Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 36 de 52

Páginas do PDF

Modernidade e Holocausto

6. A ética da obediência (lendo Milgram)

6

 

A ética da obediência (lendo Milgram)

 

Ainda não plenamente recuperado da chocante realidade do Holocausto,

Dwight Macdonald alertou em 1945 que agora devemos temer mais a

pessoa obediente às leis do que aquela que as desobedece.

O Holocausto fez minguar todas as imagens lembradas ou herdadas do

mal. Com isso, inverteu todas as explicações estabelecidas dos feitos

maléficos. De repente ficou claro que o mais terrível dos males de que se

tinha memória não resultou de uma ruptura da ordem, mas de um

impecável, indiscutível e inatacável império da ordem. Não foi obra de uma

turba ruidosa e descontrolada, mas de homens uniformizados, obedientes e

disciplinados, cumpridores das normas e meticulosos no espírito e na letra

de suas instruções. Bem cedo se soube que esses homens, sempre que

estavam à paisana, não eram de modo algum maus. Portavam-se de forma

bem parecida à de todos nós. Tinham esposas que amavam, filhos que

paparicavam, amigos que ajudavam e consolavam no infortúnio. Parecia

inacreditável que, uma vez uniformizadas, essas mesmas pessoas

fuzilassem, asfixiassem com gás ou presidissem ao fuzilamento e asfixia de

outras milhares de pessoas, inclusive mulheres que eram esposas amadas de

outros homens e bebês que eram filhos queridos de alguém. Era não só

inacreditável, mas aterrador. Como é que pessoas comuns, como eu ou

você, podiam fazer aquilo? Com certeza, de alguma forma, ainda que por

uma pequenina diferença, elas devem ter sido diferentes, pessoas especiais,

diversas de nós, não? Certamente devem ter escapado ao impacto

enobrecedor, humanizante, de nossa sociedade civilizada, iluminada. Ou,

quem sabe, podem ter sido estragadas, corrompidas, submetidas a alguma

combinação infeliz e viciosa de fatores educacionais, que resultaram numa

personalidade falha, doentia. Provar que todas essas suposições estavam

erradas não seria bem acolhido não apenas porque isso desmontaria a ilusão

de segurança pessoal que a vida numa sociedade civilizada promete. Seria mal recebido também por uma razão muito mais significativa: porque

exibiria a irredimível ineficácia de toda autoimagem moralmente virtuosa e

de toda consciência tranquila. A partir de agora, toda consciência só podia

ficar tranquila até segunda ordem.

A notícia mais assustadora trazida pelo Holocausto e pelo que

soubemos acerca dos seus executores não foi a probabilidade de que “isso”

pudesse acontecer a nós, mas a ideia de que nós poderíamos perpetrá-lo.

Stanley Milgram, psicólogo americano da Universidade Yale, suportou o

impacto desse terror quando inadvertidamente realizou um teste empírico

de suposições baseadas em anseios emocionais e decidiu não dar atenção às

evidências; mais inadvertidamente ainda, publicou os resultados em 1974.

As descobertas de Milgram foram de fato inequívocas: sim, nós poderíamos

fazê-lo e ainda podemos, dependendo das condições.

Não era fácil conviver com essas descobertas. Claro, a opinião culta

desceu uma pancadaria sobre a pesquisa de Milgram. Suas técnicas foram

investigadas microscopicamente, postas de lado, consideradas errôneas,

mesmo desonrosas, infamantes, e rejeitadas. A qualquer preço e por todos

os meios, respeitáveis e menos respeitáveis, o mundo acadêmico tentou

desacreditar e repudiar as descobertas, que encontravam terror onde

deveriam ver complacência e paz de espírito. Poucos episódios na história

da ciência revelam mais plenamente a realidade da busca, supostamente

desvaloradora, do conhecimento e dos motivos, supostamente

desinteressados, da curiosidade científica. “Estou convencido”, disse

Milgram em resposta às críticas, “que grande parte dessa reprovação, quer

as pessoas saibam ou não, decorre dos resultados da experiência. Se todos

tivessem desistido com um pequeno choque ou um choque moderado” (isto

é, antes que o seguimento das ordens do pesquisador começasse a significar

dor e sofrimento para as pessoas consideradas vítimas), “teria sido uma

descoberta bastante tranquilizadora e quem iria protestar?”1 Milgram estava

certo, claro. E ainda está. Passaram-se anos desde a experiência pioneira,

mas suas descobertas, que deveriam ter levado a uma completa revisão das

nossas opiniões sobre os mecanismos do comportamento humano,

continuam sendo referidas na maioria dos cursos de sociologia como uma

espantosa curiosidade mas não muito esclarecedora, uma curiosidade que

não afeta o corpo central do pensamento sociológico. Se tais descobertas

não podem ser negadas, podem pelo menos ser desprezadas, postas à

margem.

Velhos hábitos mentais demoram a morrer. Logo depois da guerra, um

grupo de acadêmicos liderados por Adorno publicou A personalidade

autoritária, livro que se tornaria um modelo para a teoria e pesquisa durante

anos. Particularmente importante nesse livro não eram suas proposições

específicas — quase todas praticamente foram depois questionadas e

rejeitadas — mas a maneira como situa o problema e a estratégia de

pesquisa daí resultante. Essa última contribuição de Adorno e seus

associados, imune ao teste empírico mas ecoando confortavelmente os

desejos subconscientes do público culto, mostrou-se muito mais resistente.

Como sugere o título do livro, os autores buscavam uma explicação para o

regime nazista e as atrocidades decorrentes de um tipo especial de

personalidade, aquela inclinada à obediência em relação ao mais forte e à

arrogância inescrupulosa e muitas vezes cruel em relação ao mais fraco. O

triunfo dos nazistas deve ter sido resultado de um acúmulo incomum de tais

personalidades. Por que isso ocorreu, os autores não explicaram nem

quiseram explicar. Cautelosamente evitaram a investigação de todos os

fatores supra ou extraindividuais que poderiam produzir personalidades

autoritárias; nem se preocuparam com a possibilidade de que tais fatores

possam induzir o comportamento autoritário em pessoas de outra forma

destituídas de personalidade autoritária. Para Adorno e seus colegas, o

nazismo era cruel porque os nazistas eram cruéis; e os nazistas eram cruéis

porque pessoas cruéis tendem a se tornar nazistas. Como admitiu um dos

integrantes do grupo vários anos depois, “A personalidade autoritária

destacava meramente os determinantes de personalidade para o fascismo

em potencial e o etnocentrismo, não levando em conta influências sociais

contemporâneas.” 2 A maneira pela qual Adorno e sua equipe formularam o

problema foi importante não tanto pelo modo como a culpa era atribuída,

mas pela forma abrupta com que absolvia todo o resto da humanidade. A

visão de Adorno dividia o mundo em protonazistas de nascença e suas

vítimas. Suprimia o triste e sombrio conhecimento de que muitas pessoas

gentis podem se tornar cruéis se tiverem uma chance. Bania a suspeita de

que mesmo as vítimas podem perder boa parte de sua humanidade no

caminho para a perdição — proibição tácita que levou aos limites do

absurdo o retrato do Holocausto na televisão americana.

Foram essa tradição acadêmica e essa opinião pública, ambas

profundamente arraigadas, alta e mutuamente reforçadas, que a pesquisa de

Milgram desafiou. Uma raiva e inquietação particulares foram causadas por sua hipótese de que a crueldade não é cometida por indivíduos cruéis, mas

por homens e mulheres comuns tentando desempenhar bem suas tarefas

ordinárias; e por sua descoberta de que a crueldade relaciona-se apenas

secundariamente às características individuais dos que a cometem, mas de

maneira muito forte mesmo à relação de autoridade e subordinação, com

nossa estrutura normal e cotidiana de poder e obediência. A pessoa que,

com convicção interior, se gaba de roubar, matar e atacar pode se ver

cometendo tais atos com relativa facilidade sob o comando de uma

autoridade. Ato impensável num indivíduo que age por conta própria pode

ser executado sem hesitação quando levado a efeito sob ordens.3 Pode ser

verdade que alguns indivíduos sejam impelidos por si mesmos à crueldade,

por suas próprias inclinações pessoais, inteiramente espontâneas. O mais

certo, porém, é que traços pessoais não os impeçam de cometer atos de

crueldade quando o contexto interativo em que se encontram os impele a

isso.

Lembremos que o único caso em que tradicionalmente, segundo Le Bon,

costumávamos admitir isso como possível (quer dizer, a execução de atos

indecentes por pessoas de outra forma decentes) era uma situação na qual

padrões normais, civilizados e racionais de interação humana fossem

rompidos: uma multidão reunida pelo ódio ou o pânico; o encontro casual

de dois estrangeiros, ambos retirados de seu contexto normal e por um

tempo suspensos num vazio social; uma praça apinhada de gente, na qual

gritos de pânico substituem o comando e o estouro da boiada, em vez da

autoridade, decide o caminho a seguir. Costumávamos pensar que o

impensável só pode acontecer quando as pessoas param de pensar: quando a

tampa da racionalidade é tirada do caldeirão de paixões humanas pré-

sociais e incivilizadas. As descobertas de Milgram também colocam de

cabeça para baixo aquela imagem bem mais velha do mundo segundo a

qual a humanidade está completamente do lado da ordem racional,

enquanto a desumanidade confina-se inteiramente às ocasionais rupturas

dessa ordem.

Em suma, Milgram sugeriu e provou que a desumanidade é uma questão

de relacionamentos sociais. Na mesma proporção em que estas são

racionalizadas e tecnicamente aperfeiçoadas, também o são a capacidade e

a eficiência de produção social da desumanidade.

Pode parecer óbvio. Mas não é. Antes das experiências de Milgram,

poucas pessoas, profissionais e leigos igualmente, previam o que ele estava para descobrir. Virtualmente todos os adultos comuns do sexo masculino da