Modernidade e Holocausto
Observações finais
sabia”. O que a experiência de Milgram provou no final foi o poder da
especialização e sua capacidade de triunfar sobre os impulsos morais.
Pessoas morais podem ser levadas a cometer atos imorais mesmo que
saibam (ou acreditem) que os atos são imorais — contanto que sejam
convencidas de que os especialistas (pessoas que, por definição, sabem algo
que elas não sabem) definiram suas ações como necessárias. Afinal, a
maioria das ações na nossa sociedade não é legitimada pela discussão dos
seus objetivos, mas pelo conselho ou instrução recebidos de pessoas em
posição de saber.
Observações finais
Reconheço que este capítulo fica bem aquém de formular uma teoria
sociológica alternativa do comportamento moral. Seu intento é muito mais
modesto: discutir algumas fontes de impulso moral além das sociais e
algumas condições socialmente produzidas nas quais se torna possível o
comportamento imoral. Parece que mesmo uma discussão assim limitada
mostra que a sociologia ortodoxa da moralidade precisa de uma revisão
substancial. Uma das suposições ortodoxas que parecem ter falhado de
modo particularmente claro é a de que o comportamento moral nasce da
operação social e é mantido pelo funcionamento de instituições sociais, de
que a sociedade é essencialmente um instrumento moralizador e
humanizador e de que, consequentemente, a incidência de conduta imoral
acima de uma escala marginal pode ser explicada apenas como efeito da
disfunção de arranjos sociais “normais”. O corolário dessa suposição é de
que a imoralidade não pode, em geral, ser socialmente produzida e que suas
verdadeiras causas devem ser buscadas em outra parte.
O que este capítulo pretende dizer é que poderosos impulsos morais têm
sua origem em fatores pré-societários, ao passo que alguns aspectos da
organização societária moderna provocam um considerável
enfraquecimento de seu poder de coerção; que, com efeito, a sociedade
pode tornar a conduta imoral mais, não menos, plausível. A imagem mítica
promovida no Ocidente de que um mundo sem a burocracia e a
especialização modernas seria um mundo governado pela “lei da selva” ou
a “lei do mais forte” evidencia em parte a necessidade de autoafirmação da
burocracia moderna27, que se pôs a destruir a competição de normas
decorrentes de impulsos e propensões que ela não controlava28, e em parte
até que ponto se perdeu e esqueceu a antiga habilidade humana de regular
relações recíprocas com base na responsabilidade moral. O que é então
apresentado e concebido como selvageria a domar e suprimir pode revelar-
se a exame mais detido ser o mesmíssimo impulso que o processo
civilizador se pôs a neutralizar e depois a substituir por pressões
controladoras que emanam da nova estrutura de dominação. Assim que as
forças morais geradas pela proximidade humana são deslegitimadas e
paralisadas, as novas forças que as substituíram adquirem uma liberdade de
manobra sem precedentes. Elas podem gerar uma conduta em escala de
massa que só os criminosos no poder são capazes de definir como
eticamente correta.
Entre as conquistas societárias na esfera da administração da moralidade
é preciso mencionar: a produção social da distância, que ou anula ou
enfraquece a pressão da responsabilidade moral; a substituição da
responsabilidade moral por responsabilidade técnica, o que efetivamente
encobre a importância moral da ação; e a tecnologia da segregação e
separação, que promove a indiferença pela provação do Outro, a qual de
outra forma seria submetida a avaliação moral e a uma resposta moralmente
motivada. É preciso também considerar que todos esses mecanismos de
erosão da moralidade são ainda mais reforçados pelo princípio da soberania
dos poderes do Estado que usurpam a suprema autoridade ética em prol das
sociedades que governam. Exceto pela difusa e muitas vezes ineficaz
“opinião mundial”, os governantes dos Estados não são em geral
constrangidos em sua administração por nenhuma norma que se imponha ao
território do seu governo soberano. Não faltam provas de que, quanto mais
inescrupulosas suas ações nesse campo, mais intensos são os apelos para
sua “pacificação”, o que reconfirma e reforça seu monopólio e ditadura no
campo do juízo moral.
O que se segue é que, na moderna ordem, o antigo conflito sofocleano
entre lei moral e lei social não dá sinais de declínio. Quando nada, tende a
tornar-se mais frequente e mais profundo — e as chances são todas
favoráveis às pressões societárias de supressão da moralidade. Em muitas
ocasiões, comportamento moral significa assumir uma posição considerada
e decretada antissocial ou subversiva pelos poderes instituídos e pela
opinião pública (quer manifesta ou meramente expressa pela ação ou não ação da maioria). A promoção do comportamento moral em tais casos
significa resistência à autoridade e ação societárias que visam a enfraquecer
o seu poder. O dever moral tem que contar puramente com sua fonte: a
responsabilidade humana essencial pelo Outro.
Que esses problemas têm uma urgência além do interesse acadêmico é o
que nos lembram as palavras de Paul Hilberg:
Recordem, de novo, que a questão básica era saber como uma nação ocidental, uma nação
civilizada, foi capaz de tal coisa. E então, logo depois de 1945, vemos a questão totalmente
invertida quando começamos a perguntar: “Há alguma nação ocidental incapaz disso?” … Em
1941 o Holocausto não era esperado e essa é a razão da nossa subsequente ansiedade. Já não
ousamos excluir o inimaginável.29
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