Modernidade e Holocausto
Falência das salvaguardas modernas
milhas da frente oriental e a um enorme custo para o esforço de guerra:
inestimáveis locomotivas e vagões, tropas e recursos administrativos foram
desviados das tarefas militares para limpar regiões europeias distantes
destinadas a colonização germânica que jamais ocorreria.
A burocracia é intrinsecamente capaz de ação genocida. Para enveredar
por uma ação dessas, precisa encontrar outra invenção da modernidade: um
amplo projeto de ordem social melhor, mais razoável e racional — digamos,
uma sociedade racialmente uniforme ou sem classes — e, acima de tudo, a
capacidade para traçar esses projetos e a determinação de torná-los eficazes.
Segue-se o genocídio quando duas invenções comuns e abundantes dos
tempos modernos se encontram. Ocorre apenas que esse encontro até aqui
tem sido raro, incomum.
Falência das salvaguardas modernas
A violência física e sua ameaça
já não são mais uma perpétua insegurança na vida do indivíduo, mas uma forma peculiar de
segurança… uma pressão contínua, uniforme, é exercida sobre a vida individual pela violência
física armazenada por trás dos cenários da vida cotidiana, uma pressão totalmente familiar e
dificilmente percebida conduz e dirige a economia, ajustada que foi desde tenra infância a essa
estrutura social.13
Com essas palavras, Norbert Elias reafirmou a autodefinição da sociedade
civilizada. A eliminação da violência da vida diária é a principal asserção
em torno da qual gira essa definição. Como vimos, a aparente eliminação é
de fato meramente uma expulsão, que leva a uma reunião de recursos e à
criação de centros de violência em novas locações do sistema social. De
acordo com Elias, os dois processos são intimamente interdependentes. A
área da vida cotidiana fica comparativamente livre da violência
precisamente porque em alguma parte, nas margens físicas da sociedade, ela
está armazenada — em tal quantidade que se torna efetivamente
incontrolável, por parte dos membros ordinários da sociedade, dotando-a
então de um poder irresistível para suprimir eclosões não autorizadas de
violência. As maneiras cotidianas abrandaram-se principalmente porque
agora as pessoas são ameaçadas de violência caso sejam violentas — com uma violência que não podem enfrentar nem racionalmente esperam repelir.
O desaparecimento da violência do horizonte da vida diária é assim mais
uma manifestação das tendências centralizadoras e monopolizadoras do
poder moderno; a violência está ausente da relação interpessoal porque é
agora controlada por forças definitivamente fora do alcance individual. Mas
as forças não estão fora do alcance de todo mundo. Assim, o tão gabado
abrandamento de maneiras (que Elias, seguindo o mito etiológico do
Ocidente, celebra com tanto prazer) e a confortável segurança resultante
para a vida cotidiana têm seu preço. Um preço que nós, moradores da casa
da modernidade, podemos ser chamados a pagar a qualquer momento. Ou
obrigados a pagar, sem sermos primeiro chamados.
A pacificação da vida cotidiana significa ao mesmo tempo a sua falta de
defesa. Ao concordarem ou serem forçados a renunciar ao uso da força
física em suas relações recíprocas, os membros da sociedade moderna
desarmam-se diante dos desconhecidos e normalmente invisíveis agentes da
coerção, no entanto potencialmente sinistros e sempre formidáveis. Sua
fraqueza é preocupante não tanto por causa da alta probabilidade de que
esses agentes irão de fato tirar vantagem disso, apressando-se em virar os
meios de violência que controlam contra a sociedade desarmada, quanto
pelo simples fato de que, seja ou não tirada tal vantagem, isso não depende
em princípio do que façam os homens e mulheres comuns. Por si mesmos,
os membros da sociedade moderna não podem evitar a ocorrência de um
uso maciço da coerção. O abrandamento de maneiras anda de mãos dadas
com uma radical mudança no controle da violência.
A consciência da ameaça constante contida no desequilíbrio
caracteristicamente moderno de poder tornaria a vida insuportável, se não
fosse pela nossa confiança nas salvaguardas que acreditamos terem se
tornado o próprio tecido da sociedade civilizada, moderna. A maior parte do
tempo não temos razão para pensar que a confiança está mal depositada. Só
em umas poucas ocasiões dramáticas a confiabilidade das salvaguardas é
colocada em dúvida. Talvez o principal significado do Holocausto foi ter
sido uma das mais temíveis ocasiões desse tipo até hoje. No período que
levou à Solução Final, as salvaguardas mais confiáveis foram colocadas à
prova. Todas falharam, cada uma delas, e todas ao mesmo tempo.
Talvez o fracasso mais espetacular tenha sido o da ciência — como
corpo de ideias e como rede de instituições de estudo e ensino. Veio à luz o
potencial mortífero dos princípios e conquistas mais reverenciados da ciência moderna. A emancipação da razão face às emoções, da
racionalidade ante as pressões normativas, da eficiência em relação à ética
era o lema da ciência desde os primórdios. Uma vez concretizado, porém,
esse lema fez da ciência e das formidáveis aplicações que ela gerava dóceis
instrumentos nas mãos de um poder inescrupuloso. O papel sombrio e
ignóbil que a ciência desempenhou na continuidade do Holocausto foi
direto e indireto.
Indiretamente (embora de forma central à sua função social geral), a
ciência abriu caminho ao genocídio pelo solapamento da autoridade e o
questionamento da força aglutinadora de todo o pensamento normativo,
particularmente o da religião e o da ética. A ciência faz o balanço da sua
história como a da longa e vitoriosa batalha da razão contra a superstição e
a irracionalidade. Na medida em que a religião e a ética não podiam
racionalmente legitimar as exigências que faziam de comportamento
humano, foram condenadas e viram sua autoridade negada. Como os
valores e as normas foram proclamados imanente e irremediavelmente
subjetivos, a instrumentalidade ficou sendo o único campo em que a busca
da excelência era factível. A ciência queria ser livre de valoração e tinha
orgulho disso. Por pressão institucional e ridicularização, ela silenciou os
pregadores de moralidade. No processo, tornou-se moralmente cega e
muda. Desmantelou todas as barreiras que a podiam impedir de cooperar
com entusiasmo e entrega total no desenvolvimento dos métodos mais
eficientes e rápidos de esterilização em massa e de assassinato em massa;
ou de conceber a escravidão nos campos de concentração como uma
oportunidade única e maravilhosa para conduzir pesquisas médicas com
vistas ao avanço do conhecimento e — claro — da humanidade.
A ciência (ou melhor, dessa vez o cientista) ajudou os executores do
Holocausto também de forma direta. A ciência moderna é uma instituição
gigantesca e complexa. A pesquisa custa caro, uma vez que requer prédios
imensos, equipamento dispendioso e grandes equipes de especialistas muito
bem pagos. Assim, a ciência depende de um fluxo constante de dinheiro e
de recursos não monetários, que só instituições igualmente vastas são
capazes de oferecer e garantir. A ciência não é, entretanto, mercantil, nem
são os cientistas avarentos. A ciência lida com a verdade e os cientistas com
a sua busca. Os cientistas são esmagados pela curiosidade e estimulados
pelo desconhecido. Comparada a todas as outras preocupações terrenas,
incluindo a monetária, a curiosidade é desinteressada. Os cientistas só pregam e buscam o valor do conhecimento e da verdade. É apenas uma
coincidência e de preferência um fator menor de irritação o fato de que a
curiosidade não pode ser saciada e tampouco a verdade encontrada sem
recursos financeiros cada vez maiores, laboratórios cada vez mais
dispendiosos, folhas salariais cada vez maiores. O que os cientistas querem
é meramente a permissão de ir aonde sua sede de conhecimento os leva.
Um governo que estende sua mão solícita e oferece exatamente isso
pode contar com a gratidão e cooperação dos cientistas. A maioria dos
cientistas, em troca, estaria pronta a abdicar de uma lista bem longa de
preceitos menores. Estariam prontos, por exemplo, a tolerar o súbito
desaparecimento de alguns colegas com o formato do nariz ou o perfil
biográfico errados. Se levantarem alguma objeção, será pelo fato de que
varrer com todos esses colegas de uma vez pode colocar em risco o
cronograma de pesquisa. (Não se trata de uma crítica ou revolta; foi nisso
que acabaram dando os protestos dos acadêmicos alemães, médicos e
engenheiros, quando chegaram a ser registrados. Menos ainda se ouviu dos
seus colegas soviéticos durante os expurgos.) Com prazer, os cientistas
alemães pegaram o trem puxado pela locomotiva nazista rumo a um bravo,
novo e purificado mundo de dominação germânica. Os projetos de pesquisa
tornavam-se mais ambiciosos a cada dia e os institutos de pesquisa
pululavam mais e mais de gente e recursos. Fora isso, pouca coisa
importava.
No seu fascinante novo estudo sobre a contribuição da biologia e da
ciência médica para o planejamento e a execução da política racial nazista,
Robert Proctor põe fim ao mito popular da ciência sob o nazismo, primeiro
e sobretudo como vítima de perseguição e objeto de intensa doutrinação
vinda de cima (mito que remonta pelo menos a um livro de repercussão
publicado em 1941, O ataque nazista à ciência internacional, de Joseph
Needham). À luz da meticulosa pesquisa de Proctor, a opinião comum
subestima em demasia a que ponto a própria comunidade científica gerou
iniciativas políticas (de fato, algumas das mais horripilantes), mais do que
foram impostas de fora sobre equipes relutantes mas covardes, e a que
ponto a própria política racial foi iniciada e dirigida por renomados
cientistas com impecáveis credenciais acadêmicas. Se havia coerção, “era
muitas vezes de uma parte da comunidade científica sobre outra”. No geral,
“muitas das fundações sociais e intelectuais [para os programas raciais]
foram lançadas muito antes da ascensão de Hitler ao poder” e a área de ciências biomédicas “desempenhou um papel ativo, até de liderança, no
lançamento, administração e execução dos programas raciais nazistas”.14
Que os cientistas biomédicos em questão não fossem, sob qualquer
avaliação, um grupo lunático ou fanático dentro da profissão revela-se no
detalhado estudo de Proctor sobre a composição dos quadros editoriais de
147 publicações médicas editadas na Alemanha nazista. Após a ascensão de
Hitler, os quadros permaneceram os mesmos ou trocaram uma pequena
minoria dos seus integrantes (com toda a probabilidade, em função do
expurgo de acadêmicos judeus).15
Na melhor das hipóteses, o culto da racionalidade, institucionalizado
como ciência moderna, revelou-se impotente para impedir o Estado de
partir para o crime organizado; na pior, revelou-se instrumental na produção
da transformação. Seus rivais, no entanto, não fizeram um placar maior. No
seu silêncio, os acadêmicos alemães tiveram muitos companheiros. Bem
notoriamente, juntaram-se a eles as igrejas — todas elas. O silêncio diante
da desumanidade organizada foi o único ponto a unir as igrejas,
normalmente em total desacordo. Nenhuma delas tentou reclamar sua
autoridade ridicularizada. Nenhuma das igrejas (como instituição distinta
dos fiéis tomados individualmente, em geral isolados) admitiu sua
responsabilidade por fatos perpetrados num país que proclamavam como
seu território, nem o fizeram seus encarregados pastorais. (Hitler nunca
deixou a Igreja católica, nem foi excomungado.) Nenhuma sustentou seu
direito de fazer julgamentos morais sobre o rebanho e de impor penitência
aos desgarrados.
Pior, a repulsa cultural à violência revelou-se pobre salvaguarda contra a
coerção organizada; enquanto as maneiras civilizadas mostraram uma
espantosa habilidade para coexistir pacífica e harmoniosamente com o
assassinato em massa. O demorado e muitas vezes penoso processo
civilizador fracassou em erguer uma única barreira segura contra o
genocídio. Tais mecanismos precisavam do código civilizado de
comportamento para coordenar ações criminosas de tal forma que
raramente se chocassem com o farisaísmo dos seus perpetradores. Entre os
espectadores, a repulsa civilizada da desumanidade não se mostrou forte o
bastante para encorajar uma resistência ativa a ela. A maioria dos
espectadores reagiu como as normas civilizadas aconselham e nos levam a
reagir diante de coisas bárbaras e repugnantes: viraram os olhos para o
outro lado. Os poucos que se levantaram contra a crueldade não tinham normas ou sanções sociais para apoiá-los e tranquilizá-los. Eram solitários,