Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 22 de 52

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Modernidade e Holocausto

O problema

criminosos, ladrões e sub-humanos sem cultura;2 os iraquianos envenenam

com gás seus concidadãos curdos sem sequer se dar ao trabalho de insultá-

los antes; grupos do povo tâmil massacram cingaleses; etíopes exterminam

eritreus; ugandenses exterminam a si mesmos (ou foi o contrário?). Tudo

isso é triste, claro, mas o que tem a ver conosco? Se isso tudo prova alguma

coisa, certamente prova como é ruim ser diferente de nós e como é bom

estar são e salvo atrás do escudo de nossa civilização superior.

O ponto até o qual nossa complacência pode acabar se revelando

refratária fica evidente se lembrarmos que, ainda em 1941, o Holocausto

não era esperado; que, dado o conhecimento então existente dos “fatos”,

não era de esperar-se; e que, passado apenas um ano, sua realidade

deparava-se com a incredulidade geral. As pessoas recusavam-se a acreditar

nos fatos gritantes diante dos seus olhos. Não que fossem obtusas ou

tivessem má vontade. Apenas, nada do que tinham visto antes as havia

preparado para acreditar. Por tudo o que conheciam e acreditavam, o

assassinato em massa para o qual ainda nem tinham nome era pura e

simplesmente inimaginável. Em 1988, é de novo inimaginável. Mas em

1988 sabemos o que não sabíamos em 1941: que também o inimaginável

deve ser imaginado.

 

O problema

 

Há duas razões pelas quais o Holocausto, ao contrário de muitos outros

temas de estudo acadêmico, não pode ser visto como assunto de interesse

exclusivamente acadêmico e pelas quais o problema que levanta não pode

ser reduzido a matéria de pesquisa histórica e contemplação filosófica.

A primeira é que, mesmo sendo plausível que o Holocausto, “como

acontecimento histórico fundamental — à semelhança da Revolução

Francesa, da Descoberta da América ou da roda — tenha mudado o curso

da história subsequente”3, com toda a certeza mudou pouco, se é que

mudou, o curso da história subsequente de nossa consciência coletiva e

autopercepção. Causou pouco impacto visível na imagem que fazemos do

significado e da tendência histórica da civilização moderna. Deixou as

ciências em geral, e a sociologia em particular, virtualmente intactas e

imóveis, exceto pelas áreas ainda marginais da pesquisa especializada e por

alguns alertas obscuros e sinistros sobre as propensões mórbidas da modernidade. Ambas exceções mantidas consistentemente à distância do

cânone da prática sociológica. Por essas razões, não avançou muito nossa

compreensão dos fatores e mecanismos que um dia tornaram possível o

Holocausto. E com essa compreensão não muito desenvolvida do que se

passou meio século atrás poderemos estar mais uma vez despreparados para

notar e decodificar os sinais de alerta — se estiverem agora, como

estiveram então, flagrantemente exibidos por toda parte.

A segunda razão é que, o que quer que tenha acontecido ao “curso da

história”, não aconteceu muita coisa àqueles produtos da história que com

toda a probabilidade continham o potencial do Holocausto — ou pelo

menos não podemos ter certeza do contrário. Até onde se sabe (ou, melhor,

até onde não se sabe), eles podem ainda estar entre nós, à espera de uma

oportunidade. Só podemos suspeitar que as condições que um dia deram

origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas. Se havia algo

em nossa ordem social que tornou possível o Holocausto em 1941, não

podemos ter certeza de que foi eliminado desde então. Um número cada vez

maior de estudiosos renomados e respeitados nos alerta de que é melhor não

sermos complacentes.

 

A ideologia e o sistema que deram origem a [Auschwitz] permanecem intactos. Isso significa

que a própria nação-Estado está fora de controle e é capaz de desencadear atos de canibalismo

social em escala sequer sonhada. Se não for controlada, ela pode consumir toda uma

civilização pelo fogo. Ela não pode carregar uma missão humanitária; suas transgressões não

podem ser controladas por códigos legais ou morais, ela não tem consciência. (Harry L.

Feingold) 4

 

Muitas características da sociedade “civilizada” contemporânea encorajam o fácil recurso a

holocaustos genocidas…

O Estado territorial soberano reivindica, como parte integral de sua soberania, o direito de

cometer genocídio ou promover massacres genocidas de povos sob o seu governo e… a ONU,

para todos os efeitos práticos, defende esse direito. (Leo Kuper) 5

 

Dentro de certos limites estabelecidos por questões de poder político e

militar, o Estado moderno pode fazer o que bem entende àqueles sob seu

controle. Não há limite ético-moral que o Estado não possa transcender para

fazer o que quiser, porque não há poder ético-moral mais alto que o Estado.

Em matéria de ética e moralidade, a situação do indivíduo no Estado

moderno é em princípio rigorosamente equivalente à do prisioneiro em

Auschwitz: ou age de acordo com os padrões dominantes de conduta

impostos pelos que detêm a autoridade ou se arrisca a todas as

consequências que eles queiram infligir…

A existência agora está reconhecidamente cada vez mais de acordo com os princípios que

governavam a vida e a morte em Auschwitz. (George M. Kren e Leon Rappoport)6

 

Esmagados pelas emoções que mesmo uma leitura superficial dos

números do Holocausto não pode senão despertar, alguns dos autores

citados são propensos a exagerar. Algumas das suas afirmações são

incríveis e sem dúvida de um alarmismo indevido. Podem ser mesmo

contraproducentes; se tudo o que conhecemos é como Auschwitz, então

pode-se viver com Auschwitz e em muitos casos viver até razoavelmente

bem. Se os princípios que regeram a vida e a morte dos prisioneiros de

Auschwitz eram semelhantes aos que nos regem agora, então por que toda

essa grita, toda essa lamentação? Na verdade, seria de bom alvitre evitar a

tentação de usar as imagens desumanas do Holocausto a serviço de uma

posição partidarista sobre conflitos humanos maiores ou menores mas no

geral corriqueiros, de rotina. O extermínio em massa foi a forma extrema de

antagonismo e opressão, mas nem todos os casos de opressão, ódio e

injustiça comunitários são “como” o Holocausto. A similaridade

premeditada e portanto superficial é mau guia para a análise de causas. Ao

contrário do que sugerem Kren e Rappoport, ter que optar pela

conformidade ou arcar com as consequências da desobediência não

significa necessariamente viver em Auschwitz, e os princípios pregados e

praticados pela maioria dos Estados contemporâneos não bastam para

transformar seus cidadãos em vítimas do Holocausto.

A verdadeira causa de preocupação, que não pode ser facilmente negada

ou descartada como consequência natural embora enganadora do trauma

pós-Holocausto, está em outra parte. Pode ser colhida em dois fatos

relacionados.

Primeiro, processos ideativos que por sua própria lógica interna podem

levar a projetos de genocídio e os recursos técnicos que permitem a sua

efetivação, não apenas se revelaram plenamente compatíveis com a

civilização moderna, como foram condicionados, criados e fornecidos por

ela. O Holocausto não só, misteriosamente, evitou o choque com as normas

e instituições sociais da modernidade, mas foram essas normas e

instituições que o tornaram factível. Sem a civilização moderna e suas

conquistas mais fundamentais, não teria havido Holocausto.

Segundo, mostraram-se ineficazes todas essas redes intricadas de

controle e equilíbrio, barreiras e obstáculos que o processo civilizador erigiu e que, como esperamos e confiamos, nos defenderiam da violência e