Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 15 de 52

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Modernidade e Holocausto

Modernidade do racismo

ordem desejada.

 

Modernidade do racismo

 

Uma coisa importante aconteceu aos judeus no caminho para a

modernidade. Eles embarcaram nesse caminho quando eram postos de lado

em segurança, segregados e enclausurados por trás das muralhas de pedra

ou imaginárias da Judengasse. Seu isolamento era um fato da vida, como o

ar e a morte. Não incitava à mobilização do sentimento popular, de

argumentos sofisticados ou ao alerta de autonomeados vigilantes; práticas e

hábitos difusos, muitas vezes não codificados mas no geral bem

coordenados, bastavam para reproduzir a mútua repugnância que garantia a

continuidade da separação. Tudo isso mudou com o advento da

modernidade, com o desmantelamento que produziu nas diferenças legais,

com seus lemas de igualdade e a mais estranha das novidades: a cidadania.

Como coloca Jacob Katz,

 

Quando os judeus viviam no gueto e imediatamente depois que o deixaram, a acusação contra

eles partia de cidadãos que gozavam de um status legal negado aos judeus. Tais acusações

destinavam-se apenas a justificar e reconfirmar o status quo e a fornecer um fundamento lógico

para manter os judeus numa posição social e legal inferior. Agora, porém, as acusações eram

levantadas por cidadãos como cidadãos iguais perante a lei e o propósito desses indiciamentos

era mostrar que os judeus não mereciam a posição social e legal a eles conferida.25

 

Não era apenas, por assim dizer, o valor moral ou social que estava em

jogo. O problema era infinitamente mais complicado. Estavam envolvidos

nada menos que o projeto de mecanismos sem precedentes e a aquisição de

habilidades até então impensadas — necessários, uns e outras, para produzir

artificialmente o que no passado se deu naturalmente. Nos tempos pré-

modernos, os judeus foram uma casta entre outras, um povo dentre outros,

uma classe social dentre as classes. Sua especificidade não era uma questão,

um problema, e hábitos e práticas de segregação virtualmente irrefletidos

impediam efetivamente que se tornasse um. Com a ascensão da

modernidade, a separação dos judeus virou de fato um problema. Como

tudo o mais na sociedade moderna, ela agora tinha que ser fabricada,

construída, racionalmente defendida, tecnologicamente planejada,

administrada, supervisionada e executada. Os responsáveis pelas sociedades

pré-modernas podiam assumir a atitude descansada e confiante do couteiro, do guarda-caça: deixada a sua própria conta, a sociedade iria reproduzir-se

ano após ano, geração após geração, praticamente sem uma única mudança

digna de nota. O mesmo não ocorria com sua moderna sucessora. Aqui,

nada mais podia ser tido como certo. Nada cresceria se não fosse plantado e

tudo que crescesse por conta própria devia estar errado e, portanto, ser uma

coisa perigosa a ameaçar ou confundir o plano geral. A complacência do

couteiro seria um luxo que mal se poderia permitir. O que se fazia

necessário, em vez disso, eram a postura e as habilidades do jardineiro,

alguém armado de um detalhado plano do gramado, indicando seus limites

e os regos divisórios entre a grama e as bordas; alguém que entendesse de

combinação de cores e a diferença entre agradável harmonia e detestável

barafunda; alguém com a determinação de tratar como erva daninha toda

planta intrometida que interferisse com o seu plano e a sua visão de ordem e

harmonia; alguém, em suma, com os instrumentos e venenos adequados à

tarefa de exterminar as ervas daninhas e simultaneamente preservar as

divisões tais como exigidas e definidas no desenho geral.

A separação dos judeus perdera sua naturalidade, sugerida no passado

pela segregação territorial e reforçada por uma profusão de sinais e avisos

impositivos. Parecia, agora, irremediavelmente artificial e frágil. O que

antes era um axioma, uma pressuposição aceita tacitamente, tornara-se

verdade a ser demonstrada, provada, e “essência das coisas” escondida por

trás de fenômenos que aparentemente a contradiziam. Nova naturalidade

tinha agora que ser laboriosamente construída e apoiada numa autoridade

outra que não a simples evidência das impressões sensoriais. Como situou

Patrick Girard,

 

A assimilação judaica na sociedade circundante e o desaparecimento das distinções sociais e

religiosas levaram a uma situação na qual judeus e cristãos não podiam ser diferenciados.

Tendo-se tornado um cidadão como outro qualquer e misturado aos cristãos pelo casamento, o

judeu não era mais identificável. Este fato teve peso significativo para os teóricos antissemitas.

Edouard Drumont, autor do panfleto França judaica, escreveu: “Certo sr. Cohen, que vai à

sinagoga e usa kosher, é uma pessoa respeitável. Não tenho nada contra ele. Desgosta-me, sim,

o judeu que não é óbvio.”

Encontram-se ideias semelhantes na Alemanha, onde os judeus ritualmente de túnica e

cabelos cacheados eram menos alvo de zombarias… que correligionários seus, patriotas

alemães de fé judaica que imitavam o patrício cristão… [O] antissemitismo moderno nasceu

não da grande diferença entre grupos, mas sim da ameaça de não haver diferenças, da

homogeneização da sociedade ocidental e da abolição das antigas barreiras sociais e legais

entre judeus e cristãos.26

A modernidade produziu o nivelamento das diferenças — pelo menos na

sua aparência exterior, de cujo estofo mesmo são feitas as distâncias

simbólicas entre grupos segregados. À falta de tais diferenças, não bastava

meditar filosoficamente sobre a sabedoria da realidade tal como era — algo

que a doutrina cristã havia feito anteriormente quando queria justificar a

separação de fato dos judeus. Agora as diferenças tinham que ser criadas ou

protegidas do espantoso poder de erosão da igualdade social e legal e do

intercâmbio cultural.

A herdada explicação religiosa da fronteira — a rejeição de Cristo pelos

judeus — era singularmente inadequada à nova tarefa. Tal explicação

inevitavelmente implicava a possibilidade de escapar do campo segregado.

Enquanto a fronteira foi nítida e bem traçada, essa explicação serviu a um

bom propósito. Ela fornecia o necessário elemento de flexibilidade que

atava o destino dos homens a sua suposta liberdade de alcançar a salvação

ou pecar, de aceitar ou rejeitar a Graça divina; e conseguia todo o seu

objetivo sem afrouxar sequer minimamente a solidez da própria fronteira. O

mesmo elemento de flexibilidade, no entanto, revelar-se-ia desastroso uma

vez que as práticas de segregação se tornaram cruéis e indiferentes demais

para sustentar a “naturalidade” da fronteira — fazendo-a, em vez disso,

refém do livre arbítrio humano. A visão de mundo moderna, afinal,

proclamava o ilimitado potencial de educação e autoaperfeiçoamento. Tudo

era possível, dependendo do esforço e da boa vontade. Ao nascer, o homem

era tabula rasa, um quadro vazio a ser preenchido mais tarde, no curso do

processo civilizador, com conteúdos fornecidos pela pressão niveladora das

ideias culturais do grupo. Paradoxalmente, referir as diferenças entre judeus

e seus anfitriões cristãos unicamente à diversidade de credos e rituais

relacionados parecia se encaixar bem com a visão moderna da natureza

humana. Junto com a rejeição de outros preconceitos, o abandono das

superstições judaicas e a conversão a uma fé superior pareciam ser veículos

adequados e suficientes para o autodesenvolvimento; atitude que só se

poderia esperar, e em escala maciça, no caminho para a vitória final da

razão sobre a ignorância.

O que realmente ameaçava a solidez das velhas fronteiras não era, claro,

a fórmula ideológica da modernidade (embora também não a reforçasse),

mas a recusa do moderno Estado secular a legislar práticas sociais

diferenciadas. Não havia problema aí enquanto os próprios judeus (o “sr.

Cohen” de Drumont) se recusassem a seguir o Estado no seu impulso para a uniformidade e se aferrassem às próprias práticas discriminatórias.

Verdadeira confusão era causada por aqueles judeus, bem mais numerosos,

que efetivamente aceitavam a oferta e se convertiam, quer na forma legada,

religiosa, quer na forma moderna da assimilação cultural. Na França, na

Alemanha e na parte da Áustria-Hungria sob domínio alemão, a

probabilidade de que todos os judeus mais cedo ou mais tarde fossem

“socializados” ou “se autossocializar” como não judeus, tornando-se então

culturalmente indistinguíveis e socialmente invisíveis, era bem real. Na

ausência de velhas práticas de segregação com base legal, essa falta de

marcas diferenciais visíveis só podia equivaler a uma eliminação das

próprias fronteiras.

Nas condições da modernidade, a segregação exigia um método

moderno de traçar fronteiras, um método capaz de suportar e neutralizar o

impacto nivelador e o poder supostamente infinito das forças educadoras e

civilizadoras; um método capaz de delimitar uma área “proibida” à

pedagogia e ao autodesenvolvimento, de traçar um limite intransponível ao

potencial de aquisição de cultura (método avidamente aplicado, mas com

sucesso variável, a todos os grupos que se pretende manter

permanentemente em posição subalterna — por exemplo, as classes

trabalhadoras e as mulheres). Para salvá-la do assalto da moderna

igualdade, a diferenciação dos judeus tinha que ser reformulada e fundada

em novas bases, mais firmes que os poderes humanos da cultura e do livre

arbítrio, da autodeterminação. Como diz a sucinta frase de Hannah Arendt,

o judaísmo tem que ser substituído pela qualidade de judeu: “Os judeus

puderam escapar do judaísmo pela conversão; mas da qualidade de judeus

não havia escapatória.”27

Ao contrário do judaísmo, a condição de judeu tinha que ser

fundamentalmente mais forte que a vontade humana e o potencial criativo

humano. Tinha que situar-se no nível da lei natural (o tipo de lei que tem de

ser descoberta, levada em conta e então explorada em benefício do homem,

mas que não pode ser descartada, falseada ou desprezada — pelo menos

não sem consequências terríveis). Era essa lei que a anedota de Drumont

pretendia lembrar aos leitores: “Quer ver como o sangue fala?” —

perguntou certa vez aos amigos um duque francês que, apesar da

desaprovação chorosa da mãe, havia se casado com uma Rothschild de

Frankfurt. Ele chamou o filhinho, tirou do bolso um luís de ouro e mostrou

a moeda à criança. Os olhos do menino brilharam. “Viram?” — disse o duque. “O instinto semita revela-se de imediato.” Algum tempo mais tarde,

Charles Maurras insistiria que “aquilo que se é determina a atitude da

pessoa desde o início. A ilusão da escolha, da razão, só pode levar ao

déracinement pessoal e ao desastre político.” Só é possível desprezar essa

lei com risco próprio e coletivo — ou pelo menos é o que nos diz Maurice

Barrès: “Confrontada apenas com palavras, uma criança perde todo contato

com a realidade: a doutrina kantiana arranca-a do solo de seus ancestrais.

Um excesso de diplomas cria o que podemos chamar, com Bismarck, de um

‘proletariado de bacharéis’. É a acusação que fazemos às universidades; o

que acontece com o produto delas, o ‘intelectual’, é que ele se torna inimigo

da sociedade.”28 O produto da conversão — seja religiosa ou cultural — não

é a mudança, mas a perda de qualidade. Do outro lado da conversão

espreita um vazio, não outra identidade. O convertido perde sua identidade

sem adquirir nada em troca. O homem é antes de agir; nada que ele faça

pode mudar o que ele é. Esta, grosso modo, é a essência filosófica do

racismo.

 

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