Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 18 de 52

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Modernidade e Holocausto

Racismo como forma de planejamento social

capacidade de treinamento e conversão cultural, o racismo isola certa

categoria de pessoas que não pode ser alcançada (e portanto não pode ser

efetivamente cultivada) pela argumentação ou qualquer outro instrumental

de treinamento, devendo pois continuar perpetuamente estranha.

Resumindo: no mundo moderno, caracterizado pela ambição do

autocontrole e da autogestão, o racismo declara certa categoria de pessoas

endêmica e irremediavelmente resistente ao controle e imune a todos os

esforços de melhoria. Para usar a metáfora médica, podem-se exercitar e

modelar partes “saudáveis” do corpo, mas não um tumor cancerígeno. Este

só pode “melhorar” sendo eliminado.

A consequência é que se associa inevitavelmente o racismo à estratégia

de isolamento. Se as condições permitem, o racismo exige que a categoria

ofensora deve ser removida para além do território ocupado pelo grupo que

ela ofende. Se tais condições não existem, o racismo exige que a categoria

ofensora seja fisicamente exterminada. A expulsão e a destruição são

métodos intercambiáveis de isolamento.

Sobre os judeus escreveu Alfred Rosenberg: “Zunz chama o judaísmo de

capricho da alma [judaica]. Agora o judeu não pode livrar-se desse

‘capricho’ mesmo se for batizado dez vezes, e o resultado necessário dessa

influência será sempre o mesmo: a falta de vida, o anticristianismo e o

materialismo.” 4 O que é verdadeiro em termos religiosos aplica-se a todas

as demais intervenções culturais. Os judeus não têm remédio. Só a distância

física ou o corte na comunicação, só o cerco ou o extermínio pode torná-los

inofensivos.

 

Racismo como forma de planejamento social

 

O racismo atua segundo as especificações no contexto de um projeto de

sociedade perfeita e da intenção de realizar esse projeto através de um

esforço planejado e consistente. No caso do Holocausto, o projeto era o

Reich de mil anos — o reino do Espírito Alemão liberado. Um reino que só

tinha lugar para o Espírito Alemão. Não tinha lugar para os judeus, uma vez

que os judeus não podiam ser convertidos a abraçar o Geist do Volk alemão.

Essa incapacidade espiritual foi elaborada como atributo da hereditariedade,

do sangue — substâncias que pelo menos naquela época incorporavam o outro lado da cultura, o território que a cultura não podia sonhar em

cultivar, um sertão que jamais se tornaria objeto de jardinagem. (As

perspectivas da engenharia genética ainda não eram seriamente

consideradas.)

A revolução nazista foi um exercício de engenharia social em grandiosa

escala. O “gado racial” era o elo-chave na cadeia das medidas de

planejamento. No conjunto de metas oficiais da política nazista, publicadas

em inglês por iniciativa de Ribbentrop com o propósito de propaganda

internacional e por essa razão expressas em linguagem cautelosa e

cuidadosamente moderada, o dr. Arthur Gütt, chefe do Departamento

Nacional de Higiene do Ministério do Interior, define como principal tarefa

do governo nazista “uma política ativa que busca consistentemente a

preservação da saúde racial” e explica a estratégia que isso necessariamente

implicava: “Se facilitarmos a reprodução de gado saudável com a seleção

sistemática e a eliminação de elementos doentios, poderemos melhorar os

padrões físicos, não talvez da atual geração, mas daquelas que nos

sucederão.” Gütt não tinha dúvida de que a seleção e eliminação que tal

política contemplava ia “de par com as linhas universalmente adotadas em

conformidade com as pesquisas de Koch, Lister, Pasteur e outros cientistas

famosos” 5, constituindo portanto uma extensão lógica — com efeito, uma

culminação — do avanço da ciência moderna.

O dr. Walter Gross, chefe do Bureau de Instrução sobre Política

Populacional e Bem-Estar Racial, explicou detalhadamente o lado prático

da política racial: reverter a tendência de “natalidade declinante entre os

habitantes mais ajustados e de reprodução desenfreada dos incapazes

hereditários, dos mentalmente deficientes, dos imbecis e criminosos

hereditários etc.”6 Como escreve para um público internacional

improvavelmente simpático às políticas dos nazistas, não estorvados como

era por coisas tão irracionais como a opinião pública ou o pluralismo

político de ver as realizações da ciência e tecnologia modernas levadas a

suas últimas consequências, Gross não se aventura além da necessidade de

esterilizar os incapazes hereditários.

A realidade da política racial era, no entanto, muito mais horripilante.

Ao contrário do que dava a entender Gütt, os líderes nazistas não viam

razão para restringir suas preocupações àqueles “que nos sucederão”. De

acordo com os recursos disponíveis, puseram-se a melhorar a geração

presente. A estrada imperial para esse objetivo passava pela remoção forçada de unwertes Leben [vida inútil]. Tudo era usado para alcançar essa

meta. Dependendo das circunstâncias, falava-se em “eliminar”, “livrar-se

de”, “evacuar” ou “reduzir” (leia-se “exterminar”). Seguindo as ordens de

Hitler de 1º de setembro de 1939, foram criados centros em Brandenburgo,

Hadamar, Sonnenstein e Eichberg que se disfarçavam sob duas mentiras:

eram chamados à boca pequena, entre os iniciados, de “institutos de

eutanásia”, mas para o amplo consumo apresentados sob nomes ainda mais

enganadores e ilusórios, como Centro de Caridade para “Cuidados

Institucionais” ou “transporte de doentes” — ou mesmo o inofensivo

código “T4” (do endereço rua Tiergarten 4, Berlim, onde ficava o escritório

de coordenação de toda a operação de morticínio).7 Quando a ordem teve

que ser anulada em 28 de agosto de 1941 em função da grita de eminentes

autoridades da Igreja, o princípio de “administrar ativamente as tendências

populacionais” não foi de modo algum abandonado. Apenas desviou o foco,

como a tecnologia do gás que a campanha de eutanásia ajudou a

desenvolver, para um alvo diferente: os judeus. E para locais diferentes,

como Sobibor ou Chelmno.

O tempo todo o alvo foi a unwertes Leben. Para os planejadores nazistas

da sociedade perfeita, o projeto que perseguiam e estavam decididos a

realizar através da engenharia social dividia a vida humana em útil e inútil,

com ou sem valor, aquela a ser amorosamente cultivada e receber

Lebensraum [espaço vital], a outra a ser “afastada” ou — se o afastamento

se revelasse infactível — exterminada. Os simplesmente alienígenas não

eram objeto de política estritamente racial: a eles podiam ser aplicadas

velhas e provadas estratégias tradicionalmente associadas à inimizade

competitiva — deviam ser mantidos além de fronteiras estreitamente

vigiadas. Os deficientes físicos ou mentais eram um caso mais difícil e

exigiam uma política nova, original: não podiam ser expulsos ou colocados

atrás de cercas, uma vez que não pertenciam de direito a nenhuma das

“outras raças”, embora indignos também de participar do Reich de mil anos.

Os judeus constituíam caso essencialmente similar. Não eram uma raça

como as outras; eram uma antirraça, uma raça que minava e envenenava

todas as outras, que solapava não apenas a identidade de qualquer raça em

particular, mas a própria ordem racial. (Lembrem-se dos judeus como a

“nação sem nacionalidade”, como o inimigo incurável da ordem nacional

como tal.) Com aprovação e prazer, Roseberg cita o conceito

autodepreciativo de Weiniger para os judeus como “uma invisível rede coesiva de fungo limoso (plasmódio) que existe desde tempos imemoriais e

se espalha por toda a terra”.8 Assim, o isolamento dos judeus só podia ser

um paliativo, um estágio no caminho para a meta final. A questão

possivelmente não seria resolvida com a simples extirpação dos judeus da

Alemanha. Mesmo vivendo bem longe das fronteiras alemãs, os judeus

continuariam a produzir erosão e desintegração da lógica natural do

universo. Ao ordenar a suas tropas que lutassem pela supremacia da raça

alemã, Hitler acreditava que a guerra que ele desencadeava travava-se em

nome de todas as raças, era em suma um serviço que prestava à

humanidade racialmente organizada.

Nessa concepção de engenharia social como obra cientificamente

fundada com vistas à instituição de uma nova e melhor ordem (obra que

necessariamente implica a contenção ou, de preferência, a eliminação de

quaisquer fatores de ruptura), o racismo refletia de fato a visão de mundo e

a prática da modernidade. E isso pelo menos em dois aspectos vitais.

Primeiro, com o Iluminismo, foi entronizada uma nova divindade, a

Natureza, junto com a legitimação da ciência como seu único culto

ortodoxo e dos cientistas como seus profetas e sacerdotes. Tudo, em

princípio, fora aberto à investigação objetiva; tudo podia, em princípio, ser

conhecido de forma confiável e verdadeira. A verdade, a bondade e a

beleza, aquilo que é e o que devia ser, tudo tornou-se objeto legítimo de

observação sistemática e precisa. Por outro lado, só podiam legitimar-se

pelo conhecimento objetivo que resultaria de tal observação. Como George

L. Mosse resumiu sua história do racismo, documentada de modo bastante

convincente, “é impossível separar os questionamentos filosóficos do

Iluminismo sobre a natureza e o exame que fez da moralidade e do caráter

humano… [Desde] o início… a ciência natural e os ideais morais e estéticos

dos antigos se deram as mãos.” Da forma em que foi moldada pelo

Iluminismo, a atividade científica era marcada por uma “tentativa de

determinar o lugar exato do homem na natureza através da observação,

mensurações e comparações entre grupos de homens e animais” e da

“crença na unidade do corpo e da mente”. Esta última “supostamente se

expressava de forma tangível, física, que podia ser medida e observada”.9 A

frenologia (arte de medir o caráter pelas medidas do crânio) e a

fisiognomonia (medir o caráter pela aparência facial) resumiam muito bem

a confiança, a estratégia e a ambição da nova era científica. O

temperamento, o caráter, a inteligência, os talentos estéticos e até as inclinações políticas do homem eram determinados pela Natureza; de forma

que exatamente podia-se descobrir pela diligente observação e comparação

do “substrato” visível, material, mesmo do mais esquivo ou encoberto

atributo espiritual. As fontes materiais das impressões sensoriais eram

outras tantas chaves dos segredos da Natureza, sinais a serem lidos,

registros feitos num código que a ciência tem que desvendar.

O que restava ao racismo era meramente postular uma distribuição

sistemática e geneticamente reproduzida de atributos materiais do

organismo humano responsáveis por traços de caráter, morais, estéticos ou

políticos. Mesmo essa tarefa, porém, já tinha sido executada para eles por

respeitáveis e justamente respeitados pioneiros da ciência que raramente ou

quase nunca são listados entre os luminares do racismo. Observando sine

ira et studio a realidade tal como a encontraram, dificilmente poderiam

deixar de perceber a palpável, concreta, material, indubitavelmente

“objetiva” superioridade desfrutada pelo Ocidente sobre o resto do mundo

habitado. Assim, o pai da taxonomia científica, Lineu, registrou a divisão

entre os habitantes da Europa e os da África com a mesma e escrupulosa

precisão que usou para definir a diferença entre crustáceos e peixes. Só

podia descrever e descreveu a raça branca como “inventiva, engenhosa,

organizada e governada por leis… Em contraste com os Negros, dotados de

todas as qualidades negativas que faziam deles um canhoto da raça

superior: eram considerados preguiçosos, desonestos e incapazes de

governar a si mesmos.”10 O pai do “racismo científico”, Gobineau, não teve

que usar grande inventiva para definir os negros como uma raça de pouca

inteligência, embora superdotada de sensualidade e portanto de um poder

bruto aterrador (exatamente como a multidão desgovernada), e os brancos

como uma raça que ama a liberdade, a honra e tudo o que é espiritual.11

Em 1938, Walter Frank descreveu a perseguição aos judeus como a saga

da “cultura alemã em luta contra a Judiaria Mundial”. Desde o primeiro dia

do regime nazista, as instituições científicas, dirigidas por professores

universitários de renome em biologia, história e ciência política, foram

colocadas para investigar “a questão judaica” segundo os “padrões

internacionais da ciência avançada”. O Reichinstitut für Geschichte des

neuen Deutschlands (Instituto Imperial para a Pesquisa da Nova

Alemanha), o Institut zum Studium der Judenfrage (Instituto para o Estudo

da Questão Judaica), o Institut zur Erforschung des jüdischen Einflusses auf

das deutsche kirchliche Leben (Instituto para Investigação da Influência Judaica na Vida eclesiástica alemã) e o famoso Institut zur Erforschung der

Judenfrage, de Rosenberg, foram apenas alguns dos centros científicos que

atacaram questões teóricas e práticas da “política judaica” aplicando uma

metodologia culta e que nunca tiveram falta de pessoal qualificado, com

credenciais acadêmicas. Uma típica exposição de princípios de sua

atividade dizia que:

 

toda a vida cultural, durante décadas, esteve mais ou menos sob a influência do pensamento da

biologia, particularmente a partir de meados do século passado, com os ensinamentos de

Darwin, Mendel e Galton, e depois desenvolvido pelos estudos de Plötz, Schallmayer, Correns,

de Vries, Tschermak, Baur, Rüdin, Fischer, Lenz e outros… Admitiu-se que as leis naturais

descobertas para as plantas e animais deviam também ser válidas para o homem… 12

 

Além disso, a partir do Iluminismo o mundo moderno se caracterizou

por uma posição ativa, planejada, em relação à natureza e a si mesmo. A

ciência não devia ser praticada por si mesma; passou a ser vista, antes e

acima de tudo, como um instrumento de poder tremendo que capacita seu

detentor a melhorar a realidade, a moldá-la de acordo com os projetos e

interesses humanos e a contribuir para o seu autoaperfeiçoamento. A

jardinagem e a medicina davam os arquétipos da postura construtiva,

enquanto a normalidade, a saúde e o saneamento forneciam as

arquimetáforas para as tarefas e estratégias humanas na condução dos

negócios humanos. A existência e a coexistência humanas viraram objeto

de planejamento e administração; como plantas num jardim ou um

organismo vivo, não podiam ser abandonadas à própria conta, do contrário

seriam infestadas de ervas daninhas ou destruídas por tecido cancerígeno. A

jardinagem e a medicina são formas funcionalmente distintas da mesma

atividade de separar elementos úteis destinados a viver e prosperar,

isolando-os de elementos perigosos e mórbidos que devem ser

exterminados.

O discurso, a linguagem de Hitler era carregada de imagens de doença,

infecção, infestação, putrefação, pestilência. Ele comparava o cristianismo e

o bolchevismo à sífilis e à peste, falava dos judeus como bacilos, micróbios

da decomposição, vermes. “A descoberta do vírus judaico”, disse a

Himmler em 1942, “foi uma das grandes revoluções que tiveram lugar no

mundo. A batalha em que estamos empenhados hoje é semelhante à que

travaram, no século passado, Pasteur e Koch. Quantas doenças têm sua

origem no vírus judaico… Só recobraremos a saúde eliminando o judeu.”13

Em outubro do mesmo ano, Hitler proclamou: “Exterminando a peste,

estaremos servindo à humanidade.”14 Os executores da vontade de Hitler

falaram do extermínio dos judeus como Gesundung (cura) da Europa,

Selbstreinigung (autopurificação), Judensäuberung (expurgo dos judeus).

Num artigo em Das Reich publicado em 5 de novembro de 1941, Goebbels

saudou a adoção do símbolo da estrela de Davi para marcar os judeus como

uma medida “higiênica profilática”. Isolar os judeus de uma comunidade

racialmente pura era “regra elementar de higiene, racial, nacional e social”.

Havia pessoas boas e pessoas más, argumentava Goebbels, assim como há

bons e maus animais. “O fato de que o judeu ainda vive entre nós não

significa que ele pertence ao meio, assim como uma mosca não vira animal

doméstico pelo fato de viver na casa.”15 A questão judaica, nas palavras do

assessor de imprensa do Ministério do Exterior, era “eine Frage der

politischen Hygiene” [“uma questão de higiene política”].

Dois cientistas alemães de reputação mundial, o biólogo Erwin Baur e o

antropólogo Martin Stämmler, colocaram na linguagem comum e precisa da

ciência aplicada o que os líderes da Alemanha nazista expressavam com

frequência no vocabulário emotivo e passional da política:

 

Todo fazendeiro sabe que se abater os melhores animais, sem deixar que procriem,

continuando a criar em vez disso espécimes inferiores, seu gado vai inevitalmente degenerar.

Tal erro, que nenhum fazendeiro cometeria com seus animais e plantas de cultivo, permitimos

que em larga medida persista no nosso meio. Por consideração a nossa humanidade atual,

devemos cuidar para que essas pessoas inferiores não se reproduzam. Simples operação

executada em poucos minutos torna isso possível sem mais demora… Ninguém é mais

favorável do que eu às novas leis de esterilização, mas devo repetir e insistir que constituem

apenas um começo…

A extinção e a salvação são os dois pólos em torno dos quais gira todo o cultivo da raça, os

dois métodos com os quais tem que trabalhar… Extinção é a destruição biológica do

hereditariamente inferior através da esterilização, da repressão quantitativa dos doentes e

indesejáveis… A tarefa consiste em proteger o povo de uma reprodução excessiva de ervas

daninhas.17

 

Resumindo: bem antes das câmaras de gás, os nazistas tentaram, por

ordem de Hitler, exterminar seus próprios compatriotas com deficiências

físicas ou mentais recorrendo ao “assassinato de misericórdia” (falsamente

chamado de “eutanásia”) e criar uma raça superior através da fertilização de

mulheres racialmente superiores por homens racialmente superiores

(eugenia). À semelhança dessas tentativas, o assassínio de judeus foi um

procedimento de administração racional da sociedade. E um esforço

sistemático de colocar a seu serviço a postura, a filosofia e os preceitos da

ciência aplicada.