Modernidade e Holocausto
O significado do processo civilizador
por preocupações outras que não escatológicas).14
Esse estado de coisas é preocupante não apenas (e de modo algum
basicamente) por razões profissionais — por mais pernicioso que possa ser
para os poderes cognitivos e a importância social da sociologia. O que torna
esta situação muito mais perturbadora é a consciência de que “isso poderia
acontecer nessa escala maciça em outro lugar, portanto poderia acontecer
em qualquer lugar; está tudo dentro da ordem das possibilidades humanas e,
gostem ou não, Auschwitz expande o universo da consciência não menos
do que o pouso na lua”.15 Dificilmente pode ser reduzida a ansiedade, tendo
em vista o fato de que nenhuma das condições que tornaram Auschwitz
possível realmente desapareceu e nenhuma medida efetiva foi tomada para
evitar que tais possibilidades e princípios gerem catástrofes semelhantes a
Auschwitz; como Leo Kuper recentemente descobriu, “o Estado territorial
soberano reivindica, como parte integrante de sua soberania, o direito de
cometer genocídio ou envolver-se em massacres genocidas de pessoas sob a
sua autoridade, e… a ONU, para todos os efeitos práticos, defende esse
direito.”16
Um serviço póstumo que o Holocausto pode prestar é fornecer um
insight dos “outros aspectos”, de outra forma despercebidos, dos princípios
societários entronizados pela história moderna. Proponho que a experiência
do Holocausto, agora já inteiramente pesquisada pelos historiadores,
deveria ser encarada, por assim dizer, como um “laboratório” sociológico.
O Holocausto expôs e examinou em condições “não laboratoriais” atributos
não revelados de nossa sociedade e portanto não acessíveis empiricamente.
Em outras palavras, proponho tratar o Holocausto como um teste raro, mas
importante e confiável das possibilidades ocultas da sociedade moderna.
O significado do processo civilizador
O mito etiológico profundamente arraigado na consciência da nossa
sociedade ocidental é a história moralmente edificante da humanidade
emergindo da barbárie pré-social. Esse mito emprestou estímulo e
popularidade a várias teorias sociológicas e narrativas históricas influentes e
em troca recebeu delas um apoio sofisticado e douto; ligação mais
recentemente ilustrada pelo surto de eminência e fama súbita da visão de Elias sobre o “processo civilizador”. Opiniões contrárias de teóricos sociais
contemporâneos (vejam, por exemplo, as análises completas de processos
civilizadores multifários: históricas e comparativas de Michael Mann,
sintéticas e teóricas de Anthony Giddens), que enfatizam o aumento da
violência militar e do uso desenfreado da coerção como os atributos mais
cruciais da emergência e duração das grandes civilizações, têm ainda muito
a percorrer antes que consigam deslocar o mito etiológico da consciência
pública ou mesmo do difuso folclore da profissão. De modo geral, a opinião
leiga ressente-se de todo desafio ao mito. Sua resistência é sustentada, além
disso, por uma ampla coalizão de opiniões doutas e respeitáveis que inclui
autoridades tão poderosas como a “visão whig” da história como sendo a
luta vitoriosa entre razão e superstição; a visão weberiana da racionalização
como um movimento rumo à obtenção de mais com menos esforço; a
promessa psicanalítica de desmascarar, acuar e domar o animal que existe
no homem; a grandiosa profecia de vida feita por Marx, com a sociedade
vindo a ter o pleno controle da espécie humana uma vez livre dos atuais e
debilitantes paroquialismos; o retrato que Elias faz da história recente como
sendo aquela que elimina a violência da vida diária; e, acima de tudo, o
coro de especialistas que nos garantem que os problemas humanos são
questão de políticas erradas e que as políticas certas significam eliminação
de problemas. Por trás da aliança resiste o moderno Estado “jardineiro”, que
vê a sociedade sob seu comando como objeto de planejamento, cultivo e
extirpação de ervas daninhas.
Em vista desse mito, de há muito sedimentado no senso comum da nossa
época, o Holocausto só pode ser compreendido como o fracasso da
civilização (isto é, da atividade humana com um propósito, guiada pela
razão) em conter as predileções mórbidas naturais do que quer que tenha
restado de natural no homem. Obviamente, o mundo hobbesiano ainda não
foi totalmente amarrado, o problema hobbesiano não foi totalmente
resolvido. Em outras palavras, ainda não temos suficiente civilização. O
inconcluso processo civilizador ainda tem que ser concluído. Se a lição do
assassinato em massa de fato nos ensina algo é que a prevenção de
semelhantes barbaridades evidentemente ainda requer mais esforços
civilizadores. Não há nada nessa lição que lance dúvidas sobre a futura
eficiência de tais esforços e seus resultados últimos. Certamente estamos
indo na direção certa; talvez não estejamos indo é rápido o bastante.
À medida que o quadro completo emerge da pesquisa histórica, surge
também uma interpretação alternativa do Holocausto — possivelmente de
mais crédito — como um evento que revelou a fraqueza e fragilidade da
natureza humana (a abominação do assassinato, a aversão à violência, o
medo da consciência culpada e a responsabilidade pelo comportamento
imoral) quando confrontada com a simples eficiência dos mais acalentados
produtos da civilização; sua tecnologia, seus critérios racionais de escolha,
sua tendência a subordinar pensamento e ação à praticidade da economia e
da eficiência. O mundo hobbesiano do Holocausto não veio à tona saindo
de sua sepultura rasa demais, ressuscitado pelo tumulto das emoções
irracionais. Apareceu (de uma forma formidável que Hobbes certamente
desautorizaria) num veículo de produção industrial, empunhando armas que
só a ciência mais avançada poderia fornecer e seguindo um itinerário
traçado por uma organização cientificamente administrada. A civilização
moderna não foi a condição suficiente do Holocausto; foi, no entanto, com
toda a certeza, sua condição necessária. Sem ela, o Holocausto seria
impensável. Foi o mundo racional da civilização moderna que tornou viável
o Holocausto. “O assassinato em massa dos judeus da Europa pelos nazistas
não foi apenas realização tecnológica de uma sociedade industrial, mas
também sucesso de organização de uma sociedade burocrática.” 17
Imaginem simplesmente o que foi necessário para fazer do Holocausto um
genocídio único entre os inúmeros morticínios que marcaram o avanço
histórico da espécie humana.
O serviço público infundiu nas outras hierarquias seu planejamento seguro e de sua minúcia
burocrática. Do exército a máquina de destruição adquiriu sua precisão militar, sua disciplina e
insensibilidade. A influência da indústria se fez sentir na grande ênfase dada à contabilidade, à
economia de tostões e à preservação de recursos, assim como à eficiência industrial dos centros
de extermínio. Por fim, o partido deu a todo o aparelho um “idealismo”, um senso de “missão”
e uma noção de construção da história…
Foi de fato a sociedade organizada num papel especial dentre outros. Embora envolvido no
assassinato em massa numa escala gigantesca, esse vasto aparato burocrático preocupava-se
com o correto procedimento burocrático, com as sutilezas da definição exata, com as minúcias
das regras burocráticas e a obediência às leis.18
O departamento no quartel-general das SS encarregado da destruição
dos judeus europeus era oficialmente chamado Seção de Administração e
Economia. O que era apenas em parte mentira; só em parte ele pode ser
explicado por referência às notórias “regras de discurso”, destinadas a
desorientar tanto observadores casuais como os criminosos menos decididos. Num nível elevado demais para dar alívio, a denominação
refletia fielmente o significado da atividade para a organização. Exceto pela
repugnância moral do seu objetivo (ou, para ser preciso, pela escala
gigantesca do ódio moral desencadeado), a atividade não diferia em
nenhum sentido formal (o único que pode ser expresso na linguagem da
burocracia) de todas as outras atividades organizadas que eram traçadas,
monitoradas e supervisionadas por seções administrativas e econômicas
“ordinárias”. Como todas as outras atividades receptivas à racionalização
burocrática, ela se encaixa bem na sóbria definição da administração
moderna dada por Max Weber:
Precisão, rapidez, clareza, conhecimento dos arquivos, continuidade, discrição, unidade, estrita
subordinação, redução do atrito e dos custos materiais e pessoais — tudo isso é levado a um
grau de otimização na administração estritamente burocrática… A burocratização oferece
acima de tudo a possibilidade ótima de realizar o princípio das funções administrativas
especializadas de acordo com considerações puramente objetivas… O desempenho “objetivo”
de um negócio significa basicamente um desempenho segundo regras mensuráveis e “sem
consideração com pessoas”.19
Não há nada nessa definição que garanta o questionamento da definição
burocrática do Holocausto seja como simples caricatura de verdade ou
manifestação de uma forma particularmente monstruosa de cinismo.
E no entanto o Holocausto é tão crucial para a nossa compreensão do
moderno modo burocrático de racionalização não apenas, nem basicamente,
porque nos lembra (como se precisássemos de lembrete) até que ponto é
formal e eticamente cega a busca burocrática de eficiência. Sua importância
não é plenamente expressa senão quando percebemos a que ponto o
extermínio em massa numa escala sem precedentes dependeu da
disponibilidade de especializações bem desenvolvidas e firmemente
arraigadas e de hábitos de meticulosa e precisa divisão do trabalho, da
manutenção de um fluxo suave de comando e informação ou de uma
coordenação impessoal e bem sincronizada de ações autônomas embora
complementares: daquelas habilidades e hábitos, em suma, que melhor se
desenvolvem e medram na atmosfera do escritório. A luz lançada pelo
Holocausto sobre o nosso conhecimento da racionalidade burocrática chega
a ser estonteante quando percebemos a que ponto a própria ideia da
Endlösung [solução final] foi um produto da cultura burocrática.
Devemos a Karl Schleuner20 o conceito da sinuosa estrada para a
exterminação física dos judeus da Europa: estrada que não foi concebida na visão singular de um monstro alucinado nem foi uma opção ponderada de
líderes ideologicamente motivados no princípio de um “processo de solução
de problemas”. Ao contrário, emergiu pouco a pouco, apontando a cada
estágio em direção diferente, mudando em resposta a crises sempre novas e
impulsionada à frente pela filosofia de que “atravessaremos aquela ponte
quando chegarmos a ela”. O conceito de Schleuner resume melhor as
descobertas da escola “funcionalista” na historiografia do Holocausto (que
nos últimos anos vem rapidamente ganhando força às expensas dos
“intencionalistas”, que por sua vez acham cada vez mais difícil defender a
outrora dominante explicação da causa única para o Holocausto — isto é,
uma visão que confere ao genocídio uma lógica motivacional e uma
consistência que ele nunca possuiu).
De acordo com as descobertas dos funcionalistas, “Hitler estabeleceu o
objetivo do nazismo: ‘livrar-se dos judeus e, acima de tudo, tornar o
território do Reich judenfrei, isto é, livre de judeus’ — mas sem especificar
como isso seria alcançado”.21 Uma vez estabelecido o objetivo, tudo se
passou exatamente como Weber havia, com sua habitual clareza, explicado:
“O ‘líder político’ encontra-se na posição do ‘diletante’ que se opõe ao
‘especialista’, enfrentando os funcionários experimentados que se acham
dentro da administração do governo.”22 O objetivo tinha que ser
concretizado; como isso seria feito dependia das circunstâncias, sempre
consideradas pelos “especialistas” do ponto de vista da factibilidade e dos
custos das alternativas de ação. E assim a emigração dos judeus alemães foi
primeiro escolhida como a solução prática para o objetivo de Hitler; ela
resultaria numa Alemanha judenfrei se outros países fossem mais
hospitaleiros com os judeus. Quando a Áustria foi anexada, Eichmann
recebeu sua primeira condecoração por executar prontamente a emigração
em massa dos judeus austríacos. Mas então o território sob governo nazista
começou a inchar. Primeiro a burocracia viu a conquista e a apropriação de
territórios quase coloniais como a sonhada oportunidade de cumprir
plenamente o comando do Führer: o governo central fornecia o procurado
aterro sanitário para despejo da judiaria ainda residente em terras da
Alemanha propriamente dita, votadas à pureza racial. Uma reserva separada
para o “principado judeu” foi designada próximo a Nisko, no que antes da
conquista fora a Polônia central. A isso, porém, objetou a burocracia alemã
encarregada da administração do território da antiga Polônia; ela já tinha
problemas suficientes policiando sua judiaria local. E assim Eichmann passou um ano inteiro trabalhando no projeto Madagascar: com a França
derrotada, sua longínqua colônia podia ser transformada no principado
judeu que não se materializara na Europa. O projeto Madagascar, no
entanto, provou igualmente malfadado, dada a enorme distância, o volume
de espaço necessário em navios e a presença naval britânica em alto mar.
Nesse meio tempo, a extensão do território conquistado e portanto o
número de judeus sob jurisdição alemã continuaram a crescer. Uma Europa
dominada pelos nazistas (mais do que simplesmente um “Reich unido”)
parecia a perspectiva mais e mais palpável. Gradualmente, mas de forma
incansável, o Reich de mil anos tomou, cada vez mais nitidamente, a forma
de uma Europa sob governo alemão. Em tais circunstâncias, a meta de uma
Alemanha judenfrei só podia seguir-se no processo. Passo a passo, quase de
maneira imperceptível, ela ampliou-se para o objetivo de uma Europa
judenfrei. Ambições dessa magnitude não podiam ser preenchidas por uma
Madagascar, ainda que acessível (embora, de acordo com Eberhard Jäckel,
haja alguma evidência de que ainda em julho de 1941, quando Hitler
acreditava que a derrota da Rússia era questão de semanas, as vastas
extensões russas além da linha Arkhángel-Astrakhan eram vistas como o
aterro sanitário último para todos os judeus residentes na Europa unificada
sob comando alemão). Com a demora em se concretizar a queda da Rússia
e as soluções alternativas não dando conta do problema cada vez maior,
Himmler ordenou em 1º de outubro de 1941 um ponto final a toda
emigração de judeus. A meta de “se livrar dos judeus” encontrara outro
meio mais efetivo de realização: o extermínio físico foi escolhido como o
mais factível e eficiente para atingir a finalidade original e recém-ampliada.
O resto foi matéria de cooperação entre vários departamentos da burocracia
estatal, de cuidadoso planejamento, de projetar a tecnologia e o
equipamento técnico adequados, de traçar orçamentos, calcular e levantar
os recursos necessários — com efeito, competência da tediosa rotina
burocrática.
A lição mais abaladora que se tira da análise do “caminho sinuoso para
Auschwitz” é que — como último recurso — a opção pelo extermínio físico
como meio correto de Entfernung foi produto de procedimentos
burocráticos de rotina: cálculo de meios e fins, equilíbrio orçamentário,
aplicação de uma regra universal. Para tornar isso ainda mais pungente, a
escolha resultou de um esforço diligente em encontrar soluções racionais
para sucessivos “problemas” que surgiam ao sabor das circunstâncias cambiantes. Também foi afetada pela tendência burocrática, amplamente
descrita, ao desvio do objetivo — doença tão normal em todas as
burocracias quanto a própria rotina. A própria existência de funcionários
encarregados de tarefas específicas levou a outras iniciativas e a uma
contínua expansão dos propósitos originais. Mais uma vez, a especialização
demonstrou sua capacidade autopropulsora, sua propensão a ampliar e
enriquecer a meta que alimentou sua raison d’être.
A mera existência de um corpo de especialistas judeus criou certo ímpeto burocrático por trás
da política nazista para os judeus. Mesmo quando as deportações e o assassinato em massa já
estavam sendo executados, decretos de 1942 proibiram os judeus alemães de ter animais de
estimação, cortar o cabelo em barbearias arianas ou receber o emblema esportivo do Reich!
Não eram necessárias ordens superiores, bastava a existência do próprio emprego para fazer
com que os funcionários judeus dessem sequência ao fluxo de medidas discriminatórias.23
Em nenhum momento de sua longa e tortuosa execução o Holocausto
entrou em conflito com os princípios da racionalidade. A “Solução Final”
não se chocou em nenhum estágio com a busca racional da eficiência, da
otimização na consecução do objetivo. Ao contrário, resultou de uma
preocupação autenticamente racional e foi gerada pela burocracia fiel a
sua forma e propósito. Sabemos de muitos massacres, pogroms,
assassinatos em massa, muitos exemplos quase de genocídio mesmo,
perpetrados sem a moderna burocracia, sem as tecnologias e artes que
comanda, sem os princípios científicos de sua administração interna. O
Holocausto, porém, seria claramente um jorro impensável dos resíduos
ainda não plenamente erradicados de barbárie pré-moderna. Era um
morador legítimo da casa da modernidade; com efeito, um morador que não
poderia se sentir em casa em nenhum outro lugar.
Isso não quer dizer que a ocorrência do Holocausto foi determinada pela
burocracia moderna ou pela cultura da racionalidade instrumental que ela
resume; e, muito menos ainda, que a moderna burocracia tem que resultar
em fenômenos do tipo do Holocausto. Sugiro de fato, no entanto, que as
regras da racionalidade instrumental são singularmente incapazes de evitar
tais fenômenos; que não há nada nessas regras que desqualifique como
impróprios os métodos de “planejamento social” usados no Holocausto ou,
mesmo, como irracionais as ações a que serviram. Sugiro, ademais, que a
cultura burocrática que nos capacita a ver a sociedade como objeto de
administração, como uma coleção de tantos “problemas” a resolver, como
“natureza” a ser “controlada”, “dominada” e “melhorada” ou “refeita”, como um alvo legítimo para o “planejamento social” e no geral como um