Modernidade e Holocausto
A nação sem nacionalidade
judeus pareciam portanto sementes de destruição — não apenas por sua
súbita escalada, mas também pelo colapso da segurança simbolizado nessa
escalada. P.G.J. Pulzer cita vozes típicas de alarme: “A mais forte arma do
judaísmo é a democracia dos não judeus.” “ O judeu precisa apenas
apoderar-se do partido do esclarecimento e do individualismo para minar
por dentro a estrutura do arcabouço social alemão. Assim, ele não tem que
bajular para subir ao cume social; em vez disso, ele forçou sobre os alemães
uma teoria social que estava fadada a ajudar o grupo a galgar os píncaros.”
19 Por outro lado, a intensa preocupação dos judeus com a nova variedade
de proteção política permitia à burguesia nativa, autoconfiante e que se fez
por si mesma, projetar os judeus contra o campo dos inimigos da
autoafirmação social e da liberdade política. Assim, simultaneamente, pôde
surgir “um tipo de antissemitismo liberal” que “colocava judeus e
aristocracia juntos e alegava que eles formavam algum tipo de aliança
financeira contra a burguesia ascendente.”20
A nação sem nacionalidade
Mas nenhuma dimensão da endêmica incompatibilidade judaica influenciou
o moderno antissemitismo com mais força e de forma mais duradoura do
que o fato de que os judeus eram, para citar Arendt de novo, um “elemento
não nacional num mundo de nações já existentes ou em surgimento”.21 Por
sua própria dispersão e onipresença territoriais, os judeus eram uma nação
inter-nacional, uma nação não nacional. Por toda parte, eram um constante
lembrete da relatividade e limites da autoidentidade individual e do
interesse comum, que os critérios da nacionalidade deveriam determinar
com absoluta e definitiva autoridade. Dentro de cada nação, eles eram o
“inimigo interno”. As fronteiras da nação eram muito estreitas para serem
definidas; os horizontes da tradição nacional eram muito curtos para que se
pudesse ver através deles. Os judeus eram não somente diversos de
qualquer outra nação; eram também diferentes de quaisquer outros
estrangeiros. Em suma, eles minavam a própria diferença entre hóspedes e
hospedeiros, entre nativo e estrangeiro. E à medida que a nacionalidade se
tornava a base suprema da autoconstituição do grupo, eles vinham minar a
mais básica das diferenças: aquela entre “nós” e “eles”. Os judeus eram
flexíveis e adaptáveis; um veículo vazio, pronto para receber qualquer carga desprezível que esse “eles” devesse carregar. Assim, Toussenel via os
judeus como portadores de veneno protestante antifrancês, enquanto
Liesching, o famoso detrator de Das junge Deutschland, acusava os judeus
de infiltrar na Alemanha o pestilencial espírito gaulês.
A característica supranacional dos judeus foi vivamente realçada no
estágio inicial do processo de formação das nações — quando os conflitos
de fronteira entre os reinos, incitado ou pelo menos complicado pelas novas
e sem precedentes reivindicações feitas em nome de várias unidades
nacionais, recompensavam o não envolvimento judaico em particularidades
locais e a habilidade dos judeus para se comunicar passando por cima dos
governos beligerantes e das linhas de batalha. A capacidade judaica de
mediação foi avidamente utilizada pelos governantes envolvidos, muitas
vezes contra a vontade, em conflitos que mal entendiam e a que queriam
pôr fim, ao mesmo tempo que sonhavam apenas com um acordo ou pelo
menos uma acomodação, uma forma de coexistência aceitável tanto pelos
adversários como por seus próprios súditos nacionalistas ruidosos. Nas
guerras que sobretudo ou unicamente visavam a um modus coexistendi mais
satisfatório, os judeus — internacionalistas por natureza, digamos assim —
se viam lançados no papel de arautos da paz e extintores da beligerância.
Esse desempenho originalmente apreciado ricocheteou de forma vingativa
contra eles assim que os reinos se transformaram em verdadeiros Estados
nacionais e nacionalistas: o propósito da guerra passou a ser a destruição do
inimigo e o patriotismo substituiu a lealdade ao rei, enquanto o sonho de
supremacia silenciava os anseios de paz. Num mundo total e
completamente dividido em domínios estatais, não havia mais espaço para o
internacionalismo e cada pedacinho de terra sem dono era um convite
permanente à agressão. Ao mundo entupido de nações e Estados-nações
abominava o vazio nacional. Os judeus encontravam-se nesse vazio: eram
o vazio. Eram suspeitos pela própria razão de serem capazes de negociar
quando a única comunicação permissível estava na boca das armas. (A
suspeita de que os seus judeus não tinham patriotismo e entusiasmo para
abater os inimigos da nação era praticamente o único ponto em comum
entre os campos adversários na Grande Guerra.) Embora já cheirando a alta
traição, essa qualidade era no entanto um irritante menor se comparada com
o inato e evidentemente irremediável cosmopolitismo judeu.
As piores suspeitas foram prontamente confirmadas pela pronunciada
tendência dos judeus a refletir sua condição extraterritorial numa enfurecedora predileção pelos “valores humanos”, pelo “ser humano como
tal”, pelo universalismo e outros lemas similarmente desmobilizantes e a
partir daí impatrióticos. Bem no início do período nacionalista, Heinrich
Leo alertou:
A nação judaica destaca-se marcadamente dentre todas as nações deste mundo por uma
mentalidade verdadeiramente corrosiva e deformadora. Da mesma maneira que existem fontes
que transformam em pedra todo objeto que se lance nelas, assim os judeus, bem desde a
origem e até os dias de hoje, transformaram tudo que caiu na órbita de sua atividade espiritual
em uma generalidade abstrata.
Os judeus, com efeito, eram o próprio resumo do conceito de estranhos
ou estrangeiros de Simmel — sempre de fora mesmo por dentro,
examinando o que é conhecido como se fosse um estranho objeto de estudo,
fazendo perguntas que ninguém mais fazia, questionando o inquestionável e
desafiando o que não pode ser desafiado. De Ludwig Börne, companheiro
de Heine, passando por Karl Krauss, às vésperas do colapso dos Habsburgo,
a Kurt Tucholsky, no limiar do triunfo nazista, eles lançaram luz sobre o
preconceito e mesquinhez paroquiais que identificavam, ridicularizaram o
misto provinciano de atraso, convencimento e fanfarronice, combateram a
lerdeza mental e o filistinismo no gosto. Ninguém com uma visão tão de
fora podia ser realmente admitido na nação, definida como era por se dar
como certa e pela disposição de viver em paz consigo mesma. O julgamento
de Friedrich Rüh, o primeiro de uma longa série de agravos que o
particularismo moveria contra toda generalidade abstrata, não foi surpresa:
“O judeu de fato não é do país em que vive, pois assim como o judeu da
Polônia não é polonês, o da Inglaterra não é inglês e o da Suécia não é
sueco, o judeu da Alemanha não pode ser alemão e o da Prússia não pode
ser prussiano.”22
A sina da incongruência e incompatibilidade judaicas entre as nações
não foi de modo algum facilitada pelo fato de os clamores nacionalistas
serem eles mesmos, muitas vezes, incongruentes e mutuamente
incompatíveis. Como norma, as nações tinham seus opressores, a quem
temiam, e seus oprimidos, aos quais desprezavam. Poucas nações
conhecidas endossaram de modo entusiástico o direito das outras ao mesmo
tratamento que reivindicavam para si mesmas. Ao longo de todo o
turbulento e ainda não concluído período da autoprodução nacional, o jogo
nacional tem dado empate: a soberania de um tem sido um assalto à do outro. Os direitos de uma nação significaram para outra agressão,
intransigência ou arrogância.
Em nenhuma parte as consequências disso foram mais assustadoras que
na Europa centro-oriental — verdadeiro caldeirão de nacionalismos no
século XIX, quer os velhos nacionalismos ainda não saciados, quer os
recentes e famintos. Era virtualmente impossível apoiar uma reivindicação
nacionalista sem fazer inimigas várias outras nações estabelecidas ou
aspirantes. Isso deixava os judeus em posição particularmente incômoda.
Na opinião de Pulzer,
a estrutura ocupacional [dos judeus], seu nível educacional geralmente mais elevado e sua
necessidade de segurança política tornavam mais fácil associá-los às nacionalidades
“históricas” dominantes (poloneses, magiares, russos) do que às nacionalidades camponesas
submetidas, “não históricas” (tchecos, eslovacos, ucranianos e lituanos, por exemplo). Na
Galícia e na Hungria, por isso, eles se livraram do estigma de serem alemães, o que no entanto
não lhes foi de grande ajuda com as raças que os poloneses e magiares por sua vez oprimiam.23
Em pouquíssimos casos as elites das nações nascentes ou estabelecidas
ansiaram dispor da competência e do zelo judaicos para promover
resultados de outra forma improváveis com as massas marcadas (muitas
vezes contra a vontade) como objetos do proselitismo nacional e da
modernização econômica. Na Hungria sob governo Habsburgo, os judeus
que alegremente se aculturavam eram benvindos pela aristocracia fundiária
como os agentes mais dedicados e eficientes da magiarização nas regiões
periféricas, na maioria eslavas, que a nobreza esperava colocar sob seu
domínio na futura Hungria independente, e como os executores de uma
impiedosa modernização da atrasada e estagnada economia camponesa. As
fracas elites lituanas cooptaram avidamente o entusiasmo judeu para
promover suas pretensões ao governo de uma complexa mistura étnica,
linguística e religiosa que povoava o antigo território da Grande Lituânia
histórica, que elas sonhavam ressuscitar. No geral, as elites políticas
gostavam de usar os judeus em todos os tipos de tarefas desagradáveis e
perigosas que julgavam necessárias mas que preferiam não executar elas
mesmas. Isso era conveniente sob vários aspectos. Uma vez a necessidade
dos serviços judeus perdesse a urgência, eles podiam facilmente ser
dispensados; a decisão de “colocar os judeus no seu lugar” seria aplaudida
pelas massas que os judeus comandaram em nome das elites e serviria de
adoçante para um xarope mais amargo que as elites, agora firmemente de
rédeas na mão, queriam fazer as massas provarem.
Mesmo as elites, porém, ainda que temporariamente, não podiam confiar
plenamente na lealdade judaica. Ao contrário da adesão dos “nascidos
dentro” de uma comunidade nacional, para os judeus a adesão era uma
questão de escolha e, portanto, em princípio, revogável, “até aviso em
contrário”. Os traçados de fronteira das comunidades nacionais (e mais
ainda os seus domínios territoriais) ainda eram incertos, contidos, não se
podia permitir a complacência, a vigilância estava na ordem do dia. As
barricadas são erguidas para dividir e ai daqueles que as utilizem como
passagens. A visão de um grande grupo de pessoas livres para passar à
vontade de uma fortaleza nacional a outra deve ter despertado profunda
ansiedade. Isso desafiava a própria verdade em que todas as nações, velhas
ou novas, baseavam suas pretensões, o caráter atribuído à nacionalidade, à
hereditariedade e naturalidade das entidades nacionais. O breve sonho
liberal da assimilação (e, de modo mais geral, a concepção do “problema
judeu” como um problema sobretudo cultural, como tal fadado a ser
resolvido pela aculturação voluntária e prontamente aceita) afundou na
incompatibilidade essencial entre nacionalismo e a ideia da livre escolha.
Por mais paradoxal que isso possa parecer, os nacionalistas convictos
devem no final lamentar os poderes de absorção exercidos por suas nações.
Eles podem alegremente aceitar o louvor prodigalizado pelos admiradores
às virtudes de suas nações. De tal honraria fariam eles uma condição para
conceder aos admiradores — quanto mais zelosos e vociferantes, melhor —
a benevolência patronal que acompanha a posição de clientela. Mas
dificilmente perdoariam que se tomasse a admiração (mesmo uma
admiração habitual, equivalente imitativo da autodissolução) a título de
inclusão. Como diz o enérgico conselho de Geoff Dench a todas as nações-
clientes: “Declarem de todas as formas uma crença na justiça e igualdade
futuras. Faz parte do papel. Mas não esperem que isso se materialize.”24
Como mostra este breve balanço da longa lista de incongruências
judaicas, praticamente não houve uma única porta fechada na cara da
modernidade em que os judeus não tenham batido. Do processo que levou a
sua libertação do gueto eles só poderiam sair seriamente contundidos. Eles
eram o lado opaco de um mundo que lutava pela claridade, a ambiguidade
de um mundo ansioso por certeza. Eles transpunham todas as barreiras e
atraíam balas de todas as direções. O judeu conceitual foi, de fato,
construído como a “viscosidade” arquetípica do moderno sonho de ordem e clareza, como o inimigo de toda ordem, velha, nova e, particularmente, a