Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 4 de 52

Páginas do PDF

Modernidade e Holocausto

O significado do processo civilizador

por preocupações outras que não escatológicas).14

Esse estado de coisas é preocupante não apenas (e de modo algum

basicamente) por razões profissionais — por mais pernicioso que possa ser

para os poderes cognitivos e a importância social da sociologia. O que torna

esta situação muito mais perturbadora é a consciência de que “isso poderia

acontecer nessa escala maciça em outro lugar, portanto poderia acontecer

em qualquer lugar; está tudo dentro da ordem das possibilidades humanas e,

gostem ou não, Auschwitz expande o universo da consciência não menos

do que o pouso na lua”.15 Dificilmente pode ser reduzida a ansiedade, tendo

em vista o fato de que nenhuma das condições que tornaram Auschwitz

possível realmente desapareceu e nenhuma medida efetiva foi tomada para

evitar que tais possibilidades e princípios gerem catástrofes semelhantes a

Auschwitz; como Leo Kuper recentemente descobriu, “o Estado territorial

soberano reivindica, como parte integrante de sua soberania, o direito de

cometer genocídio ou envolver-se em massacres genocidas de pessoas sob a

sua autoridade, e… a ONU, para todos os efeitos práticos, defende esse

direito.”16

Um serviço póstumo que o Holocausto pode prestar é fornecer um

insight dos “outros aspectos”, de outra forma despercebidos, dos princípios

societários entronizados pela história moderna. Proponho que a experiência

do Holocausto, agora já inteiramente pesquisada pelos historiadores,

deveria ser encarada, por assim dizer, como um “laboratório” sociológico.

O Holocausto expôs e examinou em condições “não laboratoriais” atributos

não revelados de nossa sociedade e portanto não acessíveis empiricamente.

Em outras palavras, proponho tratar o Holocausto como um teste raro, mas

importante e confiável das possibilidades ocultas da sociedade moderna.

 

O significado do processo civilizador

 

O mito etiológico profundamente arraigado na consciência da nossa

sociedade ocidental é a história moralmente edificante da humanidade

emergindo da barbárie pré-social. Esse mito emprestou estímulo e

popularidade a várias teorias sociológicas e narrativas históricas influentes e

em troca recebeu delas um apoio sofisticado e douto; ligação mais

recentemente ilustrada pelo surto de eminência e fama súbita da visão de Elias sobre o “processo civilizador”. Opiniões contrárias de teóricos sociais

contemporâneos (vejam, por exemplo, as análises completas de processos

civilizadores multifários: históricas e comparativas de Michael Mann,

sintéticas e teóricas de Anthony Giddens), que enfatizam o aumento da

violência militar e do uso desenfreado da coerção como os atributos mais

cruciais da emergência e duração das grandes civilizações, têm ainda muito

a percorrer antes que consigam deslocar o mito etiológico da consciência

pública ou mesmo do difuso folclore da profissão. De modo geral, a opinião

leiga ressente-se de todo desafio ao mito. Sua resistência é sustentada, além

disso, por uma ampla coalizão de opiniões doutas e respeitáveis que inclui

autoridades tão poderosas como a “visão whig” da história como sendo a

luta vitoriosa entre razão e superstição; a visão weberiana da racionalização

como um movimento rumo à obtenção de mais com menos esforço; a

promessa psicanalítica de desmascarar, acuar e domar o animal que existe

no homem; a grandiosa profecia de vida feita por Marx, com a sociedade

vindo a ter o pleno controle da espécie humana uma vez livre dos atuais e

debilitantes paroquialismos; o retrato que Elias faz da história recente como

sendo aquela que elimina a violência da vida diária; e, acima de tudo, o

coro de especialistas que nos garantem que os problemas humanos são

questão de políticas erradas e que as políticas certas significam eliminação

de problemas. Por trás da aliança resiste o moderno Estado “jardineiro”, que

vê a sociedade sob seu comando como objeto de planejamento, cultivo e

extirpação de ervas daninhas.

Em vista desse mito, de há muito sedimentado no senso comum da nossa

época, o Holocausto só pode ser compreendido como o fracasso da

civilização (isto é, da atividade humana com um propósito, guiada pela

razão) em conter as predileções mórbidas naturais do que quer que tenha

restado de natural no homem. Obviamente, o mundo hobbesiano ainda não

foi totalmente amarrado, o problema hobbesiano não foi totalmente

resolvido. Em outras palavras, ainda não temos suficiente civilização. O

inconcluso processo civilizador ainda tem que ser concluído. Se a lição do

assassinato em massa de fato nos ensina algo é que a prevenção de

semelhantes barbaridades evidentemente ainda requer mais esforços

civilizadores. Não há nada nessa lição que lance dúvidas sobre a futura

eficiência de tais esforços e seus resultados últimos. Certamente estamos

indo na direção certa; talvez não estejamos indo é rápido o bastante.

À medida que o quadro completo emerge da pesquisa histórica, surge

também uma interpretação alternativa do Holocausto — possivelmente de

mais crédito — como um evento que revelou a fraqueza e fragilidade da

natureza humana (a abominação do assassinato, a aversão à violência, o

medo da consciência culpada e a responsabilidade pelo comportamento

imoral) quando confrontada com a simples eficiência dos mais acalentados

produtos da civilização; sua tecnologia, seus critérios racionais de escolha,

sua tendência a subordinar pensamento e ação à praticidade da economia e

da eficiência. O mundo hobbesiano do Holocausto não veio à tona saindo

de sua sepultura rasa demais, ressuscitado pelo tumulto das emoções

irracionais. Apareceu (de uma forma formidável que Hobbes certamente

desautorizaria) num veículo de produção industrial, empunhando armas que

só a ciência mais avançada poderia fornecer e seguindo um itinerário

traçado por uma organização cientificamente administrada. A civilização

moderna não foi a condição suficiente do Holocausto; foi, no entanto, com

toda a certeza, sua condição necessária. Sem ela, o Holocausto seria

impensável. Foi o mundo racional da civilização moderna que tornou viável

o Holocausto. “O assassinato em massa dos judeus da Europa pelos nazistas

não foi apenas realização tecnológica de uma sociedade industrial, mas

também sucesso de organização de uma sociedade burocrática.” 17

Imaginem simplesmente o que foi necessário para fazer do Holocausto um

genocídio único entre os inúmeros morticínios que marcaram o avanço

histórico da espécie humana.

 

O serviço público infundiu nas outras hierarquias seu planejamento seguro e de sua minúcia

burocrática. Do exército a máquina de destruição adquiriu sua precisão militar, sua disciplina e

insensibilidade. A influência da indústria se fez sentir na grande ênfase dada à contabilidade, à

economia de tostões e à preservação de recursos, assim como à eficiência industrial dos centros

de extermínio. Por fim, o partido deu a todo o aparelho um “idealismo”, um senso de “missão”

e uma noção de construção da história…

Foi de fato a sociedade organizada num papel especial dentre outros. Embora envolvido no

assassinato em massa numa escala gigantesca, esse vasto aparato burocrático preocupava-se

com o correto procedimento burocrático, com as sutilezas da definição exata, com as minúcias

das regras burocráticas e a obediência às leis.18

 

O departamento no quartel-general das SS encarregado da destruição

dos judeus europeus era oficialmente chamado Seção de Administração e

Economia. O que era apenas em parte mentira; só em parte ele pode ser

explicado por referência às notórias “regras de discurso”, destinadas a

desorientar tanto observadores casuais como os criminosos menos decididos. Num nível elevado demais para dar alívio, a denominação

refletia fielmente o significado da atividade para a organização. Exceto pela

repugnância moral do seu objetivo (ou, para ser preciso, pela escala

gigantesca do ódio moral desencadeado), a atividade não diferia em

nenhum sentido formal (o único que pode ser expresso na linguagem da

burocracia) de todas as outras atividades organizadas que eram traçadas,

monitoradas e supervisionadas por seções administrativas e econômicas

“ordinárias”. Como todas as outras atividades receptivas à racionalização

burocrática, ela se encaixa bem na sóbria definição da administração

moderna dada por Max Weber:

 

Precisão, rapidez, clareza, conhecimento dos arquivos, continuidade, discrição, unidade, estrita

subordinação, redução do atrito e dos custos materiais e pessoais — tudo isso é levado a um

grau de otimização na administração estritamente burocrática… A burocratização oferece

acima de tudo a possibilidade ótima de realizar o princípio das funções administrativas

especializadas de acordo com considerações puramente objetivas… O desempenho “objetivo”

de um negócio significa basicamente um desempenho segundo regras mensuráveis e “sem

consideração com pessoas”.19

 

Não há nada nessa definição que garanta o questionamento da definição

burocrática do Holocausto seja como simples caricatura de verdade ou

manifestação de uma forma particularmente monstruosa de cinismo.

E no entanto o Holocausto é tão crucial para a nossa compreensão do

moderno modo burocrático de racionalização não apenas, nem basicamente,

porque nos lembra (como se precisássemos de lembrete) até que ponto é

formal e eticamente cega a busca burocrática de eficiência. Sua importância

não é plenamente expressa senão quando percebemos a que ponto o

extermínio em massa numa escala sem precedentes dependeu da

disponibilidade de especializações bem desenvolvidas e firmemente

arraigadas e de hábitos de meticulosa e precisa divisão do trabalho, da

manutenção de um fluxo suave de comando e informação ou de uma

coordenação impessoal e bem sincronizada de ações autônomas embora

complementares: daquelas habilidades e hábitos, em suma, que melhor se

desenvolvem e medram na atmosfera do escritório. A luz lançada pelo

Holocausto sobre o nosso conhecimento da racionalidade burocrática chega

a ser estonteante quando percebemos a que ponto a própria ideia da

Endlösung [solução final] foi um produto da cultura burocrática.

Devemos a Karl Schleuner20 o conceito da sinuosa estrada para a

exterminação física dos judeus da Europa: estrada que não foi concebida na visão singular de um monstro alucinado nem foi uma opção ponderada de

líderes ideologicamente motivados no princípio de um “processo de solução

de problemas”. Ao contrário, emergiu pouco a pouco, apontando a cada

estágio em direção diferente, mudando em resposta a crises sempre novas e

impulsionada à frente pela filosofia de que “atravessaremos aquela ponte

quando chegarmos a ela”. O conceito de Schleuner resume melhor as

descobertas da escola “funcionalista” na historiografia do Holocausto (que

nos últimos anos vem rapidamente ganhando força às expensas dos

“intencionalistas”, que por sua vez acham cada vez mais difícil defender a

outrora dominante explicação da causa única para o Holocausto — isto é,

uma visão que confere ao genocídio uma lógica motivacional e uma

consistência que ele nunca possuiu).

De acordo com as descobertas dos funcionalistas, “Hitler estabeleceu o

objetivo do nazismo: ‘livrar-se dos judeus e, acima de tudo, tornar o

território do Reich judenfrei, isto é, livre de judeus’ — mas sem especificar

como isso seria alcançado”.21 Uma vez estabelecido o objetivo, tudo se

passou exatamente como Weber havia, com sua habitual clareza, explicado:

“O ‘líder político’ encontra-se na posição do ‘diletante’ que se opõe ao

‘especialista’, enfrentando os funcionários experimentados que se acham

dentro da administração do governo.”22 O objetivo tinha que ser

concretizado; como isso seria feito dependia das circunstâncias, sempre

consideradas pelos “especialistas” do ponto de vista da factibilidade e dos

custos das alternativas de ação. E assim a emigração dos judeus alemães foi

primeiro escolhida como a solução prática para o objetivo de Hitler; ela

resultaria numa Alemanha judenfrei se outros países fossem mais

hospitaleiros com os judeus. Quando a Áustria foi anexada, Eichmann

recebeu sua primeira condecoração por executar prontamente a emigração

em massa dos judeus austríacos. Mas então o território sob governo nazista

começou a inchar. Primeiro a burocracia viu a conquista e a apropriação de

territórios quase coloniais como a sonhada oportunidade de cumprir

plenamente o comando do Führer: o governo central fornecia o procurado

aterro sanitário para despejo da judiaria ainda residente em terras da

Alemanha propriamente dita, votadas à pureza racial. Uma reserva separada

para o “principado judeu” foi designada próximo a Nisko, no que antes da

conquista fora a Polônia central. A isso, porém, objetou a burocracia alemã

encarregada da administração do território da antiga Polônia; ela já tinha

problemas suficientes policiando sua judiaria local. E assim Eichmann passou um ano inteiro trabalhando no projeto Madagascar: com a França

derrotada, sua longínqua colônia podia ser transformada no principado

judeu que não se materializara na Europa. O projeto Madagascar, no

entanto, provou igualmente malfadado, dada a enorme distância, o volume

de espaço necessário em navios e a presença naval britânica em alto mar.

Nesse meio tempo, a extensão do território conquistado e portanto o

número de judeus sob jurisdição alemã continuaram a crescer. Uma Europa

dominada pelos nazistas (mais do que simplesmente um “Reich unido”)

parecia a perspectiva mais e mais palpável. Gradualmente, mas de forma

incansável, o Reich de mil anos tomou, cada vez mais nitidamente, a forma

de uma Europa sob governo alemão. Em tais circunstâncias, a meta de uma

Alemanha judenfrei só podia seguir-se no processo. Passo a passo, quase de

maneira imperceptível, ela ampliou-se para o objetivo de uma Europa

judenfrei. Ambições dessa magnitude não podiam ser preenchidas por uma

Madagascar, ainda que acessível (embora, de acordo com Eberhard Jäckel,

haja alguma evidência de que ainda em julho de 1941, quando Hitler

acreditava que a derrota da Rússia era questão de semanas, as vastas

extensões russas além da linha Arkhángel-Astrakhan eram vistas como o

aterro sanitário último para todos os judeus residentes na Europa unificada

sob comando alemão). Com a demora em se concretizar a queda da Rússia

e as soluções alternativas não dando conta do problema cada vez maior,

Himmler ordenou em 1º de outubro de 1941 um ponto final a toda

emigração de judeus. A meta de “se livrar dos judeus” encontrara outro

meio mais efetivo de realização: o extermínio físico foi escolhido como o

mais factível e eficiente para atingir a finalidade original e recém-ampliada.

O resto foi matéria de cooperação entre vários departamentos da burocracia

estatal, de cuidadoso planejamento, de projetar a tecnologia e o

equipamento técnico adequados, de traçar orçamentos, calcular e levantar

os recursos necessários — com efeito, competência da tediosa rotina

burocrática.

A lição mais abaladora que se tira da análise do “caminho sinuoso para

Auschwitz” é que — como último recurso — a opção pelo extermínio físico

como meio correto de Entfernung foi produto de procedimentos

burocráticos de rotina: cálculo de meios e fins, equilíbrio orçamentário,

aplicação de uma regra universal. Para tornar isso ainda mais pungente, a

escolha resultou de um esforço diligente em encontrar soluções racionais

para sucessivos “problemas” que surgiam ao sabor das circunstâncias cambiantes. Também foi afetada pela tendência burocrática, amplamente

descrita, ao desvio do objetivo — doença tão normal em todas as

burocracias quanto a própria rotina. A própria existência de funcionários

encarregados de tarefas específicas levou a outras iniciativas e a uma

contínua expansão dos propósitos originais. Mais uma vez, a especialização

demonstrou sua capacidade autopropulsora, sua propensão a ampliar e

enriquecer a meta que alimentou sua raison d’être.

 

A mera existência de um corpo de especialistas judeus criou certo ímpeto burocrático por trás

da política nazista para os judeus. Mesmo quando as deportações e o assassinato em massa já

estavam sendo executados, decretos de 1942 proibiram os judeus alemães de ter animais de

estimação, cortar o cabelo em barbearias arianas ou receber o emblema esportivo do Reich!

Não eram necessárias ordens superiores, bastava a existência do próprio emprego para fazer

com que os funcionários judeus dessem sequência ao fluxo de medidas discriminatórias.23

 

Em nenhum momento de sua longa e tortuosa execução o Holocausto

entrou em conflito com os princípios da racionalidade. A “Solução Final”

não se chocou em nenhum estágio com a busca racional da eficiência, da

otimização na consecução do objetivo. Ao contrário, resultou de uma

preocupação autenticamente racional e foi gerada pela burocracia fiel a

sua forma e propósito. Sabemos de muitos massacres, pogroms,

assassinatos em massa, muitos exemplos quase de genocídio mesmo,

perpetrados sem a moderna burocracia, sem as tecnologias e artes que

comanda, sem os princípios científicos de sua administração interna. O

Holocausto, porém, seria claramente um jorro impensável dos resíduos

ainda não plenamente erradicados de barbárie pré-moderna. Era um

morador legítimo da casa da modernidade; com efeito, um morador que não

poderia se sentir em casa em nenhum outro lugar.

Isso não quer dizer que a ocorrência do Holocausto foi determinada pela

burocracia moderna ou pela cultura da racionalidade instrumental que ela

resume; e, muito menos ainda, que a moderna burocracia tem que resultar

em fenômenos do tipo do Holocausto. Sugiro de fato, no entanto, que as

regras da racionalidade instrumental são singularmente incapazes de evitar

tais fenômenos; que não há nada nessas regras que desqualifique como

impróprios os métodos de “planejamento social” usados no Holocausto ou,

mesmo, como irracionais as ações a que serviram. Sugiro, ademais, que a

cultura burocrática que nos capacita a ver a sociedade como objeto de

administração, como uma coleção de tantos “problemas” a resolver, como

“natureza” a ser “controlada”, “dominada” e “melhorada” ou “refeita”, como um alvo legítimo para o “planejamento social” e no geral como um