Modernidade e Holocausto
Pluralismo do poder e poder da consciência
significa na prática que a autoridade moral, como tal, ficou incapacitada,
sem ter sido abertamente desafiada ou negada.
Pluralismo do poder e poder da consciência
Como em todas as experiências, os estudos de Milgram foram conduzidos
num ambiente artificial, propositalmente planejado, que diferia em dois
aspectos importantes do contexto da vida cotidiana. Primeiro, a ligação dos
sujeitos com a “organização” (a equipe de pesquisa e a universidade que
integrava) foi breve e ad hoc e de antemão se sabia que seria assim; os
sujeitos foram contratados por uma hora e por uma hora apenas. Segundo,
na maioria das experiências os sujeitos eram confrontados com apenas um
superior, alguém que agia como verdadeiro modelo de honestidade e
consistência, de modo a fazer os sujeitos da pesquisa perceberem os
poderes que autorizavam sua conduta como monolíticos e absolutamente
seguros do propósito e significado da sua ação. Nenhuma das duas
condições é encontrada com frequência na vida normal. É preciso
considerar, portanto, se e em que medida elas podem ter influenciado o
comportamento dos sujeitos de maneira não esperada em circunstâncias
normais.
Começando com o primeiro ponto: o impacto da autoridade
demonstrado de forma tão convincente por Milgram seria, quando nada,
ainda mais profundo se os sujeitos estivessem convencidos da permanência
de sua ligação com a organização representada pela autoridade ou pelo
menos convencidos de que a chance dessa permanência era real. Fatores
adicionais, ausentes das experiências por razões óbvias, entrariam então em
jogo: fatores como a solidariedade e o sentimento de dever recíproco do
tipo “não posso falhar com ele”, que costumam se desenvolver entre os
membros de uma equipe que trabalha junto resolvendo problemas comuns
por um longo período, a difusa reciprocidade (serviços espontaneamente
oferecidos a outros membros do grupo, que se espera, ainda que de forma
meio inconsciente, sejam “retribuídos” em algum momento não
especificado no futuro, ou que simplesmente resultem numa boa disposição
do colega ou superior, a qual igualmente possa ser de alguma utilidade não
especificada no futuro) e, o mais importante de tudo, a rotina (sequência comportamental inteiramente costumeira que torna o cálculo e a escolha
redundantes e que faz, portanto, os padrões estabelecidos de ação
praticamente incontestáveis mesmo na ausência de qualquer outro reforço).
Parece muito provável que estes e outros fatores semelhantes revigorem as
tendências observadas por Milgram: essas tendências decorrem da
exposição a uma autoridade legítima e os fatores acima relacionados
certamente reforçam essa legitimidade, que só podem aumentar num
período de tempo longo o bastante para permitir que se desenvolva uma
tradição e surjam variados padrões informais de troca entre os membros da
equipe.
O segundo desvio das condições normais deve ter, no entanto,
influenciado as observadas reações à autoridade de uma forma que não é de
se esperar na vida cotidiana. Nas condições artificiais cuidadosamente
controladas por Milgram, havia uma fonte de autoridade, e apenas uma, e
nenhum outro quadro de referência de igual estatura (ou mesmo,
simplesmente, outra opinião autônoma) com a qual o sujeito poderia
confrontar o comando de modo a colocar sua validade em uma espécie de
teste objetivo. Milgram estava plenamente consciente da possibilidade de
distorção que devia permitir tal caráter artificialmente monolítico de
autoridade. Para revelar a extensão da distorção, acrescentou ao projeto
uma série de experiências nas quais os sujeitos eram confrontados com mais
de um pesquisador e os pesquisadores eram instruídos a discordar
abertamente e a discutir sobre o comando. O resultado foi realmente
abalador: a obediência servil observada em todas as demais experiências
desapareceu sem deixar vestígio. Os sujeitos já não estavam dispostos a
envolver-se em ações que não lhes agradavam; sem dúvida não seriam
levados a infligir sofrimento a vítimas, mesmo desconhecidas. De vinte
sujeitos dessa experiência extra, um desistiu antes de começar a encenada
discordância entre dois pesquisadores, dezoito recusaram-se a continuar
colaborando ao primeiro sinal de discordância e um desistiu apenas um
estágio adiante. “Fica claro que o desacordo entre as autoridades paralisou
completamente a ação.” 11
O significado de correção não oferece ambiguidade: a disposição de
agir contra a própria opinião e contra a própria consciência não é função
apenas do comando autoritário, mas resultado da exposição a uma fonte
clara, inequívoca e monolítica de autoridade. É muito provável que tal
disposição apareça dentro de uma organização que não suporta oposição e não tolera qualquer autonomia, na qual a hierarquia linear de subordinação
não conhece exceção: uma organização na qual dois membros não têm
nunca o mesmo poder. (A maioria dos exércitos, institutos penais, partidos e
movimentos totalitários, algumas seitas e internatos chegam perto desse
modelo ideal.) Tal organização, no entanto, será provavelmente eficaz numa
das duas condições. Pode isolar rigidamente seus membros do resto da
sociedade, tendo assegurado ou usurpado um controle indisputado sobre as
atividades e necessidades vitais da maioria ou totalidade deles (assim
aproximando-se do modelo de instituição total de Goffman), de modo que a
possível influência de fontes competitivas de autoridade é eliminada. Ou
pode simplesmente ser um dos ramos do Estado totalitário ou quase
totalitário, que transforma todas as suas agências em cópias umas das
outras.
Como coloca Milgram, só quando se tem … uma autoridade que …
opera num campo livre sem nenhuma pressão contrária além dos protestos
da vítima é que se consegue a resposta mais pura à autoridade. Na vida real,
claro, somos confrontados com grande número de pressões contrárias que
se anulam mutuamente.12 O que Milgram deve ter querido dizer com “vida
real” era a vida numa sociedade democrática e fora de uma instituição total:
mais precisamente ainda, a vida nas condições do pluralismo. Uma
conclusão bastante notável do conjunto de suas experiências é que o
pluralismo é o melhor medicamento preventivo contra pessoas moralmente
normais envolvendo-se em ações moralmente anormais. Os nazistas
tiveram primeiro que destruir todo vestígio de pluralismo político para
deslanchar projetos como o do Holocausto, no qual a esperada disposição
das pessoas comuns para ações desumanas e imorais tinha que ser calculada
entre os recursos necessários — e disponíveis. Na URSS, a sistemática
destruição dos reais ou supostos adversários do sistema ficou de fato séria
somente depois de ter sido extirpado todo resíduo de autonomia social e,
portanto, do pluralismo político que a refletia. Se o pluralismo não for
eliminado em escala societária global, organizações com propósitos
criminosos, que precisam assegurar uma persistente obediência de seus
membros na execução de atos evidentemente imorais, ficam obrigadas à
tarefa de erguer rígidas barreiras para isolar seus membros da influência
“deliquescente” da diversidade de padrões e opiniões. A voz da consciência
moral individual é melhor ouvida no tumulto da discórdia política e social.