Modernidade e Holocausto
Conclusão
Prosseguia assim:
[O vice-presidente do conselho de Zawiercie] durante o “reassentamento” de agosto de 1943,
quando recebeu notícias de que todos os judeus, exceto um pequeno grupo de trabalhadores
especializados, seriam deportados para Auschwitz (e já se sabia o que isso significava), reuniu
40 membros de sua própria família e colocou os nomes deles na lista de trabalhadores
especializados.
Para terminar assim:
[No gueto de Skalat] Obersturmbannführer Müller fez um acordo com os representantes do
conselho e o Kommandant de polícia do gueto, dr. Joseph Brif, para tomarem parte ativa na
“ação”, declarando solenemente que eles e suas famílias seriam salvos… Após a sangrenta
ação… um bando de SS foi ao Conselho Judeu e se divertiu. Um banquete os esperava… O
pessoal do bufê ocupava-se do serviço em torno das mesas ricamente enfeitadas, tentando
servilmente agradar os convidados. Houve risos alegres, música, e os convidados se exibiram,
cantaram, felizes. Isso no momento em que 2.000 pessoas eram trancadas dentro da sinagoga,
quase sufocadas pela falta de ar, e outras eram mantidas no campo junto à linha do trem, no
frio. 29
E, aliás, não ficou nisso. O trem chamado “autopreservação” só parou na
estação de Treblinka.
Conclusão
Se tivessem uma chance, nenhum dos conselheiros ou policiais judeus
tomaria o trem da autodestruição. Nenhum ajudaria a matar outras pessoas.
Nenhum mergulharia na corrupção da “orgia em tempo de praga”. Mas não
tinham essa escolha. Ou melhor, as alternativas de escolha não foram
estabelecidas por eles. A maioria — incluindo os extremamente corruptos e
inescrupulosos — aplicava a razão e a capacidade de julgar racionalmente
às escolhas que eram colocadas à sua frente. O que a experiência do
Holocausto revelou em todas as suas terríveis consequências foi uma
distinção entre uma racionalidade do ator (um fenômeno psicológico) e a
racionalidade da ação (medida por suas consequências objetivas para o
ator). A razão é um bom guia para o comportamento individual somente em
ocasiões nas quais as duas racionalidades repercutem e coincidem. De outra
forma, torna-se uma arma suicida, que destrói seu próprio propósito,
nocauteando no processo as inibições morais — seu único freio e salvador
em potencial.
A coincidência das duas racionalidades — a do ator e a da ação — não
depende do ator. Depende do cenário da ação, que por sua vez depende de
apostas e recursos, nenhum dos quais controlado pelo ator. Apostas e
recursos são manipulados por aqueles que verdadeiramente controlam a
situação, que são capazes de tornar algumas escolhas difíceis demais para
seus governados fazerem com frequência, enquanto garantem a frequente e
maciça seleção de opções, que aproximam mais os seus objetivos e
reforçam o controle que exercem. Essa capacidade não muda, quer os
objetivos dos governantes sejam benéficos ou prejudiciais aos interesses
dos governados. Em condições de poder acentuadamente simétricas, a
racionalidade do governado é, para dizer o mínimo, uma bênção duvidosa.
Pode trabalhar a seu favor, mas pode também destruí-los.
Considerado uma complexa operação com um fim, o Holocausto pode
servir de paradigma da moderna racionalidade burocrática. Quase tudo foi
feito para alcançar o máximo resultado com o mínimo de esforço e custos.
Quase tudo (no reino do possível) foi feito para usar as habilidades e
recursos de todo mundo envolvido, incluindo aqueles que se tornariam as
vítimas da operação bem sucedida. Quase todas as pressões irrelevantes ou
adversas ao propósito da operação foram neutralizadas ou colocadas
inteiramente fora de ação. Com efeito, a história da organização do
Holocausto podia se transformar num livro didático de administração
científica — não fosse a condenação moral e política do seu propósito,
imposta ao mundo pela derrota militar dos seus executores. Não faltariam
acadêmicos de nome competindo para pesquisar e generalizar sua
experiência, em benefício de uma avançada organização dos negócios
humanos.
Do ponto de vista das vítimas, o Holocausto contém lições diferentes.
Uma das mais cruciais é a discordante insuficiência da racionalidade como
única medida da eficiência organizacional. Essa lição ainda tem que ser
absorvida plenamente pelos cientistas sociais. Enquanto isso não ocorrer,
teremos que continuar a pesquisar e generalizar o tremendo avanço na
eficiência da ação humana, atingido graças à eliminação de critérios
qualitativos, incluindo as normas morais — raramente pensando nas
consequências.
Escrito originalmente para o Festschrift, em homenagem ao professor
Bronislau Baczko.
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