Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 31 de 52

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Modernidade e Holocausto

“Selando” as vítimas

população à vontade desenfreada dos seus captores foi alcançada não pela

destruição, mas pelo reforço da estrutura comunitária e o papel integrador

desempenhado pelas elites nativas.

Paradoxalmente, portanto, a situação dos judeus nos estágios

preliminares da Solução Final parecia mais a de um grupo subordinado

dentro de uma estrutura normal de poder do que a de vítimas de uma

operação genocida “ordinária”. Em notável medida, os judeus eram parte

do arranjo social que iria destruí-los. Constituíam um elo vital na cadeia de

ações coordenadas; suas próprias ações eram parte indispensável da

operação total e condição crucial do seu sucesso. O genocídio “comum”

divide os atores de forma inequívoca em assassinos e assassinados; para

estes, a resistência é a única resposta racional. No Holocausto, as divisões

foram menos claras. Incorporada à estrutura geral de poder, com uma lista

ampliada de tarefas e funções dentro dela, a população condenada tinha

aparentemente uma gama de opções. A cooperação com os próprios

inimigos jurados e futuros assassinos não escapava à sua medida de

racionalidade. Os judeus podiam portanto brincar nas mãos de seus

opressores, facilitar a tarefa deles e apressar a própria perdição, enquanto

guiados em sua ação pelo propósito racional de sobreviver.

Por causa desse paradoxo, os registros do Holocausto oferecem uma

revelação única dos princípios gerais da opressão burocraticamente

administrada. O Holocausto foi, claro, um caso extremo de um fenômeno

que normalmente aparece de forma bem mais branda e raramente visa ao

total extermínio do oprimido. No entanto, precisamente por causa do seu

extremismo, o Holocausto revelou aspectos da opressão burocrática que de

outra forma poderiam ter passado despercebidos. Na sua forma geral, esses

aspectos têm uma aplicação bem mais ampla; com efeito, deve-se levá-los

em conta se quisermos compreender plenamente como o poder opera na

sociedade moderna. O mais destacado desses aspectos é a capacidade do

poder moderno, racional, burocraticamente organizado, de induzir ações

funcionalmente indispensáveis a seus propósitos, embora em dissonância

com os interesses vitais dos atores.

 

“Selando” as vítimas Tal capacidade não é universal; para possuí-la, a burocracia deve preencher

outras condições além da sua própria hierarquia interna de comando e seus

princípios de ação coordenada. A burocracia tem que ser, acima de tudo,

inteiramente especializada e possuir um monopólio incondicional da função

especializada que desempenha. Em termos mais simples, isso significa que,

seja o que for que a burocracia vá fazer aos seus objetos-alvo, deve visar

explicitamente apenas a esse alvo, e, assim, é improvável que venha a afetar

a situação de outras categorias; e que os objetos-alvo devem permanecer

dentro da competência dessa burocracia especializada e de nenhuma outra

instituição. A primeira condição resulta na improbabilidade de toda

interferência externa com o processo burocrático; é improvável que grupos

não afetados corram em socorro da categoria visada, uma vez que os

problemas enfrentados pelos dois lados não podem encontrar facilmente um

denominador comum e inspirar uma ação integrada, unida. Uma vez

assegurada a segunda condição, a categoria-alvo sabe ou logo descobre que

qualquer apelo a centros autorizados ou competentes que não a burocracia

sob cuja administração foi jogada é inútil e ineficaz; em alguns casos, tais

apelos podem ser feitos como exceção às regras (o que apenas sua própria

burocracia tem competência de definir) e então trazer consequências ainda

mais sinistras que a obediente submissão à burocracia dirigente. Entre elas,

as duas condições deixam a categoria-alvo sozinha, com “sua própria”

burocracia como único quadro referencial para a tomada racional de

decisões. Em outras palavras, a burocracia que conduz uma política

“objetivada” e detém o direito exclusivo de fazê-lo é plenamente

competente para estabelecer os parâmetros de comportamento das suas

vítimas e, assim, capaz de mobilizar os próprios motivos racionais das

vítimas como um dos recursos que pode utilizar na busca dos seus

objetivos. Antes que o poder burocraticamente organizado possa contar com

a cooperação da própria categoria a ser destruída ou ferida, essa categoria

deve ser “selada”: removida fisicamente do contexto da vida e

preocupações diárias de outros grupos ou separada psicologicamente por

definições aberta e inequivocamente discriminatórias e por uma ênfase na

sua singularidade.

Num discurso proferido em abril de 1935, o rabino Joachim Prinz, de

Berlim, resumiu a experiência da categoria marcada ou “selada”: “O gueto

é o ‘mundo’. Lá fora é o gueto. O mercado, a rua, a taberna pública, toda

parte é o gueto. E ele tem uma marca, um sinal: sem vizinhos. Talvez isso nunca tenha acontecido antes no mundo e ninguém sabe por quanto tempo

se pode suportar: a vida sem um vizinho…” 2 Em 1935, as vítimas do futuro

Holocausto já sabiam que estavam sozinhas. Não podiam contar com a

solidariedade dos outros. O sofrimento por que passavam era delas apenas.

Pessoas fisicamente tão próximas estavam, espiritualmente, a uma distância

infinita: não partilhavam de sua experiência. E a experiência do sofrimento

não é fácil de comunicar. Os judeus em prol dos quais falou o rabino Prinz,

sabiam que os funcionários dos “Bureaus judeus” tinham o comando

absoluto do jogo; eles ditavam as regras, elas as mudavam ao seu bel-prazer

e decidiam as apostas. Suas ações eram, portanto, os únicos fatos concretos

a considerar e a calcular para a própria ação pessoal. A retirada do mundo

exterior delimitou as fronteiras da “situação”; devia agora ser definida

exclusivamente nos termos dos perseguidores, dos quais não havia

escapatória. “A remoção física dos judeus passou amplamente

despercebida, porque de há muito os alemães os haviam removido de seus

corações e mentes.”3

O isolamento espiritual veio primeiro. Foi alcançado por vários meios. O

mais óbvio deles, um apelo direto ao antissemitismo popular, o fomento de

sentimentos antissemitas do povo, até então indiferente ou inconsciente de

um “problema judeu” especial. Isso foi feito, habilidosamente, pela

propaganda nazista, sem poupar esforço nem recursos. Os judeus foram

acusados de crimes hediondos, intenções perniciosas e vícios hereditários

repugnantes. Acima de tudo, em afinação com a sensibilidade higiênica da

civilização moderna, medos e fobias normalmente despertados por vermes e

bactérias foram insuflados, apelando-se à obsessão do homem moderno

com a saúde e o saneamento. A condição de judeu foi apresentada como

uma doença contagiosa e seus portadores como uma versão atualizada da

febre tifóide. Ter relações sexuais com judeus era abraçar o perigo. Os

mecanismos sociopsicológicos usados para produzir a reação de nojo e

aversão diante, digamos, da carne crua ou do cheiro de urina humana —

descritos de forma tão convincente por Norbert Elias no seu balanço do

processo civilizador — foram utilizados para tornar a própria presença dos

judeus nauseante e repulsiva.

Havia, no entanto, limites à eficiência do espírito antissemita. Muitas

pessoas mostraram-se imunes à propaganda do ódio ou, de forma mais

geral, à interpretação irracional do mundo que a propaganda pedia que

aceitassem. Muitas mais, embora admitindo sem grande protesto a definição oficial da condição de judeu, recusavam-se a aplicá-la em relação aos

indivíduos judeus que conheciam. Se a propaganda antissemita fosse o

único meio de “selar” os judeus para afastá-los da vida comunitária,

provavelmente fracassaria — resultando, na melhor das hipóteses, em uma

divisão popular entre o campo dos raivosos com ódio aos judeus e talvez

outro com uma massa, menos integrada e de organização mais pobre mas

razoavelmente eficiente, de não colaboradores e ativos defensores das

pessoas “injustamente vitimizadas”. Isso certamente não bastaria para tirar

os judeus “dos corações e mentes” dos alemães de forma suficientemente

radical para privar a subsequente destruição física dos judeus de qualquer

oposição e ressentimento.

O impacto da propaganda antissemita era, no entanto, apoiado e

consideravelmente reforçado pelo cuidado que se tinha em mirar bem no

alvo todas as medidas antijudaicas, de forma que cada ato sucessivo,

mesmo se ineficaz no propósito declarado, aprofundava o abismo entre os

judeus e o resto, sublinhando ainda mais a mensagem; por mais atrozes que

fossem as coisas que aconteciam aos judeus, elas definitivamente não

tinham qualquer influência adversa na lida do resto da população e portanto

não diziam respeito exceto aos judeus. Sabemos hoje, pela evidência

histórica plenamente comprovada, a que ponto chegou a energia dos altos

funcionários nazistas e dos especialistas a soldo deles para produzir uma

definição adequada dos judeus — aparentemente uma sutileza legal,

ridiculamente deslocada contra o pano de fundo da violência brutal e

inescrupulosa. De fato, a busca de uma definição legalmente perfeita era

mais do que o último vestígio da Jurisprudenzkultur de que os nazistas não

conseguiam se livrar muito bem ou uma homenagem que se prestava à

tradição ainda não plenamente esquecida do Rechtsstaat [Estado de direito].

Uma definição precisa do judeu era necessária para tranquilizar as

testemunhas da vitimização, garantindo que o que viam ou suspeitavam não

aconteceria a elas e que, portanto, seus interesses não estavam ameaçados.

Para obter esse efeito, precisava-se de definição tal que se pudesse usar para

decidir exatamente quem era e quem não era judeu; para eliminar toda

possibilidade de casos equívocos, intermediários, mistos, ambíguos, que

permitissem interpretação contraditória. Por mais notórias em suas

substância e relevância ostensivamente funcionais, as famosas Leis de

Nuremberg serviram a esse propósito de forma esplêndida.4 Não deixaram

terra de ninguém entre os judeus e os não judeus. Criou-se uma categoria de pessoas marcadas para Sonderbehandlung [tratamento especial] e

finalmente para eliminação. Mas também criaram, de um golpe, uma

categoria bem mais vasta de cidadãos limpos e seguros do Reich: o puro-

sangue alemão. O mesmo propósito era servido, com variado grau de

sucesso, marcando-se as lojas de judeus (e com isso enfatizando a

propriedade e segurança das que não eram marcadas) ou forçando o que

restava dos judeus alemães a colocar emblemas amarelos na roupa. Na

verdade, “importante como possa parecer, a Questão Judaica não tinha mais

que um interesse mínimo para a vasta maioria dos alemães”. Quando o

Reich se voltou para leste e era chegada a hora da Aussiedlung

[colonização], a maioria das pessoas “provavelmente pouco pensava e

perguntava menos ainda sobre o que acontecia aos judeus do leste. Para a

maioria, os judeus estavam fora de vista e fora da mente também… A

estrada para Auschwitz foi construída pelo ódio mas pavimentada pela

indiferença”.5

O processo de separação foi acompanhado por um silêncio ensurdecedor

de todas as elites estabelecidas e organizadas da sociedade alemã — todos

aqueles que, teoricamente, poderiam erguer a voz contra o iminente desastre

e se fazer ouvir. Pode-se supor que a razão disso, em parte, foi a ampla

simpatia pelo plano geral de Entfernung [remoção] de uma nação e cultura

vistas por várias razões como estranha e indesejável. Esta não foi, porém,

toda a razão e nem sequer talvez a mais decisiva. A tomada do poder do

Estado pelos nazistas não mudou as regras da conduta profissional, que

permaneceram fiéis como sempre foram, desde a aurora da idade moderna,

ao princípio da neutralidade moral da razão e à busca da racionalidade, que

não tolera compromisso com fatores não relacionados ao sucesso técnico do

empreendimento. As universidades alemãs, como suas equivalentes em

outros países modernos, cultivaram cuidadosamente o ideal da ciência

como uma atividade eminentemente livre de valoração; a seus

departamentos conferiam o direito e atribuíam o dever de servir aos

“interesses do conhecimento” e colocar de lado todos os interesses com os

quais pudessem colidir os objetivos científicos. Basta lembrar isso para que

diminua muito o choque do silêncio e mesmo da entusiástica cooperação

das instituições científicas alemãs na execução das tarefas nazistas. O

americano Franklin H. Littell insiste que quanto menos surpreendentes,

mais preocupantes são (ou ao menos deveriam ser) esse silêncio e essa

cooperação:

A crise de credibilidade da universidade moderna vem do fato de que os campos da morte não

foram construídos nem seu esquema operacional imaginado por iletrados, por selvagens

ignorantes e sem educação. Os centros de extermínio foram produto, como seus inventores,

daquele que durante gerações foi um dos melhores sistemas universitários do mundo…

Nossos bacharéis trabalham, sem maiores conflitos íntimos, pelo Chile social-democrata ou

pelo Chile fascista, pela junta ou pela república gregas, pela Espanha de Franco ou a dos

republicanos, pela Rússia, pela China, pelo Kuwait ou Israel, pelos Estados Unidos, Inglaterra,

Indonésia ou Paquistão… Isso resume, embora severamente, o papel histórico dos técnicos

formados, aqueles que foram “educados” na arte da indiferença moral, ética e religiosa da

universidade moderna…

 

Ele prossegue lamentando que por muitos anos foi mais fácil, no seu

país, discutir o mau uso e abuso da ciência pelos nazistas do que os serviços

oferecidos pelas universidades americanas à “Dow Chemical, à

Minneapolis, à Honeywell, à Boeing Aircraft… ou à ITT no

restabelecimento do fascismo no Chile”.6

O que de fato importava às elites científicas (e, de forma mais geral,

intelectuais) alemãs e aos seus melhores e mais distinguidos indivíduos era

a preservação de sua integridade acadêmica e como porta-vozes da Razão.

E essa tarefa não incluía (de fato excluía em caso de conflito) a

preocupação do significado ético de sua atividade. Como Alan Beyerchen

descobriu, na primavera e verão de 1933 os luminares da ciência alemã,

pessoas como Planck, Sommerfeld, Heisenberg e von Laue, todos

“aconselharam paciência e reserva ao se lidar com o governo,

especialmente no tocante a demissões e emigração… O objetivo básico era

preservar a autonomia profissional de sua disciplina, evitando a

confrontação e esperando que retornassem à vida e aos procedimentos

normais”.7 Todos queriam defender e salvar o que importava para eles — e

conseguiram, assim que se mostraram dispostos a esquecer o que importava

menos. Mostrar tal disposição foi fácil, uma vez que a “vida normal”

efetivamente retomada após as extravagâncias da lua de mel nazista não foi

muito diferente daquela a que esses professores estavam acostumados e

apreciavam com carinho. (Era justamente isso que estava faltando agora a

alguns dos seus velhos colegas — e havia uma nova saudação a fazer ao

entrar na sala de aula cheia de estudantes uniformizados.) Seus serviços

profissionais tinham forte demanda e apreço; estavam chegando fundos

para projetos ambiciosos e cientificamente instigantes — e para isso

nenhum preço parecia alto demais. Heisenberg procurou Himmler para ter a

garantia de que ele e os colegas (quer dizer, tirando aqueles que

desapareceram) teriam permissão para fazer o que queriam e desejavam. Himmler advertiu-o a fazer uma clara distinção entre descobertas científicas

e a conduta política dos físicos. Isso deve ter soado como música aos

ouvidos de Heisenberg: não era então o que seria instruído a fazer desde o

início? Ele “por isso não fez rodeios, promovendo ativamente a causa

nazista, principalmente no exterior e durante as hostilidades, chefiando com

diligência uma das duas equipes empenhadas em projetar explosivos

atômicos, estimulado sem dúvida —, inveterado animal científico que era

—, pelo desejo de ‘ver’ e vencer.” 8

“A história da retirada de poder dos intelectuais é sempre a história da

renúncia voluntária”, escreveu Joachim C. Fest, “e, se há resistência, é

meramente resistência à tentação de suicídio.” 9 As, digamos, vítimas

intelectuais transformadas em cortejadores da “vida normal” de tipo nazista

viam poucas razões para se suicidar e muitas para a rendição voluntária, às

vezes entusiástica.

O notável quanto à rendição é que é difícil dizer onde começa, e

virtualmente impossível prever onde deve parar. Durante o pogrom da

Kristallnacht, a mulher do eminente orientalista professor Kahle fora

descoberta ajudando uma amiga judia a rearrumar a loja depredada; o

marido passou a ser boicotado e a sofrer outras perseguições menores que o

forçaram a se demitir.

 

Os meses transcorridos foram um período de quarentena durante o qual apenas três pessoas —

de todo o círculo social e profissional do professor — o procuraram, com a cobertura da

escuridão. E recebeu mais uma comunicação do mundo exterior: uma carta de um grupo de

colegas lamentando que ele não tivesse uma saída honrosa da universidade por falta de tato da

mulher.10

 

Outra coisa notável sobre a rendição é que, por mais penosa que possa

ter sido no início, tende a passar da vergonha para o orgulho. Aqueles que

se rendem tornam-se cúmplices do crime e portam-se conforme a

dissonância cognitiva que a cumplicidade gera. Pessoas que viam com

desprezo e aversão as tolices antissemitas da propaganda nazista e ficaram

em silêncio “apenas para salvar os valores maiores” encontravam-se alguns

anos depois regozijando-se com a bendita limpeza das universidades e a

pureza da ciência alemãs. Seu próprio antissemitismo racional

 

fortaleceu-se à medida que a perseguição aos judeus foi piorando. A explicação é simples,

embora deprimente: quando as pessoas sabem, mesmo pela metade, que uma grande injustiça

está sendo cometida e não têm a generosidade e a coragem de protestar, automaticamente

lançam a culpa sobre as vítimas como forma mais simples de aliviar a própria consciência.11