banheiro público. A razão, claro, não era poupar as vítimas da

agonia e angústia, mas fazê-las entrar na câmara de gás voluntariamente e

sem resistência.

Em todos os estágios do Holocausto, portanto, apresentou-se às vítimas

uma opção (pelo menos subjetivamente — mesmo quando a opção já não

existia, substituída pela secreta decisão da destruição física). Elas não

podiam escolher entre uma situação boa e outra ruim, mas podiam pelo

menos optar por um mal maior ou menor. O mais importante é que podiam

desviar alguns golpes afirmando e manifestando seu direito a uma isenção

ou a um tratamento especial. Em outras palavras, tinham algo a salvar. Para

tornar previsível o comportamento das vítimas e portanto manipulável e

controlável, os nazistas tinham que induzi-las a agir de “modo racional”;

para obter esse efeito, tinham que fazer as vítimas acreditarem que havia de

fato alguma coisa a salvar e que existiam regras claras sobre como salvá-la.

Para acreditar nisso, as vítimas tinham que ser convencidas de que o

tratamento do grupo como um todo não seria uniforme, e que cada

indivíduo teria sorte diferente, de acordo com o mérito. As vítimas tinham

que pensar, em outras palavras, que sua conduta importava; e que sua

provação poderia, pelo menos em parte, ser influenciada pelo que fariam.

A mera existência de categorias burocraticamente definidas com vários

graus de direitos e privações induziam a esforços frenéticos para obter uma

“reclassificação”, para provar que se “merecia” a indicação para categoria

melhor. Em nenhum caso esse efeito era mais visível que no da Mischlinge

— “terceira raça” criada pela legislação alemã e situada incomodamente

entre “judeus plenos” e integrantes inatacáveis do Volk alemão. “Por causa dessas discriminações, pressionavam-se colegas, superiores, amigos e

parentes em busca de tratamento excepcional. Consequentemente, em 1935

foi instituído um procedimento para a reclassificação de um Mischling em

categoria mais alta… O procedimento ficou conhecido como Befreiung

(libertação).” O conhecimento de que os esforços não são necessariamente

vãos, de que o veredito do sangue pode ter uma apelação bem-sucedida e

ser anulado, acrescentava entusiasmo à pressão. Podia-se — e muitos

conseguiam — obter uma “genuína” (echte) libertação provando o próprio

mérito (a mais alta corte alemã sentenciou que “a conduta não bastava,

decisiva era a atitude revelada na conduta”). Era possível mesmo, como

aconteceu com o Ministerialrat [conselheiro ministerial] Killy, um

Mischling com notável contribuição para o extermínio dos judeus, receber

um certificado de Befreiung como presente de Natal com entrega especial

direto sob a árvore natalina da família.12

O aspecto diabólico desse cenário era que as crenças e convicções que

sancionava e as ações que encorajava davam legitimidade ao plano-mestre

dos nazistas e o tornavam digerível para a maioria, vítimas inclusive.

Enquanto lutavam por pequenos privilégios, a condição de isentos ou

simplesmente a suspensão da execução prevista no plano geral de

extermínio, as vítimas e aqueles que tentavam ajudá-las aceitavam

tacitamente as premissas do plano. Ao argumentar, por exemplo, que esta

ou aquela pessoa tem direito a ser isenta da taxa profissional com base nos

seus méritos passados, admitia-se, na prática, que sem esse mérito a taxa

profissional era incontestável.

 

O que era moralmente tão desastroso na aceitação dessas categorias privilegiadas era que todo

mundo que requeria uma “exceção” no seu caso implicitamente reconhecia a regra. Mas isso

aparentemente nunca foi entendido por esses “homens bons”, judeus e gentios, que se

ocupavam de todos aqueles “casos especiais” para os quais se poderia pedir tratamento

preferencial… Mesmo após o fim da guerra, Kasztner [um líder judeu húngaro que negociou

com os nazistas a exclusão de alguns dos distritos judaicos dos campos de extermínio] tinha

orgulho do sucesso em salvar “judeus eminentes”, categoria oficialmente introduzida pelos

nazistas em 1942, como se também na visão dele fosse óbvio que um judeu famoso tivesse

mais direito de ficar vivo do que um judeu comum.13

 

As oportunidades de aumentar a autoridade da norma lutando por

isenções (e por fim reforçando a norma ao utilizá-la como autorização para

a busca de privilégios individuais) eram amplas e variadas. Foram

oferecidas, sob formas diversas, em todos os estágios do Holocausto. No

caso dos judeus alemães tais oportunidades eram particularmente elaboradas e em profusão. Os judeus que lutaram do lado alemão na Grande

Guerra, que foram feridos em batalha, que foram condecorados por bravura,

foram declarados um caso especial e por longo período ficaram livres da

maioria das restrições aplicadas a seus irmãos menos meritórios. Tal

benevolência desviava a atenção da norma bem mais devastadora da qual

constituía exceção. Quem visse na benevolência uma chance pessoal podia

reivindicar os benefícios, apenas aceitando ao mesmo tempo o pressuposto

que garantia tanto a regra geral como as exceções: o de que os judeus

“normais”, judeus “como tais”, não mereciam os direitos comuns oferecidos

pela cidadania alemã. Uma onda de petições com cerrada argumentação,

cartas de recomendação, intervenções em apoio a destacadas

personalidades, amigos ou sócios, e a busca frenética de documentos e

testemunhos desencadeadas pela norma de isenção contribuíram em não

pequena medida para a calma reconciliação do novo estado de coisas criado

pela legislação antijudaica. Os justos dentre os gentios fizeram o melhor

que puderam para obter privilégios para pessoas que conheciam, gostavam

ou respeitavam, sublinhando em suas cartas às autoridades que aquelas

pessoas em particular não mereciam tratamento severo em função de seus

inestimáveis serviços à nação alemã. Sacerdotes trataram de defender os

judeus convertidos — cristãos de origem judaica. No processo, o princípio

de que era preciso ser um tipo especial de judeu para protestar contra a

discriminação e a perseguição era tacitamente aceito ou de qualquer forma,

acomodado.

No geral, não faltavam pessoas e grupos que ansiosamente abraçavam a

ideia de sua qualidade e exclusividade de direito a tratamento mais

benevolente. Um dos exemplos mais notáveis era a famosa e onipresente

divisão entre os judeus “estabelecidos” e os judeus “imigrantes” na Europa

ocidental. A divisão tinha precendente no antigo antagonismo das

comunidades judias bem estabelecidas e parcialmente assimiladas em

relação a seus irmãos da Europa oriental, incultos, ignorantes e de idioma

ídiche, cuja incômoda intromissão viam como uma ameaça à sua própria

respeitabilidade conquistada a duras custas. (As velhas e ricas famílias

judias da Grã-Bretanha não se importavam em pagar a viagem de volta das

pobres massas judias analfabetas que escapavam dos pogroms russos na

virada do século; na Alemanha, judeus de velha cepa, “mais alemães que os

alemães”, esperavam “livrar-se da antipatia… desviando-a contra os pobres

irmãos imigrantes ainda não assimilados”.)14 A velha tradição de uma atitude superior e desdenhosa em relação aos judeus do shtetl impedia os

líderes das comunidades judias do Ocidente de perceber no destino dos

judeus orientais um modelo do seu próprio futuro; nenhuma sorte comum e

portanto nenhuma estratégia solidária podiam supostamente ser

engendradas por histórias e culturas tão diversas. Quando a informação do

assassinato em massa na Polônia foi transmitida pela BBC para toda a

Holanda, David Cohen, presidente do Conselho Judeu, negou redondamente

sua importância para o destino dos judeus dos Países Baixos:

 

O fato de que os alemães perpetraram atrocidades contra os judeus poloneses não era motivo

para pensar que se comportariam da mesma maneira com os judeus holandeses; primeiro

porque os alemães sempre tiveram os judeus poloneses em má conta e, segundo, porque na

Holanda, ao contrário da Polônia, eles tinham que se aprumar e levar em conta a opinião

pública.15

 

Essa autoconfiança não decorria apenas de uma fantasiosa concepção de

mundo, uma visão de conto de fadas, com consequências potencialmente

suicidas para seus detentores. As visões de mundo tendem a determinar as

ações, e a conduta das comunidades judaicas organizadas, convencidas de

sua própria superioridade, reduziu grandemente a chance de uma reação

judia unificada à política nazista e facilitou a “destruição por etapas”.

Mesmo se os porta-vozes da comunidade judaica estabelecida sentiam

compaixão pelos judeus recolhidos, encarcerados e deportados diante dos

seus olhos, apelavam aos membros da comunidade para manterem a calma

e evitar qualquer resistência, de modo a salvar os “valores mais altos”. De

acordo com o estudo de Jacques Adler, a estratégia dos judeus franceses,

enunciada ainda em setembro de 1940, em resposta ao tratamento

diferenciado anunciado pelas forças alemãs de ocupação, não deixava

dúvida sobre a hierarquia das preferências: “Como prioridade básica, essa

estratégia lutava para garantir a existência continuada do judaísmo francês

— e o objetivo não incluía os judeus estrangeiros.” Partia do pressuposto de

que “os judeus imigrantes constituíam uma dívida” para a sobrevivência do

judeu francês. O establishment francês concordou com a resolução de Vichy

de que o preço para proteger o judeu francês era descarregar os imigrantes

na Alemanha: “Não há dúvida de que o judaísmo francês concordou com

Vichy que esses judeus estrangeiros eram social e politicamente

indesejáveis.” 16

A rejeição da solidariedade em nome de privilégios sociais ou de grupo

(o que sempre significou, ainda que indiretamente, anuência ao princípio de que nem todos os membros da categoria marcada merecem sobreviver e que

deve haver tratamento diferenciado segundo a qualidade “objetiva”

devidamente avaliada) era marcante não apenas nas relações

intercomunitárias. Dentro de cada comunidade, esperava-se e lutava-se por

tratamento diferenciado, com os Judenräte normalmente no papel de

agentes da sobrevivência. Preocupadas com a estratégia do “salve-se quem

puder”, as futuras vítimas perdiam de vista, ainda que temporariamente, a

terrível noção do destino imediato. Isso deu aos nazistas a chance de

alcançar seu propósito com custos bastante reduzidos e um mínimo de

problema. Nas palavras de Hilberg,

 

Os alemães tiveram notável sucesso na deportação de judeus por estágios, porque aqueles que

ficavam raciocinavam que era necessário sacrificar uns poucos para salvar a maioria. A

operação dessa psicologia pode ser observada na comunidade judaica de Viena, que fechou um

“acordo” de deportação com a Gestapo no qual se “compreendia” que seis categorias de judeus

não seriam deportadas. De novo, os judeus do gueto de Varsóvia argumentaram em favor da

cooperação e contra a resistência achando que os alemães deportariam sessenta mil judeus mas

não centenas de milhares. O fenômeno de bissecção ocorreu também em Salonika, onde a

liderança judia colaborou com as agências alemãs de deportação com base na garantia de que

apenas elementos “comunistas” dos setores mais populares seriam deportados e que a “classe

média” seria deixada em paz. A aritmética fatal também foi aplicada em Vilna, onde o líder do

Judenrat, Gens, declarou: “Com umas cem vítimas eu salvo mil pessoas. Com mil eu salvo dez

mil.”17

 

A vida na opressão era de tal forma estruturada que — do ponto de vista

favorável da existência cotidiana — as chances de sobrevivência pareciam

de fato mal distribuídas; mais do que isso, pareciam manipuláveis. Apelava-

se para recursos de autoridade pessoal ou de grupo para transformar a

desigualdade pública em vantagem privada. Como disse Helen Fein,

 

A ameaça coletiva de morte não era prevista porque a organização social da economia política

do gueto criava chances diárias de morte diferenciada. A chance de cada um sobreviver

dependia do lugar que ocupava na ordem social, e toda a ordem social de classes resultava da

escassez imposta e do terror político, que recompensava os mais capazes de servir direta ou

indiretamente aos nazistas… O sistema de controles também dificultava o reconhecimento de

um inimigo comum, com o deslocamento da raiva contra os invasores para o Judenrat e

reforçando-se a crença de que era uma guerra de todos contra todos, e não deles contra nós.18

 

A individualização das estratégias de sobrevivência levou a uma

desordenada disputa geral de posições e papéis considerados favoráveis ou

privilegiados e a um esforço geral de agradar os olhos dos opressores —

invariavelmente à custa de outras vítimas. A ansiedade e a agressão geradas

nesse processo eram descarregadas utilizando-se os Judenräte como para-raios; mas a cada estágio da destruição os Judenräte puderam contar com