Modernidade e Holocausto
Modernidade do racismo
ordem desejada.
Modernidade do racismo
Uma coisa importante aconteceu aos judeus no caminho para a
modernidade. Eles embarcaram nesse caminho quando eram postos de lado
em segurança, segregados e enclausurados por trás das muralhas de pedra
ou imaginárias da Judengasse. Seu isolamento era um fato da vida, como o
ar e a morte. Não incitava à mobilização do sentimento popular, de
argumentos sofisticados ou ao alerta de autonomeados vigilantes; práticas e
hábitos difusos, muitas vezes não codificados mas no geral bem
coordenados, bastavam para reproduzir a mútua repugnância que garantia a
continuidade da separação. Tudo isso mudou com o advento da
modernidade, com o desmantelamento que produziu nas diferenças legais,
com seus lemas de igualdade e a mais estranha das novidades: a cidadania.
Como coloca Jacob Katz,
Quando os judeus viviam no gueto e imediatamente depois que o deixaram, a acusação contra
eles partia de cidadãos que gozavam de um status legal negado aos judeus. Tais acusações
destinavam-se apenas a justificar e reconfirmar o status quo e a fornecer um fundamento lógico
para manter os judeus numa posição social e legal inferior. Agora, porém, as acusações eram
levantadas por cidadãos como cidadãos iguais perante a lei e o propósito desses indiciamentos
era mostrar que os judeus não mereciam a posição social e legal a eles conferida.25
Não era apenas, por assim dizer, o valor moral ou social que estava em
jogo. O problema era infinitamente mais complicado. Estavam envolvidos
nada menos que o projeto de mecanismos sem precedentes e a aquisição de
habilidades até então impensadas — necessários, uns e outras, para produzir
artificialmente o que no passado se deu naturalmente. Nos tempos pré-
modernos, os judeus foram uma casta entre outras, um povo dentre outros,
uma classe social dentre as classes. Sua especificidade não era uma questão,
um problema, e hábitos e práticas de segregação virtualmente irrefletidos
impediam efetivamente que se tornasse um. Com a ascensão da
modernidade, a separação dos judeus virou de fato um problema. Como
tudo o mais na sociedade moderna, ela agora tinha que ser fabricada,
construída, racionalmente defendida, tecnologicamente planejada,
administrada, supervisionada e executada. Os responsáveis pelas sociedades
pré-modernas podiam assumir a atitude descansada e confiante do couteiro, do guarda-caça: deixada a sua própria conta, a sociedade iria reproduzir-se
ano após ano, geração após geração, praticamente sem uma única mudança
digna de nota. O mesmo não ocorria com sua moderna sucessora. Aqui,
nada mais podia ser tido como certo. Nada cresceria se não fosse plantado e
tudo que crescesse por conta própria devia estar errado e, portanto, ser uma
coisa perigosa a ameaçar ou confundir o plano geral. A complacência do
couteiro seria um luxo que mal se poderia permitir. O que se fazia
necessário, em vez disso, eram a postura e as habilidades do jardineiro,
alguém armado de um detalhado plano do gramado, indicando seus limites
e os regos divisórios entre a grama e as bordas; alguém que entendesse de
combinação de cores e a diferença entre agradável harmonia e detestável
barafunda; alguém com a determinação de tratar como erva daninha toda
planta intrometida que interferisse com o seu plano e a sua visão de ordem e
harmonia; alguém, em suma, com os instrumentos e venenos adequados à
tarefa de exterminar as ervas daninhas e simultaneamente preservar as
divisões tais como exigidas e definidas no desenho geral.
A separação dos judeus perdera sua naturalidade, sugerida no passado
pela segregação territorial e reforçada por uma profusão de sinais e avisos
impositivos. Parecia, agora, irremediavelmente artificial e frágil. O que
antes era um axioma, uma pressuposição aceita tacitamente, tornara-se
verdade a ser demonstrada, provada, e “essência das coisas” escondida por
trás de fenômenos que aparentemente a contradiziam. Nova naturalidade
tinha agora que ser laboriosamente construída e apoiada numa autoridade
outra que não a simples evidência das impressões sensoriais. Como situou
Patrick Girard,
A assimilação judaica na sociedade circundante e o desaparecimento das distinções sociais e
religiosas levaram a uma situação na qual judeus e cristãos não podiam ser diferenciados.
Tendo-se tornado um cidadão como outro qualquer e misturado aos cristãos pelo casamento, o
judeu não era mais identificável. Este fato teve peso significativo para os teóricos antissemitas.
Edouard Drumont, autor do panfleto França judaica, escreveu: “Certo sr. Cohen, que vai à
sinagoga e usa kosher, é uma pessoa respeitável. Não tenho nada contra ele. Desgosta-me, sim,
o judeu que não é óbvio.”
Encontram-se ideias semelhantes na Alemanha, onde os judeus ritualmente de túnica e
cabelos cacheados eram menos alvo de zombarias… que correligionários seus, patriotas
alemães de fé judaica que imitavam o patrício cristão… [O] antissemitismo moderno nasceu
não da grande diferença entre grupos, mas sim da ameaça de não haver diferenças, da
homogeneização da sociedade ocidental e da abolição das antigas barreiras sociais e legais
entre judeus e cristãos.26
A modernidade produziu o nivelamento das diferenças — pelo menos na
sua aparência exterior, de cujo estofo mesmo são feitas as distâncias
simbólicas entre grupos segregados. À falta de tais diferenças, não bastava
meditar filosoficamente sobre a sabedoria da realidade tal como era — algo
que a doutrina cristã havia feito anteriormente quando queria justificar a
separação de fato dos judeus. Agora as diferenças tinham que ser criadas ou
protegidas do espantoso poder de erosão da igualdade social e legal e do
intercâmbio cultural.
A herdada explicação religiosa da fronteira — a rejeição de Cristo pelos
judeus — era singularmente inadequada à nova tarefa. Tal explicação
inevitavelmente implicava a possibilidade de escapar do campo segregado.
Enquanto a fronteira foi nítida e bem traçada, essa explicação serviu a um
bom propósito. Ela fornecia o necessário elemento de flexibilidade que
atava o destino dos homens a sua suposta liberdade de alcançar a salvação
ou pecar, de aceitar ou rejeitar a Graça divina; e conseguia todo o seu
objetivo sem afrouxar sequer minimamente a solidez da própria fronteira. O
mesmo elemento de flexibilidade, no entanto, revelar-se-ia desastroso uma
vez que as práticas de segregação se tornaram cruéis e indiferentes demais
para sustentar a “naturalidade” da fronteira — fazendo-a, em vez disso,
refém do livre arbítrio humano. A visão de mundo moderna, afinal,
proclamava o ilimitado potencial de educação e autoaperfeiçoamento. Tudo
era possível, dependendo do esforço e da boa vontade. Ao nascer, o homem
era tabula rasa, um quadro vazio a ser preenchido mais tarde, no curso do
processo civilizador, com conteúdos fornecidos pela pressão niveladora das
ideias culturais do grupo. Paradoxalmente, referir as diferenças entre judeus
e seus anfitriões cristãos unicamente à diversidade de credos e rituais
relacionados parecia se encaixar bem com a visão moderna da natureza
humana. Junto com a rejeição de outros preconceitos, o abandono das
superstições judaicas e a conversão a uma fé superior pareciam ser veículos
adequados e suficientes para o autodesenvolvimento; atitude que só se
poderia esperar, e em escala maciça, no caminho para a vitória final da
razão sobre a ignorância.
O que realmente ameaçava a solidez das velhas fronteiras não era, claro,
a fórmula ideológica da modernidade (embora também não a reforçasse),
mas a recusa do moderno Estado secular a legislar práticas sociais
diferenciadas. Não havia problema aí enquanto os próprios judeus (o “sr.
Cohen” de Drumont) se recusassem a seguir o Estado no seu impulso para a uniformidade e se aferrassem às próprias práticas discriminatórias.
Verdadeira confusão era causada por aqueles judeus, bem mais numerosos,
que efetivamente aceitavam a oferta e se convertiam, quer na forma legada,
religiosa, quer na forma moderna da assimilação cultural. Na França, na
Alemanha e na parte da Áustria-Hungria sob domínio alemão, a
probabilidade de que todos os judeus mais cedo ou mais tarde fossem
“socializados” ou “se autossocializar” como não judeus, tornando-se então
culturalmente indistinguíveis e socialmente invisíveis, era bem real. Na
ausência de velhas práticas de segregação com base legal, essa falta de
marcas diferenciais visíveis só podia equivaler a uma eliminação das
próprias fronteiras.
Nas condições da modernidade, a segregação exigia um método
moderno de traçar fronteiras, um método capaz de suportar e neutralizar o
impacto nivelador e o poder supostamente infinito das forças educadoras e
civilizadoras; um método capaz de delimitar uma área “proibida” à
pedagogia e ao autodesenvolvimento, de traçar um limite intransponível ao
potencial de aquisição de cultura (método avidamente aplicado, mas com
sucesso variável, a todos os grupos que se pretende manter
permanentemente em posição subalterna — por exemplo, as classes
trabalhadoras e as mulheres). Para salvá-la do assalto da moderna
igualdade, a diferenciação dos judeus tinha que ser reformulada e fundada
em novas bases, mais firmes que os poderes humanos da cultura e do livre
arbítrio, da autodeterminação. Como diz a sucinta frase de Hannah Arendt,
o judaísmo tem que ser substituído pela qualidade de judeu: “Os judeus
puderam escapar do judaísmo pela conversão; mas da qualidade de judeus
não havia escapatória.”27
Ao contrário do judaísmo, a condição de judeu tinha que ser
fundamentalmente mais forte que a vontade humana e o potencial criativo
humano. Tinha que situar-se no nível da lei natural (o tipo de lei que tem de
ser descoberta, levada em conta e então explorada em benefício do homem,
mas que não pode ser descartada, falseada ou desprezada — pelo menos
não sem consequências terríveis). Era essa lei que a anedota de Drumont
pretendia lembrar aos leitores: “Quer ver como o sangue fala?” —
perguntou certa vez aos amigos um duque francês que, apesar da
desaprovação chorosa da mãe, havia se casado com uma Rothschild de
Frankfurt. Ele chamou o filhinho, tirou do bolso um luís de ouro e mostrou
a moeda à criança. Os olhos do menino brilharam. “Viram?” — disse o duque. “O instinto semita revela-se de imediato.” Algum tempo mais tarde,
Charles Maurras insistiria que “aquilo que se é determina a atitude da
pessoa desde o início. A ilusão da escolha, da razão, só pode levar ao
déracinement pessoal e ao desastre político.” Só é possível desprezar essa
lei com risco próprio e coletivo — ou pelo menos é o que nos diz Maurice
Barrès: “Confrontada apenas com palavras, uma criança perde todo contato
com a realidade: a doutrina kantiana arranca-a do solo de seus ancestrais.
Um excesso de diplomas cria o que podemos chamar, com Bismarck, de um
‘proletariado de bacharéis’. É a acusação que fazemos às universidades; o
que acontece com o produto delas, o ‘intelectual’, é que ele se torna inimigo
da sociedade.”28 O produto da conversão — seja religiosa ou cultural — não
é a mudança, mas a perda de qualidade. Do outro lado da conversão
espreita um vazio, não outra identidade. O convertido perde sua identidade
sem adquirir nada em troca. O homem é antes de agir; nada que ele faça
pode mudar o que ele é. Esta, grosso modo, é a essência filosófica do
racismo.
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