Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 48 de 52

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Modernidade e Holocausto

Supressão social da responsabilidade moral

eu conheço. Este pertence ao reino da moralidade, do qual aquele está

firmemente excluído. O segundo reside no universo semântico do bom e do

mau, que teimosamente recusa a se subordinar ao discurso da eficiência e

da escolha racional.

 

Supressão social da responsabilidade moral

 

Já sabemos que houve pouca ligação direta entre a difusa heterofobia e o

assassinato em massa planejado e perpetrado pelos nazistas. O que a

evidência histórica acumulada fortemente sugere, além disso, é que o

assassinato em massa na escala sem precedentes do Holocausto não foi (e

com toda probabilidade não poderia ser) um efeito do despertar, soltar,

estimular e intensificar ou uma eclosão de tendências pessoais adormecidas;

nem foi, em qualquer outro sentido, uma continuidade da hostilidade que

existisse nas relações pessoais diretas, por mais azedas e amargas que essas

possam eventualmente ter-se tornado. Há um claro limite até onde pode ser

esticada essa animosidade baseada no relacionamento pessoal. Na maioria

dos casos, ela resistiria a ser esticada além da linha traçada por aquela

responsabilidade elementar em relação ao outro que está inextricavelmente

entrelaçada à proximidade humana, ao “viver com os outros”. O

Holocausto só poderia ser executado com a condição de neutralizar o

impacto dos impulsos morais primitivos, de isolar a maquinária do

assassinato da esfera em que despontam e atuam tais impulsos, de torná-

los marginais ou completamente irrelevantes para a tarefa a realizar.

Neutralização, isolamento e marginalização esses que foram alcançados

pelo regime nazista com a utilização de um formidável aparato da indústria,

transporte, ciência, burocracia e tecnologia modernos. Sem eles, o

Holocausto seria impensável, a grandiosa visão de uma Europa judenrein,

do total extermínio da raça judia, se esgotaria numa miríade de pogroms

maiores ou menores perpetrados por psicopatas, sádicos, fanáticos e outros

viciados em violência gratuita; por mais cruéis e sangrentas, tais ações

dificilmente seriam proporcionais ao objetivo. Foi a elaboração da “solução

para o problema judeu” como uma tarefa racional, técnico-burocrática,

como algo a ser feito a uma categoria específica de objetos por um conjunto

específico de especialistas e organizações especializadas — em outras palavras, como uma tarefa despersonalizada não dependente dos

sentimentos e compromissos pessoais — que se revelou no final adequada à

visão de Hitler. No entanto, a solução não poderia ser assim visualizada

nem, certamente, executada enquanto os futuros objetos das operações

burocráticas, os judeus, não fossem removidos do horizonte da vida

cotidiana alemã, cortados da rede de relacionamentos pessoais,

transformados na prática em exemplares de uma categoria, de um

estereótipo — no conceito abstrato do judeu metafísico. Ou seja, enquanto

não deixassem de ser aqueles “outros” aos quais se estende normalmente a

responsabilidade moral e não perdessem a proteção que essa moralidade

natural oferece.

Depois de analisar exaustivamente os sucessivos fracassos dos nazistas

em despertar o ódio popular contra os judeus e usá-lo a serviço da “solução

do problema judaico”, Ian Kershaw chega à conclusão de que

 

Onde os nazistas não tiveram sucesso foi na despersonalização dos judeus. Quanto mais o

judeu era forçado a abandonar a vida social, mais parecia encaixar-se nos estereótipos de uma

propaganda que paradoxalmente intensificava sua campanha contra a “judiaria” quanto menos

judeus de fato restassem na Alemanha. A despersonalização aumentou a já existente

indiferença generalizada da opinião pública alemã e criou um estágio essencial entre a arcaica

violência e o racionalizado extermínio da “linha de montagem” dos campos da morte.

A “Solução Final” não teria sido possível sem os sucessivos passos para excluir os judeus

da sociedade alemã, dados abertamente aos olhos do público, na sua forma legal que

conquistou ampla aprovação, e resultaram na despersonalização e degradação da figura do

judeu.15

 

Como já observamos no terceiro capítulo, os alemães que fizeram

objeções às violentas explosões das SA quando o “judeu ao lado” era a

vítima dos rufiões (mesmo aqueles que tiveram a coragem de manifestar

sua repulsa) aceitaram com indiferença e muitas vezes com satisfação as

restrições legais impostas ao “judeu como tal”. O que despertava sua

consciência se atingia pessoas que conheciam mal provocava qualquer

sentimento quando se dirigia contra um grupo abstrato e estereotipado. Eles

viam com serenidade, ou não viam, o gradual desaparecimento dos judeus

de seu mundo cotidiano. Até que, para os jovens soldados alemães e os SS

encarregados de “liquidar” tantas Figuren, o judeu se tornou “apenas uma

‘peça de museu’, algo para olhar com curiosidade, um fantástico animal

fóssil com uma estrela amarela no peito, uma testemunha de tempos idos

mas não mais pertencente ao presente, algo que devíamos viajar para bem

longe se quiséssemos ver”.16 A moralidade não ia tão longe. Ela tende a

ficar em casa e no presente.

Nas palavras de Hans Mommsen,

 

A política de Heidrich de isolar social e moralmente a minoria judaica da maioria da população

prosseguiu sem maiores protestos públicos porque aquela parte da população judaica que

estivera em contato íntimo com seus vizinhos alemães ou não estava incluída na crescente

discriminação ou fora passo a passo isolada deles. Só depois que um acúmulo de legislação

discriminatória empurrou os judeus da Alemanha a um papel de párias sociais, completamente

privados de qualquer comunicação social regular com a maioria da população, foi que a

deportação e o extermínio puderam ser levados a efeito sem abalar a estrutura social do

regime.17

 

Raul Hilberg, a maior autoridade na história do Holocausto, teve a dizer

o seguinte sobre os passos que levaram ao gradual silenciamento das

inibições morais e ao desencadeamento do mecanismo da destruição em

massa:

 

Na sua forma completa, um processo de destruição numa sociedade moderna será então

estruturado como mostra este quadro:

 

Definição

↓

Demissão de empregados

e expropriação de casas de negócio

↓

Concentração

↓

Exploração do trabalho e medidas para matar de fome

↓

Extermínio

↓

Confisco de bens pessoais

 

A sequência de passos num processo de destruição é assim determinada. Se há uma tentativa

de infligir o máximo de dano a um grupo de pessoas, é portanto inevitável que uma burocracia

— não importa quão descentralizado o seu aparato ou quão não planejadas as suas atividades

— empurre suas vítimas através desses estágios.18

 

Os estágios, sugere Hilberg, são logicamente determinados; formam

uma sequência racional, uma sequência conforme aos padrões modernos que nos levam a procurar os caminhos mais curtos e os meios mais

eficientes para alcançar determinado fim. Se agora tentamos descobrir o

princípio-guia dessa solução racional para o problema da destruição em

massa, verificamos que os sucessivos estágios são dispostos de acordo com

a lógica da expulsão do reino do dever moral (ou, para usar o conceito

sugerido por Helen Fein19, do universo das obrigações).

A definição coloca o grupo de vítimas à parte (todas as definições

significam dividir a totalidade em duas partes — uma marcada e a outra

não) como um grupo diferente, de modo que tudo o que a ele se aplica não

se aplique ao resto. Pelo próprio ato de ser definido, o grupo foi assinalado

para um tratamento especial; o que é adequado às pessoas “comuns” não

deve necessariamente ser adequado a ele. Membros individuais do grupo

tornam-se agora, além disso, exemplares de uma espécie; algo da natureza

específica não pode penetrar senão suas imagens individuais,

comprometendo a proximidade originalmente inocente e limitando sua

autonomia como universo moral independente.

Demissões e expropriações rasgam a maioria dos contratos, substituindo

a antiga proximidade por uma distância física e espiritual. O grupo

vitimizado é então efetivamente removido de cena; é no máximo um grupo

de que se ouve falar mas não se vê, de forma que aquilo que se ouve a seu

respeito não tem nenhuma chance de ser traduzido para o conhecimento dos

destinos individuais e, portanto, de ser checado em confronto com a

experiência pessoal.

A concentração completa esse processo de distanciamento. O grupo

vitimizado e os restantes não se encontram mais, seus processos de vida não

se cruzam, a comunicação estanca, o que quer que aconteça a um dos

grupos agora segregados não diz respeito ao outro, não tem significado fácil

de traduzir na linguagem do relacionamento humano.

A exploração e a fome realizam mais um feito verdadeiramente

assustador: disfarçam a desumanidade como humanitarismo. Há ampla

evidência de chefes nazistas locais pedindo aos superiores permissão para

matar alguns judeus sob sua jurisdição (bem antes de ter sido dado o sinal

para a matança em massa) de modo a poupá-los da agonia da fome; como

os suprimentos de comida não eram suficientes para sustentar uma massa

populacional isolada nos guetos e despojada de sua riqueza e renda, o

assassinato parecia um ato de misericórdia — com efeito, uma manifestação

humanitária. “O círculo diabólico das políticas fascistas” permitia “criar situações e estados de emergência deliberadamente insuportáveis e usá-los