Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 39 de 52

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Modernidade e Holocausto

Tecnologia moralizada

equivale a sujar-se para sempre na lama.

Tal paradoxo deve ser um fator instigador por trás do conhecido

fenômeno da solidariedade dos cúmplices. Nada liga mais uma pessoa a

outra que a responsabilidade comum por um ato que reconhecem como

criminoso. Em termos de senso comum, explicamos esse tipo de

solidariedade pelo desejo natural de escapar à punição; as análises dos

teóricos do jogo para o famoso “dilema do prisioneiro” também nos ensina

que (contanto que ninguém confunda as apostas) assumir que o resto da

equipe permanecerá solidária é a decisão mais racional que cada um dos

seus membros pode tomar. Podemos porém imaginar até que ponto a

solidariedade dos cúmplices é produzida e reforçada pelo fato de que

apenas os membros da equipe originalmente engajados na ação sequencial

vão provavelmente conspirar para desfazer o paradoxo e por consenso

oferecer alguma credibilidade à crença na legitimidade da ação passada,

apesar da crescente evidência em contrário. Sugiro, portanto, que outro

“fator constringente”, chamado por Milgram obrigações situacionais, seja,

em larga medida, um derivativo do primeiro, o paradoxo da ação

sequencial.

 

Tecnologia moralizada

 

Um dos aspectos mais notáveis do sistema burocrático de autoridade é, no

entanto, a probabilidade decrescente de que a singularidade moral da ação

da pessoa seja jamais descoberta e, uma vez descoberta, se torne um penoso

dilema moral. Numa burocracia, as preocupações morais do funcionário são

afastadas do enfoque na situação angustiosa dos objetos da ação. São

forçosamente desviados em outra direção — a tarefa a realizar e a

excelência com a qual é realizada. Não importa tanto como passam e se

sentem os objetos da ação. Importa, no entanto, o nível de esperteza e

eficiência com que o ator executa o que seus superiores ordenaram que

executasse. E, quanto a isto, os superiores são a autoridade natural mais

competente. Tal circunstância reforça ainda mais o aperto com que os

superiores prendem seus subordinados. Além de dar ordens e punir a

insubordinação, eles também fazem julgamentos morais — os únicos

julgamentos morais que contam para a autoavaliação do indivíduo.

Os comentadores repetidas vezes acentuaram que os resultados das

experiências de Milgram podem ter sido influenciados pela convicção de

que a ação era exigida no interesse da ciência — sem dúvida uma alta

autoridade, raramente contestada e em geral moralmente respeitada. O que

não é assinalado, porém, é que, mais do que qualquer outra autoridade, a

ciência é autorizada pela opinião pública a praticar o princípio, de outra

forma eticamente odioso, de que os fins justificam os meios. A ciência é o

mais completo exemplo da dissociação entre meios e fins, que é o ideal de

organização racional da conduta humana: os fins é que são submetidos a

avaliação moral, não os meios. Às expressões de agonia moral os cientistas

continuaram respondendo com uma fórmula branda, rotineira e insípida: “O

tecido não sofrerá nenhum dano permanente.” A maioria dos participantes

limitava-se a aceitar alegremente esse consolo e preferia não pensar nas

possibilidades que a fórmula deixava em aberto (mais notoriamente, a

virtude moral do dano temporário ao tecido, ou simplesmente da agonia da

dor). O que importava para eles era a tranquilidade de supor que alguém

“de cima” tinha avaliado o que era e o que não era eticamente aceitável.

Dentro do sistema burocrático de autoridade, a linguagem da moralidade

adquire um novo vocabulário. Está repleta de conceitos como lealdade,

dever, disciplina — todos apontando para os superiores como supremo

objeto de preocupação moral e, simultaneamente, a máxima autoridade

moral. Todos, de fato, convergem: lealdade significa cumprimento do dever

tal como definido pelo código disciplinar. Como convergem e se reforçam

mutuamente, crescem em poder como preceitos morais, ao ponto de

poderem invalidar e pôr de lado todas as outras considerações morais —

acima de tudo, questões éticas estranhas às preocupações autorreprodutivas

do sistema de autoridade. Eles se apropriam de, monopolizam e atrelam ao

interesse da burocracia todos os meios sociopsíquicos usuais de

autorregulação moral. Como coloca Milgram, “o subordinado sente

vergonha ou orgulho dependendo de quão adequadamente desempenhou as

ações exigidas pela autoridade… O superego vai de uma avaliação da

bondade ou maldade dos atos para um balanço de como está funcionando o

indivíduo, bem ou mal, no sistema de autoridade.” 7

O que segue é que, ao contrário de uma interpretação bem difundida, um

sistema burocrático de autoridade não milita contra as normas morais como

tais e não as coloca de lado como sendo essencialmente pressões irracionais

de ordem afetiva que contradizem a fria racionalidade de uma ação verdadeiramente eficiente. Em vez disso, utiliza-as — ou melhor, as

reutiliza. O duplo feito da burocracia é a moralização da tecnologia

combinada com a negação do significado moral de todas as questões não

técnicas. É a tecnologia da ação, não de sua substância, que é submetida a

avaliação como boa ou má, própria ou imprópria, certa ou errada. A

consciência do ator manda que interprete bem e o leva a medir sua própria

virtude pela precisão com a qual obedece às regras e sua dedicação à tarefa

tal como definida pelos superiores. O que acuava a outra consciência,

“antiquada”, nos sujeitos das experiências de Milgram e efetivamente

continha seu impulso de desistir era a consciência substituta, construída

pelas experiências com apelos aos “interesses da pesquisa” e avisos sobre as

perdas que sua interrupção antes da hora acarretaria. No caso das

experiências de Milgram, a consciência substituta era construída

rapidamente (nenhuma experiência individual durava mais de uma hora) e

no entanto se mostrou espantosamente eficiente.

Praticamente não se discute que a substituição da moralidade da

substância pela moralidade da tecnologia ficou muito mais fácil com a

oscilação entre a proximidade do sujeito em relação aos alvos da ação e sua

proximidade em relação à fonte de autoridade dessa ação. Com espantosa

consistência, as experiências de Milgram evidenciaram a positiva

dependência entre a efetividade da substituição e a distância (técnica, mais

do que física) do sujeito em relação aos efeitos últimos de suas ações. Uma

experiência, por exemplo, mostrou que, quando “não se mandava o sujeito

puxar o gatilho que dava choque na vítima, mas executar apenas um ato

secundário… antes que outro sujeito desse efetivamente o choque… 37 de

um total de 40 adultos… continuaram até o nível mais alto de choque”

(assinalado no painel de controle com as palavras “muito perigoso — XX”).

Milgram concluiu como sendo psicologicamente fácil ignorar a

responsabilidade quando se é apenas um elo intermediário numa cadeia de

ação maléfica, distante das consequências finais da ação.8 Para um elo

intermediário na cadeia de uma ação maléfica, suas próprias operações

parecem técnicas, por assim dizer, no início e no fim. O efeito imediato da

sua ação é encetar outra tarefa técnica — fazer algo com o aparelho elétrico

ou com a folha de papel na mesa. A ligação causal entre a sua ação e o

sofrimento da vítima é diluída e pode ser ignorada com relativamente pouco

esforço. Assim, o “dever” e a “disciplina” não enfrentam sério competidor.