Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 35 de 52

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Modernidade e Holocausto

Conclusão

Prosseguia assim:

 

[O vice-presidente do conselho de Zawiercie] durante o “reassentamento” de agosto de 1943,

quando recebeu notícias de que todos os judeus, exceto um pequeno grupo de trabalhadores

especializados, seriam deportados para Auschwitz (e já se sabia o que isso significava), reuniu

40 membros de sua própria família e colocou os nomes deles na lista de trabalhadores

especializados.

 

Para terminar assim:

 

[No gueto de Skalat] Obersturmbannführer Müller fez um acordo com os representantes do

conselho e o Kommandant de polícia do gueto, dr. Joseph Brif, para tomarem parte ativa na

“ação”, declarando solenemente que eles e suas famílias seriam salvos… Após a sangrenta

ação… um bando de SS foi ao Conselho Judeu e se divertiu. Um banquete os esperava… O

pessoal do bufê ocupava-se do serviço em torno das mesas ricamente enfeitadas, tentando

servilmente agradar os convidados. Houve risos alegres, música, e os convidados se exibiram,

cantaram, felizes. Isso no momento em que 2.000 pessoas eram trancadas dentro da sinagoga,

quase sufocadas pela falta de ar, e outras eram mantidas no campo junto à linha do trem, no

frio. 29

 

E, aliás, não ficou nisso. O trem chamado “autopreservação” só parou na

estação de Treblinka.

 

Conclusão

 

Se tivessem uma chance, nenhum dos conselheiros ou policiais judeus

tomaria o trem da autodestruição. Nenhum ajudaria a matar outras pessoas.

Nenhum mergulharia na corrupção da “orgia em tempo de praga”. Mas não

tinham essa escolha. Ou melhor, as alternativas de escolha não foram

estabelecidas por eles. A maioria — incluindo os extremamente corruptos e

inescrupulosos — aplicava a razão e a capacidade de julgar racionalmente

às escolhas que eram colocadas à sua frente. O que a experiência do

Holocausto revelou em todas as suas terríveis consequências foi uma

distinção entre uma racionalidade do ator (um fenômeno psicológico) e a

racionalidade da ação (medida por suas consequências objetivas para o

ator). A razão é um bom guia para o comportamento individual somente em

ocasiões nas quais as duas racionalidades repercutem e coincidem. De outra

forma, torna-se uma arma suicida, que destrói seu próprio propósito,

nocauteando no processo as inibições morais — seu único freio e salvador

em potencial.

A coincidência das duas racionalidades — a do ator e a da ação — não

depende do ator. Depende do cenário da ação, que por sua vez depende de

apostas e recursos, nenhum dos quais controlado pelo ator. Apostas e

recursos são manipulados por aqueles que verdadeiramente controlam a

situação, que são capazes de tornar algumas escolhas difíceis demais para

seus governados fazerem com frequência, enquanto garantem a frequente e

maciça seleção de opções, que aproximam mais os seus objetivos e

reforçam o controle que exercem. Essa capacidade não muda, quer os

objetivos dos governantes sejam benéficos ou prejudiciais aos interesses

dos governados. Em condições de poder acentuadamente simétricas, a

racionalidade do governado é, para dizer o mínimo, uma bênção duvidosa.

Pode trabalhar a seu favor, mas pode também destruí-los.

Considerado uma complexa operação com um fim, o Holocausto pode

servir de paradigma da moderna racionalidade burocrática. Quase tudo foi

feito para alcançar o máximo resultado com o mínimo de esforço e custos.

Quase tudo (no reino do possível) foi feito para usar as habilidades e

recursos de todo mundo envolvido, incluindo aqueles que se tornariam as

vítimas da operação bem sucedida. Quase todas as pressões irrelevantes ou

adversas ao propósito da operação foram neutralizadas ou colocadas

inteiramente fora de ação. Com efeito, a história da organização do

Holocausto podia se transformar num livro didático de administração

científica — não fosse a condenação moral e política do seu propósito,

imposta ao mundo pela derrota militar dos seus executores. Não faltariam

acadêmicos de nome competindo para pesquisar e generalizar sua

experiência, em benefício de uma avançada organização dos negócios

humanos.

Do ponto de vista das vítimas, o Holocausto contém lições diferentes.

Uma das mais cruciais é a discordante insuficiência da racionalidade como

única medida da eficiência organizacional. Essa lição ainda tem que ser

absorvida plenamente pelos cientistas sociais. Enquanto isso não ocorrer,

teremos que continuar a pesquisar e generalizar o tremendo avanço na

eficiência da ação humana, atingido graças à eliminação de critérios

qualitativos, incluindo as normas morais — raramente pensando nas

consequências.

 

Escrito originalmente para o Festschrift, em homenagem ao professor

Bronislau Baczko.

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