Modernidade e Holocausto
Tecnologia moralizada
equivale a sujar-se para sempre na lama.
Tal paradoxo deve ser um fator instigador por trás do conhecido
fenômeno da solidariedade dos cúmplices. Nada liga mais uma pessoa a
outra que a responsabilidade comum por um ato que reconhecem como
criminoso. Em termos de senso comum, explicamos esse tipo de
solidariedade pelo desejo natural de escapar à punição; as análises dos
teóricos do jogo para o famoso “dilema do prisioneiro” também nos ensina
que (contanto que ninguém confunda as apostas) assumir que o resto da
equipe permanecerá solidária é a decisão mais racional que cada um dos
seus membros pode tomar. Podemos porém imaginar até que ponto a
solidariedade dos cúmplices é produzida e reforçada pelo fato de que
apenas os membros da equipe originalmente engajados na ação sequencial
vão provavelmente conspirar para desfazer o paradoxo e por consenso
oferecer alguma credibilidade à crença na legitimidade da ação passada,
apesar da crescente evidência em contrário. Sugiro, portanto, que outro
“fator constringente”, chamado por Milgram obrigações situacionais, seja,
em larga medida, um derivativo do primeiro, o paradoxo da ação
sequencial.
Tecnologia moralizada
Um dos aspectos mais notáveis do sistema burocrático de autoridade é, no
entanto, a probabilidade decrescente de que a singularidade moral da ação
da pessoa seja jamais descoberta e, uma vez descoberta, se torne um penoso
dilema moral. Numa burocracia, as preocupações morais do funcionário são
afastadas do enfoque na situação angustiosa dos objetos da ação. São
forçosamente desviados em outra direção — a tarefa a realizar e a
excelência com a qual é realizada. Não importa tanto como passam e se
sentem os objetos da ação. Importa, no entanto, o nível de esperteza e
eficiência com que o ator executa o que seus superiores ordenaram que
executasse. E, quanto a isto, os superiores são a autoridade natural mais
competente. Tal circunstância reforça ainda mais o aperto com que os
superiores prendem seus subordinados. Além de dar ordens e punir a
insubordinação, eles também fazem julgamentos morais — os únicos
julgamentos morais que contam para a autoavaliação do indivíduo.
Os comentadores repetidas vezes acentuaram que os resultados das
experiências de Milgram podem ter sido influenciados pela convicção de
que a ação era exigida no interesse da ciência — sem dúvida uma alta
autoridade, raramente contestada e em geral moralmente respeitada. O que
não é assinalado, porém, é que, mais do que qualquer outra autoridade, a
ciência é autorizada pela opinião pública a praticar o princípio, de outra
forma eticamente odioso, de que os fins justificam os meios. A ciência é o
mais completo exemplo da dissociação entre meios e fins, que é o ideal de
organização racional da conduta humana: os fins é que são submetidos a
avaliação moral, não os meios. Às expressões de agonia moral os cientistas
continuaram respondendo com uma fórmula branda, rotineira e insípida: “O
tecido não sofrerá nenhum dano permanente.” A maioria dos participantes
limitava-se a aceitar alegremente esse consolo e preferia não pensar nas
possibilidades que a fórmula deixava em aberto (mais notoriamente, a
virtude moral do dano temporário ao tecido, ou simplesmente da agonia da
dor). O que importava para eles era a tranquilidade de supor que alguém
“de cima” tinha avaliado o que era e o que não era eticamente aceitável.
Dentro do sistema burocrático de autoridade, a linguagem da moralidade
adquire um novo vocabulário. Está repleta de conceitos como lealdade,
dever, disciplina — todos apontando para os superiores como supremo
objeto de preocupação moral e, simultaneamente, a máxima autoridade
moral. Todos, de fato, convergem: lealdade significa cumprimento do dever
tal como definido pelo código disciplinar. Como convergem e se reforçam
mutuamente, crescem em poder como preceitos morais, ao ponto de
poderem invalidar e pôr de lado todas as outras considerações morais —
acima de tudo, questões éticas estranhas às preocupações autorreprodutivas
do sistema de autoridade. Eles se apropriam de, monopolizam e atrelam ao
interesse da burocracia todos os meios sociopsíquicos usuais de
autorregulação moral. Como coloca Milgram, “o subordinado sente
vergonha ou orgulho dependendo de quão adequadamente desempenhou as
ações exigidas pela autoridade… O superego vai de uma avaliação da
bondade ou maldade dos atos para um balanço de como está funcionando o
indivíduo, bem ou mal, no sistema de autoridade.” 7
O que segue é que, ao contrário de uma interpretação bem difundida, um
sistema burocrático de autoridade não milita contra as normas morais como
tais e não as coloca de lado como sendo essencialmente pressões irracionais
de ordem afetiva que contradizem a fria racionalidade de uma ação verdadeiramente eficiente. Em vez disso, utiliza-as — ou melhor, as
reutiliza. O duplo feito da burocracia é a moralização da tecnologia
combinada com a negação do significado moral de todas as questões não
técnicas. É a tecnologia da ação, não de sua substância, que é submetida a
avaliação como boa ou má, própria ou imprópria, certa ou errada. A
consciência do ator manda que interprete bem e o leva a medir sua própria
virtude pela precisão com a qual obedece às regras e sua dedicação à tarefa
tal como definida pelos superiores. O que acuava a outra consciência,
“antiquada”, nos sujeitos das experiências de Milgram e efetivamente
continha seu impulso de desistir era a consciência substituta, construída
pelas experiências com apelos aos “interesses da pesquisa” e avisos sobre as
perdas que sua interrupção antes da hora acarretaria. No caso das
experiências de Milgram, a consciência substituta era construída
rapidamente (nenhuma experiência individual durava mais de uma hora) e
no entanto se mostrou espantosamente eficiente.
Praticamente não se discute que a substituição da moralidade da
substância pela moralidade da tecnologia ficou muito mais fácil com a
oscilação entre a proximidade do sujeito em relação aos alvos da ação e sua
proximidade em relação à fonte de autoridade dessa ação. Com espantosa
consistência, as experiências de Milgram evidenciaram a positiva
dependência entre a efetividade da substituição e a distância (técnica, mais
do que física) do sujeito em relação aos efeitos últimos de suas ações. Uma
experiência, por exemplo, mostrou que, quando “não se mandava o sujeito
puxar o gatilho que dava choque na vítima, mas executar apenas um ato
secundário… antes que outro sujeito desse efetivamente o choque… 37 de
um total de 40 adultos… continuaram até o nível mais alto de choque”
(assinalado no painel de controle com as palavras “muito perigoso — XX”).
Milgram concluiu como sendo psicologicamente fácil ignorar a
responsabilidade quando se é apenas um elo intermediário numa cadeia de
ação maléfica, distante das consequências finais da ação.8 Para um elo
intermediário na cadeia de uma ação maléfica, suas próprias operações
parecem técnicas, por assim dizer, no início e no fim. O efeito imediato da
sua ação é encetar outra tarefa técnica — fazer algo com o aparelho elétrico
ou com a folha de papel na mesa. A ligação causal entre a sua ação e o
sofrimento da vítima é diluída e pode ser ignorada com relativamente pouco
esforço. Assim, o “dever” e a “disciplina” não enfrentam sério competidor.