Modernidade e Holocausto
6. A ética da obediência (lendo Milgram)
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A ética da obediência (lendo Milgram)
Ainda não plenamente recuperado da chocante realidade do Holocausto,
Dwight Macdonald alertou em 1945 que agora devemos temer mais a
pessoa obediente às leis do que aquela que as desobedece.
O Holocausto fez minguar todas as imagens lembradas ou herdadas do
mal. Com isso, inverteu todas as explicações estabelecidas dos feitos
maléficos. De repente ficou claro que o mais terrível dos males de que se
tinha memória não resultou de uma ruptura da ordem, mas de um
impecável, indiscutível e inatacável império da ordem. Não foi obra de uma
turba ruidosa e descontrolada, mas de homens uniformizados, obedientes e
disciplinados, cumpridores das normas e meticulosos no espírito e na letra
de suas instruções. Bem cedo se soube que esses homens, sempre que
estavam à paisana, não eram de modo algum maus. Portavam-se de forma
bem parecida à de todos nós. Tinham esposas que amavam, filhos que
paparicavam, amigos que ajudavam e consolavam no infortúnio. Parecia
inacreditável que, uma vez uniformizadas, essas mesmas pessoas
fuzilassem, asfixiassem com gás ou presidissem ao fuzilamento e asfixia de
outras milhares de pessoas, inclusive mulheres que eram esposas amadas de
outros homens e bebês que eram filhos queridos de alguém. Era não só
inacreditável, mas aterrador. Como é que pessoas comuns, como eu ou
você, podiam fazer aquilo? Com certeza, de alguma forma, ainda que por
uma pequenina diferença, elas devem ter sido diferentes, pessoas especiais,
diversas de nós, não? Certamente devem ter escapado ao impacto
enobrecedor, humanizante, de nossa sociedade civilizada, iluminada. Ou,
quem sabe, podem ter sido estragadas, corrompidas, submetidas a alguma
combinação infeliz e viciosa de fatores educacionais, que resultaram numa
personalidade falha, doentia. Provar que todas essas suposições estavam
erradas não seria bem acolhido não apenas porque isso desmontaria a ilusão
de segurança pessoal que a vida numa sociedade civilizada promete. Seria mal recebido também por uma razão muito mais significativa: porque
exibiria a irredimível ineficácia de toda autoimagem moralmente virtuosa e
de toda consciência tranquila. A partir de agora, toda consciência só podia
ficar tranquila até segunda ordem.
A notícia mais assustadora trazida pelo Holocausto e pelo que
soubemos acerca dos seus executores não foi a probabilidade de que “isso”
pudesse acontecer a nós, mas a ideia de que nós poderíamos perpetrá-lo.
Stanley Milgram, psicólogo americano da Universidade Yale, suportou o
impacto desse terror quando inadvertidamente realizou um teste empírico
de suposições baseadas em anseios emocionais e decidiu não dar atenção às
evidências; mais inadvertidamente ainda, publicou os resultados em 1974.
As descobertas de Milgram foram de fato inequívocas: sim, nós poderíamos
fazê-lo e ainda podemos, dependendo das condições.
Não era fácil conviver com essas descobertas. Claro, a opinião culta
desceu uma pancadaria sobre a pesquisa de Milgram. Suas técnicas foram
investigadas microscopicamente, postas de lado, consideradas errôneas,
mesmo desonrosas, infamantes, e rejeitadas. A qualquer preço e por todos
os meios, respeitáveis e menos respeitáveis, o mundo acadêmico tentou
desacreditar e repudiar as descobertas, que encontravam terror onde
deveriam ver complacência e paz de espírito. Poucos episódios na história
da ciência revelam mais plenamente a realidade da busca, supostamente
desvaloradora, do conhecimento e dos motivos, supostamente
desinteressados, da curiosidade científica. “Estou convencido”, disse
Milgram em resposta às críticas, “que grande parte dessa reprovação, quer
as pessoas saibam ou não, decorre dos resultados da experiência. Se todos
tivessem desistido com um pequeno choque ou um choque moderado” (isto
é, antes que o seguimento das ordens do pesquisador começasse a significar
dor e sofrimento para as pessoas consideradas vítimas), “teria sido uma
descoberta bastante tranquilizadora e quem iria protestar?”1 Milgram estava
certo, claro. E ainda está. Passaram-se anos desde a experiência pioneira,
mas suas descobertas, que deveriam ter levado a uma completa revisão das
nossas opiniões sobre os mecanismos do comportamento humano,
continuam sendo referidas na maioria dos cursos de sociologia como uma
espantosa curiosidade mas não muito esclarecedora, uma curiosidade que
não afeta o corpo central do pensamento sociológico. Se tais descobertas
não podem ser negadas, podem pelo menos ser desprezadas, postas à
margem.
Velhos hábitos mentais demoram a morrer. Logo depois da guerra, um
grupo de acadêmicos liderados por Adorno publicou A personalidade
autoritária, livro que se tornaria um modelo para a teoria e pesquisa durante
anos. Particularmente importante nesse livro não eram suas proposições
específicas — quase todas praticamente foram depois questionadas e
rejeitadas — mas a maneira como situa o problema e a estratégia de
pesquisa daí resultante. Essa última contribuição de Adorno e seus
associados, imune ao teste empírico mas ecoando confortavelmente os
desejos subconscientes do público culto, mostrou-se muito mais resistente.
Como sugere o título do livro, os autores buscavam uma explicação para o
regime nazista e as atrocidades decorrentes de um tipo especial de
personalidade, aquela inclinada à obediência em relação ao mais forte e à
arrogância inescrupulosa e muitas vezes cruel em relação ao mais fraco. O
triunfo dos nazistas deve ter sido resultado de um acúmulo incomum de tais
personalidades. Por que isso ocorreu, os autores não explicaram nem
quiseram explicar. Cautelosamente evitaram a investigação de todos os
fatores supra ou extraindividuais que poderiam produzir personalidades
autoritárias; nem se preocuparam com a possibilidade de que tais fatores
possam induzir o comportamento autoritário em pessoas de outra forma
destituídas de personalidade autoritária. Para Adorno e seus colegas, o
nazismo era cruel porque os nazistas eram cruéis; e os nazistas eram cruéis
porque pessoas cruéis tendem a se tornar nazistas. Como admitiu um dos
integrantes do grupo vários anos depois, “A personalidade autoritária
destacava meramente os determinantes de personalidade para o fascismo
em potencial e o etnocentrismo, não levando em conta influências sociais
contemporâneas.” 2 A maneira pela qual Adorno e sua equipe formularam o
problema foi importante não tanto pelo modo como a culpa era atribuída,
mas pela forma abrupta com que absolvia todo o resto da humanidade. A
visão de Adorno dividia o mundo em protonazistas de nascença e suas
vítimas. Suprimia o triste e sombrio conhecimento de que muitas pessoas
gentis podem se tornar cruéis se tiverem uma chance. Bania a suspeita de
que mesmo as vítimas podem perder boa parte de sua humanidade no
caminho para a perdição — proibição tácita que levou aos limites do
absurdo o retrato do Holocausto na televisão americana.
Foram essa tradição acadêmica e essa opinião pública, ambas
profundamente arraigadas, alta e mutuamente reforçadas, que a pesquisa de
Milgram desafiou. Uma raiva e inquietação particulares foram causadas por sua hipótese de que a crueldade não é cometida por indivíduos cruéis, mas
por homens e mulheres comuns tentando desempenhar bem suas tarefas
ordinárias; e por sua descoberta de que a crueldade relaciona-se apenas
secundariamente às características individuais dos que a cometem, mas de
maneira muito forte mesmo à relação de autoridade e subordinação, com
nossa estrutura normal e cotidiana de poder e obediência. A pessoa que,
com convicção interior, se gaba de roubar, matar e atacar pode se ver
cometendo tais atos com relativa facilidade sob o comando de uma
autoridade. Ato impensável num indivíduo que age por conta própria pode
ser executado sem hesitação quando levado a efeito sob ordens.3 Pode ser
verdade que alguns indivíduos sejam impelidos por si mesmos à crueldade,
por suas próprias inclinações pessoais, inteiramente espontâneas. O mais
certo, porém, é que traços pessoais não os impeçam de cometer atos de
crueldade quando o contexto interativo em que se encontram os impele a
isso.
Lembremos que o único caso em que tradicionalmente, segundo Le Bon,
costumávamos admitir isso como possível (quer dizer, a execução de atos
indecentes por pessoas de outra forma decentes) era uma situação na qual
padrões normais, civilizados e racionais de interação humana fossem
rompidos: uma multidão reunida pelo ódio ou o pânico; o encontro casual
de dois estrangeiros, ambos retirados de seu contexto normal e por um
tempo suspensos num vazio social; uma praça apinhada de gente, na qual
gritos de pânico substituem o comando e o estouro da boiada, em vez da
autoridade, decide o caminho a seguir. Costumávamos pensar que o
impensável só pode acontecer quando as pessoas param de pensar: quando a
tampa da racionalidade é tirada do caldeirão de paixões humanas pré-
sociais e incivilizadas. As descobertas de Milgram também colocam de
cabeça para baixo aquela imagem bem mais velha do mundo segundo a
qual a humanidade está completamente do lado da ordem racional,
enquanto a desumanidade confina-se inteiramente às ocasionais rupturas
dessa ordem.
Em suma, Milgram sugeriu e provou que a desumanidade é uma questão
de relacionamentos sociais. Na mesma proporção em que estas são
racionalizadas e tecnicamente aperfeiçoadas, também o são a capacidade e
a eficiência de produção social da desumanidade.
Pode parecer óbvio. Mas não é. Antes das experiências de Milgram,
poucas pessoas, profissionais e leigos igualmente, previam o que ele estava para descobrir. Virtualmente todos os adultos comuns do sexo masculino da