Modernidade e Holocausto
5. Pedindo a colaboração das vítimas
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Pedindo a colaboração das vítimas
“Destino” é a interação de vitimadores e vítimas.
Raul Hilberg
O memorável veredito de Hannah Arendt — de que não fosse pela atuação
dos colaboradores judeus e pelo zelo dos Judenräte [conselhos judeus], o
número de vítimas teria sido bem menor — não parece capaz de suportar
exame mais acurado. Esse severo julgamento mal consegue resistir ao fato
de que, apesar do amplo espectro de atitudes tomadas pelos líderes das
comunidades perseguidas — desde o suicídio de Czerniakow, passando pela
colaboração ativa e consciente de Rumkowski e Gens com os supervisores
nazistas, até o processo Bialystok sobre a ajuda semioficial de Judenräte à
resistência armada — o efeito final acabava sendo praticamente o mesmo: a
aniquilação quase total de comunidades e de seus líderes. Pode-se também
assinalar que cerca de um terço de todos os judeus assassinados pelos
nazistas foram mortos sem recurso a qualquer assistência direta ou indireta
dos conselhos e comitês judaicos (a guerra contra a Rússia foi oficialmente
declarada por Hitler uma guerra de aniquilação e os notórios
Einsatzgruppen que seguiram a vitoriosa Wehrmacht na sua primeira
incursão em terras soviéticas não se preocuparam em criar guetos ou eleger
conselhos judeus). Numa série de opiniões sobre o impacto da cooperação
judaica na dizimação dos judeus da Europa, o ponto de vista de Isaiah
Trunk, concluindo a mais completa e abrangente investigação dos registros
remanescentes dos Judenräte, expressa posição oposta à de Arendt. De
acordo com essa visão, “a participação ou não participação judaica nas
deportações não teve influência substancial — de nenhuma forma — no
resultado final do Holocausto na Europa oriental”. Para fundamentar sua
conclusão, Trunk assinala os inúmeros casos em que a recusa de certos
funcionários de Judenräte a obedecer às ordens da SS levou à sua substituição por pessoas mais obedientes ou mesmo a que o elo
intermediário judeu fosse simplesmente descartado pelos SS, que então
procediam eles mesmos à “seleção” (embora na maioria dos casos com
alguma ajuda da polícia judaica). Com efeito, processos individuais de
desobediência continuaram pouco eficazes precisamente porque em tantos
outros casos os nazistas podiam contar com a cooperação judaica e portanto
executar a operação assassina recorrendo apenas residualmente às próprias
forças. Não se sabe até que ponto a desobediência poderia ter sido mais
eficaz se houvesse uma expectativa universal em relação a ela.
Parece, no entanto, provável que, se a cooperação não estivesse
disponível e em tão larga escala, a complexa operação do assassinato em
massa teria confrontado os administradores com problemas gerenciais,
técnicos e financeiros de magnitude inteiramente outra. Como mencionei no
primeiro capítulo, os líderes das comunidades condenadas executavam a
maior parte do trabalho burocrático preliminar que a operação exigia
(fornecendo aos nazistas os registros e mantendo arquivos das suas vítimas
em potencial), supervisionavam as atividades de produção e distribuição
necessárias à manutenção da vida das vítimas até o momento em que as
câmaras de gás estivessem prontas para recebê-las, policiavam a população
encarcerada de modo que as tarefas da lei e da ordem não desgastassem o
engenho e os recursos dos captores, asseguravam o fluxo macio do processo
de aniquilação apontando os objetivos dos sucessivos estágios,
despachavam os objetos selecionados para os locais onde podiam ser
apanhados com o mínimo de confusão e levantavam os recursos financeiros
necessários para pagar a última jornada. Sem essa ajuda substancial e
diversificada, o Holocausto teria provavelmente ocorrido de qualquer
forma, mas teria passado à história como um episódio diferente e talvez um
pouco menos assustador; como mais um dos muitos casos de coerção e
violência em massa cometidos contra uma população desamparada por
conquistadores sanguinolentos levados pela vingança ou o ódio
comunitário. Com isso tudo, por outro lado, o Holocausto confronta o
historiador e o sociólogo com um desafio inteiramente novo. Serve como
uma janela da qual se pode ter uma vista desses processos trazidos a efeito
pela arte inteiramente moderna da ação racional; da nova potência e dos
novos horizontes do poder moderno, que se tornam possíveis uma vez que
tais processos foram utilizados a serviço dos seus objetivos. No que
concerne a esse aspecto formidável do Holocausto, o quadro adequado de referência e comparação parece ser fornecido pelo exercício “normal” do
poder no governo da sociedade moderna, mais do que na história sangrenta
de violência genocida espetacular.
Com efeito, a rotina do genocídio no geral exclui essa colaboração das
vítimas que foi tão marcante no Holocausto. O genocídio “comum”
raramente, se é que alguma vez, visou à aniquilação total do grupo; o
propósito da violência (se a violência é proposital e planejada) é destruir o
grupo marcado (uma nação, uma tribo, uma seita religiosa) como
comunidade viável capaz de perpetuar e defender sua identidade própria. Se
for esse o caso, o objetivo do genocídio é atingido quando (1) a quantidade
de violência já é grande o bastante para minar a vontade e resistência dos
que a sofrem e para aterrorizá-los até a rendição ao poder dominante e a
aceitação da ordem por ele imposta; e (2) o grupo marcado foi despojado
dos recursos necessários à continuação da luta. Preenchidas essas duas
condições, as vítimas ficam à mercê dos seus atormentadores. Elas podem
ser forçadas a uma longa escravidão ou receber um lugar na nova ordem
nos termos estabelecidos pelo vencedor — mas qual sequela é escolhida
depende inteiramente dos caprichos do conquistador. Seja qual for a opção
selecionada, beneficia os que perpetram o genocídio. Eles ampliam e
solidificam seu poder e arrancam a oposição pela raiz.
Entre os recursos de resistência que devem ser destruídos para tornar a
violência eficaz (recursos cuja destruição, provavelmente, é o ponto central
do genocídio e em última análise a medida de sua eficiência), de longe a
posição mais crucial é ocupada pelas elites tradicionais da comunidade
condenada. O efeito mais essencial do genocídio é a “decapitação” do
inimigo. Espera-se que o grupo marcado, uma vez privado de liderança e
centros de autoridade, perca sua coesão e capacidade de sustentar a própria
identidade e, consequentemente, seu potencial defensivo. A estrutura
interior do grupo sofrerá um colapso, reduzindo o grupo a uma coleção de
indivíduos que podem ser então pinçados um a um e incorporados à nova
estrutura administrada pelos vencedores, ou reorganizada à força como
categoria subjugada e segregada, governada e policiada diretamente pelos
gerentes da nova ordem. As elites tradicionais da comunidade condenada
constituem portanto o alvo primário do genocídio, na medida em que este
vise de fato à destruição do povo marcado como comunidade, como
entidade autônoma coesa. De acordo com a visão de Hitler para a Europa
oriental como um vasto Lebensraum [espaço vital] para a raça alemã em expansão e de seus habitantes como futura força de trabalho escravo a
serviço dos novos senhores, as forças de ocupação alemãs procederam à
sistemática extinção de todos os vestígios da estrutura política e autonomia
cultural nativas. Caçaram, encarceraram e tentaram destruir fisicamente
todos os elementos ativos das nações eslavas conquistadas e evitar a
reprodução das elites nacionais com o desmantelamento quase total das
instituições educacionais mais elementares e a proibição de toda iniciativa
cultural local, exceto a moralmente corrupta. Assim fazendo, no entanto,
descartaram a possibilidade de obter a cooperação das nações escravizadas
na busca da grandiosa visão de Hitler (se é que alguma vez contemplaram
tal possibilidade), exceto talvez pelos serviços auxiliares de elementos
criminosos marginais. Com as elites locais marcadas para a destruição, os
conquistadores foram abandonados à própria sorte e tiveram que computar
as ações dos países vencidos na coluna de custos, não de ativos.
A escravização dos judeus nunca foi objetivo dos nazistas. Mesmo que o
assassinato em massa não tenha sido pensado desde o início como fim
último, a situação que os nazistas queriam criar era de total Entfernung — a
efetiva remoção dos judeus do mundo e da vida germânicos. Hitler e seus
seguidores não tinham uso para os serviços que os judeus podiam oferecer,
mesmo como trabalhadores escravos. A completude da solução buscada —
quer sob a forma de emigração, expulsão ou extermínio físico — tornava
desnecessário qualquer “tratamento especial” das elites judaicas, que
estavam condenadas ao mesmo destino dos seus irmãos; qualquer provação
preparada para os judeus como um todo era vista como sem exceções,
aplicando-se na mesma forma e medida a todos os membros da raça. Talvez
um efeito antecipado dessa “totalização” do problema judeu tenha sido a
sobrevivência da estrutura comunitária judaica, de sua autonomia e
autogoverno, muito antes que modelos comunitários semelhantes fossem
submetidos a um assalto frontal em todos os territórios eslavos. Essa
sobrevivência significou, primeiro e antes de mais nada, que as elites
judaicas tradicionais mantiveram sua liderança administrativa e espiritual
durante toda a execução do Holocausto; quando nada, essa liderança foi
ainda mais reforçada e se tornou quase incontestável após a segregação
física dos judeus e o cerco dos guetos.
O método usado para firmar as elites judaicas no seu novo papel nos
Judenräte variou — desde a insistência nazista de se realizarem eleições em
alguns dos maiores guetos do leste e nas bem enraizadas comunidades judaicas da Europa ocidental até a escolha dos Präses dentre os veneráveis
da comunidade, reunidos na praça local do mercado. E há ainda ampla
evidência de que os supervisores dos “bairros judeus” estavam dispostos a
sustentar e reforçar a autoridade dos líderes judeus escolhidos; precisavam
do prestígio dos “Conselhos Judeus” para conseguir a passividade das
massas judias. No seu famoso Schnellbrief [despacho rápido] emitido de
Berlim em 21 de setembro de 1939 para todos os Kommandanten alemães
nas cidades polonesas recém-ocupadas, Heydrich enfatizava que os
Conselhos de Anciãos Judeus deviam ser compostos pelas “personalidades
e rabinos influentes que restassem” — e então enumerava uma longa lista
de tarefas vitais pelas quais os conselhos seriam os únicos responsáveis,
assumindo portanto seu controle e autoridade. É possível supor que a
insistência nazista em fazer tudo no gueto pelas mãos dos judeus tinha
como um dos seus perversos objetivos tornar o poder da liderança judia
tanto mais visível e convincente. A população judia ficou virtualmente fora
da jurisdição das autoridades administrativas normais (o que aconteceu
gradualmente na Alemanha e de forma abrupta nos territórios
conquistados), sendo jogada inteiramente e sem apelação nas mãos dos seus
líderes correligionários, que em troca recebiam suas ordens de — e
respondiam perante — uma instituição alemã similarmente alheia à
estrutura “normal” de poder. Os princípios teórico-legais da bizarra mistura
de autogoverno e isolamento do gueto foram enunciados e codificados em
1940 por Hermann Erich Seifert:
O indivíduo judeu não existe para as autoridades alemãs dos territórios ocupados. Em princípio
não há negociações com um indivíduo judeu… mas exclusivamente com os Ältestenräte
[conselhos de anciãos] judeus… Com a ajuda dos seus Ältestenräte, os judeus podem cuidar
inteiramente por si mesmos dos seus assuntos internos, incluindo os assuntos de suas
comunidades religiosas, mas por outro lado têm que executar com inteira responsabilidade as
tarefas e exigências da administração alemã. Os membros do Ältestenrat, na maioria dos casos
os mais ricos e mais distintos, são pessoalmente responsáveis por essa execução. Sem dúvida,
esse Ältestenrat é reminiscente remoto das Kahals de que fez uso a política judaica da Rússia
[tzarista], mas com uma grande diferença: os direitos judeus eram dados e defendidos pelas
Kahals; já no Governo Geral [nazista] os deveres judeus eram recebidos e distribuídos pelos
Ältestenräte 1 … Não há discussão ou argumentação contra a ordem alemã.
A liderança judia exercia um poder ilimitado sobre a população cativa,
mas estava à mercê de uma organização criminosa livre de controle
exercida pelos órgãos constitucionais do Estado. As elites judias
desempenhavam portanto um papel mediador crucial na incapacitação dos judeus; de forma bem atípica para um genocídio, a submissão total de uma