Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 2 de 52

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Modernidade e Holocausto

1. Introdução: A sociologia depois do Holocausto

1

 

Introdução

 

A sociologia depois do Holocausto

 

A civilização hoje inclui campos de extermínio e Muselmänner entre

os seus produtos materiais e espirituais.

Richard Rubenstein e John Roth, Approaches to Auschwitz

 

Há duas maneiras de subestimar, desdenhar e se equivocar no julgamento

da importância do Holocausto para a sociologia como teoria da civilização,

da modernidade, da civilização moderna.

Uma é apresentar o Holocausto como algo que aconteceu aos judeus,

como um evento da história judaica. Isso torna o Holocausto único,

confortavelmente atípico e sociologicamente inconsequente. O exemplo

mais comum dessa maneira de ver o Holocausto é sua apresentação como

ponto culminante do antissemitismo cristão-europeu — um fenômeno único

em si mesmo, sem nada comparável no vasto e denso inventário de

preconceitos e agressões étnicos ou religiosos. Dentre todos os demais

casos de antagonismo coletivo, o antissemitismo é único por sua

sistematicidade sem precedentes, por sua intensidade ideológica, por sua

disseminação supranacional e supraterritorial, pela mistura singular de

fontes e tributários locais e ecumênicos. Enquanto definido, por assim dizer,

como a continuação do antissemitismo por outros meios, o Holocausto

parece ser um “conjunto unitário”, um episódio único, que talvez lance

alguma luz sobre a patologia da sociedade em que ocorreu mas que

dificilmente acrescenta algo à nossa compreensão do estado normal dessa

sociedade. Menos ainda exige uma revisão significativa da compreensão

ortodoxa da tendência histórica da modernidade, do processo civilizador,

dos tópicos constitutivos da investigação sociológica.

Outra maneira de apresentar o Holocausto — aparentemente apontando

em direção oposta, mas levando na prática ao mesmo resultado — é como

um caso extremo de uma ampla e conhecida categoria de fenômenos

sociais, categoria seguramente abominável e repulsiva, mas com a qual

podemos (e devemos) conviver. Devemos conviver com ela por causa de

sua capacidade de recuperação e onipresença, mas acima de tudo porque a

sociedade moderna tem sido desde o início, é e continuará sendo uma

organização destinada a desenrolá-la e exibi-la por completo. Assim o

Holocausto é classificado como mais um item (embora de destaque) numa

ampla categoria que abarca muitos casos “semelhantes” de conflito,

preconceito ou agressão. Na pior das hipóteses, o Holocausto é atribuído a

uma predisposição “natural”, primitiva e culturalmente inextinguível da

espécie humana — a agressão instintiva de Lorenz ou o fracasso do

neocórtex, na definição de Arthur Koestler, em controlar a parte antiga do

cérebro, dominada pelas emoções.1 Como pré-sociais e imunes à

manipulação cultural, fatores responsáveis pelo Holocausto são

efetivamente removidos da área de interesse sociológico. Na melhor das

hipóteses, o Holocausto é colocado na categoria mais sinistra e aterradora

— embora ainda assimilável teoricamente — do genocídio; ou então

simplesmente dissolvido na ampla e conhecidíssima categoria da opressão

ou perseguição étnica, cultural ou racial.2

Seja qual for a visão adotada, os efeitos são exatamente os mesmos. O

Holocausto é desviado para a corrente familiar da história:

 

Quando visto dessa maneira e acompanhado da adequada menção de outros horrores históricos

(as cruzadas religiosas, a matança dos hereges albigenses, a dizimação dos armênios pelos

turcos e mesmo a invenção britânica dos campos de concentração durante a Guerra dos

Bôeres), é um bocado conveniente ver o Holocausto como “único” — porém, afinal de contas,

normal.3

 

Ou então fazem remontar as origens do Holocausto a fatos mais do que

conhecidos: os séculos de guetos, discriminação legal, pogroms e

perseguição dos judeus na Europa cristã — dessa forma apresentando-o

como uma consequência pavorosamente única mas absolutamente lógica do

ódio étnico e religioso. De uma maneira ou de outra, a bomba é desarmada;

nenhuma revisão importante é de fato necessária a essa interpretação;

nossas visões da modernidade, do seu potencial oculto embora mais do que

presente, de sua tendência histórica, não requerem um novo e mais detido

olhar, uma vez que os métodos e conceitos acumulados pela sociologia são plenamente adequados para lidar com esse desafio — para “explicá-lo”,

“dar-lhe sentido”, para compreender em suma. O resultado global é a

complacência teórica. Nada, realmente, aconteceu que justifique outra

crítica do modelo de sociedade moderna que serviu tão bem de moldura

teórica e legitimação pragmática ao exercício sociológico.

Até aqui, importante divergência com essa atitude complacente e

autocongratulatória foi manifestada sobretudo por historiadores e teólogos.

Pouca atenção lhes deram os sociólogos. Comparadas à quantidade

espantosa de trabalhos dos historiadores e investigações da alma

empreendidas por teólogos cristãos e judeus, as contribuições de sociólogos

profissionais aos estudos do Holocausto parecem secundárias e

desprezíveis. Os estudos sociológicos concluídos até agora mostram, para

além da dúvida razoável, que o Holocausto tem mais a dizer sobre a

situação da sociologia do que a sociologia é capaz de acrescentar, no seu

estado atual, ao conhecimento que temos do Holocausto. Este fato

alarmante ainda não foi enfrentado (e muito menos respondido) pelos

sociólogos.

A maneira como a profissão sociológica entende sua tarefa em relação

ao fenômeno chamado “Holocausto” foi talvez expressa com mais

pertinência por um dos mais eminentes representantes da profissão, Everett

C. Hughes:

 

O governo nacional-socialista da Alemanha operou contra os judeus o mais colossal “trabalho

sujo” da história. Os problemas cruciais dessa ocorrência são (1) que pessoas efetivamente

fizeram esse trabalho e (2) quais as condições que levaram as “boas” pessoas a deixar que o

fizessem? O que precisamos é de um melhor conhecimento dos sinais de sua ascensão ao poder

e de formas melhores para mantê-los fora do poder.4

 

Fiel aos bem estabelecidos princípios da prática sociológica, Hughes

define o problema como sendo o de desvendar a combinação peculiar de

fatores psicossociais que se poderia de forma sensata ligar (como

determinante) às peculiares tendências comportamentais exibidas pelos que

praticaram o “trabalho sujo”; o de enumerar outro conjunto de fatores que

denigre a (esperada mas invisível) resistência a essas tendências por parte

de outros indivíduos; e o de ganhar, como resultado, certo conhecimento

explicativo-previdente que, neste nosso mundo racionalmente organizado,

regido como é por leis causais e probabilidades estatísticas, permitirá aos

que o possuem evitar que as tendências “sujas” se concretizem, se

expressem em comportamento efetivo e produzam seus “sujos” efeitos deletérios. Esta última tarefa será presumivelmente cumprida pela aplicação

do mesmo modelo de ação que tornou o nosso mundo racionalmente

organizado, manipulável e “controlável”. O que precisamos é de melhor

tecnologia para a velha — e de forma alguma desacreditada — atividade de

planejamento social.

Na que até agora foi a mais notável das contribuições tipicamente

sociológicas ao estudo do Holocausto, Helen Fein5 seguiu fielmente o

conselho de Hughes. Ela definiu como sua tarefa explicar detalhadamente

uma série de variáveis psicológicas, ideológicas e estruturais que mais

fortemente se relacionam à porcentagem de vítimas ou sobreviventes judeus

dentro das várias entidades estatais de caráter nacional na Europa sob

domínio nazista. Por todos os padrões ortodoxos, Fein produziu uma

pesquisa bem impressionante. Propriedades nacionais, intensidade local do

antissemitismo, graus de aculturação e assimilação dos judeus, a

solidariedade intercomunitária resultante — tudo foi cuidadosa e

corretamente registrado, de modo que as correlações podem ser

apropriadamente computadas e sua relevância checada. Mostra que algumas

conexões hipotéticas são inexistentes ou pelo menos estatisticamente

inválidas; algumas outras regularidades são estatisticamente confirmadas

(como a correlação entre a ausência de solidariedade e a probabilidade de

que “as pessoas se desligariam de restrições morais”). É precisamente por

causa do impecável talento sociológico da autora e da competência com a

qual foi usado que as fraquezas da sociologia ortodoxa são

inadvertidamente expostas no livro de Fein. Sem rever alguns dos

pressupostos essenciais mas tácitos do discurso sociológico, não se pode

fazer nada exceto o que Fein fez: conceber o Holocausto como produto

único mas totalmente determinado de uma concatenação específica de

fatores sociais e psicológicos que levaram a uma suspensão temporária do

controle civilizatório em que normalmente é mantido o comportamento

humano. Nesse tipo de visão (de forma implícita, senão explicitamente),

uma coisa que emerge intacta e incólume da experiência do Holocausto é o

impacto humanizador e/ou racionalizador (os dois conceitos são usados

como sinônimos) da organização social sobre impulsos desumanos que

governam a conduta de indivíduos pré ou antissociais. Qualquer instinto

moral encontrado na conduta humana é socialmente produzido. Ele se

dissolve assim que a sociedade passa a funcionar mal. “Numa condição de

anomia — livre de regulação social — as pessoas podem reagir sem

considerar a possibilidade de estar ferindo outras.”6 Donde se infere que a

existência de efetiva regulação social torna tal desconsideração improvável.

O empuxo da regulação social — e portanto da moderna civilização,

notável como é para conter as ambições reguladoras em limites nunca

dantes ouvidos — é a imposição de restrições morais ao egoísmo de outro

modo violento e à selvageria inata do animal que existe no homem. Tendo

processado os fatos do Holocausto na moenda dessa metodologia que o

define como uma disciplina acadêmica, a sociologia ortodoxa pode apenas

emitir uma mensagem demarcada mais por seus pressupostos do que pelos

“fatos específicos”: a mensagem de que o Holocausto foi um fracasso, não

um produto, da modernidade.

Em outro notável estudo sociológico do Holocausto, Nechama Tec

tentou investigar o outro lado do espectro social: os salvadores — aqueles

que não permitiram a consecução do “trabalho sujo”, que dedicaram suas

vidas aos outros sofredores no mundo do egoísmo universal, pessoas que,

em suma, permaneceram morais sob condições imorais. Fiel aos preceitos

do saber sociológico, Tec esforçou-se um bocado para descobrir os

determinantes sociais daquilo que, segundo todos os padrões da época, foi

um comportamento aberrante. Uma a uma ela examinou todas as hipóteses

que qualquer sociólogo respeitável e inteligente certamente incluiria no

projeto de pesquisa. Ela procurou correlações entre a disposição de ajudar,

de um lado, e vários fatores de classe, educação, religião ou fidelidade

política, de outro — apenas para descobrir que não havia correlação

alguma. A despeito de suas próprias expectativas — e as de seus leitores

sociologicamente educados — Tec teve que tirar a única conclusão

permissível: “Esses salvadores agiram de formas que eram naturais para

eles — espontaneamente foram capazes de contratacar os horrores de sua

época.”7 Em outras palavras, os salvadores queriam salvar porque essa era a

sua natureza. Vinham de todos os cantos e setores do “espectro social”,

dessa maneira evidenciando o blefe de que haveria “determinantes sociais”

do comportamento moral. Quando nada, a contribuição de tais

determinantes expressava-se no seu fracasso em extinguir a ânsia dos

salvadores em ajudar outras pessoas que sofriam. Tec chegou mais perto

que a maioria dos sociólogos da descoberta de que o verdadeiro ponto em

questão não é “o que os sociólogos podemos dizer do Holocausto” mas,

sim, “o que o Holocausto tem a dizer sobre nós, sociólogos, e a nossa

prática”.