Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 29 de 52

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Modernidade e Holocausto

Conclusões

que para justificar a sua luta contra o mal só podiam citar um dos seus

ilustres antepassados: “Ich kann nicht anders.” [“Não posso agir de outro

modo.”]

Diante de uma equipe inescrupulosa que sobrecarregava a poderosa

máquina do Estado moderno com seu monopólio de violência e coerção

física, as mais decantadas conquistas da civilização moderna falharam

como salvaguardas contra a barbárie. A civilização mostrou-se incapaz de

garantir a utilização moral dos terríveis poderes que trouxe à luz.

 

Conclusões

 

Se indagarmos agora que pecado original possibilitou que isso acontecesse,

o colapso (ou não emergência) da democracia parece ser a resposta mais

convincente. Na ausência de autoridade tradicional, os controles e

contrapesos capazes de manter o corpo político longe dos extremismos só

podem ser fornecidos pela democracia política. Esta, no entanto, não chega

rápido e é mais lenta ainda para lançar raízes depois que o poder da velha

autoridade e do velho sistema de controle foi rompido — em especial se a

ruptura se deu de forma apressada. Tais situações de interregno e

instabilidade tendem a ocorrer durante e após revoluções profundas, que

conseguem anular os velhos fundamentos do poder social, sem no entanto

substituí-los por novas bases — e criam por essa razão um estado de coisas

no qual as forças políticas e militares não são nem contrabalançadas nem

restringidas por forças sociais influentes e talentosas.

Tais situações também surgiam, presume-se, nos Estados pré-modernos

— no rasto de conquistas sangrentas ou prolongadas carnificinas que por

fim levavam ao quase total autoaniquilamento das elites instituídas. As

consequências que se podiam esperar dessas situações eram, no entanto,

diferentes. Seguia-se em geral um colapso da ordem social mais ampla. A

destruição causada pela guerra raramente afetava as arraigadas redes

comunitárias de controle social; ilhas localizadas de ordem social,

comunitariamente reguladas, eram então expostas a atos desnorteados de

violência e pilhagem, mas contavam consigo mesmas para se reerguerem

assim que se desintegrasse a organização social acima do nível local. Na

maioria dos casos, mesmo os golpes mais profundos contra as autoridades tradicionais nas sociedades pré-modernas diferiam das modernas rebeliões

em dois aspectos cruciais: primeiro, deixavam intactos ou pelo menos ainda

viáveis os primitivos controles comunitários; e, segundo, enfraqueciam, em

vez de reforçar, a possibilidade da ação organizada em nível supralocal,

quando a organização social de nível mais alto se rompia e o que restava de

intercâmbio entre as localidades era de novo submetido à ação livre de

forças descoordenadas.

Nas condições modernas, ao contrário, rebeliões semelhantes ocorrem

em geral depois que os mecanismos comunitários de regulação social

praticamente desapareceram e as comunidades locais praticamente

deixaram de ser autossuficientes e autoconfiantes. Em vez do reflexo

instintivo de reerguer-se com os próprios pés, o vazio tende a ser

preenchido por forças novas, mas de novo supralocais, que tentam utilizar o

monopólio estatal de coerção para impor uma nova ordem em escala

societária. Em vez de cair, o poder político torna-se, portanto, praticamente

a única força por trás da ordem emergente. Não é detido nem contido no seu

ímpeto por forças econômicas e sociais, seriamente minadas pela destruição

ou imobilização das velhas autoridades.

Este, claro, é um modelo teórico, que raramente ocorre de forma integral

na prática. Utilizá-lo serve, porém, para chamar a atenção para esses

deslocamentos sociais que parecem tornar mais provável o surgimento de

tendências genocidas. Os deslocamentos podem diferir na forma e

intensidade, mas são iguais no efeito geral da acentuada supremacia do

poder político em relação ao poder econômico e social, do Estado sobre a

sociedade. Foram talvez mais fundo e mais longe no caso da Revolução

Russa e no subsequente monopólio prolongado do Estado como único fator

de integração social e reprodução da ordem. Mas também na Alemanha

foram mais longe e mais fundo do que se crê popularmente. Sucedendo ao

breve interlúdio de Weimar, o regime nazista assumiu e completou a

revolução que a República de Weimar — essa difícil interação de velhas e

novas (mas imaturas) elites que só na superfície se parecia com democracia

política — foi por várias razões incapaz de administrar. As velhas elites

foram consideravelmente enfraquecidas ou postas de lado. Uma a uma, as

formas de articulação das forças econômicas e sociais foram desintegradas

e substituídas por novas formas centralmente supervisionadas que

emanavam e eram legitimadas pelo Estado. Todas as classes foram

profundamente afetadas, mas o golpe mais radical foi deixado às classes que só podem carregar o poder não político coletivamente, isto é, as classes

não proprietárias, sobretudo a classe operária. A estatização ou

desmantelamento de todas as instituições sindicais autônomas, combinada

com a sujeição do governo local ao controle central praticamente total,

deixaram as massas populares virtualmente sem poder e, para todos os

efeitos práticos, excluídas do processo político. A resistência das forças

sociais foi evitada, além disso, pelo cerco da atividade estatal com uma

impenetrável muralha de segredo — na verdade, a conspiração estatal do

silêncio contra a própria população que esse Estado governava. O efeito

geral último foi a substituição das autoridades tradicionais não pelas novas

e vibrantes forças da cidadania autogovernada, mas por um quase total

monopólio do Estado político, com os poderes sociais impedidos de se

autoarticularem e criarem assim uma base estrutural de democracia política.

As condições modernas tornaram possível a emergência de um Estado

pleno de recursos, capaz de substituir toda a rede de controles sociais e

econômicos pelo comando político e a administração. Ainda mais

importante, as condições modernas fornecem substância para esse comando

e essa administração. Lembremos que a modernidade é uma era de ordem

artificial e de grandiosos projetos societários, a era dos planejadores,

visionários e, de forma mais geral, “jardineiros” que tratam a sociedade

como um torrão virgem de terra a ser planejado de forma especializada e

então cultivado e cuidado para se manter dentro da forma planejada.

Não há limite para a ambição e a autoconfiança. Com efeito, pelas lentes

do poder moderno, a “humanidade” parece tão onipotente e seus membros

individuais tão “incompletos”, ineptos, submissos e tão necessitados de

melhoria, que tratar as pessoas como plantas a serem podadas (ou

arrancadas se necessário) ou gado a ser engordado não parece uma fantasia,

nem moralmente odioso. Um dos primeiros e mais importantes ideólogos

do nacional-socialismo alemão, R.W. Darré, encarava os modelos de

criação animal como um padrão para a “política populacional” a ser

implantada pelo futuro governo volkisch.

 

Quem deixa as plantas crescerem por si mesmas no jardim, logo verá com surpresa que está

coberto de ervas daninhas e que mesmo o caráter básico das plantas mudou. Se o jardim deve

continuar sendo o lugar de cultivo das plantas, se, em outras palavras, deve superar o estado

agreste submetido às forças naturais, então é necessária a vontade formadora do jardineiro, um

jardineiro que, criando condições favoráveis para o cultivo ou eliminando influências daninhas,

ou ambas as coisas, é cuidadoso com o que deve ser cuidado e elimina sem compaixão as ervas

que privariam as melhores plantas de nutrição, ar, luz e sol… Assim, estamos vendo que as

questões de cultivo não são triviais para o pensamento político, mas que devem estar no centro

de todas as considerações e que suas respostas devem decorrer da atitude espiritual e

ideológica de um povo. Temos mesmo que afirmar que um povo só pode alcançar equilíbrio

espiritual e moral se um plano de cultivo bem concebido está no centro mesmo de sua

cultura…16

 

Darré expôs de forma clara e radical as ambições de “melhoria da

realidade” que são a essência da atitude moderna e que só os recursos do

poder moderno nos permitem assumir seriamente.

Períodos de profundos deslocamentos sociais são aqueles em que essa

característica notável da modernidade está acentuada. Com efeito, em

nenhuma outra época a sociedade parece tão informe — “inacabada”,

indefinida e dócil — literalmente à espera de uma visão e de um talentoso e

competente projetista para lhe dar forma. Em nenhuma outra época a

sociedade parece tão desprovida de forças e tendências próprias, portanto

incapaz de resistir à mão do jardineiro e pronta a ser moldada da forma que

ele quiser. A combinação de maleabilidade e desamparo constitui um

atrativo a que poucos visionários aventureiros e autoconfiantes poderiam

resistir. Também gera uma situação em que eles se tornam irresistíveis.

Com os mensageiros do grandioso projeto à frente da moderna

burocracia estatal, livres das restrições dos poderes não políticos

(econômicos, sociais, culturais), temos a receita para o genocídio. O

genocídio ocorre como parte integrante do processo pelo qual é implantado

o grandioso projeto. O projeto lhe dá a sua legitimação; a burocracia

estatal, o seu veículo; e o imobilismo da sociedade, o “sinal verde”.

As condições propícias a que se perpetre o genocídio são portanto

especiais, embora de forma alguma excepcionais. Raras, mas não únicas.

Não são atributo imanente da sociedade moderna, mas também não um

fenômeno estranho. No que diz respeito à modernidade, o genocídio não é

nem uma anormalidade nem uma disfunção. Ele mostra do que é capaz a

tendência racionalizante do planejamento moderno se não controlada e

abrandada, se o pluralismo dos poderes sociais for destruído — como quer

o ideal moderno de uma sociedade harmoniosa, ordeira, livre de conflitos,

totalmente controlada e projetada. Qualquer empobrecimento da capacidade

do povo de formular seus interesses e se autogovernar, qualquer assalto à

diversidade social e cultural e às suas possibilidades de expressão, qualquer

tentativa de cercear a liberdade plural do Estado com uma muralha de

segredos políticos, cada passo no sentido do enfraquecimento das bases sociais da democracia política torna um pouquinho mais possível um

desastre social na escala do Holocausto. Os projetos criminosos precisam de

veículos sociais para se efetivarem. Mas também precisa desses veículos a

vigilância daqueles que querem evitar sua implantação.

Até agora os meios de vigilância parecem escassos, embora não haja

escassez de instituições que parecem capazes de servir aos propósitos

criminosos ou — pior ainda — incapazes de evitar que uma atividade

corriqueira voltada para a execução de tarefas adquira uma dimensão

criminosa. Joseph Weizenbaum, um dos mais agudos observadores e

analistas do impacto social da informática (reconhecidamente um avanço

moderno, não disponível à época do Holocausto), sugere que a capacidade

de ação genocida foi, de qualquer forma, aumentada:

 

A Alemanha executou a “solução final” do seu “problema judeu” como um exercício escolar

de raciocínio instrumental. Logo a humanidade dava de ombros, quando já não podia evitar

olhar o que se passara, quando as fotografias tiradas pelos próprios assassinos começaram a

circular e quando os desgraçados sobreviventes regressaram à luz do dia. Mas no final não fez

diferença. A mesma lógica, a mesma velha aplicação fria e impiedosa da razão calculista,

dizimou pelo menos tanta gente nos vinte anos seguintes quanto o número de vítimas dos

técnicos do Reich de mil anos. Não aprendemos nada. A civilização corre tanto perigo hoje

quanto naquela época.17

 

E os motivos pelos quais a racionalidade instrumental e as redes

humanas desenvolvidas para servi-la permanecem moralmente cegas, hoje

como então, são praticamente os mesmos. Em 1966, mais de vinte anos

após a horripilante descoberta do crime nazista, um grupo de renomados

acadêmicos elaborou o projeto, cientificamente elegante e exemplarmente

racional, do campo de batalha eletrônico para uso dos generais na guerra do

Vietnã. “Esses homens eram capazes de aconselhar como o faziam porque

operavam a uma enorme distância psicológica das pessoas que seriam

mutiladas e mortas pelos sistemas bélicos resultantes da ideia que eles

passavam a seus patrocinadores.”18

Graças à nova tecnologia de informática em rápido desenvolvimento,

que mais que qualquer outra tecnologia precedente teve êxito em obliterar a

humanidade dos seus objetos humanos (“Pessoas, coisas, eventos são

‘programados’, fala-se de inputs e de outputs, de saltos de feedback,

variáveis, percentagens, processos e assim por diante, até que por fim todo

contato com situações concretas acaba abstraído. Então, restam somente

gráficos, conjuntos de dados, impressos” 19) — a distância psicológica cresce sem parar e num ritmo sem precedentes. Assim também a autonomia

do progresso puramente tecnológico em relação a quaisquer propósitos

humanos deliberadamente escolhidos e discursivamente acordes. Hoje, mais

que em qualquer outra época, os meios tecnológicos disponíveis minam

suas próprias aplicações e subordinam a avaliação destas a seu próprio

critério de eficiência e eficácia. Ademais, a autoridade da avaliação política

e moral da ação foi reduzida a uma consideração menor — se é que não

desacreditada e tornada irrelevante. Dificilmente a ação precisa de qualquer

outra justificação além do reconhecimento de que a tecnologia disponível a

viabilizou. Jacques Ellul advertiu que, tendo se emancipado da restrição das

tarefas sociais colocadas discursivamente, a tecnologia

 

só avança em direção a alguma coisa porque é empurrada de trás. O técnico não sabe por que

está trabalhando e geralmente não se importa. Ele trabalha porque tem instrumentos que lhe

permitem executar determinada tarefa, ter êxito numa nova operação… Não há conclamações a

uma meta; há a coerção de um motor situado atrás e que não tolera qualquer parada da

máquina.20

 

Parece haver menos esperança que antes em poder contar com as

garantias civilizadas contra a desumanidade para controlar a aplicação do

potencial instrumental-racional humano, uma vez que o cálculo da

eficiência foi agraciado com a suprema autoridade para decidir propósitos

políticos.

 

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