Modernidade e Holocausto
Racismo como forma de planejamento social
capacidade de treinamento e conversão cultural, o racismo isola certa
categoria de pessoas que não pode ser alcançada (e portanto não pode ser
efetivamente cultivada) pela argumentação ou qualquer outro instrumental
de treinamento, devendo pois continuar perpetuamente estranha.
Resumindo: no mundo moderno, caracterizado pela ambição do
autocontrole e da autogestão, o racismo declara certa categoria de pessoas
endêmica e irremediavelmente resistente ao controle e imune a todos os
esforços de melhoria. Para usar a metáfora médica, podem-se exercitar e
modelar partes “saudáveis” do corpo, mas não um tumor cancerígeno. Este
só pode “melhorar” sendo eliminado.
A consequência é que se associa inevitavelmente o racismo à estratégia
de isolamento. Se as condições permitem, o racismo exige que a categoria
ofensora deve ser removida para além do território ocupado pelo grupo que
ela ofende. Se tais condições não existem, o racismo exige que a categoria
ofensora seja fisicamente exterminada. A expulsão e a destruição são
métodos intercambiáveis de isolamento.
Sobre os judeus escreveu Alfred Rosenberg: “Zunz chama o judaísmo de
capricho da alma [judaica]. Agora o judeu não pode livrar-se desse
‘capricho’ mesmo se for batizado dez vezes, e o resultado necessário dessa
influência será sempre o mesmo: a falta de vida, o anticristianismo e o
materialismo.” 4 O que é verdadeiro em termos religiosos aplica-se a todas
as demais intervenções culturais. Os judeus não têm remédio. Só a distância
física ou o corte na comunicação, só o cerco ou o extermínio pode torná-los
inofensivos.
Racismo como forma de planejamento social
O racismo atua segundo as especificações no contexto de um projeto de
sociedade perfeita e da intenção de realizar esse projeto através de um
esforço planejado e consistente. No caso do Holocausto, o projeto era o
Reich de mil anos — o reino do Espírito Alemão liberado. Um reino que só
tinha lugar para o Espírito Alemão. Não tinha lugar para os judeus, uma vez
que os judeus não podiam ser convertidos a abraçar o Geist do Volk alemão.
Essa incapacidade espiritual foi elaborada como atributo da hereditariedade,
do sangue — substâncias que pelo menos naquela época incorporavam o outro lado da cultura, o território que a cultura não podia sonhar em
cultivar, um sertão que jamais se tornaria objeto de jardinagem. (As
perspectivas da engenharia genética ainda não eram seriamente
consideradas.)
A revolução nazista foi um exercício de engenharia social em grandiosa
escala. O “gado racial” era o elo-chave na cadeia das medidas de
planejamento. No conjunto de metas oficiais da política nazista, publicadas
em inglês por iniciativa de Ribbentrop com o propósito de propaganda
internacional e por essa razão expressas em linguagem cautelosa e
cuidadosamente moderada, o dr. Arthur Gütt, chefe do Departamento
Nacional de Higiene do Ministério do Interior, define como principal tarefa
do governo nazista “uma política ativa que busca consistentemente a
preservação da saúde racial” e explica a estratégia que isso necessariamente
implicava: “Se facilitarmos a reprodução de gado saudável com a seleção
sistemática e a eliminação de elementos doentios, poderemos melhorar os
padrões físicos, não talvez da atual geração, mas daquelas que nos
sucederão.” Gütt não tinha dúvida de que a seleção e eliminação que tal
política contemplava ia “de par com as linhas universalmente adotadas em
conformidade com as pesquisas de Koch, Lister, Pasteur e outros cientistas
famosos” 5, constituindo portanto uma extensão lógica — com efeito, uma
culminação — do avanço da ciência moderna.
O dr. Walter Gross, chefe do Bureau de Instrução sobre Política
Populacional e Bem-Estar Racial, explicou detalhadamente o lado prático
da política racial: reverter a tendência de “natalidade declinante entre os
habitantes mais ajustados e de reprodução desenfreada dos incapazes
hereditários, dos mentalmente deficientes, dos imbecis e criminosos
hereditários etc.”6 Como escreve para um público internacional
improvavelmente simpático às políticas dos nazistas, não estorvados como
era por coisas tão irracionais como a opinião pública ou o pluralismo
político de ver as realizações da ciência e tecnologia modernas levadas a
suas últimas consequências, Gross não se aventura além da necessidade de
esterilizar os incapazes hereditários.
A realidade da política racial era, no entanto, muito mais horripilante.
Ao contrário do que dava a entender Gütt, os líderes nazistas não viam
razão para restringir suas preocupações àqueles “que nos sucederão”. De
acordo com os recursos disponíveis, puseram-se a melhorar a geração
presente. A estrada imperial para esse objetivo passava pela remoção forçada de unwertes Leben [vida inútil]. Tudo era usado para alcançar essa
meta. Dependendo das circunstâncias, falava-se em “eliminar”, “livrar-se
de”, “evacuar” ou “reduzir” (leia-se “exterminar”). Seguindo as ordens de
Hitler de 1º de setembro de 1939, foram criados centros em Brandenburgo,
Hadamar, Sonnenstein e Eichberg que se disfarçavam sob duas mentiras:
eram chamados à boca pequena, entre os iniciados, de “institutos de
eutanásia”, mas para o amplo consumo apresentados sob nomes ainda mais
enganadores e ilusórios, como Centro de Caridade para “Cuidados
Institucionais” ou “transporte de doentes” — ou mesmo o inofensivo
código “T4” (do endereço rua Tiergarten 4, Berlim, onde ficava o escritório
de coordenação de toda a operação de morticínio).7 Quando a ordem teve
que ser anulada em 28 de agosto de 1941 em função da grita de eminentes
autoridades da Igreja, o princípio de “administrar ativamente as tendências
populacionais” não foi de modo algum abandonado. Apenas desviou o foco,
como a tecnologia do gás que a campanha de eutanásia ajudou a
desenvolver, para um alvo diferente: os judeus. E para locais diferentes,
como Sobibor ou Chelmno.
O tempo todo o alvo foi a unwertes Leben. Para os planejadores nazistas
da sociedade perfeita, o projeto que perseguiam e estavam decididos a
realizar através da engenharia social dividia a vida humana em útil e inútil,
com ou sem valor, aquela a ser amorosamente cultivada e receber
Lebensraum [espaço vital], a outra a ser “afastada” ou — se o afastamento
se revelasse infactível — exterminada. Os simplesmente alienígenas não
eram objeto de política estritamente racial: a eles podiam ser aplicadas
velhas e provadas estratégias tradicionalmente associadas à inimizade
competitiva — deviam ser mantidos além de fronteiras estreitamente
vigiadas. Os deficientes físicos ou mentais eram um caso mais difícil e
exigiam uma política nova, original: não podiam ser expulsos ou colocados
atrás de cercas, uma vez que não pertenciam de direito a nenhuma das
“outras raças”, embora indignos também de participar do Reich de mil anos.
Os judeus constituíam caso essencialmente similar. Não eram uma raça
como as outras; eram uma antirraça, uma raça que minava e envenenava
todas as outras, que solapava não apenas a identidade de qualquer raça em
particular, mas a própria ordem racial. (Lembrem-se dos judeus como a
“nação sem nacionalidade”, como o inimigo incurável da ordem nacional
como tal.) Com aprovação e prazer, Roseberg cita o conceito
autodepreciativo de Weiniger para os judeus como “uma invisível rede coesiva de fungo limoso (plasmódio) que existe desde tempos imemoriais e
se espalha por toda a terra”.8 Assim, o isolamento dos judeus só podia ser
um paliativo, um estágio no caminho para a meta final. A questão
possivelmente não seria resolvida com a simples extirpação dos judeus da
Alemanha. Mesmo vivendo bem longe das fronteiras alemãs, os judeus
continuariam a produzir erosão e desintegração da lógica natural do
universo. Ao ordenar a suas tropas que lutassem pela supremacia da raça
alemã, Hitler acreditava que a guerra que ele desencadeava travava-se em
nome de todas as raças, era em suma um serviço que prestava à
humanidade racialmente organizada.
Nessa concepção de engenharia social como obra cientificamente
fundada com vistas à instituição de uma nova e melhor ordem (obra que
necessariamente implica a contenção ou, de preferência, a eliminação de
quaisquer fatores de ruptura), o racismo refletia de fato a visão de mundo e
a prática da modernidade. E isso pelo menos em dois aspectos vitais.
Primeiro, com o Iluminismo, foi entronizada uma nova divindade, a
Natureza, junto com a legitimação da ciência como seu único culto
ortodoxo e dos cientistas como seus profetas e sacerdotes. Tudo, em
princípio, fora aberto à investigação objetiva; tudo podia, em princípio, ser
conhecido de forma confiável e verdadeira. A verdade, a bondade e a
beleza, aquilo que é e o que devia ser, tudo tornou-se objeto legítimo de
observação sistemática e precisa. Por outro lado, só podiam legitimar-se
pelo conhecimento objetivo que resultaria de tal observação. Como George
L. Mosse resumiu sua história do racismo, documentada de modo bastante
convincente, “é impossível separar os questionamentos filosóficos do
Iluminismo sobre a natureza e o exame que fez da moralidade e do caráter
humano… [Desde] o início… a ciência natural e os ideais morais e estéticos
dos antigos se deram as mãos.” Da forma em que foi moldada pelo
Iluminismo, a atividade científica era marcada por uma “tentativa de
determinar o lugar exato do homem na natureza através da observação,
mensurações e comparações entre grupos de homens e animais” e da
“crença na unidade do corpo e da mente”. Esta última “supostamente se
expressava de forma tangível, física, que podia ser medida e observada”.9 A
frenologia (arte de medir o caráter pelas medidas do crânio) e a
fisiognomonia (medir o caráter pela aparência facial) resumiam muito bem
a confiança, a estratégia e a ambição da nova era científica. O
temperamento, o caráter, a inteligência, os talentos estéticos e até as inclinações políticas do homem eram determinados pela Natureza; de forma
que exatamente podia-se descobrir pela diligente observação e comparação
do “substrato” visível, material, mesmo do mais esquivo ou encoberto
atributo espiritual. As fontes materiais das impressões sensoriais eram
outras tantas chaves dos segredos da Natureza, sinais a serem lidos,
registros feitos num código que a ciência tem que desvendar.
O que restava ao racismo era meramente postular uma distribuição
sistemática e geneticamente reproduzida de atributos materiais do
organismo humano responsáveis por traços de caráter, morais, estéticos ou
políticos. Mesmo essa tarefa, porém, já tinha sido executada para eles por
respeitáveis e justamente respeitados pioneiros da ciência que raramente ou
quase nunca são listados entre os luminares do racismo. Observando sine
ira et studio a realidade tal como a encontraram, dificilmente poderiam
deixar de perceber a palpável, concreta, material, indubitavelmente
“objetiva” superioridade desfrutada pelo Ocidente sobre o resto do mundo
habitado. Assim, o pai da taxonomia científica, Lineu, registrou a divisão
entre os habitantes da Europa e os da África com a mesma e escrupulosa
precisão que usou para definir a diferença entre crustáceos e peixes. Só
podia descrever e descreveu a raça branca como “inventiva, engenhosa,
organizada e governada por leis… Em contraste com os Negros, dotados de
todas as qualidades negativas que faziam deles um canhoto da raça
superior: eram considerados preguiçosos, desonestos e incapazes de
governar a si mesmos.”10 O pai do “racismo científico”, Gobineau, não teve
que usar grande inventiva para definir os negros como uma raça de pouca
inteligência, embora superdotada de sensualidade e portanto de um poder
bruto aterrador (exatamente como a multidão desgovernada), e os brancos
como uma raça que ama a liberdade, a honra e tudo o que é espiritual.11
Em 1938, Walter Frank descreveu a perseguição aos judeus como a saga
da “cultura alemã em luta contra a Judiaria Mundial”. Desde o primeiro dia
do regime nazista, as instituições científicas, dirigidas por professores
universitários de renome em biologia, história e ciência política, foram
colocadas para investigar “a questão judaica” segundo os “padrões
internacionais da ciência avançada”. O Reichinstitut für Geschichte des
neuen Deutschlands (Instituto Imperial para a Pesquisa da Nova
Alemanha), o Institut zum Studium der Judenfrage (Instituto para o Estudo
da Questão Judaica), o Institut zur Erforschung des jüdischen Einflusses auf
das deutsche kirchliche Leben (Instituto para Investigação da Influência Judaica na Vida eclesiástica alemã) e o famoso Institut zur Erforschung der
Judenfrage, de Rosenberg, foram apenas alguns dos centros científicos que
atacaram questões teóricas e práticas da “política judaica” aplicando uma
metodologia culta e que nunca tiveram falta de pessoal qualificado, com
credenciais acadêmicas. Uma típica exposição de princípios de sua
atividade dizia que:
toda a vida cultural, durante décadas, esteve mais ou menos sob a influência do pensamento da
biologia, particularmente a partir de meados do século passado, com os ensinamentos de
Darwin, Mendel e Galton, e depois desenvolvido pelos estudos de Plötz, Schallmayer, Correns,
de Vries, Tschermak, Baur, Rüdin, Fischer, Lenz e outros… Admitiu-se que as leis naturais
descobertas para as plantas e animais deviam também ser válidas para o homem… 12
Além disso, a partir do Iluminismo o mundo moderno se caracterizou
por uma posição ativa, planejada, em relação à natureza e a si mesmo. A
ciência não devia ser praticada por si mesma; passou a ser vista, antes e
acima de tudo, como um instrumento de poder tremendo que capacita seu
detentor a melhorar a realidade, a moldá-la de acordo com os projetos e
interesses humanos e a contribuir para o seu autoaperfeiçoamento. A
jardinagem e a medicina davam os arquétipos da postura construtiva,
enquanto a normalidade, a saúde e o saneamento forneciam as
arquimetáforas para as tarefas e estratégias humanas na condução dos
negócios humanos. A existência e a coexistência humanas viraram objeto
de planejamento e administração; como plantas num jardim ou um
organismo vivo, não podiam ser abandonadas à própria conta, do contrário
seriam infestadas de ervas daninhas ou destruídas por tecido cancerígeno. A
jardinagem e a medicina são formas funcionalmente distintas da mesma
atividade de separar elementos úteis destinados a viver e prosperar,
isolando-os de elementos perigosos e mórbidos que devem ser
exterminados.
O discurso, a linguagem de Hitler era carregada de imagens de doença,
infecção, infestação, putrefação, pestilência. Ele comparava o cristianismo e
o bolchevismo à sífilis e à peste, falava dos judeus como bacilos, micróbios
da decomposição, vermes. “A descoberta do vírus judaico”, disse a
Himmler em 1942, “foi uma das grandes revoluções que tiveram lugar no
mundo. A batalha em que estamos empenhados hoje é semelhante à que
travaram, no século passado, Pasteur e Koch. Quantas doenças têm sua
origem no vírus judaico… Só recobraremos a saúde eliminando o judeu.”13
Em outubro do mesmo ano, Hitler proclamou: “Exterminando a peste,
estaremos servindo à humanidade.”14 Os executores da vontade de Hitler
falaram do extermínio dos judeus como Gesundung (cura) da Europa,
Selbstreinigung (autopurificação), Judensäuberung (expurgo dos judeus).
Num artigo em Das Reich publicado em 5 de novembro de 1941, Goebbels
saudou a adoção do símbolo da estrela de Davi para marcar os judeus como
uma medida “higiênica profilática”. Isolar os judeus de uma comunidade
racialmente pura era “regra elementar de higiene, racial, nacional e social”.
Havia pessoas boas e pessoas más, argumentava Goebbels, assim como há
bons e maus animais. “O fato de que o judeu ainda vive entre nós não
significa que ele pertence ao meio, assim como uma mosca não vira animal
doméstico pelo fato de viver na casa.”15 A questão judaica, nas palavras do
assessor de imprensa do Ministério do Exterior, era “eine Frage der
politischen Hygiene” [“uma questão de higiene política”].
Dois cientistas alemães de reputação mundial, o biólogo Erwin Baur e o
antropólogo Martin Stämmler, colocaram na linguagem comum e precisa da
ciência aplicada o que os líderes da Alemanha nazista expressavam com
frequência no vocabulário emotivo e passional da política:
Todo fazendeiro sabe que se abater os melhores animais, sem deixar que procriem,
continuando a criar em vez disso espécimes inferiores, seu gado vai inevitalmente degenerar.
Tal erro, que nenhum fazendeiro cometeria com seus animais e plantas de cultivo, permitimos
que em larga medida persista no nosso meio. Por consideração a nossa humanidade atual,
devemos cuidar para que essas pessoas inferiores não se reproduzam. Simples operação
executada em poucos minutos torna isso possível sem mais demora… Ninguém é mais
favorável do que eu às novas leis de esterilização, mas devo repetir e insistir que constituem
apenas um começo…
A extinção e a salvação são os dois pólos em torno dos quais gira todo o cultivo da raça, os
dois métodos com os quais tem que trabalhar… Extinção é a destruição biológica do
hereditariamente inferior através da esterilização, da repressão quantitativa dos doentes e
indesejáveis… A tarefa consiste em proteger o povo de uma reprodução excessiva de ervas
daninhas.17
Resumindo: bem antes das câmaras de gás, os nazistas tentaram, por
ordem de Hitler, exterminar seus próprios compatriotas com deficiências
físicas ou mentais recorrendo ao “assassinato de misericórdia” (falsamente
chamado de “eutanásia”) e criar uma raça superior através da fertilização de
mulheres racialmente superiores por homens racialmente superiores
(eugenia). À semelhança dessas tentativas, o assassínio de judeus foi um
procedimento de administração racional da sociedade. E um esforço
sistemático de colocar a seu serviço a postura, a filosofia e os preceitos da
ciência aplicada.