Modernidade e Holocausto
A desumanidade como função da distância social
classe média e todos os psicólogos competentes e respeitados aos quais
Milgram perguntou quais deveriam ser os prováveis resultados da pesquisa
manifestaram-se confiantes de que 100 por cento dos sujeitos se recusariam
a cooperar à medida que aumentasse a crueldade das ações que fossem
instados a praticar e desistiriam de participar em algum ponto bem inicial
da experiência. Na verdade, a proporção de pessoas que efetivamente
retirou sua concordância em participar caiu, em circunstâncias adequadas, a
apenas 30 por cento. A intensidade dos supostos choques elétricos que
estavam dispostas a aplicar era até três vezes maior do que poderiam
imaginar os especialistas e o público leigo.
A desumanidade como função de distância social
Talvez a mais extraordinária descoberta de Milgram foi a da razão inversa
entre a disposição para a crueldade e a proximidade da vítima. É difícil
alarmar uma pessoa que a gente toca. É um tanto mais fácil infligir dor a
uma pessoa que vemos apenas a certa distância. É ainda mais fácil no caso
de uma pessoa que apenas ouvimos. É bem fácil ser cruel com uma pessoa
que nem vemos nem ouvimos.
Se alarmar uma pessoa envolve o contato corporal direto, o executor do
ato de crueldade tem negado o conforto de não ver a ligação causal entre a
sua ação e o sofrimento da vítima. A ligação causal é nua e crua, óbvia, e
assim também a responsabilidade pela dor. Quando os sujeitos das
experiências de Milgram eram instados a pressionar a mão da vítima no
prato através do qual era supostamente aplicado o choque elétrico, apenas
30 por cento continuavam a obedecer o comando até o fim da experiência.
Quando, em vez de agarrar a mão da vítima, pediam que apenas
manipulasse as alavancas do painel de controle, a proporção de obedientes
subia para 40 por cento. Quando as vítimas eram escondidas atrás de uma
parede, de modo que apenas os seus gritos de agonia eram ouvidos, o
número de pessoas dispostas a “levar a coisa até o fim” pulava para 62,5
por cento. Desligar o som dos gritos não elevava muito essa porcentagem
— apenas ia a 65 por cento. Parece que sentimos mais pela visão. Quanto
maior a distância física e psíquica da vítima, mais fácil era ser cruel. A
conclusão de Milgram é simples e convincente:
Qualquer força ou evento, colocado entre o sujeito e as consequências de submeter a vítima ao
choque levará a uma redução da tensão do participante e portanto diminuirá sua obediência. Na
sociedade moderna, outras [forças e eventos] muitas vezes se colocam entre nós e o ato
destrutivo final para o qual contribuímos.4
Com efeito, mediar a ação, dividi-la em estágios delineados e separados
pela hierarquia da autoridade e recortá-la em especializações funcionais é
uma das conquistas mais salientes e orgulhosamente propagandeadas da
nossa sociedade racional. O significado da descoberta de Milgram é que,
imanente e irrecuperavelmente, o processo de racionalização facilita o
comportamento desumano e cruel nas suas consequências, quando não nas
intenções. Quanto mais racional a organização da ação, mais fácil se torna
produzir sofrimento — e ficar em paz consigo mesmo.
A razão pela qual a separação da vítima torna a crueldade mais fácil
parece psicologicamente óbvia: o executor é poupado da agonia de
testemunhar o resultado de seus atos. Pode até mesmo se deixar crer que
nada realmente desastroso aconteceu, com isso aplacando o peso da
consciência. Mas esta não é a única explicação. De novo, as razões não são
apenas físicas. Como tudo o que de fato explica a conduta humana, essas
razões são sociais.
Colocar a vítima em outro quarto não apenas a leva para mais longe do sujeito; também torna
sujeito e pesquisador relativamente mais próximos. Há uma incipiente função de grupo entre
pesquisador e sujeito da pesquisa, da qual a vítima é excluída. Na condição de afastamento, a
vítima é realmente uma pessoa fora da situação, sozinha física e psicologicamente.5
A solidão da vítima não é apenas uma questão de separação física. É
uma função da conjunção dos seus atormentadores e da sua exclusão dessa
conjunção. A proximidade física e a contínua colaboração (mesmo em um
período relativamente curto — ninguém foi submetido aí a experiência de
mais de uma hora) tende a resultar num sentimento de grupo, completado
com as mútuas obrigações e solidariedade que ele normalmente produz.
Este sentimento de grupo é produzido pela ação conjunta, particularmente
pela complementaridade das ações individuais — quando o resultado é
evidentemente alcançado pelo esforço partilhado. Nas experiências de
Milgram, a ação unia o sujeito com o pesquisador e simultaneamente
separava os dois da vítima. Em nenhuma ocasião a vítima desfrutava do
papel de ator, agente ou sujeito. Ao contrário, era sempre mantida na
extremidade receptiva. Inequivocamente, era transformada em objeto; e,
como sucede aos objetos da ação, não importava muito se era humana ou inanimada. Assim, a solidão da vítima e a conjunção dos seus