Modernidade e Holocausto
1. Introdução: A sociologia depois do Holocausto
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Introdução
A sociologia depois do Holocausto
A civilização hoje inclui campos de extermínio e Muselmänner entre
os seus produtos materiais e espirituais.
Richard Rubenstein e John Roth, Approaches to Auschwitz
Há duas maneiras de subestimar, desdenhar e se equivocar no julgamento
da importância do Holocausto para a sociologia como teoria da civilização,
da modernidade, da civilização moderna.
Uma é apresentar o Holocausto como algo que aconteceu aos judeus,
como um evento da história judaica. Isso torna o Holocausto único,
confortavelmente atípico e sociologicamente inconsequente. O exemplo
mais comum dessa maneira de ver o Holocausto é sua apresentação como
ponto culminante do antissemitismo cristão-europeu — um fenômeno único
em si mesmo, sem nada comparável no vasto e denso inventário de
preconceitos e agressões étnicos ou religiosos. Dentre todos os demais
casos de antagonismo coletivo, o antissemitismo é único por sua
sistematicidade sem precedentes, por sua intensidade ideológica, por sua
disseminação supranacional e supraterritorial, pela mistura singular de
fontes e tributários locais e ecumênicos. Enquanto definido, por assim dizer,
como a continuação do antissemitismo por outros meios, o Holocausto
parece ser um “conjunto unitário”, um episódio único, que talvez lance
alguma luz sobre a patologia da sociedade em que ocorreu mas que
dificilmente acrescenta algo à nossa compreensão do estado normal dessa
sociedade. Menos ainda exige uma revisão significativa da compreensão
ortodoxa da tendência histórica da modernidade, do processo civilizador,
dos tópicos constitutivos da investigação sociológica.
Outra maneira de apresentar o Holocausto — aparentemente apontando
em direção oposta, mas levando na prática ao mesmo resultado — é como
um caso extremo de uma ampla e conhecida categoria de fenômenos
sociais, categoria seguramente abominável e repulsiva, mas com a qual
podemos (e devemos) conviver. Devemos conviver com ela por causa de
sua capacidade de recuperação e onipresença, mas acima de tudo porque a
sociedade moderna tem sido desde o início, é e continuará sendo uma
organização destinada a desenrolá-la e exibi-la por completo. Assim o
Holocausto é classificado como mais um item (embora de destaque) numa
ampla categoria que abarca muitos casos “semelhantes” de conflito,
preconceito ou agressão. Na pior das hipóteses, o Holocausto é atribuído a
uma predisposição “natural”, primitiva e culturalmente inextinguível da
espécie humana — a agressão instintiva de Lorenz ou o fracasso do
neocórtex, na definição de Arthur Koestler, em controlar a parte antiga do
cérebro, dominada pelas emoções.1 Como pré-sociais e imunes à
manipulação cultural, fatores responsáveis pelo Holocausto são
efetivamente removidos da área de interesse sociológico. Na melhor das
hipóteses, o Holocausto é colocado na categoria mais sinistra e aterradora
— embora ainda assimilável teoricamente — do genocídio; ou então
simplesmente dissolvido na ampla e conhecidíssima categoria da opressão
ou perseguição étnica, cultural ou racial.2
Seja qual for a visão adotada, os efeitos são exatamente os mesmos. O
Holocausto é desviado para a corrente familiar da história:
Quando visto dessa maneira e acompanhado da adequada menção de outros horrores históricos
(as cruzadas religiosas, a matança dos hereges albigenses, a dizimação dos armênios pelos
turcos e mesmo a invenção britânica dos campos de concentração durante a Guerra dos
Bôeres), é um bocado conveniente ver o Holocausto como “único” — porém, afinal de contas,
normal.3
Ou então fazem remontar as origens do Holocausto a fatos mais do que
conhecidos: os séculos de guetos, discriminação legal, pogroms e
perseguição dos judeus na Europa cristã — dessa forma apresentando-o
como uma consequência pavorosamente única mas absolutamente lógica do
ódio étnico e religioso. De uma maneira ou de outra, a bomba é desarmada;
nenhuma revisão importante é de fato necessária a essa interpretação;
nossas visões da modernidade, do seu potencial oculto embora mais do que
presente, de sua tendência histórica, não requerem um novo e mais detido
olhar, uma vez que os métodos e conceitos acumulados pela sociologia são plenamente adequados para lidar com esse desafio — para “explicá-lo”,
“dar-lhe sentido”, para compreender em suma. O resultado global é a
complacência teórica. Nada, realmente, aconteceu que justifique outra
crítica do modelo de sociedade moderna que serviu tão bem de moldura
teórica e legitimação pragmática ao exercício sociológico.
Até aqui, importante divergência com essa atitude complacente e
autocongratulatória foi manifestada sobretudo por historiadores e teólogos.
Pouca atenção lhes deram os sociólogos. Comparadas à quantidade
espantosa de trabalhos dos historiadores e investigações da alma
empreendidas por teólogos cristãos e judeus, as contribuições de sociólogos
profissionais aos estudos do Holocausto parecem secundárias e
desprezíveis. Os estudos sociológicos concluídos até agora mostram, para
além da dúvida razoável, que o Holocausto tem mais a dizer sobre a
situação da sociologia do que a sociologia é capaz de acrescentar, no seu
estado atual, ao conhecimento que temos do Holocausto. Este fato
alarmante ainda não foi enfrentado (e muito menos respondido) pelos
sociólogos.
A maneira como a profissão sociológica entende sua tarefa em relação
ao fenômeno chamado “Holocausto” foi talvez expressa com mais
pertinência por um dos mais eminentes representantes da profissão, Everett
C. Hughes:
O governo nacional-socialista da Alemanha operou contra os judeus o mais colossal “trabalho
sujo” da história. Os problemas cruciais dessa ocorrência são (1) que pessoas efetivamente
fizeram esse trabalho e (2) quais as condições que levaram as “boas” pessoas a deixar que o
fizessem? O que precisamos é de um melhor conhecimento dos sinais de sua ascensão ao poder
e de formas melhores para mantê-los fora do poder.4
Fiel aos bem estabelecidos princípios da prática sociológica, Hughes
define o problema como sendo o de desvendar a combinação peculiar de
fatores psicossociais que se poderia de forma sensata ligar (como
determinante) às peculiares tendências comportamentais exibidas pelos que
praticaram o “trabalho sujo”; o de enumerar outro conjunto de fatores que
denigre a (esperada mas invisível) resistência a essas tendências por parte
de outros indivíduos; e o de ganhar, como resultado, certo conhecimento
explicativo-previdente que, neste nosso mundo racionalmente organizado,
regido como é por leis causais e probabilidades estatísticas, permitirá aos
que o possuem evitar que as tendências “sujas” se concretizem, se
expressem em comportamento efetivo e produzam seus “sujos” efeitos deletérios. Esta última tarefa será presumivelmente cumprida pela aplicação
do mesmo modelo de ação que tornou o nosso mundo racionalmente
organizado, manipulável e “controlável”. O que precisamos é de melhor
tecnologia para a velha — e de forma alguma desacreditada — atividade de
planejamento social.
Na que até agora foi a mais notável das contribuições tipicamente
sociológicas ao estudo do Holocausto, Helen Fein5 seguiu fielmente o
conselho de Hughes. Ela definiu como sua tarefa explicar detalhadamente
uma série de variáveis psicológicas, ideológicas e estruturais que mais
fortemente se relacionam à porcentagem de vítimas ou sobreviventes judeus
dentro das várias entidades estatais de caráter nacional na Europa sob
domínio nazista. Por todos os padrões ortodoxos, Fein produziu uma
pesquisa bem impressionante. Propriedades nacionais, intensidade local do
antissemitismo, graus de aculturação e assimilação dos judeus, a
solidariedade intercomunitária resultante — tudo foi cuidadosa e
corretamente registrado, de modo que as correlações podem ser
apropriadamente computadas e sua relevância checada. Mostra que algumas
conexões hipotéticas são inexistentes ou pelo menos estatisticamente
inválidas; algumas outras regularidades são estatisticamente confirmadas
(como a correlação entre a ausência de solidariedade e a probabilidade de
que “as pessoas se desligariam de restrições morais”). É precisamente por
causa do impecável talento sociológico da autora e da competência com a
qual foi usado que as fraquezas da sociologia ortodoxa são
inadvertidamente expostas no livro de Fein. Sem rever alguns dos
pressupostos essenciais mas tácitos do discurso sociológico, não se pode
fazer nada exceto o que Fein fez: conceber o Holocausto como produto
único mas totalmente determinado de uma concatenação específica de
fatores sociais e psicológicos que levaram a uma suspensão temporária do
controle civilizatório em que normalmente é mantido o comportamento
humano. Nesse tipo de visão (de forma implícita, senão explicitamente),
uma coisa que emerge intacta e incólume da experiência do Holocausto é o
impacto humanizador e/ou racionalizador (os dois conceitos são usados
como sinônimos) da organização social sobre impulsos desumanos que
governam a conduta de indivíduos pré ou antissociais. Qualquer instinto
moral encontrado na conduta humana é socialmente produzido. Ele se
dissolve assim que a sociedade passa a funcionar mal. “Numa condição de
anomia — livre de regulação social — as pessoas podem reagir sem
considerar a possibilidade de estar ferindo outras.”6 Donde se infere que a
existência de efetiva regulação social torna tal desconsideração improvável.
O empuxo da regulação social — e portanto da moderna civilização,
notável como é para conter as ambições reguladoras em limites nunca
dantes ouvidos — é a imposição de restrições morais ao egoísmo de outro
modo violento e à selvageria inata do animal que existe no homem. Tendo
processado os fatos do Holocausto na moenda dessa metodologia que o
define como uma disciplina acadêmica, a sociologia ortodoxa pode apenas
emitir uma mensagem demarcada mais por seus pressupostos do que pelos
“fatos específicos”: a mensagem de que o Holocausto foi um fracasso, não
um produto, da modernidade.
Em outro notável estudo sociológico do Holocausto, Nechama Tec
tentou investigar o outro lado do espectro social: os salvadores — aqueles
que não permitiram a consecução do “trabalho sujo”, que dedicaram suas
vidas aos outros sofredores no mundo do egoísmo universal, pessoas que,
em suma, permaneceram morais sob condições imorais. Fiel aos preceitos
do saber sociológico, Tec esforçou-se um bocado para descobrir os
determinantes sociais daquilo que, segundo todos os padrões da época, foi
um comportamento aberrante. Uma a uma ela examinou todas as hipóteses
que qualquer sociólogo respeitável e inteligente certamente incluiria no
projeto de pesquisa. Ela procurou correlações entre a disposição de ajudar,
de um lado, e vários fatores de classe, educação, religião ou fidelidade
política, de outro — apenas para descobrir que não havia correlação
alguma. A despeito de suas próprias expectativas — e as de seus leitores
sociologicamente educados — Tec teve que tirar a única conclusão
permissível: “Esses salvadores agiram de formas que eram naturais para
eles — espontaneamente foram capazes de contratacar os horrores de sua
época.”7 Em outras palavras, os salvadores queriam salvar porque essa era a
sua natureza. Vinham de todos os cantos e setores do “espectro social”,
dessa maneira evidenciando o blefe de que haveria “determinantes sociais”
do comportamento moral. Quando nada, a contribuição de tais
determinantes expressava-se no seu fracasso em extinguir a ânsia dos
salvadores em ajudar outras pessoas que sofriam. Tec chegou mais perto
que a maioria dos sociólogos da descoberta de que o verdadeiro ponto em
questão não é “o que os sociólogos podemos dizer do Holocausto” mas,
sim, “o que o Holocausto tem a dizer sobre nós, sociólogos, e a nossa
prática”.