Modernidade e Holocausto
O problema
criminosos, ladrões e sub-humanos sem cultura;2 os iraquianos envenenam
com gás seus concidadãos curdos sem sequer se dar ao trabalho de insultá-
los antes; grupos do povo tâmil massacram cingaleses; etíopes exterminam
eritreus; ugandenses exterminam a si mesmos (ou foi o contrário?). Tudo
isso é triste, claro, mas o que tem a ver conosco? Se isso tudo prova alguma
coisa, certamente prova como é ruim ser diferente de nós e como é bom
estar são e salvo atrás do escudo de nossa civilização superior.
O ponto até o qual nossa complacência pode acabar se revelando
refratária fica evidente se lembrarmos que, ainda em 1941, o Holocausto
não era esperado; que, dado o conhecimento então existente dos “fatos”,
não era de esperar-se; e que, passado apenas um ano, sua realidade
deparava-se com a incredulidade geral. As pessoas recusavam-se a acreditar
nos fatos gritantes diante dos seus olhos. Não que fossem obtusas ou
tivessem má vontade. Apenas, nada do que tinham visto antes as havia
preparado para acreditar. Por tudo o que conheciam e acreditavam, o
assassinato em massa para o qual ainda nem tinham nome era pura e
simplesmente inimaginável. Em 1988, é de novo inimaginável. Mas em
1988 sabemos o que não sabíamos em 1941: que também o inimaginável
deve ser imaginado.
O problema
Há duas razões pelas quais o Holocausto, ao contrário de muitos outros
temas de estudo acadêmico, não pode ser visto como assunto de interesse
exclusivamente acadêmico e pelas quais o problema que levanta não pode
ser reduzido a matéria de pesquisa histórica e contemplação filosófica.
A primeira é que, mesmo sendo plausível que o Holocausto, “como
acontecimento histórico fundamental — à semelhança da Revolução
Francesa, da Descoberta da América ou da roda — tenha mudado o curso
da história subsequente”3, com toda a certeza mudou pouco, se é que
mudou, o curso da história subsequente de nossa consciência coletiva e
autopercepção. Causou pouco impacto visível na imagem que fazemos do
significado e da tendência histórica da civilização moderna. Deixou as
ciências em geral, e a sociologia em particular, virtualmente intactas e
imóveis, exceto pelas áreas ainda marginais da pesquisa especializada e por
alguns alertas obscuros e sinistros sobre as propensões mórbidas da modernidade. Ambas exceções mantidas consistentemente à distância do
cânone da prática sociológica. Por essas razões, não avançou muito nossa
compreensão dos fatores e mecanismos que um dia tornaram possível o
Holocausto. E com essa compreensão não muito desenvolvida do que se
passou meio século atrás poderemos estar mais uma vez despreparados para
notar e decodificar os sinais de alerta — se estiverem agora, como
estiveram então, flagrantemente exibidos por toda parte.
A segunda razão é que, o que quer que tenha acontecido ao “curso da
história”, não aconteceu muita coisa àqueles produtos da história que com
toda a probabilidade continham o potencial do Holocausto — ou pelo
menos não podemos ter certeza do contrário. Até onde se sabe (ou, melhor,
até onde não se sabe), eles podem ainda estar entre nós, à espera de uma
oportunidade. Só podemos suspeitar que as condições que um dia deram
origem ao Holocausto não foram radicalmente transformadas. Se havia algo
em nossa ordem social que tornou possível o Holocausto em 1941, não
podemos ter certeza de que foi eliminado desde então. Um número cada vez
maior de estudiosos renomados e respeitados nos alerta de que é melhor não
sermos complacentes.
A ideologia e o sistema que deram origem a [Auschwitz] permanecem intactos. Isso significa
que a própria nação-Estado está fora de controle e é capaz de desencadear atos de canibalismo
social em escala sequer sonhada. Se não for controlada, ela pode consumir toda uma
civilização pelo fogo. Ela não pode carregar uma missão humanitária; suas transgressões não
podem ser controladas por códigos legais ou morais, ela não tem consciência. (Harry L.
Feingold) 4
Muitas características da sociedade “civilizada” contemporânea encorajam o fácil recurso a
holocaustos genocidas…
O Estado territorial soberano reivindica, como parte integral de sua soberania, o direito de
cometer genocídio ou promover massacres genocidas de povos sob o seu governo e… a ONU,
para todos os efeitos práticos, defende esse direito. (Leo Kuper) 5
Dentro de certos limites estabelecidos por questões de poder político e
militar, o Estado moderno pode fazer o que bem entende àqueles sob seu
controle. Não há limite ético-moral que o Estado não possa transcender para
fazer o que quiser, porque não há poder ético-moral mais alto que o Estado.
Em matéria de ética e moralidade, a situação do indivíduo no Estado
moderno é em princípio rigorosamente equivalente à do prisioneiro em
Auschwitz: ou age de acordo com os padrões dominantes de conduta
impostos pelos que detêm a autoridade ou se arrisca a todas as
consequências que eles queiram infligir…
A existência agora está reconhecidamente cada vez mais de acordo com os princípios que
governavam a vida e a morte em Auschwitz. (George M. Kren e Leon Rappoport)6
Esmagados pelas emoções que mesmo uma leitura superficial dos
números do Holocausto não pode senão despertar, alguns dos autores
citados são propensos a exagerar. Algumas das suas afirmações são
incríveis e sem dúvida de um alarmismo indevido. Podem ser mesmo
contraproducentes; se tudo o que conhecemos é como Auschwitz, então
pode-se viver com Auschwitz e em muitos casos viver até razoavelmente
bem. Se os princípios que regeram a vida e a morte dos prisioneiros de
Auschwitz eram semelhantes aos que nos regem agora, então por que toda
essa grita, toda essa lamentação? Na verdade, seria de bom alvitre evitar a
tentação de usar as imagens desumanas do Holocausto a serviço de uma
posição partidarista sobre conflitos humanos maiores ou menores mas no
geral corriqueiros, de rotina. O extermínio em massa foi a forma extrema de
antagonismo e opressão, mas nem todos os casos de opressão, ódio e
injustiça comunitários são “como” o Holocausto. A similaridade
premeditada e portanto superficial é mau guia para a análise de causas. Ao
contrário do que sugerem Kren e Rappoport, ter que optar pela
conformidade ou arcar com as consequências da desobediência não
significa necessariamente viver em Auschwitz, e os princípios pregados e
praticados pela maioria dos Estados contemporâneos não bastam para
transformar seus cidadãos em vítimas do Holocausto.
A verdadeira causa de preocupação, que não pode ser facilmente negada
ou descartada como consequência natural embora enganadora do trauma
pós-Holocausto, está em outra parte. Pode ser colhida em dois fatos
relacionados.
Primeiro, processos ideativos que por sua própria lógica interna podem
levar a projetos de genocídio e os recursos técnicos que permitem a sua
efetivação, não apenas se revelaram plenamente compatíveis com a
civilização moderna, como foram condicionados, criados e fornecidos por
ela. O Holocausto não só, misteriosamente, evitou o choque com as normas
e instituições sociais da modernidade, mas foram essas normas e
instituições que o tornaram factível. Sem a civilização moderna e suas
conquistas mais fundamentais, não teria havido Holocausto.
Segundo, mostraram-se ineficazes todas essas redes intricadas de
controle e equilíbrio, barreiras e obstáculos que o processo civilizador erigiu e que, como esperamos e confiamos, nos defenderiam da violência e