Modernidade e Holocausto
Supressão social da responsabilidade moral
eu conheço. Este pertence ao reino da moralidade, do qual aquele está
firmemente excluído. O segundo reside no universo semântico do bom e do
mau, que teimosamente recusa a se subordinar ao discurso da eficiência e
da escolha racional.
Supressão social da responsabilidade moral
Já sabemos que houve pouca ligação direta entre a difusa heterofobia e o
assassinato em massa planejado e perpetrado pelos nazistas. O que a
evidência histórica acumulada fortemente sugere, além disso, é que o
assassinato em massa na escala sem precedentes do Holocausto não foi (e
com toda probabilidade não poderia ser) um efeito do despertar, soltar,
estimular e intensificar ou uma eclosão de tendências pessoais adormecidas;
nem foi, em qualquer outro sentido, uma continuidade da hostilidade que
existisse nas relações pessoais diretas, por mais azedas e amargas que essas
possam eventualmente ter-se tornado. Há um claro limite até onde pode ser
esticada essa animosidade baseada no relacionamento pessoal. Na maioria
dos casos, ela resistiria a ser esticada além da linha traçada por aquela
responsabilidade elementar em relação ao outro que está inextricavelmente
entrelaçada à proximidade humana, ao “viver com os outros”. O
Holocausto só poderia ser executado com a condição de neutralizar o
impacto dos impulsos morais primitivos, de isolar a maquinária do
assassinato da esfera em que despontam e atuam tais impulsos, de torná-
los marginais ou completamente irrelevantes para a tarefa a realizar.
Neutralização, isolamento e marginalização esses que foram alcançados
pelo regime nazista com a utilização de um formidável aparato da indústria,
transporte, ciência, burocracia e tecnologia modernos. Sem eles, o
Holocausto seria impensável, a grandiosa visão de uma Europa judenrein,
do total extermínio da raça judia, se esgotaria numa miríade de pogroms
maiores ou menores perpetrados por psicopatas, sádicos, fanáticos e outros
viciados em violência gratuita; por mais cruéis e sangrentas, tais ações
dificilmente seriam proporcionais ao objetivo. Foi a elaboração da “solução
para o problema judeu” como uma tarefa racional, técnico-burocrática,
como algo a ser feito a uma categoria específica de objetos por um conjunto
específico de especialistas e organizações especializadas — em outras palavras, como uma tarefa despersonalizada não dependente dos
sentimentos e compromissos pessoais — que se revelou no final adequada à
visão de Hitler. No entanto, a solução não poderia ser assim visualizada
nem, certamente, executada enquanto os futuros objetos das operações
burocráticas, os judeus, não fossem removidos do horizonte da vida
cotidiana alemã, cortados da rede de relacionamentos pessoais,
transformados na prática em exemplares de uma categoria, de um
estereótipo — no conceito abstrato do judeu metafísico. Ou seja, enquanto
não deixassem de ser aqueles “outros” aos quais se estende normalmente a
responsabilidade moral e não perdessem a proteção que essa moralidade
natural oferece.
Depois de analisar exaustivamente os sucessivos fracassos dos nazistas
em despertar o ódio popular contra os judeus e usá-lo a serviço da “solução
do problema judaico”, Ian Kershaw chega à conclusão de que
Onde os nazistas não tiveram sucesso foi na despersonalização dos judeus. Quanto mais o
judeu era forçado a abandonar a vida social, mais parecia encaixar-se nos estereótipos de uma
propaganda que paradoxalmente intensificava sua campanha contra a “judiaria” quanto menos
judeus de fato restassem na Alemanha. A despersonalização aumentou a já existente
indiferença generalizada da opinião pública alemã e criou um estágio essencial entre a arcaica
violência e o racionalizado extermínio da “linha de montagem” dos campos da morte.
A “Solução Final” não teria sido possível sem os sucessivos passos para excluir os judeus
da sociedade alemã, dados abertamente aos olhos do público, na sua forma legal que
conquistou ampla aprovação, e resultaram na despersonalização e degradação da figura do
judeu.15
Como já observamos no terceiro capítulo, os alemães que fizeram
objeções às violentas explosões das SA quando o “judeu ao lado” era a
vítima dos rufiões (mesmo aqueles que tiveram a coragem de manifestar
sua repulsa) aceitaram com indiferença e muitas vezes com satisfação as
restrições legais impostas ao “judeu como tal”. O que despertava sua
consciência se atingia pessoas que conheciam mal provocava qualquer
sentimento quando se dirigia contra um grupo abstrato e estereotipado. Eles
viam com serenidade, ou não viam, o gradual desaparecimento dos judeus
de seu mundo cotidiano. Até que, para os jovens soldados alemães e os SS
encarregados de “liquidar” tantas Figuren, o judeu se tornou “apenas uma
‘peça de museu’, algo para olhar com curiosidade, um fantástico animal
fóssil com uma estrela amarela no peito, uma testemunha de tempos idos
mas não mais pertencente ao presente, algo que devíamos viajar para bem
longe se quiséssemos ver”.16 A moralidade não ia tão longe. Ela tende a
ficar em casa e no presente.
Nas palavras de Hans Mommsen,
A política de Heidrich de isolar social e moralmente a minoria judaica da maioria da população
prosseguiu sem maiores protestos públicos porque aquela parte da população judaica que
estivera em contato íntimo com seus vizinhos alemães ou não estava incluída na crescente
discriminação ou fora passo a passo isolada deles. Só depois que um acúmulo de legislação
discriminatória empurrou os judeus da Alemanha a um papel de párias sociais, completamente
privados de qualquer comunicação social regular com a maioria da população, foi que a
deportação e o extermínio puderam ser levados a efeito sem abalar a estrutura social do
regime.17
Raul Hilberg, a maior autoridade na história do Holocausto, teve a dizer
o seguinte sobre os passos que levaram ao gradual silenciamento das
inibições morais e ao desencadeamento do mecanismo da destruição em
massa:
Na sua forma completa, um processo de destruição numa sociedade moderna será então
estruturado como mostra este quadro:
Definição
↓
Demissão de empregados
e expropriação de casas de negócio
↓
Concentração
↓
Exploração do trabalho e medidas para matar de fome
↓
Extermínio
↓
Confisco de bens pessoais
A sequência de passos num processo de destruição é assim determinada. Se há uma tentativa
de infligir o máximo de dano a um grupo de pessoas, é portanto inevitável que uma burocracia
— não importa quão descentralizado o seu aparato ou quão não planejadas as suas atividades
— empurre suas vítimas através desses estágios.18
Os estágios, sugere Hilberg, são logicamente determinados; formam
uma sequência racional, uma sequência conforme aos padrões modernos que nos levam a procurar os caminhos mais curtos e os meios mais
eficientes para alcançar determinado fim. Se agora tentamos descobrir o
princípio-guia dessa solução racional para o problema da destruição em
massa, verificamos que os sucessivos estágios são dispostos de acordo com
a lógica da expulsão do reino do dever moral (ou, para usar o conceito
sugerido por Helen Fein19, do universo das obrigações).
A definição coloca o grupo de vítimas à parte (todas as definições
significam dividir a totalidade em duas partes — uma marcada e a outra
não) como um grupo diferente, de modo que tudo o que a ele se aplica não
se aplique ao resto. Pelo próprio ato de ser definido, o grupo foi assinalado
para um tratamento especial; o que é adequado às pessoas “comuns” não
deve necessariamente ser adequado a ele. Membros individuais do grupo
tornam-se agora, além disso, exemplares de uma espécie; algo da natureza
específica não pode penetrar senão suas imagens individuais,
comprometendo a proximidade originalmente inocente e limitando sua
autonomia como universo moral independente.
Demissões e expropriações rasgam a maioria dos contratos, substituindo
a antiga proximidade por uma distância física e espiritual. O grupo
vitimizado é então efetivamente removido de cena; é no máximo um grupo
de que se ouve falar mas não se vê, de forma que aquilo que se ouve a seu
respeito não tem nenhuma chance de ser traduzido para o conhecimento dos
destinos individuais e, portanto, de ser checado em confronto com a
experiência pessoal.
A concentração completa esse processo de distanciamento. O grupo
vitimizado e os restantes não se encontram mais, seus processos de vida não
se cruzam, a comunicação estanca, o que quer que aconteça a um dos
grupos agora segregados não diz respeito ao outro, não tem significado fácil
de traduzir na linguagem do relacionamento humano.
A exploração e a fome realizam mais um feito verdadeiramente
assustador: disfarçam a desumanidade como humanitarismo. Há ampla
evidência de chefes nazistas locais pedindo aos superiores permissão para
matar alguns judeus sob sua jurisdição (bem antes de ter sido dado o sinal
para a matança em massa) de modo a poupá-los da agonia da fome; como
os suprimentos de comida não eram suficientes para sustentar uma massa
populacional isolada nos guetos e despojada de sua riqueza e renda, o
assassinato parecia um ato de misericórdia — com efeito, uma manifestação
humanitária. “O círculo diabólico das políticas fascistas” permitia “criar situações e estados de emergência deliberadamente insuportáveis e usá-los