Modernidade e Holocausto
Olhando adiante
buscava ativamente a melhor solução. O Führer expressou sua visão
romântica do mundo expurgado da raça fatalmente doente. O resto era
questão de um processo burocrático friamente racional, nada romântico.
A mistura letal combinava a ambição tipicamente moderna de
engenharia e planejamento social com uma concentração tipicamente
moderna de poder, recursos e técnicas administrativas. Na concisa e
inesquecível frase de Gordon, “quando milhões de judeus e outras vítimas
pensavam na morte iminente e se perguntavam por que tinham que morrer
sem ter feito nada para merecer isso, talvez a resposta mais simples fosse
que o poder estava totalmente concentrado nas mãos de um homem e esse
homem odiava a ‘raça’ deles”.28 O ódio do homem e o poder concentrado
não tinham que estar unidos (na verdade, nenhuma teoria satisfatória foi
apresentada até hoje para provar que o antissemitismo é funcionalmente
indispensável a um regime totalitário; ou, vice-versa, que a presença do
antissemitismo na sua forma racista moderna resulta inevitavelmente em tal
regime. Klaus von Beyme descobriu no seu recente estudo que, por
exemplo, os falangistas espanhóis tinham especial orgulho da ausência de
uma única nota antissemita em todos os escritos de Antonio Primo de
Rivera e que mesmo um fascista “clássico” como Serrano Suñer, cunhado
de Franco, considerava o racismo em geral uma heresia para o bom
católico. O neofascista francês Maurice Bardech afirmou que a perseguição
aos judeus foi o maior erro de Hitler e estava hors du contrat fasciste, fora
do contrato fascista29). Mas o fato foi que aquele ódio e aquele poder se
encontraram. E podem se encontrar de novo.
Olhando adiante
A história do moderno antissemitismo — tanto na sua forma heterofóbica
como na forma moderna, racista — não terminou, do mesmo modo que a
história da modernidade em geral e do Estado moderno em particular. Os
processos de modernização parecem atualmente deixar a Europa. Embora
algum instrumento de traçar fronteiras tenha parecido necessário na
passagem para a cultura moderna, do tipo “jardim”, assim como nas mais
traumáticas perturbações em sociedades submetidas à mudança
modernizadora, a escolha dos judeus para o papel desse instrumento foi ditado com toda probabilidade pelas vicissitudes específicas da história
europeia. A conexão entre judeofobia e modernidade europeia era histórica
— e, pode-se dizer, historicamente única. Por outro lado, sabemos muito
bem que os estímulos culturais viajam de forma relativamente livre se não
forem acompanhados de condições estruturais intimamente relacionadas a
eles no seu lugar de origem. O estereótipo do judeu como uma força
perturbadora da ordem, como um agrupamento incongruente de oposições
que solapa todas as identidades e ameaça todos os esforços de livre arbítrio
e autodeterminação, foi de há muito sedimentado na cultura extremamente
autoritária da Europa e está disponível para transações de exportação e
importação, como tudo o mais nessa cultura reconhecida como superior e
confiável. Esse estereótipo, como antes tantos outros conceitos e itens
culturalmente moldados, pode ser adotado como veículo na solução de
problemas locais mesmo se faltar no local a experiência histórica de que se
originou; mesmo que (ou talvez particularmente se) as sociedades que o
adotarem não tenham anteriormente tido conhecimento direto dos judeus.
Observou-se recentemente que o antissemitismo sobreviveu às
populações contra as quais foi ostensivamente dirigido. Em países onde os
judeus simplesmente desapareceram, o antissemitismo (como sentimento
ligado hoje, claro, a práticas originalmente relacionadas a alvos outros que
não os judeus) continua incólume. Ainda mais notável é a falta de ligação
entre a aceitação de sentimentos antijudaicos e quaisquer outros
preconceitos nacionais, religiosos ou raciais com os quais se pensava que
estivesse intimamente relacionado. Os sentimentos antissemíticos também
não estão ligados hoje a idiossincrasias de grupo ou individuais,
especialmente a problemas não resolvidos geradores de ansiedade, aguda
insegurança etc. Bernd Martin, que pesquisou o caso austríaco de
“antissemitismo sem judeus”, cunhou o termo sedimentação cultural para
definir um fenômeno relativamente novo: certos traços humanos ou padrões
culturais (geralmente depreciativos, mórbidos, pouco atraentes ou
vergonhosos) adquiriram na consciência popular a definição de judaicos. À
falta de comprovação prática dessa conexão, a definição cultural negativa e
a antipatia pelos aspectos a que se refere alimentam-se e reforçam
mutuamente.30
Para muitos outros casos de antissemitismo moderno, no entanto, a
explicação em termos de “sedimentação cultural” não serve. Na nossa
aldeia global, as notícias voam rápido para toda parte e de há muito a cultura se tornou um jogo sem fronteiras. Mais do que um produto de
sedimentação cultural, o antissemitismo contemporâneo parece estar
submetido aos processos de difusão cultural, hoje muito mais intensa que
em qualquer época passada. Como outros objetos dessa difusão, o
antissemitismo, ainda que mantendo a afinidade com sua forma original, é
transformado no processo — aguçado ou enriquecido — para adaptar-se aos
problemas e necessidades de seu novo lar. Não há escassez de problemas e
necessidades nestes tempos de “desenvolvimento desigual” da
modernidade, com as resultantes tensões e traumas. O estereótipo da
judeofobia oferece uma inteligibilidade óbvia, pronta, a deslocamentos de
outra forma intrigantes e assustadores e formas de sofrimento ainda
desconhecidas. Por exemplo, no Japão tem-se tornado nos últimos anos
cada vez mais popular como chave-mestra para compreender obstáculos
imprevistos no caminho da expansão econômica; a atuação dos judeus em
todo o mundo é apresentada como explicação para eventos tão diversos
quanto a supervalorização do iene e a suposta ameaça de precipitação
radioativa no caso de outro acidente nuclear semelhante a Tchernobyl
seguido de outro encobrimento soviético.31
Uma variedade de estereótipo antissemítico que se propaga fácil é
definida em detalhe por Norman Cohn: a imagem dos judeus como uma
conspiração internacional para destruir todos os poderes, tradições e
culturas locais e unir o mundo sob dominação judaica. Com certeza, esta é a
forma mais ofensiva e potencialmente letal de antissemitismo; foi sob os
auspícios desse estereótipo que os nazistas tentaram exterminar os judeus.
Parece que no mundo contemporâneo a imagem multifacetada do povo
judeu, outrora inspirada em múltiplas dimensões da “incongruência
judaica”, tende a ser reduzida a apenas um simples atributo: o de uma elite
supranacional de poder invisível por trás de todos os poderes visíveis, o de
um administrador oculto de supostamente espontâneas e incontroláveis mas
geralmente infelizes e desconcertantes reviravoltas do destino.
A forma hoje dominante de antissemitismo é produto da teoria, não da
experiência elementar; é sustentada pelo processo de ensino e aprendizado,
não por reações não processadas intelectualmente ao contexto da interação
cotidiana. No começo deste século, a variante de longe mais comum de
antissemitismo nos países afluentes da Europa ocidental voltava-se contra
as massas de imigrantes judeus empobrecidos e por demais esquisitos;
originou-se da reação imediata das classes inferiores nativas, únicas em contato com esses bizarros estrangeiros e que reagiam com suspeita e
desconfiança a sua presença desconcertante e desestabilizadora. Raramente
suas opiniões eram partilhadas pelas elites, que não tinham experiência
direta de interação com os recém-chegados de língua ídiche e para as quais
os imigrantes não eram essencialmente diferentes do resto das classes
inferiores, rebeldes, deprimidas e potencialmente perigosas. Enquanto
permaneceu não processada por uma teoria que só os intelectuais da classe
média ou das classes altas podiam fornecer, a heterofobia elementar das
massas ficou (parafraseando a famosa frase de Lênin) no nível da
“consciência sindical”; dificilmente poderia ultrapassar esse plano enquanto
se fizesse referência apenas à experiência de base do relacionamento com
os judeus pobres. Podia ser generalizada numa plataforma para a agitação
de massas com o simples acréscimo de ansiedades individuais e a
apresentação dos problemas pessoais como problemas comuns (como no
caso do Movimento Britânico Mosley, que visava sobretudo aos imigrantes
do East End londrino, ou da atual Frente Nacional Britânica, com o mesmo
alvo em Leicester e Notting Hill, e da Frente Nacional francesa, que tem
como alvo Marselha). Podia chegar a exigir que os estranhos fossem
mandados de volta ao lugar de onde vieram. Mas não havia como
transformar essa heterofobia ou mesmo a ansiedade limitadora das massas,
de certa forma “assunto particular” das classes inferiores, em sofisticadas
teorias antissemíticas de ambições universais, como a da raça mortífera ou a
da “conspiração mundial”. Para fascinar a imaginação popular, essas teorias
devem se referir a fatos normalmente inacessíveis às massas e
desconhecidos para elas, fatos certamente não situados no âmbito de sua
experiência diária e imediata.
Nossa análise anterior levou-nos, porém, à conclusão de que o
verdadeiro papel das formas teóricas, sofisticadas, de antissemitismo está
não tanto na sua capacidade de fomentar atitudes de antagonismo nas
massas, mas na sua ligação única com os projetos e ambições de engenharia
social do Estado moderno (ou, mais precisamente, com as variantes
extremas e radicais dessas ambições). Com as evidentes tendências atuais
para a retirada do Estado ocidental da administração direta de muitas áreas
da vida social anteriormente mantidas sob controle e a inclinação por uma
estrutura social geradora de pluralismo e orientada pelo mercado, parece
improvável que uma forma racista de antissemitismo possa de novo ser
usada por um Estado no Ocidente como instrumento de um projeto de engenharia social em larga escala. Pelo menos, esclareça-se, num futuro
previsível; a situação pós-moderna da maioria das sociedades ocidentais,
centradas no mercado e orientadas para o consumo, parece assentar-se na
base frágil de uma excepcional superioridade econômica, por enquanto
assegurada pela posse de uma parcela demasiadamente grande dos recursos
mundiais mas que não vai durar para sempre. Podemos supor que num
futuro não muito distante possam muito bem ocorrer situações que
convidem o Estado a exercer um controle social direto — e então a
arraigada e bem testada perspectiva racista poderá de novo vir a calhar.
Nesse meio tempo, versões não racistas e menos dramáticas da judeofobia
podem em várias ocasiões menos radicais ser utilizadas como meio de
propaganda política e mobilização.
Com os judeus deslocando-se hoje maciçamente para as classes média e
alta e portanto fora de alcance da experiência direta das massas, os
antagonismos de grupo decorrentes de recentes preocupações com o
estabelecimento e manutenção de fronteiras tendem a se voltar na maioria
dos países ocidentais contra os trabalhadores imigrantes. Há forças políticas
ávidas em capitalizar esses sentimentos. Elas muitas vezes usam uma
linguagem desenvolvida pelo racismo moderno para argumentar em favor
da segregação e separação física: um lema usado com sucesso pelos
nazistas na sua caminhada para o poder, como meio de ganhar para suas
intenções racistas o apoio da combativa animosidade das massas. Em todos
os países que no período de reconstrução econômica do pós-guerra atraíram
grandes levas de trabalhadores imigrantes, a imprensa popular e os políticos
de tendência populista dão inúmeros exemplos dos novos usos dados
atualmente à linguagem racista. Gérard Fuchs, Pierre Jouve e Ali Magoudi32
publicaram recentemente amplas coletâneas e análises convincentes desses
usos. Pode-se ler aí sobre a edição de 26 de outubro de 1985 da revista Le
Figaro, dedicada à questão: “Seremos ainda franceses daqui a 30 anos?”
Pode-se ver também o primeiro-ministro Jacques Chirac falando de um
fôlego só sobre a determinação de seu governo de lutar firmemente pelo
reforço da segurança pessoal e da identidade da comunidade nacional
francesa. O leitor britânico, com certeza, não precisa ir a autores franceses
em busca de uma linguagem segregacionista, quase racista, a serviço da
mobilização dos medos populares, da heterofobia e do estabelecimento de
limites.
Por mais abomináveis que sejam e por maior que se mostre o seu
reservatório de violência em potencial, a heterofobia e as ansiedades da
briga de fronteiras não resultam — direta ou indiretamente — em
genocídio. Confundir a heterofobia com o racismo e o crime organizado do
tipo Holocausto é um equívoco e também potencialmente perigoso, pois
desvia o exame das verdadeiras causas do desastre, que estão enraizadas
em alguns aspectos da mentalidade moderna e da organização social
moderna, mais do em que reações atemporais aos estrangeiros ou mesmo
em conflitos menos universais, embora bem onipresentes, de identidade.
Para iniciar e sustentar o Holocausto, a heterofobia tradicional
desempenhou apenas um papel auxiliar. Os fatores realmente indispensáveis
foram de outro tipo e guardavam no máximo uma relação meramente
histórica com formas mais familiares de ressentimento de grupo. A
possibilidade do Holocausto teve raiz em certos aspectos universais da
civilização moderna; sua efetivação, por outro lado, teve a ver com uma
relação específica e de forma alguma universal entre Estado e sociedade. O
próximo capítulo dedica-se a uma investigação mais detalhada dessas
conexões.
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