Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 37 de 52

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Modernidade e Holocausto

A desumanidade como função da distância social

classe média e todos os psicólogos competentes e respeitados aos quais

Milgram perguntou quais deveriam ser os prováveis resultados da pesquisa

manifestaram-se confiantes de que 100 por cento dos sujeitos se recusariam

a cooperar à medida que aumentasse a crueldade das ações que fossem

instados a praticar e desistiriam de participar em algum ponto bem inicial

da experiência. Na verdade, a proporção de pessoas que efetivamente

retirou sua concordância em participar caiu, em circunstâncias adequadas, a

apenas 30 por cento. A intensidade dos supostos choques elétricos que

estavam dispostas a aplicar era até três vezes maior do que poderiam

imaginar os especialistas e o público leigo.

 

A desumanidade como função de distância social

 

Talvez a mais extraordinária descoberta de Milgram foi a da razão inversa

entre a disposição para a crueldade e a proximidade da vítima. É difícil

alarmar uma pessoa que a gente toca. É um tanto mais fácil infligir dor a

uma pessoa que vemos apenas a certa distância. É ainda mais fácil no caso

de uma pessoa que apenas ouvimos. É bem fácil ser cruel com uma pessoa

que nem vemos nem ouvimos.

Se alarmar uma pessoa envolve o contato corporal direto, o executor do

ato de crueldade tem negado o conforto de não ver a ligação causal entre a

sua ação e o sofrimento da vítima. A ligação causal é nua e crua, óbvia, e

assim também a responsabilidade pela dor. Quando os sujeitos das

experiências de Milgram eram instados a pressionar a mão da vítima no

prato através do qual era supostamente aplicado o choque elétrico, apenas

30 por cento continuavam a obedecer o comando até o fim da experiência.

Quando, em vez de agarrar a mão da vítima, pediam que apenas

manipulasse as alavancas do painel de controle, a proporção de obedientes

subia para 40 por cento. Quando as vítimas eram escondidas atrás de uma

parede, de modo que apenas os seus gritos de agonia eram ouvidos, o

número de pessoas dispostas a “levar a coisa até o fim” pulava para 62,5

por cento. Desligar o som dos gritos não elevava muito essa porcentagem

— apenas ia a 65 por cento. Parece que sentimos mais pela visão. Quanto

maior a distância física e psíquica da vítima, mais fácil era ser cruel. A

conclusão de Milgram é simples e convincente:

Qualquer força ou evento, colocado entre o sujeito e as consequências de submeter a vítima ao

choque levará a uma redução da tensão do participante e portanto diminuirá sua obediência. Na

sociedade moderna, outras [forças e eventos] muitas vezes se colocam entre nós e o ato

destrutivo final para o qual contribuímos.4

 

Com efeito, mediar a ação, dividi-la em estágios delineados e separados

pela hierarquia da autoridade e recortá-la em especializações funcionais é

uma das conquistas mais salientes e orgulhosamente propagandeadas da

nossa sociedade racional. O significado da descoberta de Milgram é que,

imanente e irrecuperavelmente, o processo de racionalização facilita o

comportamento desumano e cruel nas suas consequências, quando não nas

intenções. Quanto mais racional a organização da ação, mais fácil se torna

produzir sofrimento — e ficar em paz consigo mesmo.

A razão pela qual a separação da vítima torna a crueldade mais fácil

parece psicologicamente óbvia: o executor é poupado da agonia de

testemunhar o resultado de seus atos. Pode até mesmo se deixar crer que

nada realmente desastroso aconteceu, com isso aplacando o peso da

consciência. Mas esta não é a única explicação. De novo, as razões não são

apenas físicas. Como tudo o que de fato explica a conduta humana, essas

razões são sociais.

 

Colocar a vítima em outro quarto não apenas a leva para mais longe do sujeito; também torna

sujeito e pesquisador relativamente mais próximos. Há uma incipiente função de grupo entre

pesquisador e sujeito da pesquisa, da qual a vítima é excluída. Na condição de afastamento, a

vítima é realmente uma pessoa fora da situação, sozinha física e psicologicamente.5

 

A solidão da vítima não é apenas uma questão de separação física. É

uma função da conjunção dos seus atormentadores e da sua exclusão dessa

conjunção. A proximidade física e a contínua colaboração (mesmo em um

período relativamente curto — ninguém foi submetido aí a experiência de

mais de uma hora) tende a resultar num sentimento de grupo, completado

com as mútuas obrigações e solidariedade que ele normalmente produz.

Este sentimento de grupo é produzido pela ação conjunta, particularmente

pela complementaridade das ações individuais — quando o resultado é

evidentemente alcançado pelo esforço partilhado. Nas experiências de

Milgram, a ação unia o sujeito com o pesquisador e simultaneamente

separava os dois da vítima. Em nenhuma ocasião a vítima desfrutava do

papel de ator, agente ou sujeito. Ao contrário, era sempre mantida na

extremidade receptiva. Inequivocamente, era transformada em objeto; e,

como sucede aos objetos da ação, não importava muito se era humana ou inanimada. Assim, a solidão da vítima e a conjunção dos seus