Modernidade e Holocausto
Racionalidade da autopreservação
e portanto havia sempre uma ocasião para ser racional. Conselheiros judeus
lógicos e racionais se convenciam a fazer o trabalho dos assassinos. Sua
lógica e racionalidade eram parte do plano dos assassinos. Era usada a cada
vez que os esquadrões assassinos eram pequenos demais ou as armas
mortíferas não imediatamente disponíveis. A lógica e a racionalidade
estavam sempre disponíveis e, portanto, um bom suprimento de eficiente
colaboração estava sempre lá, à espera, pronto para preencher o vazio. Era
como se a velha sabedoria tivesse sido reformulada. Parecia que quando
Deus queria destruir alguém, não o enlouquecia, tornava-o racional.
Como bem sabemos hoje, a estratégia do “salve-se quem puder” —
racional como deve ter sido — não ajudou as vítimas. Mas, em primeiro
lugar, não era uma estratégia das próprias vítimas. Era um adendo, uma
extensão da estratégia de destruição, exercida e administrada por forças
propensas ao extermínio. Aqueles que abraçaram a estratégia do “salve-se
quem puder” foram primeiro marcados como vítimas. Aqueles que os
marcaram como vítimas criaram uma situação na qual as coisas precisavam
ser salvas para existir e assim era posto em operação o cálculo de
“evitamento de perdas”, “custos de sobrevivência”, “mal menor”. Em tal
situação, a racionalidade das vítimas tornou-se a arma dos seus assassinos.
Mas, afinal, a racionalidade do governado é sempre uma arma dos
governantes.
Sabemos hoje que, apesar de todas essas verdades teóricas, os opressores
encontraram surpreendentemente pouca dificuldade em solicitar a
cumplicidade racionalmente motivada das vítimas.
Racionalidade da autopreservação
O sucesso dos opressores dependia da indução do cálculo racional das
vítimas para sobreviver à possibilidade de se alcançar o objetivo que
deveria originalmente servir; ao permitir às pessoas — pelo menos algumas
e por algum tempo — agirem racionalmente num cenário reconhecidamente
irracional. Isto, por sua vez, dependia de se destacarem enclaves de
normalidade no contexto geral; e de se dividir um processo que, em última
análise, levava à perdição em tantos estágios que, sempre que contemplados
em separado, permitissem uma escolha guiada por critérios racionais de sobrevivência. Todos os atos singulares que no final se combinaram na
Endlösung eram racionais do ponto de vista dos administradores do
Holocausto; a maioria deles era também racional do ponto de vista das
vítimas.
Para que esse efeito fosse alcançado, tinha que se criar a aparência de
que a sobrevivência seletiva era um alvo factível a maior parte do tempo e
que portanto a conduta ditada pelo interesse na autopreservação era tanto
racional como sensível. Uma vez escolhida a autopreservação como
supremo critério de ação, seu preço podia ser gradualmente mas
incessantemente aumentado — até que todas as outras considerações
fossem desvalorizadas, todas as inibições morais ou religiosas rompidas,
todos os escrúpulos rejeitados e desautorizados. Como admitiu,
atormentado, Resvö Kasztner: “No início, eram pedidas coisas
relativamente sem importância [ao Conselho Judaico], coisas substituíveis,
de valor material, como bens pessoais, dinheiro, apartamentos. Depois, no
entanto, pediram a liberdade pessoal dos seres humanos. Por fim, os
nazistas pediram a própria vida.” 24 A inerente indiferença moral aos
princípios da racionalidade foi assim levada ao extremo e explorada ao
máximo. O potencial, sempre presente em atores treinados a buscar o ganho
racional mas adormecido enquanto não exposto ao teste extremo, atingiu ali
o seu auge. Num clarão estonteante, a racionalidade da autopreservação
revelou-se como inimiga do dever moral.
Segundo uma testemunha ocular, no domingo de Páscoa de 1942, o
Amtskomissar de Sokoly ordenou ao Judenrat local que despachasse para a
cidade todos os homens aptos. Quando, na hora marcada, o Präses relatou o
fracasso dos seus esforços,
O Amtskomissar ficou furioso, cortando-lhe a palavra e golpeando sua cabeça e seu rosto.
Abriu com um piparote seu relógio de bolso e gritou: ‘Im Verlaufe einer halben Stunde sollen
alle hier versammelt sein! Sonst wird der Judenrat bald erschossen!” [“Dentro de meia hora
todos devem estar reunidos aqui! Do contrário, o Conselho Judeu será imediatamente
fuzilado!”] Isso deu um novo choque no conselho. De repente, eles se transformaram em
outros homens. Todos os doze conselheiros, com seus assessores e ajudantes, saíram correndo
pelas ruas da shtetl, indo de casa em casa e arrastando todo mundo para fora, adultos e
crianças. Ninguém conseguia pará-los. Então colocaram todo mundo em filas. Se algum “falso
doente” não aparecesse, disseram, aquele Asmodeu executaria todo o conselho! Em quinze
minutos, a rua estava coalhada de gente e o 25 Judenrat guiou-a em fila dupla.
Cenas como essa se repetiam com terrível regularidade por todo o vasto
domínio nazista sobre a Europa. Conselheiros e policiais judeus eram confrontados com uma simples escolha: ou morriam ou deixavam que
outros morressem. Muitos preferiram adiar a própria morte e a morte de
parentes e amigos. Brincar de Deus ficava mais fácil em função do interesse
próprio.
É impossível dizer quantos dos que escolheram “sujar as mãos”
esperavam de fato sobreviver. A opção entre a vida e a morte coloca o
instinto de sobrevivência sob prova extrema. É injusto e errado julgar o
comportamento humano nas condições dessa escolha, em comparação com
o padrão de decisões muito menos dramáticas e decisivas da vida cotidiana,
onde os conflitos entre o interesse pessoal e a responsabilidade pelos outros
são muitas vezes agudos, mas muito raramente de caráter final ou exigindo
uma escolha irreversível. A maioria dos conflitos comuns, além disso, é
enfrentada isoladamente, num meio em que a maioria das outras pessoas
não precisa tomar decisões de caráter moral comparável — e por isso a
visibilidade dos padrões morais permanece forte. Esse ambiente foi
eficientemente destruído nos guetos durante a destruição organizada. O que
quer que restasse da autoridade das obrigações morais sobre o interesse
pessoal racional era “defasado”, na passagem por sucessivos círculos do
inferno. O procedimento normal de toda burocracia — tornar a obediência
mais segura de obter pela desvalorização de todas as pressões contrárias,
inclusive as morais — foi aqui levado ao extremo e revelou todo o seu
potencial. A colaboração das vítimas com os objetivos dos seus
perseguidores tornou-se mais fácil com a corrupção moral das vítimas.
Confrontando-as com escolhas das quais os “mais aptos”, que sobreviviam,
só podiam sair com as mãos sujas, os planejadores garantiam que, com o
tempo, a população do gueto se tornava mais e mais cúmplice dos
assassinatos, com isso aumentando a insensibilidade e dureza morais — em
detrimento, e possivelmente extinção, de todos os freios que normalmente
contêm a pressão do puro instinto de sobrevivência.
Marek Edelman, um dos líderes e dos poucos combatentes que
sobreviveram da revolta no gueto de Varsóvia, registrou logo após o fim da
guerra suas lembranças da “sociedade do gueto”:
A separação completa, a proibição da imprensa de fora, o corte de toda comunicação com o
mundo exterior tinha também seu propósito e efeito especial sobre a população judaica. Tudo
que acontecia do outro lado dos muros foi ficando cada vez mais distante, obscuro, alheio. O
que contava, em vez disso, era o que acontecia hoje, na vizinhança imediata; esses eram os
assuntos mais importantes, nos quais se concentrava toda a atenção do residente médio do
gueto. Continuar vivo tornou-se a única coisa importante — essa “vida” que cada um interpreta
à sua maneira, dependendo das suas condições e recursos. Confortável para pessoas ricas antes
da guerra, ostentatória e exuberante para colaboradores degenerados da Gestapo ou
contrabandistas desmoralizados, a vida significava fome para a incontável massa de
trabalhadores e desempregados, que sobreviviam com sopa aguada dos serviços de caridade e
pão racionado. Nesse tipo de “vida”, todo mundo se agarra obsessivamente aos seus próprios
padrões. As pessoas de dinheiro veem o propósito da vida nos confortos e prazeres cotidianos,
que buscam nos barulhentos e sempre cheios cafés, clubes noturnos, salões de baile. As
pessoas que nada têm caçam a esquiva “felicidade” que há numa batata mofada encontrada
numa lata de lixo ou num pedaço de pão jogando na mão mendicante por um transeunte; elas
querem esquecer a fome, pelo menos por um breve momento… Mas a fome aumenta dia a dia,
transborda de apartamentos entupidos de gente para as ruas, fere os olhos com a imagem de
corpos monstruosamente esquálidos, pernas cobertas de pústulas e úlceras enroladas em trapos
imundos, com chagas e feridas causadas pelo frio e a subnutrição. A fome fala pelos lábios de
crianças pedintes e velhos desamparados… A pobreza é tão esmagadora que as pessoas
morrem de fome nas ruas. Todo dia, entre 4 e 5 da manhã, os agentes funerários recolhem
dezenas de cadáveres cobertos com folhas de jornal presas com pedras. Alguns caem nas ruas,
outros morrem dentro de casa, mas as famílias os deixam nus (para vender as roupas) e os joga
na calçada para que o Conselho Judeu pague o enterro. Uma após outra, carroças puxadas por
cavalos cruzam as ruas, cheias até a borda com corpos desnudos… Ao mesmo tempo, o tifo
grassa no gueto… todas as enfermarias de hospital são abarrotadas, cada uma com 150
doentes; dois, às vezes três, dividem uma cama, mas ainda há muitos deitados no chão. Para os
moribundos as pessoas olham com impaciência; para os outros, falta espaço… Quinhentos
cadáveres são amontoados em cada vala e ainda centenas ficam sem enterrar, por isso o
cemitério tem um fedor nauseante, doentio… Nessa trágica condição de vida dos judeus os
nazistas alemães tentam introduzir uma aparência de ordem e autoridade. Desde o primeiro dia,
o poder é oficialmente exercido pelo Conselho Judeu. Para manter a ordem, foi criada uma
polícia judia uniformizada… Essas instituições, que visam dar à vida do gueto um verniz de
normalidade, tornaram-se na verdade fonte de alta corrupção e desmoralização. 26
No gueto, a distância entre as classes era a distância entre a vida e a
morte. Simplesmente manter-se vivo significava fechar os olhos à
destituição e agonia das outras pessoas. Os pobres morriam primeiro e em
levas. Da mesma forma, os sem talento, os mansos, os ingênuos, os
honestos, os sem iniciativa. Desde o primeiro dia, com massas de pessoas
entulhadas num espaço que comportaria não mais que um terço do seu
número, com rações de comida calculadas para produzir a decadência física
e espiritual, com fontes de renda virtualmente inexistentes, as epidemias
grassando e os remédios em falta, a vida no gueto virava um jogo sem gols
onde a sobrevivência era o prêmio mais cobiçado, o único prêmio que
realmente contava. Raramente foi tão alto o preço da compaixão.
Raramente a simples preocupação com a sobrevivência esteve tão perto da
corrupção moral.
As diferenças de classe, atrozes — horríveis quando estavam em jogo o
pão e o abrigo — adquiriam um caráter mortífero assim que começava a luta pelo adiamento da execução. A essa altura, os pobres estavam por
demais enfraquecidos e emasculados para resistir ou defender de qualquer
forma as suas vidas. “Durante as operações de limpeza do gueto, muitas
famílias eram incapazes de lutar, incapazes de implorar, incapazes de fugir
e também incapazes de seguir até o ponto de concentração para acabar logo
com aquilo. Esperavam as batidas policiais em casa, paralisados e
indefesos.”27 Os ricos e os não muito pobres buscavam se superar em
tentativas (em geral infrutíferas) para conseguir os poucos passes de saída
que os nazistas sempre tinham o cuidado de jogar no meio da multidão
apavorada. Poucos se lembravam de que o sucesso de um só podia
significar a perdição de outro. Fortunas eram oferecidas, e aceitas, pelas
mágicas placas numéricas que livravam seus portadores da “ação” que se
processava. Protetores influentes eram procurados de modo febril e
subornados. Wladyslaw Szlengel, o inesquecível bardo do gueto de
Varsóvia, deixou a atormentada descrição da “ação” que teve lugar em 19
de janeiro de 1943:
Assédio aos telefones. Socorro! Socorro! Socorro! Acionar os chefes da Gestapo. Ligar para o
pátio ferroviário: os trens chegaram? O sr. Szmerling se encontra? Senhor, meu… foi levado!
Sr. Skosowski! Socorro! Qualquer quantia! Cem mil! O que for preciso! Darei meio milhão por
vinte pessoas! Por dez pessoas! Por uma!
Os judeus têm dinheiro! Os judeus podem mexer os seus pauzinhos! Os judeus não podem
fazer nada!…
Sabemos como eles fizeram suas monstruosas fortunas — e como agora rastejam pelo chão
em busca de água, como oferecem seus milhões aos ucranianos, como partem levando somas
de dinheiro com as quais poderiam manter vivos durante meses essas centenas reunidas na
estação…
O gado adornado com placas numéricas sai em debandada. Umas poucas criaturas sem
placas aguardam, indefesas, entre as ruínas…
Cresce o tesouro do Reich.
Os judeus estão morrendo.28
Quanto mais subia o preço da vida, mais desabava o preço da traição.
Uma compulsão irresistível de viver punha de lado os escrúpulos morais e,
com eles, a dignidade humana. No meio da luta generalizada pela
sobrevivência, o valor da autopreservação era entronizado como
incontestável legitimação da escolha. Tudo que servia à autopreservação era
certo. Quando o que estava em jogo era a viagem final, todos os meios para
evitá-la se justificavam. É verdade que os nazistas agora pediam aos
Ältestenräte que prestassem serviços incomparavelmente mais abomináveis
que antes. Mas o jogo também havia mudado — tanto o preço quanto as recompensas da obediência tinham subido. E assim, mais comumente que
não, os serviços continuaram a ser prestados. Na barganha por mais um dia
de vida, um emprego no Conselho Judeu ou na polícia judia valia mais que
dinheiro ou diamantes.
Não que o dinheiro e os diamantes fossem desprezados. Inúmeros
relatos dos sobreviventes contam uma história triste e desoladora de
suborno e chantagem desenfreados, de extorsão e trapaça, que se tornaram a
marca de muitos Judenräte ou pelo menos de muitos indivíduos
participando de seu terrível poder para separar a vida da morte. Grandes
somas de dinheiro e heranças familiares eram pedidas e pagas pelos
serviços de muitos conselheiros, fosse um privilégio oficial ou um falso
cartão de identidade. Particularmente cobiçado era um quarto em prédios
especiais reservados para os membros dos conselhos e da polícia e seus
parentes imediatos; tais edifícios eram supostamente imunes à atenção das
SS e livres das sucessivas Aktionen. Com o aprofundamento do jogo e do
desespero, qualquer migalha de privilégio podia, no entanto, alcançar um
preço exorbitante que só os mais ricos sobreviventes da comunidade
condenada podiam pagar.
Esse comportamento dos Judenräte refletia a corrupção generalizada da
população vitimada. A opressão, que aumentava a racionalidade da
autopreservação e sistematicamente desvalorizava as considerações morais,
conseguia de fato desumanizar as vítimas. Ela atuava como uma profecia
que se cumpre. Primeiro os judeus foram declarados imorais e
inescrupulosos, egoístas e avarentos detratores dos valores, que usavam o
culto ostensivo do humanismo como uma capa conveniente para encobrir o
mais cru interesse próprio; foram então forçados a viver numa condição
desumana, em que a definição oferecida pela propaganda podia tornar-se
verdadeira. Os câmeras do ministério de Goebbels passavam dias inteiros
filmando os mendigos morrendo de fome em frente a restaurantes luxuosos.
A corrupção tem a sua lógica. Avançava por estágios e cada passo
tornava o seguinte mais fácil de dar. Começava assim:
O vice-presidente do conselho de Siedlce imediatamente melhorou o seu padrão de vida… O
fato de que grandes somas de dinheiro caíram de repente em suas mãos e que outras
oportunidades também cruzaram o seu caminho simplesmente virou a sua cabeça. Ele
acreditava que tinha poderes ilimitados e tirava vantagem de sua posição, lucrando com a
miséria geral. Ficava com a parte do leão de vastas somas de dinheiro e joias a ele confiadas
para guardar e pagar aos alemães quando necessário, na hora da emergência. Ele vivia no
conforto…