Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 30 de 52

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Modernidade e Holocausto

5. Pedindo a colaboração das vítimas

5

 

Pedindo a colaboração das vítimas

 

“Destino” é a interação de vitimadores e vítimas.

Raul Hilberg

 

O memorável veredito de Hannah Arendt — de que não fosse pela atuação

dos colaboradores judeus e pelo zelo dos Judenräte [conselhos judeus], o

número de vítimas teria sido bem menor — não parece capaz de suportar

exame mais acurado. Esse severo julgamento mal consegue resistir ao fato

de que, apesar do amplo espectro de atitudes tomadas pelos líderes das

comunidades perseguidas — desde o suicídio de Czerniakow, passando pela

colaboração ativa e consciente de Rumkowski e Gens com os supervisores

nazistas, até o processo Bialystok sobre a ajuda semioficial de Judenräte à

resistência armada — o efeito final acabava sendo praticamente o mesmo: a

aniquilação quase total de comunidades e de seus líderes. Pode-se também

assinalar que cerca de um terço de todos os judeus assassinados pelos

nazistas foram mortos sem recurso a qualquer assistência direta ou indireta

dos conselhos e comitês judaicos (a guerra contra a Rússia foi oficialmente

declarada por Hitler uma guerra de aniquilação e os notórios

Einsatzgruppen que seguiram a vitoriosa Wehrmacht na sua primeira

incursão em terras soviéticas não se preocuparam em criar guetos ou eleger

conselhos judeus). Numa série de opiniões sobre o impacto da cooperação

judaica na dizimação dos judeus da Europa, o ponto de vista de Isaiah

Trunk, concluindo a mais completa e abrangente investigação dos registros

remanescentes dos Judenräte, expressa posição oposta à de Arendt. De

acordo com essa visão, “a participação ou não participação judaica nas

deportações não teve influência substancial — de nenhuma forma — no

resultado final do Holocausto na Europa oriental”. Para fundamentar sua

conclusão, Trunk assinala os inúmeros casos em que a recusa de certos

funcionários de Judenräte a obedecer às ordens da SS levou à sua substituição por pessoas mais obedientes ou mesmo a que o elo

intermediário judeu fosse simplesmente descartado pelos SS, que então

procediam eles mesmos à “seleção” (embora na maioria dos casos com

alguma ajuda da polícia judaica). Com efeito, processos individuais de

desobediência continuaram pouco eficazes precisamente porque em tantos

outros casos os nazistas podiam contar com a cooperação judaica e portanto

executar a operação assassina recorrendo apenas residualmente às próprias

forças. Não se sabe até que ponto a desobediência poderia ter sido mais

eficaz se houvesse uma expectativa universal em relação a ela.

Parece, no entanto, provável que, se a cooperação não estivesse

disponível e em tão larga escala, a complexa operação do assassinato em

massa teria confrontado os administradores com problemas gerenciais,

técnicos e financeiros de magnitude inteiramente outra. Como mencionei no

primeiro capítulo, os líderes das comunidades condenadas executavam a

maior parte do trabalho burocrático preliminar que a operação exigia

(fornecendo aos nazistas os registros e mantendo arquivos das suas vítimas

em potencial), supervisionavam as atividades de produção e distribuição

necessárias à manutenção da vida das vítimas até o momento em que as

câmaras de gás estivessem prontas para recebê-las, policiavam a população

encarcerada de modo que as tarefas da lei e da ordem não desgastassem o

engenho e os recursos dos captores, asseguravam o fluxo macio do processo

de aniquilação apontando os objetivos dos sucessivos estágios,

despachavam os objetos selecionados para os locais onde podiam ser

apanhados com o mínimo de confusão e levantavam os recursos financeiros

necessários para pagar a última jornada. Sem essa ajuda substancial e

diversificada, o Holocausto teria provavelmente ocorrido de qualquer

forma, mas teria passado à história como um episódio diferente e talvez um

pouco menos assustador; como mais um dos muitos casos de coerção e

violência em massa cometidos contra uma população desamparada por

conquistadores sanguinolentos levados pela vingança ou o ódio

comunitário. Com isso tudo, por outro lado, o Holocausto confronta o

historiador e o sociólogo com um desafio inteiramente novo. Serve como

uma janela da qual se pode ter uma vista desses processos trazidos a efeito

pela arte inteiramente moderna da ação racional; da nova potência e dos

novos horizontes do poder moderno, que se tornam possíveis uma vez que

tais processos foram utilizados a serviço dos seus objetivos. No que

concerne a esse aspecto formidável do Holocausto, o quadro adequado de referência e comparação parece ser fornecido pelo exercício “normal” do

poder no governo da sociedade moderna, mais do que na história sangrenta

de violência genocida espetacular.

Com efeito, a rotina do genocídio no geral exclui essa colaboração das

vítimas que foi tão marcante no Holocausto. O genocídio “comum”

raramente, se é que alguma vez, visou à aniquilação total do grupo; o

propósito da violência (se a violência é proposital e planejada) é destruir o

grupo marcado (uma nação, uma tribo, uma seita religiosa) como

comunidade viável capaz de perpetuar e defender sua identidade própria. Se

for esse o caso, o objetivo do genocídio é atingido quando (1) a quantidade

de violência já é grande o bastante para minar a vontade e resistência dos

que a sofrem e para aterrorizá-los até a rendição ao poder dominante e a

aceitação da ordem por ele imposta; e (2) o grupo marcado foi despojado

dos recursos necessários à continuação da luta. Preenchidas essas duas

condições, as vítimas ficam à mercê dos seus atormentadores. Elas podem

ser forçadas a uma longa escravidão ou receber um lugar na nova ordem

nos termos estabelecidos pelo vencedor — mas qual sequela é escolhida

depende inteiramente dos caprichos do conquistador. Seja qual for a opção

selecionada, beneficia os que perpetram o genocídio. Eles ampliam e

solidificam seu poder e arrancam a oposição pela raiz.

Entre os recursos de resistência que devem ser destruídos para tornar a

violência eficaz (recursos cuja destruição, provavelmente, é o ponto central

do genocídio e em última análise a medida de sua eficiência), de longe a

posição mais crucial é ocupada pelas elites tradicionais da comunidade

condenada. O efeito mais essencial do genocídio é a “decapitação” do

inimigo. Espera-se que o grupo marcado, uma vez privado de liderança e

centros de autoridade, perca sua coesão e capacidade de sustentar a própria

identidade e, consequentemente, seu potencial defensivo. A estrutura

interior do grupo sofrerá um colapso, reduzindo o grupo a uma coleção de

indivíduos que podem ser então pinçados um a um e incorporados à nova

estrutura administrada pelos vencedores, ou reorganizada à força como

categoria subjugada e segregada, governada e policiada diretamente pelos

gerentes da nova ordem. As elites tradicionais da comunidade condenada

constituem portanto o alvo primário do genocídio, na medida em que este

vise de fato à destruição do povo marcado como comunidade, como

entidade autônoma coesa. De acordo com a visão de Hitler para a Europa

oriental como um vasto Lebensraum [espaço vital] para a raça alemã em expansão e de seus habitantes como futura força de trabalho escravo a

serviço dos novos senhores, as forças de ocupação alemãs procederam à

sistemática extinção de todos os vestígios da estrutura política e autonomia

cultural nativas. Caçaram, encarceraram e tentaram destruir fisicamente

todos os elementos ativos das nações eslavas conquistadas e evitar a

reprodução das elites nacionais com o desmantelamento quase total das

instituições educacionais mais elementares e a proibição de toda iniciativa

cultural local, exceto a moralmente corrupta. Assim fazendo, no entanto,

descartaram a possibilidade de obter a cooperação das nações escravizadas

na busca da grandiosa visão de Hitler (se é que alguma vez contemplaram

tal possibilidade), exceto talvez pelos serviços auxiliares de elementos

criminosos marginais. Com as elites locais marcadas para a destruição, os

conquistadores foram abandonados à própria sorte e tiveram que computar

as ações dos países vencidos na coluna de custos, não de ativos.

A escravização dos judeus nunca foi objetivo dos nazistas. Mesmo que o

assassinato em massa não tenha sido pensado desde o início como fim

último, a situação que os nazistas queriam criar era de total Entfernung — a

efetiva remoção dos judeus do mundo e da vida germânicos. Hitler e seus

seguidores não tinham uso para os serviços que os judeus podiam oferecer,

mesmo como trabalhadores escravos. A completude da solução buscada —

quer sob a forma de emigração, expulsão ou extermínio físico — tornava

desnecessário qualquer “tratamento especial” das elites judaicas, que

estavam condenadas ao mesmo destino dos seus irmãos; qualquer provação

preparada para os judeus como um todo era vista como sem exceções,

aplicando-se na mesma forma e medida a todos os membros da raça. Talvez

um efeito antecipado dessa “totalização” do problema judeu tenha sido a

sobrevivência da estrutura comunitária judaica, de sua autonomia e

autogoverno, muito antes que modelos comunitários semelhantes fossem

submetidos a um assalto frontal em todos os territórios eslavos. Essa

sobrevivência significou, primeiro e antes de mais nada, que as elites

judaicas tradicionais mantiveram sua liderança administrativa e espiritual

durante toda a execução do Holocausto; quando nada, essa liderança foi

ainda mais reforçada e se tornou quase incontestável após a segregação

física dos judeus e o cerco dos guetos.

O método usado para firmar as elites judaicas no seu novo papel nos

Judenräte variou — desde a insistência nazista de se realizarem eleições em

alguns dos maiores guetos do leste e nas bem enraizadas comunidades judaicas da Europa ocidental até a escolha dos Präses dentre os veneráveis

da comunidade, reunidos na praça local do mercado. E há ainda ampla

evidência de que os supervisores dos “bairros judeus” estavam dispostos a

sustentar e reforçar a autoridade dos líderes judeus escolhidos; precisavam

do prestígio dos “Conselhos Judeus” para conseguir a passividade das

massas judias. No seu famoso Schnellbrief [despacho rápido] emitido de

Berlim em 21 de setembro de 1939 para todos os Kommandanten alemães

nas cidades polonesas recém-ocupadas, Heydrich enfatizava que os

Conselhos de Anciãos Judeus deviam ser compostos pelas “personalidades

e rabinos influentes que restassem” — e então enumerava uma longa lista

de tarefas vitais pelas quais os conselhos seriam os únicos responsáveis,

assumindo portanto seu controle e autoridade. É possível supor que a

insistência nazista em fazer tudo no gueto pelas mãos dos judeus tinha

como um dos seus perversos objetivos tornar o poder da liderança judia

tanto mais visível e convincente. A população judia ficou virtualmente fora

da jurisdição das autoridades administrativas normais (o que aconteceu

gradualmente na Alemanha e de forma abrupta nos territórios

conquistados), sendo jogada inteiramente e sem apelação nas mãos dos seus

líderes correligionários, que em troca recebiam suas ordens de — e

respondiam perante — uma instituição alemã similarmente alheia à

estrutura “normal” de poder. Os princípios teórico-legais da bizarra mistura

de autogoverno e isolamento do gueto foram enunciados e codificados em

1940 por Hermann Erich Seifert:

 

O indivíduo judeu não existe para as autoridades alemãs dos territórios ocupados. Em princípio

não há negociações com um indivíduo judeu… mas exclusivamente com os Ältestenräte

[conselhos de anciãos] judeus… Com a ajuda dos seus Ältestenräte, os judeus podem cuidar

inteiramente por si mesmos dos seus assuntos internos, incluindo os assuntos de suas

comunidades religiosas, mas por outro lado têm que executar com inteira responsabilidade as

tarefas e exigências da administração alemã. Os membros do Ältestenrat, na maioria dos casos

os mais ricos e mais distintos, são pessoalmente responsáveis por essa execução. Sem dúvida,

esse Ältestenrat é reminiscente remoto das Kahals de que fez uso a política judaica da Rússia

[tzarista], mas com uma grande diferença: os direitos judeus eram dados e defendidos pelas

Kahals; já no Governo Geral [nazista] os deveres judeus eram recebidos e distribuídos pelos

Ältestenräte 1 … Não há discussão ou argumentação contra a ordem alemã.

 

A liderança judia exercia um poder ilimitado sobre a população cativa,

mas estava à mercê de uma organização criminosa livre de controle

exercida pelos órgãos constitucionais do Estado. As elites judias

desempenhavam portanto um papel mediador crucial na incapacitação dos judeus; de forma bem atípica para um genocídio, a submissão total de uma