Modernidade e Holocausto
“Selando” as vítimas
população à vontade desenfreada dos seus captores foi alcançada não pela
destruição, mas pelo reforço da estrutura comunitária e o papel integrador
desempenhado pelas elites nativas.
Paradoxalmente, portanto, a situação dos judeus nos estágios
preliminares da Solução Final parecia mais a de um grupo subordinado
dentro de uma estrutura normal de poder do que a de vítimas de uma
operação genocida “ordinária”. Em notável medida, os judeus eram parte
do arranjo social que iria destruí-los. Constituíam um elo vital na cadeia de
ações coordenadas; suas próprias ações eram parte indispensável da
operação total e condição crucial do seu sucesso. O genocídio “comum”
divide os atores de forma inequívoca em assassinos e assassinados; para
estes, a resistência é a única resposta racional. No Holocausto, as divisões
foram menos claras. Incorporada à estrutura geral de poder, com uma lista
ampliada de tarefas e funções dentro dela, a população condenada tinha
aparentemente uma gama de opções. A cooperação com os próprios
inimigos jurados e futuros assassinos não escapava à sua medida de
racionalidade. Os judeus podiam portanto brincar nas mãos de seus
opressores, facilitar a tarefa deles e apressar a própria perdição, enquanto
guiados em sua ação pelo propósito racional de sobreviver.
Por causa desse paradoxo, os registros do Holocausto oferecem uma
revelação única dos princípios gerais da opressão burocraticamente
administrada. O Holocausto foi, claro, um caso extremo de um fenômeno
que normalmente aparece de forma bem mais branda e raramente visa ao
total extermínio do oprimido. No entanto, precisamente por causa do seu
extremismo, o Holocausto revelou aspectos da opressão burocrática que de
outra forma poderiam ter passado despercebidos. Na sua forma geral, esses
aspectos têm uma aplicação bem mais ampla; com efeito, deve-se levá-los
em conta se quisermos compreender plenamente como o poder opera na
sociedade moderna. O mais destacado desses aspectos é a capacidade do
poder moderno, racional, burocraticamente organizado, de induzir ações
funcionalmente indispensáveis a seus propósitos, embora em dissonância
com os interesses vitais dos atores.
“Selando” as vítimas Tal capacidade não é universal; para possuí-la, a burocracia deve preencher
outras condições além da sua própria hierarquia interna de comando e seus
princípios de ação coordenada. A burocracia tem que ser, acima de tudo,
inteiramente especializada e possuir um monopólio incondicional da função
especializada que desempenha. Em termos mais simples, isso significa que,
seja o que for que a burocracia vá fazer aos seus objetos-alvo, deve visar
explicitamente apenas a esse alvo, e, assim, é improvável que venha a afetar
a situação de outras categorias; e que os objetos-alvo devem permanecer
dentro da competência dessa burocracia especializada e de nenhuma outra
instituição. A primeira condição resulta na improbabilidade de toda
interferência externa com o processo burocrático; é improvável que grupos
não afetados corram em socorro da categoria visada, uma vez que os
problemas enfrentados pelos dois lados não podem encontrar facilmente um
denominador comum e inspirar uma ação integrada, unida. Uma vez
assegurada a segunda condição, a categoria-alvo sabe ou logo descobre que
qualquer apelo a centros autorizados ou competentes que não a burocracia
sob cuja administração foi jogada é inútil e ineficaz; em alguns casos, tais
apelos podem ser feitos como exceção às regras (o que apenas sua própria
burocracia tem competência de definir) e então trazer consequências ainda
mais sinistras que a obediente submissão à burocracia dirigente. Entre elas,
as duas condições deixam a categoria-alvo sozinha, com “sua própria”
burocracia como único quadro referencial para a tomada racional de
decisões. Em outras palavras, a burocracia que conduz uma política
“objetivada” e detém o direito exclusivo de fazê-lo é plenamente
competente para estabelecer os parâmetros de comportamento das suas
vítimas e, assim, capaz de mobilizar os próprios motivos racionais das
vítimas como um dos recursos que pode utilizar na busca dos seus
objetivos. Antes que o poder burocraticamente organizado possa contar com
a cooperação da própria categoria a ser destruída ou ferida, essa categoria
deve ser “selada”: removida fisicamente do contexto da vida e
preocupações diárias de outros grupos ou separada psicologicamente por
definições aberta e inequivocamente discriminatórias e por uma ênfase na
sua singularidade.
Num discurso proferido em abril de 1935, o rabino Joachim Prinz, de
Berlim, resumiu a experiência da categoria marcada ou “selada”: “O gueto
é o ‘mundo’. Lá fora é o gueto. O mercado, a rua, a taberna pública, toda
parte é o gueto. E ele tem uma marca, um sinal: sem vizinhos. Talvez isso nunca tenha acontecido antes no mundo e ninguém sabe por quanto tempo
se pode suportar: a vida sem um vizinho…” 2 Em 1935, as vítimas do futuro
Holocausto já sabiam que estavam sozinhas. Não podiam contar com a
solidariedade dos outros. O sofrimento por que passavam era delas apenas.
Pessoas fisicamente tão próximas estavam, espiritualmente, a uma distância
infinita: não partilhavam de sua experiência. E a experiência do sofrimento
não é fácil de comunicar. Os judeus em prol dos quais falou o rabino Prinz,
sabiam que os funcionários dos “Bureaus judeus” tinham o comando
absoluto do jogo; eles ditavam as regras, elas as mudavam ao seu bel-prazer
e decidiam as apostas. Suas ações eram, portanto, os únicos fatos concretos
a considerar e a calcular para a própria ação pessoal. A retirada do mundo
exterior delimitou as fronteiras da “situação”; devia agora ser definida
exclusivamente nos termos dos perseguidores, dos quais não havia
escapatória. “A remoção física dos judeus passou amplamente
despercebida, porque de há muito os alemães os haviam removido de seus
corações e mentes.”3
O isolamento espiritual veio primeiro. Foi alcançado por vários meios. O
mais óbvio deles, um apelo direto ao antissemitismo popular, o fomento de
sentimentos antissemitas do povo, até então indiferente ou inconsciente de
um “problema judeu” especial. Isso foi feito, habilidosamente, pela
propaganda nazista, sem poupar esforço nem recursos. Os judeus foram
acusados de crimes hediondos, intenções perniciosas e vícios hereditários
repugnantes. Acima de tudo, em afinação com a sensibilidade higiênica da
civilização moderna, medos e fobias normalmente despertados por vermes e
bactérias foram insuflados, apelando-se à obsessão do homem moderno
com a saúde e o saneamento. A condição de judeu foi apresentada como
uma doença contagiosa e seus portadores como uma versão atualizada da
febre tifóide. Ter relações sexuais com judeus era abraçar o perigo. Os
mecanismos sociopsicológicos usados para produzir a reação de nojo e
aversão diante, digamos, da carne crua ou do cheiro de urina humana —
descritos de forma tão convincente por Norbert Elias no seu balanço do
processo civilizador — foram utilizados para tornar a própria presença dos
judeus nauseante e repulsiva.
Havia, no entanto, limites à eficiência do espírito antissemita. Muitas
pessoas mostraram-se imunes à propaganda do ódio ou, de forma mais
geral, à interpretação irracional do mundo que a propaganda pedia que
aceitassem. Muitas mais, embora admitindo sem grande protesto a definição oficial da condição de judeu, recusavam-se a aplicá-la em relação aos
indivíduos judeus que conheciam. Se a propaganda antissemita fosse o
único meio de “selar” os judeus para afastá-los da vida comunitária,
provavelmente fracassaria — resultando, na melhor das hipóteses, em uma
divisão popular entre o campo dos raivosos com ódio aos judeus e talvez
outro com uma massa, menos integrada e de organização mais pobre mas
razoavelmente eficiente, de não colaboradores e ativos defensores das
pessoas “injustamente vitimizadas”. Isso certamente não bastaria para tirar
os judeus “dos corações e mentes” dos alemães de forma suficientemente
radical para privar a subsequente destruição física dos judeus de qualquer
oposição e ressentimento.
O impacto da propaganda antissemita era, no entanto, apoiado e
consideravelmente reforçado pelo cuidado que se tinha em mirar bem no
alvo todas as medidas antijudaicas, de forma que cada ato sucessivo,
mesmo se ineficaz no propósito declarado, aprofundava o abismo entre os
judeus e o resto, sublinhando ainda mais a mensagem; por mais atrozes que
fossem as coisas que aconteciam aos judeus, elas definitivamente não
tinham qualquer influência adversa na lida do resto da população e portanto
não diziam respeito exceto aos judeus. Sabemos hoje, pela evidência
histórica plenamente comprovada, a que ponto chegou a energia dos altos
funcionários nazistas e dos especialistas a soldo deles para produzir uma
definição adequada dos judeus — aparentemente uma sutileza legal,
ridiculamente deslocada contra o pano de fundo da violência brutal e
inescrupulosa. De fato, a busca de uma definição legalmente perfeita era
mais do que o último vestígio da Jurisprudenzkultur de que os nazistas não
conseguiam se livrar muito bem ou uma homenagem que se prestava à
tradição ainda não plenamente esquecida do Rechtsstaat [Estado de direito].
Uma definição precisa do judeu era necessária para tranquilizar as
testemunhas da vitimização, garantindo que o que viam ou suspeitavam não
aconteceria a elas e que, portanto, seus interesses não estavam ameaçados.
Para obter esse efeito, precisava-se de definição tal que se pudesse usar para
decidir exatamente quem era e quem não era judeu; para eliminar toda
possibilidade de casos equívocos, intermediários, mistos, ambíguos, que
permitissem interpretação contraditória. Por mais notórias em suas
substância e relevância ostensivamente funcionais, as famosas Leis de
Nuremberg serviram a esse propósito de forma esplêndida.4 Não deixaram
terra de ninguém entre os judeus e os não judeus. Criou-se uma categoria de pessoas marcadas para Sonderbehandlung [tratamento especial] e
finalmente para eliminação. Mas também criaram, de um golpe, uma
categoria bem mais vasta de cidadãos limpos e seguros do Reich: o puro-
sangue alemão. O mesmo propósito era servido, com variado grau de
sucesso, marcando-se as lojas de judeus (e com isso enfatizando a
propriedade e segurança das que não eram marcadas) ou forçando o que
restava dos judeus alemães a colocar emblemas amarelos na roupa. Na
verdade, “importante como possa parecer, a Questão Judaica não tinha mais
que um interesse mínimo para a vasta maioria dos alemães”. Quando o
Reich se voltou para leste e era chegada a hora da Aussiedlung
[colonização], a maioria das pessoas “provavelmente pouco pensava e
perguntava menos ainda sobre o que acontecia aos judeus do leste. Para a
maioria, os judeus estavam fora de vista e fora da mente também… A
estrada para Auschwitz foi construída pelo ódio mas pavimentada pela
indiferença”.5
O processo de separação foi acompanhado por um silêncio ensurdecedor
de todas as elites estabelecidas e organizadas da sociedade alemã — todos
aqueles que, teoricamente, poderiam erguer a voz contra o iminente desastre
e se fazer ouvir. Pode-se supor que a razão disso, em parte, foi a ampla
simpatia pelo plano geral de Entfernung [remoção] de uma nação e cultura
vistas por várias razões como estranha e indesejável. Esta não foi, porém,
toda a razão e nem sequer talvez a mais decisiva. A tomada do poder do
Estado pelos nazistas não mudou as regras da conduta profissional, que
permaneceram fiéis como sempre foram, desde a aurora da idade moderna,
ao princípio da neutralidade moral da razão e à busca da racionalidade, que
não tolera compromisso com fatores não relacionados ao sucesso técnico do
empreendimento. As universidades alemãs, como suas equivalentes em
outros países modernos, cultivaram cuidadosamente o ideal da ciência
como uma atividade eminentemente livre de valoração; a seus
departamentos conferiam o direito e atribuíam o dever de servir aos
“interesses do conhecimento” e colocar de lado todos os interesses com os
quais pudessem colidir os objetivos científicos. Basta lembrar isso para que
diminua muito o choque do silêncio e mesmo da entusiástica cooperação
das instituições científicas alemãs na execução das tarefas nazistas. O
americano Franklin H. Littell insiste que quanto menos surpreendentes,
mais preocupantes são (ou ao menos deveriam ser) esse silêncio e essa
cooperação:
A crise de credibilidade da universidade moderna vem do fato de que os campos da morte não
foram construídos nem seu esquema operacional imaginado por iletrados, por selvagens
ignorantes e sem educação. Os centros de extermínio foram produto, como seus inventores,
daquele que durante gerações foi um dos melhores sistemas universitários do mundo…
Nossos bacharéis trabalham, sem maiores conflitos íntimos, pelo Chile social-democrata ou
pelo Chile fascista, pela junta ou pela república gregas, pela Espanha de Franco ou a dos
republicanos, pela Rússia, pela China, pelo Kuwait ou Israel, pelos Estados Unidos, Inglaterra,
Indonésia ou Paquistão… Isso resume, embora severamente, o papel histórico dos técnicos
formados, aqueles que foram “educados” na arte da indiferença moral, ética e religiosa da
universidade moderna…
Ele prossegue lamentando que por muitos anos foi mais fácil, no seu
país, discutir o mau uso e abuso da ciência pelos nazistas do que os serviços
oferecidos pelas universidades americanas à “Dow Chemical, à
Minneapolis, à Honeywell, à Boeing Aircraft… ou à ITT no
restabelecimento do fascismo no Chile”.6
O que de fato importava às elites científicas (e, de forma mais geral,
intelectuais) alemãs e aos seus melhores e mais distinguidos indivíduos era
a preservação de sua integridade acadêmica e como porta-vozes da Razão.
E essa tarefa não incluía (de fato excluía em caso de conflito) a
preocupação do significado ético de sua atividade. Como Alan Beyerchen
descobriu, na primavera e verão de 1933 os luminares da ciência alemã,
pessoas como Planck, Sommerfeld, Heisenberg e von Laue, todos
“aconselharam paciência e reserva ao se lidar com o governo,
especialmente no tocante a demissões e emigração… O objetivo básico era
preservar a autonomia profissional de sua disciplina, evitando a
confrontação e esperando que retornassem à vida e aos procedimentos
normais”.7 Todos queriam defender e salvar o que importava para eles — e
conseguiram, assim que se mostraram dispostos a esquecer o que importava
menos. Mostrar tal disposição foi fácil, uma vez que a “vida normal”
efetivamente retomada após as extravagâncias da lua de mel nazista não foi
muito diferente daquela a que esses professores estavam acostumados e
apreciavam com carinho. (Era justamente isso que estava faltando agora a
alguns dos seus velhos colegas — e havia uma nova saudação a fazer ao
entrar na sala de aula cheia de estudantes uniformizados.) Seus serviços
profissionais tinham forte demanda e apreço; estavam chegando fundos
para projetos ambiciosos e cientificamente instigantes — e para isso
nenhum preço parecia alto demais. Heisenberg procurou Himmler para ter a
garantia de que ele e os colegas (quer dizer, tirando aqueles que
desapareceram) teriam permissão para fazer o que queriam e desejavam. Himmler advertiu-o a fazer uma clara distinção entre descobertas científicas
e a conduta política dos físicos. Isso deve ter soado como música aos
ouvidos de Heisenberg: não era então o que seria instruído a fazer desde o
início? Ele “por isso não fez rodeios, promovendo ativamente a causa
nazista, principalmente no exterior e durante as hostilidades, chefiando com
diligência uma das duas equipes empenhadas em projetar explosivos
atômicos, estimulado sem dúvida —, inveterado animal científico que era
—, pelo desejo de ‘ver’ e vencer.” 8
“A história da retirada de poder dos intelectuais é sempre a história da
renúncia voluntária”, escreveu Joachim C. Fest, “e, se há resistência, é
meramente resistência à tentação de suicídio.” 9 As, digamos, vítimas
intelectuais transformadas em cortejadores da “vida normal” de tipo nazista
viam poucas razões para se suicidar e muitas para a rendição voluntária, às
vezes entusiástica.
O notável quanto à rendição é que é difícil dizer onde começa, e
virtualmente impossível prever onde deve parar. Durante o pogrom da
Kristallnacht, a mulher do eminente orientalista professor Kahle fora
descoberta ajudando uma amiga judia a rearrumar a loja depredada; o
marido passou a ser boicotado e a sofrer outras perseguições menores que o
forçaram a se demitir.
Os meses transcorridos foram um período de quarentena durante o qual apenas três pessoas —
de todo o círculo social e profissional do professor — o procuraram, com a cobertura da
escuridão. E recebeu mais uma comunicação do mundo exterior: uma carta de um grupo de
colegas lamentando que ele não tivesse uma saída honrosa da universidade por falta de tato da
mulher.10
Outra coisa notável sobre a rendição é que, por mais penosa que possa
ter sido no início, tende a passar da vergonha para o orgulho. Aqueles que
se rendem tornam-se cúmplices do crime e portam-se conforme a
dissonância cognitiva que a cumplicidade gera. Pessoas que viam com
desprezo e aversão as tolices antissemitas da propaganda nazista e ficaram
em silêncio “apenas para salvar os valores maiores” encontravam-se alguns
anos depois regozijando-se com a bendita limpeza das universidades e a
pureza da ciência alemãs. Seu próprio antissemitismo racional
fortaleceu-se à medida que a perseguição aos judeus foi piorando. A explicação é simples,
embora deprimente: quando as pessoas sabem, mesmo pela metade, que uma grande injustiça
está sendo cometida e não têm a generosidade e a coragem de protestar, automaticamente
lançam a culpa sobre as vítimas como forma mais simples de aliviar a própria consciência.11