Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 6 de 52

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Modernidade e Holocausto

A produção social da invisibilidade moral

burocraticamente definidos.

 

A produção social da invisibilidade moral

 

Até aqui tentamos reconstituir o mecanismo social da “superação da

piedade animal”; uma produção social de conduta contrária às inibições

morais inatas, capaz de transformar indivíduos que não são “degenerados

morais” em qualquer dos sentidos “normais” em assassinos ou

colaboradores conscientes no processo de extermínio. A experiência do

Holocausto põe em relevo, no entanto, outro mecanismo social, um

mecanismo com potencial muito mais sinistro de envolver na perpetração

do genocídio um número muito maior de pessoas que nunca enfrentam

conscientemente no processo nem opções morais difíceis nem a necessidade

de reprimir uma resistência interior de consciência. A luta em torno de

questões morais nunca tem lugar, pois os aspectos morais das ações não são

imediatamente óbvios ou sua descoberta e discussão são deliberadamente

evitadas. Em outras palavras, o caráter moral da ação é invisível ou

propositalmente encoberto.

Para citar Hilberg de novo, “deve-se ter em mente que a maioria dos

participantes [do genocídio] não atirou em crianças nem despejou gás em

câmaras de gás… A maioria dos burocratas compôs memorandos, redigiu

planos, falou ao telefone e participou de conferências. Podiam destruir todo

um povo sentados em suas escrivaninhas.”32 Tivessem consciência do

produto último de seu afã aparentemente inócuo, tal conhecimento ficaria,

na melhor das hipóteses, nos recessos ocultos de suas mentes. Ligações

casuais entre as suas ações e o assassínio em massa eram difíceis de

distinguir. Pouco opróbrio moral era vinculado à natural inclinação humana

de evitar preocupar-se mais do que o necessário — e assim abster-se de

examinar toda a extensão da cadeia causal até suas ligações mais remotas.

Para compreender como foi possível essa cegueira moral estarrecedora,

ajuda pensar nos operários da fábrica de armamentos que se alegram com a

“suspensão do fechamento” de sua indústria graças a novas ordens

grandiosas, ao mesmo tempo que lamentam os massacres mútuos de etíopes

e eritreus; ou pensar como é possível que a “queda nos preços das

commodities” pode ser universalmente aclamada como uma notícia boa ao mesmo tempo que a “fome das crianças africanas” é lamentada de forma

igualmente universal e sincera.

Poucos anos atrás, John Lachs apontou a mediação da ação (o fenômeno

da ação de alguém ser executada para ele por alguma outra pessoa, por um

intermediário, que “se coloca entre esse alguém e sua ação, tornando-lhe

possível experimentá-la diretamente”) como um dos aspectos mais salientes

e fundamentais da sociedade moderna. Há uma grande distância entre

intenções e realizações práticas, com o espaço entre as duas coisas

preenchido por uma infinidade de atos insignificantes e atores

inconsequentes. O “intermediário” esconde da vista dos atores os resultados

da ação.

 

O resultado é que há muitos atos que ninguém assume conscientemente. Para a pessoa em

nome da qual são praticados, só existem verbalmente ou na imaginação; não os reivindicará

como seus, pois nunca os viveu. A pessoa que de fato os praticou, por outro lado, sempre os

verá como atos de outra e a si mesma como instrumento inocente da vontade alheia…

Sem conhecimento direto das próprias ações, mesmo o melhor ser humano age num vazio

moral: o reconhecimento abstrato do mal não é nem um guia confiável nem um motivo

adequado… Não devemos [nos] surpreender com a imensa crueldade em grande parte não

intencional de homens de boa vontade…

O notável é que não somos incapazes de reconhecer atos errados ou flagrantes injustiças

quando nos deparamos com eles. O que nos deixa pasmados é como puderam ser produzidos se

cada um de nós só fez coisas inofensivas… É difícil aceitar que muitas vezes nenhuma pessoa

ou grupo planejou nem provocou nada. É ainda mais difícil ver como nossas próprias ações,

através de seus efeitos longínquos, contribuíram para a produção da miséria.33

 

O aumento da distância física e/ou psíquica entre o ato e suas

consequências produz mais do que a suspensão da inibição moral; anula o

significado moral do ato e todo conflito entre o padrão pessoal de decência

moral e a imoralidade das consequências sociais do ato. Com a maioria das

ações socialmente significativas mediadas por uma extensa cadeia de

dependências causais e funcionais complexas, os dilemas morais saem de

vista e se tornam cada vez mais raras as oportunidades para um exame mais

cuidadoso e uma opção moral consciente.

Efeito similar (em escala ainda mais impressionante) é obtido tornando

as próprias vítimas psicologicamente invisíveis. Esse foi certamente um dos

fatores mais decisivos dentre aqueles responsáveis pela escalada dos custos

humanos na guerra moderna. Como observou Philip Caputo, o caráter da

guerra “parece depender da distância e da tecnologia. Você nunca poderia se

dar mal se matasse pessoas a longa distância com armas sofisticadas”.34

Com o morticínio “à distância”, é provável que a relação entre a carnificina e atos absolutamente inocentes — como puxar um gatilho, ligar a corrente

elétrica ou apertar um botão num teclado de computador — permaneça

puramente teórica (tendência enormemente favorecida pela mera diferença

de escala entre o resultado e sua causa imediata — incomensurabilidade que

facilmente desafia a compreensão fundada na experiência do senso

comum). É portanto possível ser o piloto que lança bombas em Hiroshima

ou Dresde, destacar-se no cumprimento do dever em uma base de mísseis

teleguiados, projetar ogivas nucleares ainda mais devastadoras e tudo isso

sem comprometer a própria integridade moral ou de forma alguma se

diminuir moralmente (a invisibilidade das vítimas foi, compreensivelmente,

um importante fator também nas infames experiências de Milgram). Com

esse efeito da invisibilidade das vítimas em mente, é talvez mais fácil

compreender as sucessivas melhorias da tecnologia do Holocausto. No

nível dos Einsatzgruppen, as vítimas recolhidas eram colocadas diante de

metralhadoras e fuziladas sem rodeios. Apesar dos esforços para manter as

armas o mais longe possível dos fossos nos quais os mortos deviam cair, era

difícil demais para os atiradores passar por alto a relação entre atirar e

matar. Foi por isso que os administradores do genocídio acharam o método

primitivo e ineficiente, além de perigoso para a moral dos executores.

Foram então procuradas outras técnicas de assassinato de forma a separar

visualmente assassinos e vítimas. A busca teve êxito e levou à invenção das

primeiras câmaras de gás móveis e depois as fixas; estas — as mais

perfeitas que os nazistas tiveram tempo de inventar — reduziram o papel do

matador ao de “funcionário sanitário” que devia esvaziar um saco de

“desinfetantes químicos” por uma abertura no teto de um prédio cujo

interior não o estimulavam a visitar.

O sucesso técnico-administrativo do Holocausto deveu-se em parte à

hábil utilização de “pílulas de entorpecimento moral” que a burocracia e a

tecnologia modernas colocavam à disposição. Dentre elas destacavam-se a

natural invisibilidade das relações causais num sistema complexo de

interação e o “distanciamento” dos resultados repugnantes ou moralmente

repulsivos da ação ao ponto de torná-los invisíveis ao ator. Mas os nazistas

se sobressaíram especialmente num terceiro método, que também não

inventaram mas aperfeiçoaram a um grau sem precedentes. Foi o método de

tornar invisível a própria humanidade das vítimas. O conceito de Helen

Fein de universo de obrigação (“o círculo de pessoas com a obrigação

recíproca de se protegerem cujos laços derivam de sua relação com uma