Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 28 de 52

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Modernidade e Holocausto

Falência das salvaguardas modernas

milhas da frente oriental e a um enorme custo para o esforço de guerra:

inestimáveis locomotivas e vagões, tropas e recursos administrativos foram

desviados das tarefas militares para limpar regiões europeias distantes

destinadas a colonização germânica que jamais ocorreria.

A burocracia é intrinsecamente capaz de ação genocida. Para enveredar

por uma ação dessas, precisa encontrar outra invenção da modernidade: um

amplo projeto de ordem social melhor, mais razoável e racional — digamos,

uma sociedade racialmente uniforme ou sem classes — e, acima de tudo, a

capacidade para traçar esses projetos e a determinação de torná-los eficazes.

Segue-se o genocídio quando duas invenções comuns e abundantes dos

tempos modernos se encontram. Ocorre apenas que esse encontro até aqui

tem sido raro, incomum.

 

Falência das salvaguardas modernas

 

A violência física e sua ameaça

 

já não são mais uma perpétua insegurança na vida do indivíduo, mas uma forma peculiar de

segurança… uma pressão contínua, uniforme, é exercida sobre a vida individual pela violência

física armazenada por trás dos cenários da vida cotidiana, uma pressão totalmente familiar e

dificilmente percebida conduz e dirige a economia, ajustada que foi desde tenra infância a essa

estrutura social.13

 

Com essas palavras, Norbert Elias reafirmou a autodefinição da sociedade

civilizada. A eliminação da violência da vida diária é a principal asserção

em torno da qual gira essa definição. Como vimos, a aparente eliminação é

de fato meramente uma expulsão, que leva a uma reunião de recursos e à

criação de centros de violência em novas locações do sistema social. De

acordo com Elias, os dois processos são intimamente interdependentes. A

área da vida cotidiana fica comparativamente livre da violência

precisamente porque em alguma parte, nas margens físicas da sociedade, ela

está armazenada — em tal quantidade que se torna efetivamente

incontrolável, por parte dos membros ordinários da sociedade, dotando-a

então de um poder irresistível para suprimir eclosões não autorizadas de

violência. As maneiras cotidianas abrandaram-se principalmente porque

agora as pessoas são ameaçadas de violência caso sejam violentas — com uma violência que não podem enfrentar nem racionalmente esperam repelir.

O desaparecimento da violência do horizonte da vida diária é assim mais

uma manifestação das tendências centralizadoras e monopolizadoras do

poder moderno; a violência está ausente da relação interpessoal porque é

agora controlada por forças definitivamente fora do alcance individual. Mas

as forças não estão fora do alcance de todo mundo. Assim, o tão gabado

abrandamento de maneiras (que Elias, seguindo o mito etiológico do

Ocidente, celebra com tanto prazer) e a confortável segurança resultante

para a vida cotidiana têm seu preço. Um preço que nós, moradores da casa

da modernidade, podemos ser chamados a pagar a qualquer momento. Ou

obrigados a pagar, sem sermos primeiro chamados.

A pacificação da vida cotidiana significa ao mesmo tempo a sua falta de

defesa. Ao concordarem ou serem forçados a renunciar ao uso da força

física em suas relações recíprocas, os membros da sociedade moderna

desarmam-se diante dos desconhecidos e normalmente invisíveis agentes da

coerção, no entanto potencialmente sinistros e sempre formidáveis. Sua

fraqueza é preocupante não tanto por causa da alta probabilidade de que

esses agentes irão de fato tirar vantagem disso, apressando-se em virar os

meios de violência que controlam contra a sociedade desarmada, quanto

pelo simples fato de que, seja ou não tirada tal vantagem, isso não depende

em princípio do que façam os homens e mulheres comuns. Por si mesmos,

os membros da sociedade moderna não podem evitar a ocorrência de um

uso maciço da coerção. O abrandamento de maneiras anda de mãos dadas

com uma radical mudança no controle da violência.

A consciência da ameaça constante contida no desequilíbrio

caracteristicamente moderno de poder tornaria a vida insuportável, se não

fosse pela nossa confiança nas salvaguardas que acreditamos terem se

tornado o próprio tecido da sociedade civilizada, moderna. A maior parte do

tempo não temos razão para pensar que a confiança está mal depositada. Só

em umas poucas ocasiões dramáticas a confiabilidade das salvaguardas é

colocada em dúvida. Talvez o principal significado do Holocausto foi ter

sido uma das mais temíveis ocasiões desse tipo até hoje. No período que

levou à Solução Final, as salvaguardas mais confiáveis foram colocadas à

prova. Todas falharam, cada uma delas, e todas ao mesmo tempo.

Talvez o fracasso mais espetacular tenha sido o da ciência — como

corpo de ideias e como rede de instituições de estudo e ensino. Veio à luz o

potencial mortífero dos princípios e conquistas mais reverenciados da ciência moderna. A emancipação da razão face às emoções, da

racionalidade ante as pressões normativas, da eficiência em relação à ética

era o lema da ciência desde os primórdios. Uma vez concretizado, porém,

esse lema fez da ciência e das formidáveis aplicações que ela gerava dóceis

instrumentos nas mãos de um poder inescrupuloso. O papel sombrio e

ignóbil que a ciência desempenhou na continuidade do Holocausto foi

direto e indireto.

Indiretamente (embora de forma central à sua função social geral), a

ciência abriu caminho ao genocídio pelo solapamento da autoridade e o

questionamento da força aglutinadora de todo o pensamento normativo,

particularmente o da religião e o da ética. A ciência faz o balanço da sua

história como a da longa e vitoriosa batalha da razão contra a superstição e

a irracionalidade. Na medida em que a religião e a ética não podiam

racionalmente legitimar as exigências que faziam de comportamento

humano, foram condenadas e viram sua autoridade negada. Como os

valores e as normas foram proclamados imanente e irremediavelmente

subjetivos, a instrumentalidade ficou sendo o único campo em que a busca

da excelência era factível. A ciência queria ser livre de valoração e tinha

orgulho disso. Por pressão institucional e ridicularização, ela silenciou os

pregadores de moralidade. No processo, tornou-se moralmente cega e

muda. Desmantelou todas as barreiras que a podiam impedir de cooperar

com entusiasmo e entrega total no desenvolvimento dos métodos mais

eficientes e rápidos de esterilização em massa e de assassinato em massa;

ou de conceber a escravidão nos campos de concentração como uma

oportunidade única e maravilhosa para conduzir pesquisas médicas com

vistas ao avanço do conhecimento e — claro — da humanidade.

A ciência (ou melhor, dessa vez o cientista) ajudou os executores do

Holocausto também de forma direta. A ciência moderna é uma instituição

gigantesca e complexa. A pesquisa custa caro, uma vez que requer prédios

imensos, equipamento dispendioso e grandes equipes de especialistas muito

bem pagos. Assim, a ciência depende de um fluxo constante de dinheiro e

de recursos não monetários, que só instituições igualmente vastas são

capazes de oferecer e garantir. A ciência não é, entretanto, mercantil, nem

são os cientistas avarentos. A ciência lida com a verdade e os cientistas com

a sua busca. Os cientistas são esmagados pela curiosidade e estimulados

pelo desconhecido. Comparada a todas as outras preocupações terrenas,

incluindo a monetária, a curiosidade é desinteressada. Os cientistas só pregam e buscam o valor do conhecimento e da verdade. É apenas uma

coincidência e de preferência um fator menor de irritação o fato de que a

curiosidade não pode ser saciada e tampouco a verdade encontrada sem

recursos financeiros cada vez maiores, laboratórios cada vez mais

dispendiosos, folhas salariais cada vez maiores. O que os cientistas querem

é meramente a permissão de ir aonde sua sede de conhecimento os leva.

Um governo que estende sua mão solícita e oferece exatamente isso

pode contar com a gratidão e cooperação dos cientistas. A maioria dos

cientistas, em troca, estaria pronta a abdicar de uma lista bem longa de

preceitos menores. Estariam prontos, por exemplo, a tolerar o súbito

desaparecimento de alguns colegas com o formato do nariz ou o perfil

biográfico errados. Se levantarem alguma objeção, será pelo fato de que

varrer com todos esses colegas de uma vez pode colocar em risco o

cronograma de pesquisa. (Não se trata de uma crítica ou revolta; foi nisso

que acabaram dando os protestos dos acadêmicos alemães, médicos e

engenheiros, quando chegaram a ser registrados. Menos ainda se ouviu dos

seus colegas soviéticos durante os expurgos.) Com prazer, os cientistas

alemães pegaram o trem puxado pela locomotiva nazista rumo a um bravo,

novo e purificado mundo de dominação germânica. Os projetos de pesquisa

tornavam-se mais ambiciosos a cada dia e os institutos de pesquisa

pululavam mais e mais de gente e recursos. Fora isso, pouca coisa

importava.

No seu fascinante novo estudo sobre a contribuição da biologia e da

ciência médica para o planejamento e a execução da política racial nazista,

Robert Proctor põe fim ao mito popular da ciência sob o nazismo, primeiro

e sobretudo como vítima de perseguição e objeto de intensa doutrinação

vinda de cima (mito que remonta pelo menos a um livro de repercussão

publicado em 1941, O ataque nazista à ciência internacional, de Joseph

Needham). À luz da meticulosa pesquisa de Proctor, a opinião comum

subestima em demasia a que ponto a própria comunidade científica gerou

iniciativas políticas (de fato, algumas das mais horripilantes), mais do que

foram impostas de fora sobre equipes relutantes mas covardes, e a que

ponto a própria política racial foi iniciada e dirigida por renomados

cientistas com impecáveis credenciais acadêmicas. Se havia coerção, “era

muitas vezes de uma parte da comunidade científica sobre outra”. No geral,

“muitas das fundações sociais e intelectuais [para os programas raciais]

foram lançadas muito antes da ascensão de Hitler ao poder” e a área de ciências biomédicas “desempenhou um papel ativo, até de liderança, no

lançamento, administração e execução dos programas raciais nazistas”.14

Que os cientistas biomédicos em questão não fossem, sob qualquer

avaliação, um grupo lunático ou fanático dentro da profissão revela-se no

detalhado estudo de Proctor sobre a composição dos quadros editoriais de

147 publicações médicas editadas na Alemanha nazista. Após a ascensão de

Hitler, os quadros permaneceram os mesmos ou trocaram uma pequena

minoria dos seus integrantes (com toda a probabilidade, em função do

expurgo de acadêmicos judeus).15

Na melhor das hipóteses, o culto da racionalidade, institucionalizado

como ciência moderna, revelou-se impotente para impedir o Estado de

partir para o crime organizado; na pior, revelou-se instrumental na produção

da transformação. Seus rivais, no entanto, não fizeram um placar maior. No

seu silêncio, os acadêmicos alemães tiveram muitos companheiros. Bem

notoriamente, juntaram-se a eles as igrejas — todas elas. O silêncio diante

da desumanidade organizada foi o único ponto a unir as igrejas,

normalmente em total desacordo. Nenhuma delas tentou reclamar sua

autoridade ridicularizada. Nenhuma das igrejas (como instituição distinta

dos fiéis tomados individualmente, em geral isolados) admitiu sua

responsabilidade por fatos perpetrados num país que proclamavam como

seu território, nem o fizeram seus encarregados pastorais. (Hitler nunca

deixou a Igreja católica, nem foi excomungado.) Nenhuma sustentou seu

direito de fazer julgamentos morais sobre o rebanho e de impor penitência

aos desgarrados.

Pior, a repulsa cultural à violência revelou-se pobre salvaguarda contra a

coerção organizada; enquanto as maneiras civilizadas mostraram uma

espantosa habilidade para coexistir pacífica e harmoniosamente com o

assassinato em massa. O demorado e muitas vezes penoso processo

civilizador fracassou em erguer uma única barreira segura contra o

genocídio. Tais mecanismos precisavam do código civilizado de

comportamento para coordenar ações criminosas de tal forma que

raramente se chocassem com o farisaísmo dos seus perpetradores. Entre os

espectadores, a repulsa civilizada da desumanidade não se mostrou forte o

bastante para encorajar uma resistência ativa a ela. A maioria dos

espectadores reagiu como as normas civilizadas aconselham e nos levam a

reagir diante de coisas bárbaras e repugnantes: viraram os olhos para o

outro lado. Os poucos que se levantaram contra a crueldade não tinham normas ou sanções sociais para apoiá-los e tranquilizá-los. Eram solitários,