Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 34 de 52

Páginas do PDF

Modernidade e Holocausto

Racionalidade da autopreservação

e portanto havia sempre uma ocasião para ser racional. Conselheiros judeus

lógicos e racionais se convenciam a fazer o trabalho dos assassinos. Sua

lógica e racionalidade eram parte do plano dos assassinos. Era usada a cada

vez que os esquadrões assassinos eram pequenos demais ou as armas

mortíferas não imediatamente disponíveis. A lógica e a racionalidade

estavam sempre disponíveis e, portanto, um bom suprimento de eficiente

colaboração estava sempre lá, à espera, pronto para preencher o vazio. Era

como se a velha sabedoria tivesse sido reformulada. Parecia que quando

Deus queria destruir alguém, não o enlouquecia, tornava-o racional.

Como bem sabemos hoje, a estratégia do “salve-se quem puder” —

racional como deve ter sido — não ajudou as vítimas. Mas, em primeiro

lugar, não era uma estratégia das próprias vítimas. Era um adendo, uma

extensão da estratégia de destruição, exercida e administrada por forças

propensas ao extermínio. Aqueles que abraçaram a estratégia do “salve-se

quem puder” foram primeiro marcados como vítimas. Aqueles que os

marcaram como vítimas criaram uma situação na qual as coisas precisavam

ser salvas para existir e assim era posto em operação o cálculo de

“evitamento de perdas”, “custos de sobrevivência”, “mal menor”. Em tal

situação, a racionalidade das vítimas tornou-se a arma dos seus assassinos.

Mas, afinal, a racionalidade do governado é sempre uma arma dos

governantes.

Sabemos hoje que, apesar de todas essas verdades teóricas, os opressores

encontraram surpreendentemente pouca dificuldade em solicitar a

cumplicidade racionalmente motivada das vítimas.

 

Racionalidade da autopreservação

 

O sucesso dos opressores dependia da indução do cálculo racional das

vítimas para sobreviver à possibilidade de se alcançar o objetivo que

deveria originalmente servir; ao permitir às pessoas — pelo menos algumas

e por algum tempo — agirem racionalmente num cenário reconhecidamente

irracional. Isto, por sua vez, dependia de se destacarem enclaves de

normalidade no contexto geral; e de se dividir um processo que, em última

análise, levava à perdição em tantos estágios que, sempre que contemplados

em separado, permitissem uma escolha guiada por critérios racionais de sobrevivência. Todos os atos singulares que no final se combinaram na

Endlösung eram racionais do ponto de vista dos administradores do

Holocausto; a maioria deles era também racional do ponto de vista das

vítimas.

Para que esse efeito fosse alcançado, tinha que se criar a aparência de

que a sobrevivência seletiva era um alvo factível a maior parte do tempo e

que portanto a conduta ditada pelo interesse na autopreservação era tanto

racional como sensível. Uma vez escolhida a autopreservação como

supremo critério de ação, seu preço podia ser gradualmente mas

incessantemente aumentado — até que todas as outras considerações

fossem desvalorizadas, todas as inibições morais ou religiosas rompidas,

todos os escrúpulos rejeitados e desautorizados. Como admitiu,

atormentado, Resvö Kasztner: “No início, eram pedidas coisas

relativamente sem importância [ao Conselho Judaico], coisas substituíveis,

de valor material, como bens pessoais, dinheiro, apartamentos. Depois, no

entanto, pediram a liberdade pessoal dos seres humanos. Por fim, os

nazistas pediram a própria vida.” 24 A inerente indiferença moral aos

princípios da racionalidade foi assim levada ao extremo e explorada ao

máximo. O potencial, sempre presente em atores treinados a buscar o ganho

racional mas adormecido enquanto não exposto ao teste extremo, atingiu ali

o seu auge. Num clarão estonteante, a racionalidade da autopreservação

revelou-se como inimiga do dever moral.

Segundo uma testemunha ocular, no domingo de Páscoa de 1942, o

Amtskomissar de Sokoly ordenou ao Judenrat local que despachasse para a

cidade todos os homens aptos. Quando, na hora marcada, o Präses relatou o

fracasso dos seus esforços,

 

O Amtskomissar ficou furioso, cortando-lhe a palavra e golpeando sua cabeça e seu rosto.

Abriu com um piparote seu relógio de bolso e gritou: ‘Im Verlaufe einer halben Stunde sollen

alle hier versammelt sein! Sonst wird der Judenrat bald erschossen!” [“Dentro de meia hora

todos devem estar reunidos aqui! Do contrário, o Conselho Judeu será imediatamente

fuzilado!”] Isso deu um novo choque no conselho. De repente, eles se transformaram em

outros homens. Todos os doze conselheiros, com seus assessores e ajudantes, saíram correndo

pelas ruas da shtetl, indo de casa em casa e arrastando todo mundo para fora, adultos e

crianças. Ninguém conseguia pará-los. Então colocaram todo mundo em filas. Se algum “falso

doente” não aparecesse, disseram, aquele Asmodeu executaria todo o conselho! Em quinze

minutos, a rua estava coalhada de gente e o 25 Judenrat guiou-a em fila dupla.

 

Cenas como essa se repetiam com terrível regularidade por todo o vasto

domínio nazista sobre a Europa. Conselheiros e policiais judeus eram confrontados com uma simples escolha: ou morriam ou deixavam que

outros morressem. Muitos preferiram adiar a própria morte e a morte de

parentes e amigos. Brincar de Deus ficava mais fácil em função do interesse

próprio.

É impossível dizer quantos dos que escolheram “sujar as mãos”

esperavam de fato sobreviver. A opção entre a vida e a morte coloca o

instinto de sobrevivência sob prova extrema. É injusto e errado julgar o

comportamento humano nas condições dessa escolha, em comparação com

o padrão de decisões muito menos dramáticas e decisivas da vida cotidiana,

onde os conflitos entre o interesse pessoal e a responsabilidade pelos outros

são muitas vezes agudos, mas muito raramente de caráter final ou exigindo

uma escolha irreversível. A maioria dos conflitos comuns, além disso, é

enfrentada isoladamente, num meio em que a maioria das outras pessoas

não precisa tomar decisões de caráter moral comparável — e por isso a

visibilidade dos padrões morais permanece forte. Esse ambiente foi

eficientemente destruído nos guetos durante a destruição organizada. O que

quer que restasse da autoridade das obrigações morais sobre o interesse

pessoal racional era “defasado”, na passagem por sucessivos círculos do

inferno. O procedimento normal de toda burocracia — tornar a obediência

mais segura de obter pela desvalorização de todas as pressões contrárias,

inclusive as morais — foi aqui levado ao extremo e revelou todo o seu

potencial. A colaboração das vítimas com os objetivos dos seus

perseguidores tornou-se mais fácil com a corrupção moral das vítimas.

Confrontando-as com escolhas das quais os “mais aptos”, que sobreviviam,

só podiam sair com as mãos sujas, os planejadores garantiam que, com o

tempo, a população do gueto se tornava mais e mais cúmplice dos

assassinatos, com isso aumentando a insensibilidade e dureza morais — em

detrimento, e possivelmente extinção, de todos os freios que normalmente

contêm a pressão do puro instinto de sobrevivência.

Marek Edelman, um dos líderes e dos poucos combatentes que

sobreviveram da revolta no gueto de Varsóvia, registrou logo após o fim da

guerra suas lembranças da “sociedade do gueto”:

 

A separação completa, a proibição da imprensa de fora, o corte de toda comunicação com o

mundo exterior tinha também seu propósito e efeito especial sobre a população judaica. Tudo

que acontecia do outro lado dos muros foi ficando cada vez mais distante, obscuro, alheio. O

que contava, em vez disso, era o que acontecia hoje, na vizinhança imediata; esses eram os

assuntos mais importantes, nos quais se concentrava toda a atenção do residente médio do

gueto. Continuar vivo tornou-se a única coisa importante — essa “vida” que cada um interpreta

à sua maneira, dependendo das suas condições e recursos. Confortável para pessoas ricas antes

da guerra, ostentatória e exuberante para colaboradores degenerados da Gestapo ou

contrabandistas desmoralizados, a vida significava fome para a incontável massa de

trabalhadores e desempregados, que sobreviviam com sopa aguada dos serviços de caridade e

pão racionado. Nesse tipo de “vida”, todo mundo se agarra obsessivamente aos seus próprios

padrões. As pessoas de dinheiro veem o propósito da vida nos confortos e prazeres cotidianos,

que buscam nos barulhentos e sempre cheios cafés, clubes noturnos, salões de baile. As

pessoas que nada têm caçam a esquiva “felicidade” que há numa batata mofada encontrada

numa lata de lixo ou num pedaço de pão jogando na mão mendicante por um transeunte; elas

querem esquecer a fome, pelo menos por um breve momento… Mas a fome aumenta dia a dia,

transborda de apartamentos entupidos de gente para as ruas, fere os olhos com a imagem de

corpos monstruosamente esquálidos, pernas cobertas de pústulas e úlceras enroladas em trapos

imundos, com chagas e feridas causadas pelo frio e a subnutrição. A fome fala pelos lábios de

crianças pedintes e velhos desamparados… A pobreza é tão esmagadora que as pessoas

morrem de fome nas ruas. Todo dia, entre 4 e 5 da manhã, os agentes funerários recolhem

dezenas de cadáveres cobertos com folhas de jornal presas com pedras. Alguns caem nas ruas,

outros morrem dentro de casa, mas as famílias os deixam nus (para vender as roupas) e os joga

na calçada para que o Conselho Judeu pague o enterro. Uma após outra, carroças puxadas por

cavalos cruzam as ruas, cheias até a borda com corpos desnudos… Ao mesmo tempo, o tifo

grassa no gueto… todas as enfermarias de hospital são abarrotadas, cada uma com 150

doentes; dois, às vezes três, dividem uma cama, mas ainda há muitos deitados no chão. Para os

moribundos as pessoas olham com impaciência; para os outros, falta espaço… Quinhentos

cadáveres são amontoados em cada vala e ainda centenas ficam sem enterrar, por isso o

cemitério tem um fedor nauseante, doentio… Nessa trágica condição de vida dos judeus os

nazistas alemães tentam introduzir uma aparência de ordem e autoridade. Desde o primeiro dia,

o poder é oficialmente exercido pelo Conselho Judeu. Para manter a ordem, foi criada uma

polícia judia uniformizada… Essas instituições, que visam dar à vida do gueto um verniz de

normalidade, tornaram-se na verdade fonte de alta corrupção e desmoralização. 26

 

No gueto, a distância entre as classes era a distância entre a vida e a

morte. Simplesmente manter-se vivo significava fechar os olhos à

destituição e agonia das outras pessoas. Os pobres morriam primeiro e em

levas. Da mesma forma, os sem talento, os mansos, os ingênuos, os

honestos, os sem iniciativa. Desde o primeiro dia, com massas de pessoas

entulhadas num espaço que comportaria não mais que um terço do seu

número, com rações de comida calculadas para produzir a decadência física

e espiritual, com fontes de renda virtualmente inexistentes, as epidemias

grassando e os remédios em falta, a vida no gueto virava um jogo sem gols

onde a sobrevivência era o prêmio mais cobiçado, o único prêmio que

realmente contava. Raramente foi tão alto o preço da compaixão.

Raramente a simples preocupação com a sobrevivência esteve tão perto da

corrupção moral.

As diferenças de classe, atrozes — horríveis quando estavam em jogo o

pão e o abrigo — adquiriam um caráter mortífero assim que começava a luta pelo adiamento da execução. A essa altura, os pobres estavam por

demais enfraquecidos e emasculados para resistir ou defender de qualquer

forma as suas vidas. “Durante as operações de limpeza do gueto, muitas

famílias eram incapazes de lutar, incapazes de implorar, incapazes de fugir

e também incapazes de seguir até o ponto de concentração para acabar logo

com aquilo. Esperavam as batidas policiais em casa, paralisados e

indefesos.”27 Os ricos e os não muito pobres buscavam se superar em

tentativas (em geral infrutíferas) para conseguir os poucos passes de saída

que os nazistas sempre tinham o cuidado de jogar no meio da multidão

apavorada. Poucos se lembravam de que o sucesso de um só podia

significar a perdição de outro. Fortunas eram oferecidas, e aceitas, pelas

mágicas placas numéricas que livravam seus portadores da “ação” que se

processava. Protetores influentes eram procurados de modo febril e

subornados. Wladyslaw Szlengel, o inesquecível bardo do gueto de

Varsóvia, deixou a atormentada descrição da “ação” que teve lugar em 19

de janeiro de 1943:

 

Assédio aos telefones. Socorro! Socorro! Socorro! Acionar os chefes da Gestapo. Ligar para o

pátio ferroviário: os trens chegaram? O sr. Szmerling se encontra? Senhor, meu… foi levado!

Sr. Skosowski! Socorro! Qualquer quantia! Cem mil! O que for preciso! Darei meio milhão por

vinte pessoas! Por dez pessoas! Por uma!

Os judeus têm dinheiro! Os judeus podem mexer os seus pauzinhos! Os judeus não podem

fazer nada!…

Sabemos como eles fizeram suas monstruosas fortunas — e como agora rastejam pelo chão

em busca de água, como oferecem seus milhões aos ucranianos, como partem levando somas

de dinheiro com as quais poderiam manter vivos durante meses essas centenas reunidas na

estação…

O gado adornado com placas numéricas sai em debandada. Umas poucas criaturas sem

placas aguardam, indefesas, entre as ruínas…

Cresce o tesouro do Reich.

Os judeus estão morrendo.28

 

Quanto mais subia o preço da vida, mais desabava o preço da traição.

Uma compulsão irresistível de viver punha de lado os escrúpulos morais e,

com eles, a dignidade humana. No meio da luta generalizada pela

sobrevivência, o valor da autopreservação era entronizado como

incontestável legitimação da escolha. Tudo que servia à autopreservação era

certo. Quando o que estava em jogo era a viagem final, todos os meios para

evitá-la se justificavam. É verdade que os nazistas agora pediam aos

Ältestenräte que prestassem serviços incomparavelmente mais abomináveis

que antes. Mas o jogo também havia mudado — tanto o preço quanto as recompensas da obediência tinham subido. E assim, mais comumente que

não, os serviços continuaram a ser prestados. Na barganha por mais um dia

de vida, um emprego no Conselho Judeu ou na polícia judia valia mais que

dinheiro ou diamantes.

Não que o dinheiro e os diamantes fossem desprezados. Inúmeros

relatos dos sobreviventes contam uma história triste e desoladora de

suborno e chantagem desenfreados, de extorsão e trapaça, que se tornaram a

marca de muitos Judenräte ou pelo menos de muitos indivíduos

participando de seu terrível poder para separar a vida da morte. Grandes

somas de dinheiro e heranças familiares eram pedidas e pagas pelos

serviços de muitos conselheiros, fosse um privilégio oficial ou um falso

cartão de identidade. Particularmente cobiçado era um quarto em prédios

especiais reservados para os membros dos conselhos e da polícia e seus

parentes imediatos; tais edifícios eram supostamente imunes à atenção das

SS e livres das sucessivas Aktionen. Com o aprofundamento do jogo e do

desespero, qualquer migalha de privilégio podia, no entanto, alcançar um

preço exorbitante que só os mais ricos sobreviventes da comunidade

condenada podiam pagar.

Esse comportamento dos Judenräte refletia a corrupção generalizada da

população vitimada. A opressão, que aumentava a racionalidade da

autopreservação e sistematicamente desvalorizava as considerações morais,

conseguia de fato desumanizar as vítimas. Ela atuava como uma profecia

que se cumpre. Primeiro os judeus foram declarados imorais e

inescrupulosos, egoístas e avarentos detratores dos valores, que usavam o

culto ostensivo do humanismo como uma capa conveniente para encobrir o

mais cru interesse próprio; foram então forçados a viver numa condição

desumana, em que a definição oferecida pela propaganda podia tornar-se

verdadeira. Os câmeras do ministério de Goebbels passavam dias inteiros

filmando os mendigos morrendo de fome em frente a restaurantes luxuosos.

A corrupção tem a sua lógica. Avançava por estágios e cada passo

tornava o seguinte mais fácil de dar. Começava assim:

 

O vice-presidente do conselho de Siedlce imediatamente melhorou o seu padrão de vida… O

fato de que grandes somas de dinheiro caíram de repente em suas mãos e que outras

oportunidades também cruzaram o seu caminho simplesmente virou a sua cabeça. Ele

acreditava que tinha poderes ilimitados e tirava vantagem de sua posição, lucrando com a

miséria geral. Ficava com a parte do leão de vastas somas de dinheiro e joias a ele confiadas

para guardar e pagar aos alemães quando necessário, na hora da emergência. Ele vivia no

conforto…