Modernidade e Holocausto
Conclusões
que para justificar a sua luta contra o mal só podiam citar um dos seus
ilustres antepassados: “Ich kann nicht anders.” [“Não posso agir de outro
modo.”]
Diante de uma equipe inescrupulosa que sobrecarregava a poderosa
máquina do Estado moderno com seu monopólio de violência e coerção
física, as mais decantadas conquistas da civilização moderna falharam
como salvaguardas contra a barbárie. A civilização mostrou-se incapaz de
garantir a utilização moral dos terríveis poderes que trouxe à luz.
Conclusões
Se indagarmos agora que pecado original possibilitou que isso acontecesse,
o colapso (ou não emergência) da democracia parece ser a resposta mais
convincente. Na ausência de autoridade tradicional, os controles e
contrapesos capazes de manter o corpo político longe dos extremismos só
podem ser fornecidos pela democracia política. Esta, no entanto, não chega
rápido e é mais lenta ainda para lançar raízes depois que o poder da velha
autoridade e do velho sistema de controle foi rompido — em especial se a
ruptura se deu de forma apressada. Tais situações de interregno e
instabilidade tendem a ocorrer durante e após revoluções profundas, que
conseguem anular os velhos fundamentos do poder social, sem no entanto
substituí-los por novas bases — e criam por essa razão um estado de coisas
no qual as forças políticas e militares não são nem contrabalançadas nem
restringidas por forças sociais influentes e talentosas.
Tais situações também surgiam, presume-se, nos Estados pré-modernos
— no rasto de conquistas sangrentas ou prolongadas carnificinas que por
fim levavam ao quase total autoaniquilamento das elites instituídas. As
consequências que se podiam esperar dessas situações eram, no entanto,
diferentes. Seguia-se em geral um colapso da ordem social mais ampla. A
destruição causada pela guerra raramente afetava as arraigadas redes
comunitárias de controle social; ilhas localizadas de ordem social,
comunitariamente reguladas, eram então expostas a atos desnorteados de
violência e pilhagem, mas contavam consigo mesmas para se reerguerem
assim que se desintegrasse a organização social acima do nível local. Na
maioria dos casos, mesmo os golpes mais profundos contra as autoridades tradicionais nas sociedades pré-modernas diferiam das modernas rebeliões
em dois aspectos cruciais: primeiro, deixavam intactos ou pelo menos ainda
viáveis os primitivos controles comunitários; e, segundo, enfraqueciam, em
vez de reforçar, a possibilidade da ação organizada em nível supralocal,
quando a organização social de nível mais alto se rompia e o que restava de
intercâmbio entre as localidades era de novo submetido à ação livre de
forças descoordenadas.
Nas condições modernas, ao contrário, rebeliões semelhantes ocorrem
em geral depois que os mecanismos comunitários de regulação social
praticamente desapareceram e as comunidades locais praticamente
deixaram de ser autossuficientes e autoconfiantes. Em vez do reflexo
instintivo de reerguer-se com os próprios pés, o vazio tende a ser
preenchido por forças novas, mas de novo supralocais, que tentam utilizar o
monopólio estatal de coerção para impor uma nova ordem em escala
societária. Em vez de cair, o poder político torna-se, portanto, praticamente
a única força por trás da ordem emergente. Não é detido nem contido no seu
ímpeto por forças econômicas e sociais, seriamente minadas pela destruição
ou imobilização das velhas autoridades.
Este, claro, é um modelo teórico, que raramente ocorre de forma integral
na prática. Utilizá-lo serve, porém, para chamar a atenção para esses
deslocamentos sociais que parecem tornar mais provável o surgimento de
tendências genocidas. Os deslocamentos podem diferir na forma e
intensidade, mas são iguais no efeito geral da acentuada supremacia do
poder político em relação ao poder econômico e social, do Estado sobre a
sociedade. Foram talvez mais fundo e mais longe no caso da Revolução
Russa e no subsequente monopólio prolongado do Estado como único fator
de integração social e reprodução da ordem. Mas também na Alemanha
foram mais longe e mais fundo do que se crê popularmente. Sucedendo ao
breve interlúdio de Weimar, o regime nazista assumiu e completou a
revolução que a República de Weimar — essa difícil interação de velhas e
novas (mas imaturas) elites que só na superfície se parecia com democracia
política — foi por várias razões incapaz de administrar. As velhas elites
foram consideravelmente enfraquecidas ou postas de lado. Uma a uma, as
formas de articulação das forças econômicas e sociais foram desintegradas
e substituídas por novas formas centralmente supervisionadas que
emanavam e eram legitimadas pelo Estado. Todas as classes foram
profundamente afetadas, mas o golpe mais radical foi deixado às classes que só podem carregar o poder não político coletivamente, isto é, as classes
não proprietárias, sobretudo a classe operária. A estatização ou
desmantelamento de todas as instituições sindicais autônomas, combinada
com a sujeição do governo local ao controle central praticamente total,
deixaram as massas populares virtualmente sem poder e, para todos os
efeitos práticos, excluídas do processo político. A resistência das forças
sociais foi evitada, além disso, pelo cerco da atividade estatal com uma
impenetrável muralha de segredo — na verdade, a conspiração estatal do
silêncio contra a própria população que esse Estado governava. O efeito
geral último foi a substituição das autoridades tradicionais não pelas novas
e vibrantes forças da cidadania autogovernada, mas por um quase total
monopólio do Estado político, com os poderes sociais impedidos de se
autoarticularem e criarem assim uma base estrutural de democracia política.
As condições modernas tornaram possível a emergência de um Estado
pleno de recursos, capaz de substituir toda a rede de controles sociais e
econômicos pelo comando político e a administração. Ainda mais
importante, as condições modernas fornecem substância para esse comando
e essa administração. Lembremos que a modernidade é uma era de ordem
artificial e de grandiosos projetos societários, a era dos planejadores,
visionários e, de forma mais geral, “jardineiros” que tratam a sociedade
como um torrão virgem de terra a ser planejado de forma especializada e
então cultivado e cuidado para se manter dentro da forma planejada.
Não há limite para a ambição e a autoconfiança. Com efeito, pelas lentes
do poder moderno, a “humanidade” parece tão onipotente e seus membros
individuais tão “incompletos”, ineptos, submissos e tão necessitados de
melhoria, que tratar as pessoas como plantas a serem podadas (ou
arrancadas se necessário) ou gado a ser engordado não parece uma fantasia,
nem moralmente odioso. Um dos primeiros e mais importantes ideólogos
do nacional-socialismo alemão, R.W. Darré, encarava os modelos de
criação animal como um padrão para a “política populacional” a ser
implantada pelo futuro governo volkisch.
Quem deixa as plantas crescerem por si mesmas no jardim, logo verá com surpresa que está
coberto de ervas daninhas e que mesmo o caráter básico das plantas mudou. Se o jardim deve
continuar sendo o lugar de cultivo das plantas, se, em outras palavras, deve superar o estado
agreste submetido às forças naturais, então é necessária a vontade formadora do jardineiro, um
jardineiro que, criando condições favoráveis para o cultivo ou eliminando influências daninhas,
ou ambas as coisas, é cuidadoso com o que deve ser cuidado e elimina sem compaixão as ervas
que privariam as melhores plantas de nutrição, ar, luz e sol… Assim, estamos vendo que as
questões de cultivo não são triviais para o pensamento político, mas que devem estar no centro
de todas as considerações e que suas respostas devem decorrer da atitude espiritual e
ideológica de um povo. Temos mesmo que afirmar que um povo só pode alcançar equilíbrio
espiritual e moral se um plano de cultivo bem concebido está no centro mesmo de sua
cultura…16
Darré expôs de forma clara e radical as ambições de “melhoria da
realidade” que são a essência da atitude moderna e que só os recursos do
poder moderno nos permitem assumir seriamente.
Períodos de profundos deslocamentos sociais são aqueles em que essa
característica notável da modernidade está acentuada. Com efeito, em
nenhuma outra época a sociedade parece tão informe — “inacabada”,
indefinida e dócil — literalmente à espera de uma visão e de um talentoso e
competente projetista para lhe dar forma. Em nenhuma outra época a
sociedade parece tão desprovida de forças e tendências próprias, portanto
incapaz de resistir à mão do jardineiro e pronta a ser moldada da forma que
ele quiser. A combinação de maleabilidade e desamparo constitui um
atrativo a que poucos visionários aventureiros e autoconfiantes poderiam
resistir. Também gera uma situação em que eles se tornam irresistíveis.
Com os mensageiros do grandioso projeto à frente da moderna
burocracia estatal, livres das restrições dos poderes não políticos
(econômicos, sociais, culturais), temos a receita para o genocídio. O
genocídio ocorre como parte integrante do processo pelo qual é implantado
o grandioso projeto. O projeto lhe dá a sua legitimação; a burocracia
estatal, o seu veículo; e o imobilismo da sociedade, o “sinal verde”.
As condições propícias a que se perpetre o genocídio são portanto
especiais, embora de forma alguma excepcionais. Raras, mas não únicas.
Não são atributo imanente da sociedade moderna, mas também não um
fenômeno estranho. No que diz respeito à modernidade, o genocídio não é
nem uma anormalidade nem uma disfunção. Ele mostra do que é capaz a
tendência racionalizante do planejamento moderno se não controlada e
abrandada, se o pluralismo dos poderes sociais for destruído — como quer
o ideal moderno de uma sociedade harmoniosa, ordeira, livre de conflitos,
totalmente controlada e projetada. Qualquer empobrecimento da capacidade
do povo de formular seus interesses e se autogovernar, qualquer assalto à
diversidade social e cultural e às suas possibilidades de expressão, qualquer
tentativa de cercear a liberdade plural do Estado com uma muralha de
segredos políticos, cada passo no sentido do enfraquecimento das bases sociais da democracia política torna um pouquinho mais possível um
desastre social na escala do Holocausto. Os projetos criminosos precisam de
veículos sociais para se efetivarem. Mas também precisa desses veículos a
vigilância daqueles que querem evitar sua implantação.
Até agora os meios de vigilância parecem escassos, embora não haja
escassez de instituições que parecem capazes de servir aos propósitos
criminosos ou — pior ainda — incapazes de evitar que uma atividade
corriqueira voltada para a execução de tarefas adquira uma dimensão
criminosa. Joseph Weizenbaum, um dos mais agudos observadores e
analistas do impacto social da informática (reconhecidamente um avanço
moderno, não disponível à época do Holocausto), sugere que a capacidade
de ação genocida foi, de qualquer forma, aumentada:
A Alemanha executou a “solução final” do seu “problema judeu” como um exercício escolar
de raciocínio instrumental. Logo a humanidade dava de ombros, quando já não podia evitar
olhar o que se passara, quando as fotografias tiradas pelos próprios assassinos começaram a
circular e quando os desgraçados sobreviventes regressaram à luz do dia. Mas no final não fez
diferença. A mesma lógica, a mesma velha aplicação fria e impiedosa da razão calculista,
dizimou pelo menos tanta gente nos vinte anos seguintes quanto o número de vítimas dos
técnicos do Reich de mil anos. Não aprendemos nada. A civilização corre tanto perigo hoje
quanto naquela época.17
E os motivos pelos quais a racionalidade instrumental e as redes
humanas desenvolvidas para servi-la permanecem moralmente cegas, hoje
como então, são praticamente os mesmos. Em 1966, mais de vinte anos
após a horripilante descoberta do crime nazista, um grupo de renomados
acadêmicos elaborou o projeto, cientificamente elegante e exemplarmente
racional, do campo de batalha eletrônico para uso dos generais na guerra do
Vietnã. “Esses homens eram capazes de aconselhar como o faziam porque
operavam a uma enorme distância psicológica das pessoas que seriam
mutiladas e mortas pelos sistemas bélicos resultantes da ideia que eles
passavam a seus patrocinadores.”18
Graças à nova tecnologia de informática em rápido desenvolvimento,
que mais que qualquer outra tecnologia precedente teve êxito em obliterar a
humanidade dos seus objetos humanos (“Pessoas, coisas, eventos são
‘programados’, fala-se de inputs e de outputs, de saltos de feedback,
variáveis, percentagens, processos e assim por diante, até que por fim todo
contato com situações concretas acaba abstraído. Então, restam somente
gráficos, conjuntos de dados, impressos” 19) — a distância psicológica cresce sem parar e num ritmo sem precedentes. Assim também a autonomia
do progresso puramente tecnológico em relação a quaisquer propósitos
humanos deliberadamente escolhidos e discursivamente acordes. Hoje, mais
que em qualquer outra época, os meios tecnológicos disponíveis minam
suas próprias aplicações e subordinam a avaliação destas a seu próprio
critério de eficiência e eficácia. Ademais, a autoridade da avaliação política
e moral da ação foi reduzida a uma consideração menor — se é que não
desacreditada e tornada irrelevante. Dificilmente a ação precisa de qualquer
outra justificação além do reconhecimento de que a tecnologia disponível a
viabilizou. Jacques Ellul advertiu que, tendo se emancipado da restrição das
tarefas sociais colocadas discursivamente, a tecnologia
só avança em direção a alguma coisa porque é empurrada de trás. O técnico não sabe por que
está trabalhando e geralmente não se importa. Ele trabalha porque tem instrumentos que lhe
permitem executar determinada tarefa, ter êxito numa nova operação… Não há conclamações a
uma meta; há a coerção de um motor situado atrás e que não tolera qualquer parada da
máquina.20
Parece haver menos esperança que antes em poder contar com as
garantias civilizadas contra a desumanidade para controlar a aplicação do
potencial instrumental-racional humano, uma vez que o cálculo da
eficiência foi agraciado com a suprema autoridade para decidir propósitos
políticos.
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