Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 14 de 52

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Modernidade e Holocausto

A nação sem nacionalidade

judeus pareciam portanto sementes de destruição — não apenas por sua

súbita escalada, mas também pelo colapso da segurança simbolizado nessa

escalada. P.G.J. Pulzer cita vozes típicas de alarme: “A mais forte arma do

judaísmo é a democracia dos não judeus.” “ O judeu precisa apenas

apoderar-se do partido do esclarecimento e do individualismo para minar

por dentro a estrutura do arcabouço social alemão. Assim, ele não tem que

bajular para subir ao cume social; em vez disso, ele forçou sobre os alemães

uma teoria social que estava fadada a ajudar o grupo a galgar os píncaros.”

19 Por outro lado, a intensa preocupação dos judeus com a nova variedade

de proteção política permitia à burguesia nativa, autoconfiante e que se fez

por si mesma, projetar os judeus contra o campo dos inimigos da

autoafirmação social e da liberdade política. Assim, simultaneamente, pôde

surgir “um tipo de antissemitismo liberal” que “colocava judeus e

aristocracia juntos e alegava que eles formavam algum tipo de aliança

financeira contra a burguesia ascendente.”20

 

A nação sem nacionalidade

 

Mas nenhuma dimensão da endêmica incompatibilidade judaica influenciou

o moderno antissemitismo com mais força e de forma mais duradoura do

que o fato de que os judeus eram, para citar Arendt de novo, um “elemento

não nacional num mundo de nações já existentes ou em surgimento”.21 Por

sua própria dispersão e onipresença territoriais, os judeus eram uma nação

inter-nacional, uma nação não nacional. Por toda parte, eram um constante

lembrete da relatividade e limites da autoidentidade individual e do

interesse comum, que os critérios da nacionalidade deveriam determinar

com absoluta e definitiva autoridade. Dentro de cada nação, eles eram o

“inimigo interno”. As fronteiras da nação eram muito estreitas para serem

definidas; os horizontes da tradição nacional eram muito curtos para que se

pudesse ver através deles. Os judeus eram não somente diversos de

qualquer outra nação; eram também diferentes de quaisquer outros

estrangeiros. Em suma, eles minavam a própria diferença entre hóspedes e

hospedeiros, entre nativo e estrangeiro. E à medida que a nacionalidade se

tornava a base suprema da autoconstituição do grupo, eles vinham minar a

mais básica das diferenças: aquela entre “nós” e “eles”. Os judeus eram

flexíveis e adaptáveis; um veículo vazio, pronto para receber qualquer carga desprezível que esse “eles” devesse carregar. Assim, Toussenel via os

judeus como portadores de veneno protestante antifrancês, enquanto

Liesching, o famoso detrator de Das junge Deutschland, acusava os judeus

de infiltrar na Alemanha o pestilencial espírito gaulês.

A característica supranacional dos judeus foi vivamente realçada no

estágio inicial do processo de formação das nações — quando os conflitos

de fronteira entre os reinos, incitado ou pelo menos complicado pelas novas

e sem precedentes reivindicações feitas em nome de várias unidades

nacionais, recompensavam o não envolvimento judaico em particularidades

locais e a habilidade dos judeus para se comunicar passando por cima dos

governos beligerantes e das linhas de batalha. A capacidade judaica de

mediação foi avidamente utilizada pelos governantes envolvidos, muitas

vezes contra a vontade, em conflitos que mal entendiam e a que queriam

pôr fim, ao mesmo tempo que sonhavam apenas com um acordo ou pelo

menos uma acomodação, uma forma de coexistência aceitável tanto pelos

adversários como por seus próprios súditos nacionalistas ruidosos. Nas

guerras que sobretudo ou unicamente visavam a um modus coexistendi mais

satisfatório, os judeus — internacionalistas por natureza, digamos assim —

se viam lançados no papel de arautos da paz e extintores da beligerância.

Esse desempenho originalmente apreciado ricocheteou de forma vingativa

contra eles assim que os reinos se transformaram em verdadeiros Estados

nacionais e nacionalistas: o propósito da guerra passou a ser a destruição do

inimigo e o patriotismo substituiu a lealdade ao rei, enquanto o sonho de

supremacia silenciava os anseios de paz. Num mundo total e

completamente dividido em domínios estatais, não havia mais espaço para o

internacionalismo e cada pedacinho de terra sem dono era um convite

permanente à agressão. Ao mundo entupido de nações e Estados-nações

abominava o vazio nacional. Os judeus encontravam-se nesse vazio: eram

o vazio. Eram suspeitos pela própria razão de serem capazes de negociar

quando a única comunicação permissível estava na boca das armas. (A

suspeita de que os seus judeus não tinham patriotismo e entusiasmo para

abater os inimigos da nação era praticamente o único ponto em comum

entre os campos adversários na Grande Guerra.) Embora já cheirando a alta

traição, essa qualidade era no entanto um irritante menor se comparada com

o inato e evidentemente irremediável cosmopolitismo judeu.

As piores suspeitas foram prontamente confirmadas pela pronunciada

tendência dos judeus a refletir sua condição extraterritorial numa enfurecedora predileção pelos “valores humanos”, pelo “ser humano como

tal”, pelo universalismo e outros lemas similarmente desmobilizantes e a

partir daí impatrióticos. Bem no início do período nacionalista, Heinrich

Leo alertou:

 

A nação judaica destaca-se marcadamente dentre todas as nações deste mundo por uma

mentalidade verdadeiramente corrosiva e deformadora. Da mesma maneira que existem fontes

que transformam em pedra todo objeto que se lance nelas, assim os judeus, bem desde a

origem e até os dias de hoje, transformaram tudo que caiu na órbita de sua atividade espiritual

em uma generalidade abstrata.

 

Os judeus, com efeito, eram o próprio resumo do conceito de estranhos

ou estrangeiros de Simmel — sempre de fora mesmo por dentro,

examinando o que é conhecido como se fosse um estranho objeto de estudo,

fazendo perguntas que ninguém mais fazia, questionando o inquestionável e

desafiando o que não pode ser desafiado. De Ludwig Börne, companheiro

de Heine, passando por Karl Krauss, às vésperas do colapso dos Habsburgo,

a Kurt Tucholsky, no limiar do triunfo nazista, eles lançaram luz sobre o

preconceito e mesquinhez paroquiais que identificavam, ridicularizaram o

misto provinciano de atraso, convencimento e fanfarronice, combateram a

lerdeza mental e o filistinismo no gosto. Ninguém com uma visão tão de

fora podia ser realmente admitido na nação, definida como era por se dar

como certa e pela disposição de viver em paz consigo mesma. O julgamento

de Friedrich Rüh, o primeiro de uma longa série de agravos que o

particularismo moveria contra toda generalidade abstrata, não foi surpresa:

“O judeu de fato não é do país em que vive, pois assim como o judeu da

Polônia não é polonês, o da Inglaterra não é inglês e o da Suécia não é

sueco, o judeu da Alemanha não pode ser alemão e o da Prússia não pode

ser prussiano.”22

A sina da incongruência e incompatibilidade judaicas entre as nações

não foi de modo algum facilitada pelo fato de os clamores nacionalistas

serem eles mesmos, muitas vezes, incongruentes e mutuamente

incompatíveis. Como norma, as nações tinham seus opressores, a quem

temiam, e seus oprimidos, aos quais desprezavam. Poucas nações

conhecidas endossaram de modo entusiástico o direito das outras ao mesmo

tratamento que reivindicavam para si mesmas. Ao longo de todo o

turbulento e ainda não concluído período da autoprodução nacional, o jogo

nacional tem dado empate: a soberania de um tem sido um assalto à do outro. Os direitos de uma nação significaram para outra agressão,

intransigência ou arrogância.

Em nenhuma parte as consequências disso foram mais assustadoras que

na Europa centro-oriental — verdadeiro caldeirão de nacionalismos no

século XIX, quer os velhos nacionalismos ainda não saciados, quer os

recentes e famintos. Era virtualmente impossível apoiar uma reivindicação

nacionalista sem fazer inimigas várias outras nações estabelecidas ou

aspirantes. Isso deixava os judeus em posição particularmente incômoda.

Na opinião de Pulzer,

 

a estrutura ocupacional [dos judeus], seu nível educacional geralmente mais elevado e sua

necessidade de segurança política tornavam mais fácil associá-los às nacionalidades

“históricas” dominantes (poloneses, magiares, russos) do que às nacionalidades camponesas

submetidas, “não históricas” (tchecos, eslovacos, ucranianos e lituanos, por exemplo). Na

Galícia e na Hungria, por isso, eles se livraram do estigma de serem alemães, o que no entanto

não lhes foi de grande ajuda com as raças que os poloneses e magiares por sua vez oprimiam.23

 

Em pouquíssimos casos as elites das nações nascentes ou estabelecidas

ansiaram dispor da competência e do zelo judaicos para promover

resultados de outra forma improváveis com as massas marcadas (muitas

vezes contra a vontade) como objetos do proselitismo nacional e da

modernização econômica. Na Hungria sob governo Habsburgo, os judeus

que alegremente se aculturavam eram benvindos pela aristocracia fundiária

como os agentes mais dedicados e eficientes da magiarização nas regiões

periféricas, na maioria eslavas, que a nobreza esperava colocar sob seu

domínio na futura Hungria independente, e como os executores de uma

impiedosa modernização da atrasada e estagnada economia camponesa. As

fracas elites lituanas cooptaram avidamente o entusiasmo judeu para

promover suas pretensões ao governo de uma complexa mistura étnica,

linguística e religiosa que povoava o antigo território da Grande Lituânia

histórica, que elas sonhavam ressuscitar. No geral, as elites políticas

gostavam de usar os judeus em todos os tipos de tarefas desagradáveis e

perigosas que julgavam necessárias mas que preferiam não executar elas

mesmas. Isso era conveniente sob vários aspectos. Uma vez a necessidade

dos serviços judeus perdesse a urgência, eles podiam facilmente ser

dispensados; a decisão de “colocar os judeus no seu lugar” seria aplaudida

pelas massas que os judeus comandaram em nome das elites e serviria de

adoçante para um xarope mais amargo que as elites, agora firmemente de

rédeas na mão, queriam fazer as massas provarem.

Mesmo as elites, porém, ainda que temporariamente, não podiam confiar

plenamente na lealdade judaica. Ao contrário da adesão dos “nascidos

dentro” de uma comunidade nacional, para os judeus a adesão era uma

questão de escolha e, portanto, em princípio, revogável, “até aviso em

contrário”. Os traçados de fronteira das comunidades nacionais (e mais

ainda os seus domínios territoriais) ainda eram incertos, contidos, não se

podia permitir a complacência, a vigilância estava na ordem do dia. As

barricadas são erguidas para dividir e ai daqueles que as utilizem como

passagens. A visão de um grande grupo de pessoas livres para passar à

vontade de uma fortaleza nacional a outra deve ter despertado profunda

ansiedade. Isso desafiava a própria verdade em que todas as nações, velhas

ou novas, baseavam suas pretensões, o caráter atribuído à nacionalidade, à

hereditariedade e naturalidade das entidades nacionais. O breve sonho

liberal da assimilação (e, de modo mais geral, a concepção do “problema

judeu” como um problema sobretudo cultural, como tal fadado a ser

resolvido pela aculturação voluntária e prontamente aceita) afundou na

incompatibilidade essencial entre nacionalismo e a ideia da livre escolha.

Por mais paradoxal que isso possa parecer, os nacionalistas convictos

devem no final lamentar os poderes de absorção exercidos por suas nações.

Eles podem alegremente aceitar o louvor prodigalizado pelos admiradores

às virtudes de suas nações. De tal honraria fariam eles uma condição para

conceder aos admiradores — quanto mais zelosos e vociferantes, melhor —

a benevolência patronal que acompanha a posição de clientela. Mas

dificilmente perdoariam que se tomasse a admiração (mesmo uma

admiração habitual, equivalente imitativo da autodissolução) a título de

inclusão. Como diz o enérgico conselho de Geoff Dench a todas as nações-

clientes: “Declarem de todas as formas uma crença na justiça e igualdade

futuras. Faz parte do papel. Mas não esperem que isso se materialize.”24

Como mostra este breve balanço da longa lista de incongruências

judaicas, praticamente não houve uma única porta fechada na cara da

modernidade em que os judeus não tenham batido. Do processo que levou a

sua libertação do gueto eles só poderiam sair seriamente contundidos. Eles

eram o lado opaco de um mundo que lutava pela claridade, a ambiguidade

de um mundo ansioso por certeza. Eles transpunham todas as barreiras e

atraíam balas de todas as direções. O judeu conceitual foi, de fato,

construído como a “viscosidade” arquetípica do moderno sonho de ordem e clareza, como o inimigo de toda ordem, velha, nova e, particularmente, a