Modernidade e Holocausto
O jogo do “salve-se quem puder”
De uma forma ou de outra, a solidão dos judeus se tornou completa na
Alemanha. Viviam agora num mundo sem vizinhos. Para tudo que dizia
respeito ao seu destino, os outros alemães podiam não ter existido. O único
outro agente do mundo judeu era o poder nazista; não importava como os
judeus definiam sua situação, ela estava reduzida a apenas um fator: as
ações que seus perseguidores nazistas achavam útil empreender. Como
seres racionais, os judeus tinham que ajustar a própria conduta às respostas
que os nazistas esperavam. Como seres racionais, tinham que supor a
existência de uma ligação lógica entre ações e reações e portanto também
certas ações como mais razoáveis e aconselháveis que outras. Como seres
racionais, tinham que ser guiados pelos mesmos princípios
comportamentais que os defendidos por seus burocráticos carcereiros:
eficiência, ganho mais elevado, gastos menores. Uma vez que os nazistas
detinham o comando inconteste e indisputado das regras e das apostas em
jogo, podiam usar essa racionalidade judaica como um recurso na busca de
suas próprias metas. Podiam arranjar as regras e as apostas de tal modo que
cada passo racional aprofundaria o desamparo de suas vítimas em
perspectiva e aproximá-las-ia mais alguns centímetros da sua destruição
final.
O jogo do “salve-se quem puder”
O jogo em que os judeus foram forçados pelos nazistas a entrar era de vida
ou morte e, portanto, a ação racional no caso deles só podia visar ao — e
ser medida pelo — aumento das suas chances de escapar à destruição ou de
limitar a escala dessa destruição. O mundo de valores estava reduzido a um
— sobreviver (ou era pelo menos ofuscado por esse objetivo). Isso está bem
claro agora, mas não estava necessariamente claro para as vítimas da época
e certamente não nos estágios iniciais da “estrada sinuosa para Auschwitz”.
Já sabemos que os próprios nazistas, incluindo seus líderes, não começaram
a guerra contra os judeus com uma noção clara de suas consequências
últimas; a guerra começou com o modesto objetivo da Entfernung, de
afastar os judeus da raça alemã e, a longo prazo, tornar a Alemanha
judenrein; foi no curso, e sob o impacto da perseguição burocrática desse
objetivo, que, em algum estágio posterior a destruição física dos judeus
tornou-se não só “racional” como também a “solução”, e tecnologicamente
factível. Mas mesmo quando a decisão fatal de Hitler de assassinar os judeus russos abriu para os zelos “especialistas judeus” novos horizontes e
opções antes não aventadas, manter em segredo a natureza da Solução Final
era parte integrante e crucial do projeto nazista. Levar as vítimas às câmaras
de gás era chamado “realocação” e a identidade dos campos de extermínio
era dissolvida numa vaga ideia: “o leste”. Quando porta-vozes dos guetos
procuravam comandantes das SS para saber se eram verdade os boatos
insistentes sobre iminentes morticínios, os alemães negavam
categoricamente. O segredo era mantido até, literalmente, o último
momento. Um crime pelo qual os membros judeus de um Sonderkommando
[comando especial] que servisse nas câmaras de gás e crematórios eram
punidos com a morte imediata era contar aos recém-chegados
desembarcados dos vagões de gado que o edifício que viam da plataforma
não era um banheiro público. A razão, claro, não era poupar as vítimas da
agonia e angústia, mas fazê-las entrar na câmara de gás voluntariamente e
sem resistência.
Em todos os estágios do Holocausto, portanto, apresentou-se às vítimas
uma opção (pelo menos subjetivamente — mesmo quando a opção já não
existia, substituída pela secreta decisão da destruição física). Elas não
podiam escolher entre uma situação boa e outra ruim, mas podiam pelo
menos optar por um mal maior ou menor. O mais importante é que podiam
desviar alguns golpes afirmando e manifestando seu direito a uma isenção
ou a um tratamento especial. Em outras palavras, tinham algo a salvar. Para
tornar previsível o comportamento das vítimas e portanto manipulável e
controlável, os nazistas tinham que induzi-las a agir de “modo racional”;
para obter esse efeito, tinham que fazer as vítimas acreditarem que havia de
fato alguma coisa a salvar e que existiam regras claras sobre como salvá-la.
Para acreditar nisso, as vítimas tinham que ser convencidas de que o
tratamento do grupo como um todo não seria uniforme, e que cada
indivíduo teria sorte diferente, de acordo com o mérito. As vítimas tinham
que pensar, em outras palavras, que sua conduta importava; e que sua
provação poderia, pelo menos em parte, ser influenciada pelo que fariam.
A mera existência de categorias burocraticamente definidas com vários
graus de direitos e privações induziam a esforços frenéticos para obter uma
“reclassificação”, para provar que se “merecia” a indicação para categoria
melhor. Em nenhum caso esse efeito era mais visível que no da Mischlinge
— “terceira raça” criada pela legislação alemã e situada incomodamente
entre “judeus plenos” e integrantes inatacáveis do Volk alemão. “Por causa dessas discriminações, pressionavam-se colegas, superiores, amigos e
parentes em busca de tratamento excepcional. Consequentemente, em 1935
foi instituído um procedimento para a reclassificação de um Mischling em
categoria mais alta… O procedimento ficou conhecido como Befreiung
(libertação).” O conhecimento de que os esforços não são necessariamente
vãos, de que o veredito do sangue pode ter uma apelação bem-sucedida e
ser anulado, acrescentava entusiasmo à pressão. Podia-se — e muitos
conseguiam — obter uma “genuína” (echte) libertação provando o próprio
mérito (a mais alta corte alemã sentenciou que “a conduta não bastava,
decisiva era a atitude revelada na conduta”). Era possível mesmo, como
aconteceu com o Ministerialrat [conselheiro ministerial] Killy, um
Mischling com notável contribuição para o extermínio dos judeus, receber
um certificado de Befreiung como presente de Natal com entrega especial
direto sob a árvore natalina da família.12
O aspecto diabólico desse cenário era que as crenças e convicções que
sancionava e as ações que encorajava davam legitimidade ao plano-mestre
dos nazistas e o tornavam digerível para a maioria, vítimas inclusive.
Enquanto lutavam por pequenos privilégios, a condição de isentos ou
simplesmente a suspensão da execução prevista no plano geral de
extermínio, as vítimas e aqueles que tentavam ajudá-las aceitavam
tacitamente as premissas do plano. Ao argumentar, por exemplo, que esta
ou aquela pessoa tem direito a ser isenta da taxa profissional com base nos
seus méritos passados, admitia-se, na prática, que sem esse mérito a taxa
profissional era incontestável.
O que era moralmente tão desastroso na aceitação dessas categorias privilegiadas era que todo
mundo que requeria uma “exceção” no seu caso implicitamente reconhecia a regra. Mas isso
aparentemente nunca foi entendido por esses “homens bons”, judeus e gentios, que se
ocupavam de todos aqueles “casos especiais” para os quais se poderia pedir tratamento
preferencial… Mesmo após o fim da guerra, Kasztner [um líder judeu húngaro que negociou
com os nazistas a exclusão de alguns dos distritos judaicos dos campos de extermínio] tinha
orgulho do sucesso em salvar “judeus eminentes”, categoria oficialmente introduzida pelos
nazistas em 1942, como se também na visão dele fosse óbvio que um judeu famoso tivesse
mais direito de ficar vivo do que um judeu comum.13
As oportunidades de aumentar a autoridade da norma lutando por
isenções (e por fim reforçando a norma ao utilizá-la como autorização para
a busca de privilégios individuais) eram amplas e variadas. Foram
oferecidas, sob formas diversas, em todos os estágios do Holocausto. No
caso dos judeus alemães tais oportunidades eram particularmente elaboradas e em profusão. Os judeus que lutaram do lado alemão na Grande
Guerra, que foram feridos em batalha, que foram condecorados por bravura,
foram declarados um caso especial e por longo período ficaram livres da
maioria das restrições aplicadas a seus irmãos menos meritórios. Tal
benevolência desviava a atenção da norma bem mais devastadora da qual
constituía exceção. Quem visse na benevolência uma chance pessoal podia
reivindicar os benefícios, apenas aceitando ao mesmo tempo o pressuposto
que garantia tanto a regra geral como as exceções: o de que os judeus
“normais”, judeus “como tais”, não mereciam os direitos comuns oferecidos
pela cidadania alemã. Uma onda de petições com cerrada argumentação,
cartas de recomendação, intervenções em apoio a destacadas
personalidades, amigos ou sócios, e a busca frenética de documentos e
testemunhos desencadeadas pela norma de isenção contribuíram em não
pequena medida para a calma reconciliação do novo estado de coisas criado
pela legislação antijudaica. Os justos dentre os gentios fizeram o melhor
que puderam para obter privilégios para pessoas que conheciam, gostavam
ou respeitavam, sublinhando em suas cartas às autoridades que aquelas
pessoas em particular não mereciam tratamento severo em função de seus
inestimáveis serviços à nação alemã. Sacerdotes trataram de defender os
judeus convertidos — cristãos de origem judaica. No processo, o princípio
de que era preciso ser um tipo especial de judeu para protestar contra a
discriminação e a perseguição era tacitamente aceito ou de qualquer forma,
acomodado.
No geral, não faltavam pessoas e grupos que ansiosamente abraçavam a
ideia de sua qualidade e exclusividade de direito a tratamento mais
benevolente. Um dos exemplos mais notáveis era a famosa e onipresente
divisão entre os judeus “estabelecidos” e os judeus “imigrantes” na Europa
ocidental. A divisão tinha precendente no antigo antagonismo das
comunidades judias bem estabelecidas e parcialmente assimiladas em
relação a seus irmãos da Europa oriental, incultos, ignorantes e de idioma
ídiche, cuja incômoda intromissão viam como uma ameaça à sua própria
respeitabilidade conquistada a duras custas. (As velhas e ricas famílias
judias da Grã-Bretanha não se importavam em pagar a viagem de volta das
pobres massas judias analfabetas que escapavam dos pogroms russos na
virada do século; na Alemanha, judeus de velha cepa, “mais alemães que os
alemães”, esperavam “livrar-se da antipatia… desviando-a contra os pobres
irmãos imigrantes ainda não assimilados”.)14 A velha tradição de uma atitude superior e desdenhosa em relação aos judeus do shtetl impedia os
líderes das comunidades judias do Ocidente de perceber no destino dos
judeus orientais um modelo do seu próprio futuro; nenhuma sorte comum e
portanto nenhuma estratégia solidária podiam supostamente ser
engendradas por histórias e culturas tão diversas. Quando a informação do
assassinato em massa na Polônia foi transmitida pela BBC para toda a
Holanda, David Cohen, presidente do Conselho Judeu, negou redondamente
sua importância para o destino dos judeus dos Países Baixos:
O fato de que os alemães perpetraram atrocidades contra os judeus poloneses não era motivo
para pensar que se comportariam da mesma maneira com os judeus holandeses; primeiro
porque os alemães sempre tiveram os judeus poloneses em má conta e, segundo, porque na
Holanda, ao contrário da Polônia, eles tinham que se aprumar e levar em conta a opinião
pública.15
Essa autoconfiança não decorria apenas de uma fantasiosa concepção de
mundo, uma visão de conto de fadas, com consequências potencialmente
suicidas para seus detentores. As visões de mundo tendem a determinar as
ações, e a conduta das comunidades judaicas organizadas, convencidas de
sua própria superioridade, reduziu grandemente a chance de uma reação
judia unificada à política nazista e facilitou a “destruição por etapas”.
Mesmo se os porta-vozes da comunidade judaica estabelecida sentiam
compaixão pelos judeus recolhidos, encarcerados e deportados diante dos
seus olhos, apelavam aos membros da comunidade para manterem a calma
e evitar qualquer resistência, de modo a salvar os “valores mais altos”. De
acordo com o estudo de Jacques Adler, a estratégia dos judeus franceses,
enunciada ainda em setembro de 1940, em resposta ao tratamento
diferenciado anunciado pelas forças alemãs de ocupação, não deixava
dúvida sobre a hierarquia das preferências: “Como prioridade básica, essa
estratégia lutava para garantir a existência continuada do judaísmo francês
— e o objetivo não incluía os judeus estrangeiros.” Partia do pressuposto de
que “os judeus imigrantes constituíam uma dívida” para a sobrevivência do
judeu francês. O establishment francês concordou com a resolução de Vichy
de que o preço para proteger o judeu francês era descarregar os imigrantes
na Alemanha: “Não há dúvida de que o judaísmo francês concordou com
Vichy que esses judeus estrangeiros eram social e politicamente
indesejáveis.” 16
A rejeição da solidariedade em nome de privilégios sociais ou de grupo
(o que sempre significou, ainda que indiretamente, anuência ao princípio de que nem todos os membros da categoria marcada merecem sobreviver e que
deve haver tratamento diferenciado segundo a qualidade “objetiva”
devidamente avaliada) era marcante não apenas nas relações
intercomunitárias. Dentro de cada comunidade, esperava-se e lutava-se por
tratamento diferenciado, com os Judenräte normalmente no papel de
agentes da sobrevivência. Preocupadas com a estratégia do “salve-se quem
puder”, as futuras vítimas perdiam de vista, ainda que temporariamente, a
terrível noção do destino imediato. Isso deu aos nazistas a chance de
alcançar seu propósito com custos bastante reduzidos e um mínimo de
problema. Nas palavras de Hilberg,
Os alemães tiveram notável sucesso na deportação de judeus por estágios, porque aqueles que
ficavam raciocinavam que era necessário sacrificar uns poucos para salvar a maioria. A
operação dessa psicologia pode ser observada na comunidade judaica de Viena, que fechou um
“acordo” de deportação com a Gestapo no qual se “compreendia” que seis categorias de judeus
não seriam deportadas. De novo, os judeus do gueto de Varsóvia argumentaram em favor da
cooperação e contra a resistência achando que os alemães deportariam sessenta mil judeus mas
não centenas de milhares. O fenômeno de bissecção ocorreu também em Salonika, onde a
liderança judia colaborou com as agências alemãs de deportação com base na garantia de que
apenas elementos “comunistas” dos setores mais populares seriam deportados e que a “classe
média” seria deixada em paz. A aritmética fatal também foi aplicada em Vilna, onde o líder do
Judenrat, Gens, declarou: “Com umas cem vítimas eu salvo mil pessoas. Com mil eu salvo dez
mil.”17
A vida na opressão era de tal forma estruturada que — do ponto de vista
favorável da existência cotidiana — as chances de sobrevivência pareciam
de fato mal distribuídas; mais do que isso, pareciam manipuláveis. Apelava-
se para recursos de autoridade pessoal ou de grupo para transformar a
desigualdade pública em vantagem privada. Como disse Helen Fein,
A ameaça coletiva de morte não era prevista porque a organização social da economia política
do gueto criava chances diárias de morte diferenciada. A chance de cada um sobreviver
dependia do lugar que ocupava na ordem social, e toda a ordem social de classes resultava da
escassez imposta e do terror político, que recompensava os mais capazes de servir direta ou
indiretamente aos nazistas… O sistema de controles também dificultava o reconhecimento de
um inimigo comum, com o deslocamento da raiva contra os invasores para o Judenrat e
reforçando-se a crença de que era uma guerra de todos contra todos, e não deles contra nós.18
A individualização das estratégias de sobrevivência levou a uma
desordenada disputa geral de posições e papéis considerados favoráveis ou
privilegiados e a um esforço geral de agradar os olhos dos opressores —
invariavelmente à custa de outras vítimas. A ansiedade e a agressão geradas
nesse processo eram descarregadas utilizando-se os Judenräte como para-raios; mas a cada estágio da destruição os Judenräte puderam contar com