Modernidade e Holocausto
Fontes pré-societárias da moralidade
psicológicos humanos. E faz com tal capacidade o que admite fazer com
essas outras teimosas realidades: tenta suprimi-la ou atrelá-la às suas
próprias finalidades, ou canalizá-la numa direção que considere útil ou
inofensiva. O processo de socialização consiste na manipulação da
capacidade moral — não na sua produção. E a capacidade moral que é
manipulada implica não somente certos princípios que posteriormente se
tornam objeto passivo do processamento social; inclui também a capacidade
de resistir, escapar e sobreviver a esse processamento, de forma que no fim
do dia a autoridade e a responsabilidade pelas opções morais repousa onde
repousava no início: na pessoa humana.
Se essa visão da capacidade moral é aceita, os problemas aparentemente
resolvidos e liquidados da sociologia da moralidade vêm a ser novamente
escancarados. A questão da moralidade deve ser ressituada; da problemática
da socialização, educação e civilização — em outras palavras, do reino dos
“processos humanizadores” socialmente administrados — ela deve ser
transferida para a área dos processos e instituições repressivos,
mantenedores dos padrões e diretores de tensões, como um dos
“problemas” que estão destinados a tratar, acomodar ou transformar. A
capacidade moral — objeto mas não produto de tais processos e instituições
— teria então que revelar sua origem alternativa. Uma vez rejeitada a
explicação da tendência moral como impulso consciente ou inconsciente
para a solução do “problema hobbesiano”, os fatores responsáveis pela
presença da capacidade moral devem ser buscados na esfera social, mas não
societária. O comportamento moral é concebível apenas no contexto da
coexistência, do “estar com os outros”, isto é, no contexto social; mas não
deve seu aparecimento à presença de agências supraindividuais de
treinamento e imposição, ou seja, ao contexto societário.
Fontes pré-societárias da moralidade
A modalidade existencial do social (ao contrário da estrutura societária)
raramente ocupou o centro das atenções sociológicas. Era de bom grado
entregue ao campo da antropologia filosófica e vista como sendo, na melhor
das hipóteses, o distante limite exterior do território da sociologia
propriamente dita. Não há, portanto, consenso sociológico quanto ao significado, o conteúdo experimental e as consequências comportamentais
da condição primária de “estar com os outros”. Ainda estão para ser
plenamente investigadas na prática sociológica as maneiras pelas quais essa
condição pode se tornar sociologicamente relevante.
A prática sociológica mais comum não parece atribuir a esse “estar com
os outros” (isto é, com outros seres humanos) um status ou significado
especial. Os outros são dissolvidos nos conceitos muito mais inclusivos de
contexto da ação, situação do ator ou, no geral, de “ambiente” — esses
vastos territórios em que se situam as forças que levam para determinada
direção as opções do ator ou limitam sua liberdade de escolha e que contêm
os objetivos que atraem a sua atividade proposital e portanto fornecem os
motivos para a ação. Os outros não são creditados com subjetividade, que
poderia isolá-los de outros constituintes do “contexto da ação”. Ou melhor,
sua condição única de seres humanos é reconhecida, mas dificilmente
encarada na prática como uma circunstância que confronta o ator com uma
tarefa qualitativamente distinta. Para todos os efeitos e interesses práticos, a
“subjetividade” do outro resume-se à reduzida previsibilidade de suas
reações e, portanto, à restrição que impõe à busca do ator por um controle
completo da situação e uma eficiente execução da tarefa estabelecida. A
conduta errática do outro ser humano, enquanto distinto dos elementos
inanimados presentes no campo da ação, é um incômodo; e, por tudo o que
sabemos, um incômodo temporário. O controle do ator sobre a situação visa
a uma manipulação tal do contexto de ação do outro que favoreça a
probabilidade de um curso específico de conduta e, portanto, reduzir ainda
mais o outro dentro do horizonte do ator a uma posição praticamente
indistinta do resto dos objetos relevantes para o sucesso da ação. A presença
do outro ser humano no campo da ação constitui um desafio tecnológico;
alcançar o domínio sobre o outro, reduzindo-o à condição de fator
calculável e manipulável da atividade que visa a um fim, é
reconhecidamente difícil. Pode mesmo exigir habilidades especiais da parte
do ator (tais como compreensão, retórica ou conhecimento de psicologia)
que são dispensáveis ou inúteis nas relações com outros objetos do campo
de ação.
Dentro dessa perspectiva comum, a importância do outro esgota-se
inteiramente no impacto que exerce sobre a chance do ator atingir seu
objetivo. O outro importa na medida em que (e somente na medida em que)
sua fragilidade e inconstância diminuem a probabilidade de que a busca de determinado fim seja eficientemente concluída. A tarefa do ator é garantir
uma situação na qual o outro deixará de importar e não precisará ser levado
em conta. A tarefa e sua realização são portanto sujeitas a uma avaliação
técnica, não moral. As opções abertas para o ator na sua relação com o
outro dividem-se em efetivas e não efetivas, em eficientes e ineficientes —
mesmo em racionais e irracionais — mas não em certas e erradas, boas e
más. A situação elementar de “estar com os outros” não gera por si mesma
(isto é, a não ser que forçada por pressões externas) nenhuma problemática
moral. Sejam quais forem as considerações morais que possam interferir
com ela, têm seguramente que partir de fora. Sejam quais forem as
restrições que possa impor às opções do ator, não decorrem da lógica
intrínseca do cálculo de meios e fins. Analiticamente falando, precisam ser
francamente consideradas entre os fatores irracionais. Na situação de “estar
com os outros” plenamente organizada pelos objetivos do ator, a moralidade
é uma intrusa.
Uma concepção alternativa das origens da moralidade pode ser buscada
no famoso retrato que Sartre fez da relação ego-alter como modo de
existência essencial e universal. Mas não é nada certo que se possa
encontrá-la aí. Se resulta da análise de Sartre uma concepção de
moralidade, é uma concepção negativa: a moralidade como um limite, mais
do que um dever, uma restrição e não um estímulo. Nesse ponto (embora
somente nesse ponto), as implicações sartrianas para a avaliação do status
da moralidade não partem de maneira significativa da interpretação
sociológica padrão, previamente abordada, do papel da moralidade no
contexto da ação elementar.
A novidade radical consiste, é claro, em isolar os outros humanos do
resto do horizonte do ator, como unidades dotadas de condição e capacidade
qualitativamente distintas. Para Sartre, o outro torna-se alter ego, um
colega, um sujeito como eu mesmo, dotado de uma subjetividade que só
posso imaginar como réplica daquela que conheço de minha experiência
interior. Um abismo separa o alter ego de todos os demais objetos do
mundo, verdadeiros ou imaginários. O alter ego faz o que eu faço; pensa,
avalia, projeta e, enquanto faz tudo isso, olha para mim como eu olho para
ele. Meramente olhando para mim, o outro se torna o limite da minha
liberdade. Ele agora usurpa o direito de definir-me e definir os meus fins,
assim minando meu afastamento e autonomia, comprometendo minha
identidade e meu à-vontade no mundo. A própria presença do alter ego neste mundo me envergonha e é causa constante da minha angústia. Não
posso ser tudo o que quero ser. Não posso fazer tudo o que quero fazer.
Minha liberdade malogra. Na presença do alter ego — isto é, no mundo —
meu ser para mim mesmo é também, inevitavelmente, ser para o outro.
Quando ajo, não posso deixar de levar em conta essa presença e, portanto,
também as definições, pontos de vista e perspectivas que ela implica.
Somos tentados a dizer que a inevitabilidade das considerações morais é
inerente à descrição sartriana da conjunção ego-alter. E no entanto não está
nada claro que obrigações morais, se é que existe alguma, podem ser
determinadas pela conjunção assim descrita. Alfred Schutz estava
inteiramente certo ao interpretar o resultado do encontro ego-alter, tal como
descrito por Sartre, da seguinte maneira:
Minhas próprias possibilidades viram probabilidades para além do meu controle. Não sou mais
senhor da situação — ou, pelo menos, a situação ganhou uma dimensão que me escapa. Virei
um utensílio com o qual e sobre o qual o Outro pode agir. Percebo essa experiência não por
cognição, mas uma sensação de desconforto ou embaraço que, segundo Sartre, é uma das
características destacadas da condição humana.6
O desconforto e embaraço sartrianos têm uma inconfundível e conhecida
semelhança com aquela restrição exterior ridicularizante que a perspectiva
sociológica comum imputa à presença dos outros. Mais precisamente,
representam um reflexo subjetivo do transe que a sociologia tenta captar na
estrutura impessoal e objetiva daquela presença; ou, melhor ainda,
representam um apêndice emocional, precognitivo, da postura lógico-
racional. As duas descrições da condição existencial são unidas pelo
ressentimento que implicam. Em ambas, o outro é uma amolação e um
fardo; um desafio, na melhor das hipóteses. Num caso, sua presença não
pede quaisquer normas morais — com efeito, nenhuma outra norma além
das regras do comportamento racional. Em outro, ele molda a moralidade
que gera como um conjunto de regras, mais do que normas (muito menos
como propulsão interna); regras que são naturalmente ressentidas, uma vez
que revelam outros seres humanos como uma exterioridade hostil da
condição humana, como uma restrição da liberdade.
Há, no entanto, uma terceira descrição da condição existencial de “estar
com os outros” — uma que pode fornecer um ponto de partida para uma
abordagem sociológica realmente diferente e original da moralidade, capaz
de revelar e articular os aspectos da sociedade moderna que as abordagens
ortodoxas deixam invisíveis. Emmanuel Levinas7, responsável por essa descrição, encerra sua ideia diretriz numa citação de Dostoievski: “Somos
todos responsáveis por todos, por todos os homens perante todos, e eu mais
que os outros.”
Para Levinas, “estar com os outros”, esse primaríssimo e irremovível
atributo da existência humana, significa primeiro e acima de tudo
responsabilidade. “Se o outro olha para mim, sou responsável por ele,
mesmo não tendo assumido responsabilidades para com ele.” Minha
responsabilidade é a única forma pela qual o outro existe para mim; é o
modo da sua presença, da sua proximidade:
o Outro não está apenas próximo de mim no espaço ou próximo como um parente, mas se
aproxima de mim essencialmente na medida em que eu me sinto — em que eu sou —
responsável por ele. É uma estrutura que de forma alguma se assemelha à relação intencional
que nos liga em conhecimento ao objeto — não importa qual objeto, mesmo um objeto
humano. A proximidade não reverte à sua intencionalidade; em particular, não reverte ao fato
de que o Outro é conhecido por mim.
De forma bem clara, minha responsabilidade é incondicional. Não depende
de conhecimento anterior das qualidades do seu objeto; ela precede tal
conhecimento. Não depende de uma intenção interessada pelo objeto;
precede tal intenção. Nem o conhecimento nem a intenção contribuem para
a proximidade do outro, para o modo especificamente humano de
conjunção. “O laço com o Outro é atado somente como responsabilidade.”
E isso, ainda por cima,
quer seja aceito ou recusado, quer sabendo ou não como assumir [tal responsabilidade], quer se
seja ou não capaz de fazer algo concreto pelo Outro. Dizer: me voici [aqui estou]. Fazer algo
pelo Outro. Dar. Ser um espírito humano, é isso… Analiso o relacionamento inter-humano
como se, em proximidade com o Outro — para além da imagem que eu mesmo faça do outro
ser humano — seu rosto, a expressão do Outro (e todo o corpo humano é, nesse sentido, mais
ou menos rosto) fosse o que me ordenasse a servi-lo… O rosto ordena e me ordena. Sua
significação é uma ordem significada. Para ser preciso, se o rosto significa uma ordem em
relação a mim, não é da maneira pela qual um sinal comum significa seu significado; esta
ordem é a própria significatividade do rosto.
Com efeito, de acordo com Levinas, responsabilidade é a estrutura
essencial, primária e fundamental da subjetividade. Responsabilidade que
significa “responsabilidade pelo Outro” e, portanto, uma responsabilidade
“pelo que não fiz ou pelo que nem sequer me interessa”. Essa
responsabilidade existencial, o único significado de subjetividade, de ser
um sujeito, não tem nada a ver com obrigação contratual. Não tem nada em
comum também com o cálculo que eu possa fazer de benefícios mútuos. Não requer uma firme ou vã expectativa de reciprocidade, de “intenções