Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 20 de 52

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Modernidade e Holocausto

Olhando adiante

buscava ativamente a melhor solução. O Führer expressou sua visão

romântica do mundo expurgado da raça fatalmente doente. O resto era

questão de um processo burocrático friamente racional, nada romântico.

A mistura letal combinava a ambição tipicamente moderna de

engenharia e planejamento social com uma concentração tipicamente

moderna de poder, recursos e técnicas administrativas. Na concisa e

inesquecível frase de Gordon, “quando milhões de judeus e outras vítimas

pensavam na morte iminente e se perguntavam por que tinham que morrer

sem ter feito nada para merecer isso, talvez a resposta mais simples fosse

que o poder estava totalmente concentrado nas mãos de um homem e esse

homem odiava a ‘raça’ deles”.28 O ódio do homem e o poder concentrado

não tinham que estar unidos (na verdade, nenhuma teoria satisfatória foi

apresentada até hoje para provar que o antissemitismo é funcionalmente

indispensável a um regime totalitário; ou, vice-versa, que a presença do

antissemitismo na sua forma racista moderna resulta inevitavelmente em tal

regime. Klaus von Beyme descobriu no seu recente estudo que, por

exemplo, os falangistas espanhóis tinham especial orgulho da ausência de

uma única nota antissemita em todos os escritos de Antonio Primo de

Rivera e que mesmo um fascista “clássico” como Serrano Suñer, cunhado

de Franco, considerava o racismo em geral uma heresia para o bom

católico. O neofascista francês Maurice Bardech afirmou que a perseguição

aos judeus foi o maior erro de Hitler e estava hors du contrat fasciste, fora

do contrato fascista29). Mas o fato foi que aquele ódio e aquele poder se

encontraram. E podem se encontrar de novo.

 

Olhando adiante

 

A história do moderno antissemitismo — tanto na sua forma heterofóbica

como na forma moderna, racista — não terminou, do mesmo modo que a

história da modernidade em geral e do Estado moderno em particular. Os

processos de modernização parecem atualmente deixar a Europa. Embora

algum instrumento de traçar fronteiras tenha parecido necessário na

passagem para a cultura moderna, do tipo “jardim”, assim como nas mais

traumáticas perturbações em sociedades submetidas à mudança

modernizadora, a escolha dos judeus para o papel desse instrumento foi ditado com toda probabilidade pelas vicissitudes específicas da história

europeia. A conexão entre judeofobia e modernidade europeia era histórica

— e, pode-se dizer, historicamente única. Por outro lado, sabemos muito

bem que os estímulos culturais viajam de forma relativamente livre se não

forem acompanhados de condições estruturais intimamente relacionadas a

eles no seu lugar de origem. O estereótipo do judeu como uma força

perturbadora da ordem, como um agrupamento incongruente de oposições

que solapa todas as identidades e ameaça todos os esforços de livre arbítrio

e autodeterminação, foi de há muito sedimentado na cultura extremamente

autoritária da Europa e está disponível para transações de exportação e

importação, como tudo o mais nessa cultura reconhecida como superior e

confiável. Esse estereótipo, como antes tantos outros conceitos e itens

culturalmente moldados, pode ser adotado como veículo na solução de

problemas locais mesmo se faltar no local a experiência histórica de que se

originou; mesmo que (ou talvez particularmente se) as sociedades que o

adotarem não tenham anteriormente tido conhecimento direto dos judeus.

Observou-se recentemente que o antissemitismo sobreviveu às

populações contra as quais foi ostensivamente dirigido. Em países onde os

judeus simplesmente desapareceram, o antissemitismo (como sentimento

ligado hoje, claro, a práticas originalmente relacionadas a alvos outros que

não os judeus) continua incólume. Ainda mais notável é a falta de ligação

entre a aceitação de sentimentos antijudaicos e quaisquer outros

preconceitos nacionais, religiosos ou raciais com os quais se pensava que

estivesse intimamente relacionado. Os sentimentos antissemíticos também

não estão ligados hoje a idiossincrasias de grupo ou individuais,

especialmente a problemas não resolvidos geradores de ansiedade, aguda

insegurança etc. Bernd Martin, que pesquisou o caso austríaco de

“antissemitismo sem judeus”, cunhou o termo sedimentação cultural para

definir um fenômeno relativamente novo: certos traços humanos ou padrões

culturais (geralmente depreciativos, mórbidos, pouco atraentes ou

vergonhosos) adquiriram na consciência popular a definição de judaicos. À

falta de comprovação prática dessa conexão, a definição cultural negativa e

a antipatia pelos aspectos a que se refere alimentam-se e reforçam

mutuamente.30

Para muitos outros casos de antissemitismo moderno, no entanto, a

explicação em termos de “sedimentação cultural” não serve. Na nossa

aldeia global, as notícias voam rápido para toda parte e de há muito a cultura se tornou um jogo sem fronteiras. Mais do que um produto de

sedimentação cultural, o antissemitismo contemporâneo parece estar

submetido aos processos de difusão cultural, hoje muito mais intensa que

em qualquer época passada. Como outros objetos dessa difusão, o

antissemitismo, ainda que mantendo a afinidade com sua forma original, é

transformado no processo — aguçado ou enriquecido — para adaptar-se aos

problemas e necessidades de seu novo lar. Não há escassez de problemas e

necessidades nestes tempos de “desenvolvimento desigual” da

modernidade, com as resultantes tensões e traumas. O estereótipo da

judeofobia oferece uma inteligibilidade óbvia, pronta, a deslocamentos de

outra forma intrigantes e assustadores e formas de sofrimento ainda

desconhecidas. Por exemplo, no Japão tem-se tornado nos últimos anos

cada vez mais popular como chave-mestra para compreender obstáculos

imprevistos no caminho da expansão econômica; a atuação dos judeus em

todo o mundo é apresentada como explicação para eventos tão diversos

quanto a supervalorização do iene e a suposta ameaça de precipitação

radioativa no caso de outro acidente nuclear semelhante a Tchernobyl

seguido de outro encobrimento soviético.31

Uma variedade de estereótipo antissemítico que se propaga fácil é

definida em detalhe por Norman Cohn: a imagem dos judeus como uma

conspiração internacional para destruir todos os poderes, tradições e

culturas locais e unir o mundo sob dominação judaica. Com certeza, esta é a

forma mais ofensiva e potencialmente letal de antissemitismo; foi sob os

auspícios desse estereótipo que os nazistas tentaram exterminar os judeus.

Parece que no mundo contemporâneo a imagem multifacetada do povo

judeu, outrora inspirada em múltiplas dimensões da “incongruência

judaica”, tende a ser reduzida a apenas um simples atributo: o de uma elite

supranacional de poder invisível por trás de todos os poderes visíveis, o de

um administrador oculto de supostamente espontâneas e incontroláveis mas

geralmente infelizes e desconcertantes reviravoltas do destino.

A forma hoje dominante de antissemitismo é produto da teoria, não da

experiência elementar; é sustentada pelo processo de ensino e aprendizado,

não por reações não processadas intelectualmente ao contexto da interação

cotidiana. No começo deste século, a variante de longe mais comum de

antissemitismo nos países afluentes da Europa ocidental voltava-se contra

as massas de imigrantes judeus empobrecidos e por demais esquisitos;

originou-se da reação imediata das classes inferiores nativas, únicas em contato com esses bizarros estrangeiros e que reagiam com suspeita e

desconfiança a sua presença desconcertante e desestabilizadora. Raramente

suas opiniões eram partilhadas pelas elites, que não tinham experiência

direta de interação com os recém-chegados de língua ídiche e para as quais

os imigrantes não eram essencialmente diferentes do resto das classes

inferiores, rebeldes, deprimidas e potencialmente perigosas. Enquanto

permaneceu não processada por uma teoria que só os intelectuais da classe

média ou das classes altas podiam fornecer, a heterofobia elementar das

massas ficou (parafraseando a famosa frase de Lênin) no nível da

“consciência sindical”; dificilmente poderia ultrapassar esse plano enquanto

se fizesse referência apenas à experiência de base do relacionamento com

os judeus pobres. Podia ser generalizada numa plataforma para a agitação

de massas com o simples acréscimo de ansiedades individuais e a

apresentação dos problemas pessoais como problemas comuns (como no

caso do Movimento Britânico Mosley, que visava sobretudo aos imigrantes

do East End londrino, ou da atual Frente Nacional Britânica, com o mesmo

alvo em Leicester e Notting Hill, e da Frente Nacional francesa, que tem

como alvo Marselha). Podia chegar a exigir que os estranhos fossem

mandados de volta ao lugar de onde vieram. Mas não havia como

transformar essa heterofobia ou mesmo a ansiedade limitadora das massas,

de certa forma “assunto particular” das classes inferiores, em sofisticadas

teorias antissemíticas de ambições universais, como a da raça mortífera ou a

da “conspiração mundial”. Para fascinar a imaginação popular, essas teorias

devem se referir a fatos normalmente inacessíveis às massas e

desconhecidos para elas, fatos certamente não situados no âmbito de sua

experiência diária e imediata.

Nossa análise anterior levou-nos, porém, à conclusão de que o

verdadeiro papel das formas teóricas, sofisticadas, de antissemitismo está

não tanto na sua capacidade de fomentar atitudes de antagonismo nas

massas, mas na sua ligação única com os projetos e ambições de engenharia

social do Estado moderno (ou, mais precisamente, com as variantes

extremas e radicais dessas ambições). Com as evidentes tendências atuais

para a retirada do Estado ocidental da administração direta de muitas áreas

da vida social anteriormente mantidas sob controle e a inclinação por uma

estrutura social geradora de pluralismo e orientada pelo mercado, parece

improvável que uma forma racista de antissemitismo possa de novo ser

usada por um Estado no Ocidente como instrumento de um projeto de engenharia social em larga escala. Pelo menos, esclareça-se, num futuro

previsível; a situação pós-moderna da maioria das sociedades ocidentais,

centradas no mercado e orientadas para o consumo, parece assentar-se na

base frágil de uma excepcional superioridade econômica, por enquanto

assegurada pela posse de uma parcela demasiadamente grande dos recursos

mundiais mas que não vai durar para sempre. Podemos supor que num

futuro não muito distante possam muito bem ocorrer situações que

convidem o Estado a exercer um controle social direto — e então a

arraigada e bem testada perspectiva racista poderá de novo vir a calhar.

Nesse meio tempo, versões não racistas e menos dramáticas da judeofobia

podem em várias ocasiões menos radicais ser utilizadas como meio de

propaganda política e mobilização.

Com os judeus deslocando-se hoje maciçamente para as classes média e

alta e portanto fora de alcance da experiência direta das massas, os

antagonismos de grupo decorrentes de recentes preocupações com o

estabelecimento e manutenção de fronteiras tendem a se voltar na maioria

dos países ocidentais contra os trabalhadores imigrantes. Há forças políticas

ávidas em capitalizar esses sentimentos. Elas muitas vezes usam uma

linguagem desenvolvida pelo racismo moderno para argumentar em favor

da segregação e separação física: um lema usado com sucesso pelos

nazistas na sua caminhada para o poder, como meio de ganhar para suas

intenções racistas o apoio da combativa animosidade das massas. Em todos

os países que no período de reconstrução econômica do pós-guerra atraíram

grandes levas de trabalhadores imigrantes, a imprensa popular e os políticos

de tendência populista dão inúmeros exemplos dos novos usos dados

atualmente à linguagem racista. Gérard Fuchs, Pierre Jouve e Ali Magoudi32

publicaram recentemente amplas coletâneas e análises convincentes desses

usos. Pode-se ler aí sobre a edição de 26 de outubro de 1985 da revista Le

Figaro, dedicada à questão: “Seremos ainda franceses daqui a 30 anos?”

Pode-se ver também o primeiro-ministro Jacques Chirac falando de um

fôlego só sobre a determinação de seu governo de lutar firmemente pelo

reforço da segurança pessoal e da identidade da comunidade nacional

francesa. O leitor britânico, com certeza, não precisa ir a autores franceses

em busca de uma linguagem segregacionista, quase racista, a serviço da

mobilização dos medos populares, da heterofobia e do estabelecimento de

limites.

Por mais abomináveis que sejam e por maior que se mostre o seu

reservatório de violência em potencial, a heterofobia e as ansiedades da

briga de fronteiras não resultam — direta ou indiretamente — em

genocídio. Confundir a heterofobia com o racismo e o crime organizado do

tipo Holocausto é um equívoco e também potencialmente perigoso, pois

desvia o exame das verdadeiras causas do desastre, que estão enraizadas

em alguns aspectos da mentalidade moderna e da organização social

moderna, mais do em que reações atemporais aos estrangeiros ou mesmo

em conflitos menos universais, embora bem onipresentes, de identidade.

Para iniciar e sustentar o Holocausto, a heterofobia tradicional

desempenhou apenas um papel auxiliar. Os fatores realmente indispensáveis

foram de outro tipo e guardavam no máximo uma relação meramente

histórica com formas mais familiares de ressentimento de grupo. A

possibilidade do Holocausto teve raiz em certos aspectos universais da

civilização moderna; sua efetivação, por outro lado, teve a ver com uma

relação específica e de forma alguma universal entre Estado e sociedade. O

próximo capítulo dedica-se a uma investigação mais detalhada dessas

conexões.

 

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