Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 49 de 52

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Modernidade e Holocausto

Produção social da distância

então para legitimar passos ainda mais radicais.” 20

E assim o ato final do extermínio não foi de forma alguma um desvio

revolucionário. Foi, por assim dizer, um resultado lógico (embora,

lembrem-se, imprevisto de início) dos muitos passos dados anteriormente.

Nenhum dos passos era inevitável em função do estado que as coisas já

tinham atingido, mas cada um deles tornava racional a escolha do estágio

seguinte na rota da destruição. Quanto mais a sequência se afastava do

ponto original, do ato da Definição, mais se guiava por considerações

puramente técnico-racionais e tanto menos tinha que levar em conta

inibições morais. De fato, deixava simplesmente de precisar de escolhas

morais.

As passagens entre os estágios tinham um extraordinário aspecto em

comum. Todas aumentavam a distância física e mental entre as vítimas-alvo

e o restante da população, composto igualmente pelos executores e as

testemunhas do genocídio. Nessa qualidade residia sua inerente

racionalidade do ponto de vista do destino final e sua eficiência em levar até

o fim a tarefa da destruição. Evidentemente, as inibições morais não atuam

à distância. Estão inextricavelmente amarradas à proximidade humana.

Fica, ao contrário, mais fácil cometer atos imorais com cada centímetro a

mais de distância social. Se Mommsen está certo quando aponta como

“dimensão antropológica” da experiência do Holocausto “o perigo inerente,

na atual sociedade industrial, de um processo de se acostumar à indiferença

moral diante de ações não imediatamente relacionadas à esfera de

experiência da própria pessoa” 21, então o perigo para o qual ele alerta deve

ser remetido à capacidade dessa sociedade industrial de ampliar a distância

entre os homens a um ponto em que a responsabilidade e as inibições de

ordem moral se tornam inaudíveis.

 

Produção social da distância

 

Inextricavelmente atada à proximidade humana, a moralidade parece

conformar-se à lei da perspectiva ótica. Parece grande e espessa quando

perto do olho. Com o aumento da distância, a responsabilidade pelo outro

encolhe e as dimensões morais do objeto se embaçam, até que ambas

atingem o ponto de desaparecimento e somem de vista.

Essa qualidade do impulso moral parece independente da ordem social

que fornece o quadro da interação. O que de fato depende dessa ordem é a

efetividade pragmática das predisposições morais; sua capacidade de

controlar as ações humanas, de estabelecer limites ao dano infligido ao

outro, de traçar os parâmetros nos quais toda interação tende a se delimitar.

A importância — e o perigo — da indiferença moral tornam-se

particularmente agudos na nossa moderna sociedade industrial

racionalizada, tecnologicamente eficiente, porque em tal sociedade a ação

humana pode ser efetiva à distância e a uma distância sempre crescente com

o progresso da ciência, da tecnologia e da burocracia. Em tal sociedade, os

efeitos da ação humana alcançam muito além do “ponto de

desaparecimento” da visibilidade moral. A capacidade visual do impulso

moral, limitada como é pelo princípio da proximidade, permanece

constante, enquanto cresce rapidamente a distância em que a ação humana

pode ser efetiva e consequente e, portanto, também o número de pessoas

que podem ser afetadas por tal ação. A esfera de interação influenciada

pelos impulsos morais é encolhida em comparação com o volume crescente

de ações subtraídas à sua interferência.

O notório sucesso da civilização moderna em substituir pelos critérios

racionais todos os demais critérios de ação, considerados “irracionais” na

moderna definição (e assomam aí com peso as avaliações morais), foi

condicionado de forma decisiva pelo progresso do “controle remoto”, isto é,

pela ampliação da distância em que a ação humana é capaz de produzir

efeitos. São os alvos de ação remotos, mal visíveis, que estão livres de

avaliação moral; e assim a escolha da ação que afeta tais alvos está livre das

limitações impostas pelo impulso moral.

Como demonstraram enfaticamente as experiências de Milgram, o

silenciamento do apelo moral e a suspensão das inibições morais são

alcançados precisamente tornando-se “remotos e mal visíveis” os alvos

autênticos da ação (embora muitas vezes desconhecidos do ator), não

através de uma aberta cruzada antimoral ou de uma doutrinação que visa a

substituir o velho sistema moral por um conjunto de regras alternativo. O

mais óbvio exemplo da técnica que coloca as vítimas fora do raio de visão,

tornando-as portanto inacessíveis a uma avaliação moral, são as armas

modernas. O progresso bélico consistiu sobretudo em eliminar cada vez

mais a possibilidade do combate face a face, de se cometer o ato de matar

em dimensão humana, com um significado do senso comum; com armas separando e distanciando, em vez de confrontando e aproximando os

exércitos beligerantes, o treinamento dos seus operadores para suprimir os

impulsos morais, para atacar a moralidade “fora de moda”, perde muito de

sua importância anterior, uma vez que o uso das armas parece ter apenas

uma relação abstrata-intelectual com a integridade moral dos usuários. Nas

palavras de Philip Caputo, o caráter da guerra “parece ser uma questão de

distância e tecnologia. Jamais haveria erro em matar pessoas a longa

distância com armas sofisticadas.” 22 Na medida em que não se veem os

efeitos práticos da ação cometida ou que não se pode relatar sem equívocos

as consequências visíveis de atos tão inocentes e insignificantes quanto

apertar um botão ou girar uma chave, é improvável que surja um conflito

moral ou, se surgir, será provavelmente em surdina. A invenção de

artilharia capaz de atingir um alvo invisível para aqueles que operam as

armas pode ser vista como o ponto simbólico inicial da guerra moderna e da

consequente irrelevância dos fatores morais: essa artilharia permite destruir

o alvo apontando a arma para uma direção inteiramente diferente.

As façanhas das armas modernas podem ser encaradas como metáfora

para um processo muito mais diversificado e ramificado da produção social

da distância. John Lachs atribuiu as características unificadoras das muitas

manifestações desse processo à introdução em escala maciça da mediação

da ação e do intermediário — alguém que “se situa entre eu e minha ação,

tornando impossível para mim experimentá-la diretamente”.

 

A distância que sentimos de nossas ações é proporcional à ignorância que temos delas; nossa

ignorância, por sua vez, é em grande parte uma medida da extensão da cadeia de

intermediários entre nós e nossos atos… Na medida em que perdemos consciência do contexto,

as ações se tornam movimentos inconsequentes. Com as consequências longe dos olhos, as

pessoas podem participar dos atos mais abomináveis sem sequer questionar seu papel e

responsabilidade neles…

[É extremamente difícil] ver como nossas ações, através de seus efeitos remotos,

contribuem para a produção de miséria. Não é desonesto se ver como inocente e condenar a

sociedade. É o resultado natural da mediação em larga escala, que inevitavelmente leva a uma

monstruosa ignorância.23

 

Uma vez a ação tenha sido mediada, seus efeitos últimos situam-se fora

daquela área relativamente estreita dentro da qual os impulsos morais retêm

sua força reguladora. Ao contrário, atos contidos dentro dessa área

moralmente impregnada são, para a maioria dos participantes ou

testemunhas, inócuos o bastante para não serem moralmente censurados. A

minuciosa divisão do trabalho, assim como a mera extensão da cadeia de atos que medeiam entre a iniciativa e seus efeitos palpáveis, libera a maioria

dos constituintes da aventura coletiva — por mais decisivos que sejam —

de significação e exame morais. São ainda sujeitos a análise e avaliação,

mas por critérios técnicos, não morais. “Problemas” pedem melhor e mais

racional planejamento, não investigação da alma. Os atores se ocupam da

tarefa racional de encontrar melhores meios de atingir um fim determinado

— e parcial —, não de uma tarefa moral de avaliação do objetivo último

(do qual só têm uma vaga ideia ou pelo qual não se sentem responsáveis).

Na sua detalhada história da invenção e utilização do infame caminhão

com câmara de gás, solução nazista inicial para a tarefa técnica do

assassinato em massa rápido, limpo e barato, Christopher R. Browning dá a

seguinte visão do mundo psicológico das pessoas envolvidas:

 

Especialistas cuja competência nada tinha a ver com assassinatos em massa de repente se

viram transformados em peças menores na engrenagem da destruição. Ocupados em

providenciar, despachar, manter e consertar veículos, sua competência e equipamentos seriam

de repente forçados a servir os assassinatos em massa quando foram encarregados de produzir

camionetas com câmaras de gás… O que os chateava eram críticas e queixas sobre defeitos

técnicos do seu produto. As falhas dos veículos eram um reflexo negativo do seu trabalho que

tinha de ser corrigido. Inteiramente a par dos problemas surgidos no campo, eles batalhavam

para encontrar ajustes técnicos engenhosos que tornassem seu produto mais eficiente e

aceitável para os operadores… Sua maior preocupação era não serem considerados

incompetentes para a tarefa que lhes fora designada.24

 

Nas condições da divisão burocrática do trabalho, “o outro” dentro do

círculo de proximidade em que a responsabilidade moral reina soberana é

um colega de trabalho cujo sucesso em sua tarefa depende da aplicação do

ator na sua parte da tarefa; o superior imediato, cuja posição ocupacional

depende da cooperação dos subordinados; e uma pessoa imediatamente

abaixo na linha hierárquica que espera ter suas tarefas claramente definidas

e viabilizadas. Ao lidar com esses outros, aquela responsabilidade moral

que a proximidade tende a gerar toma a forma de lealdade à organização —

essa abstrata formulação da rede de interações diretas, face a face. Sob a

forma de lealdade à organização, os impulsos morais dos atores podem ser

utilizados para propósitos moralmente abjetos sem minar a adequação ética

do interrelacionamento dentro daquela área de proximidade coberta pelos

impulsos morais. Os atores podem continuar a acreditar sinceramente na

sua própria integridade; com efeito, seu comportamento conforma-se aos

padrões morais mantidos na única região em que outros padrões viraram

optativos. Browning investigou as histórias pessoais de quatro funcionários que comandavam o Bureau Judaico (B III) do Ministério das Relações

Exteriores da Alemanha. Descobriu que dois estavam satisfeitos com o seu

trabalho e os outros dois preferiam ser transferidos de serviço.

 

Estes últimos conseguiram afinal deixar o B III, mas enquanto estiveram lá cumpriram

rigorosamente o seu dever. Não se opunham abertamente ao trabalho mas agiam veladamente e

em silêncio para serem transferidos; manter limpas suas fichas funcionais era a sua prioridade

máxima. Zelosa ou relutantemente, porém, o fato é que todos os quatro trabalhavam de forma

eficiente… Mantinham a máquina em funcionamento e os mais ambiciosos e inescrupulosos

dentre eles ainda davam um empurrãozinho.25

 

A divisão de tarefas e a resultante separação de minicomunidades morais

face aos efeitos últimos da operação produz a distância entre vitimadores e

vítimas da crueldade que reduz ou elimina a contrapressão das inibições

morais. A distância física e funcional correta não pode ser alcançada,

porém, ao longo de toda a cadeia burocrática de comando. Alguns dos

vitimadores devem se encontrar face a face com as vítimas ou pelo menos

devem estar tão próximos delas a ponto de não poder evitar ou mesmo

abafar a visão dos efeitos de suas ações com o tempo. Outro método é

necessário para garantir a distância psicológica correta na ausência das

distâncias física ou funcional. Tal método é fornecido por uma forma

especificamente moderna de autoridade — a competência especializada.

A essência dessa competência é a suposição de que fazer as coisas da

forma adequada requer certo conhecimento, que tal conhecimento é

distribuído de maneira desigual, que algumas pessoas possuem mais esse

conhecimento que outras, que aqueles que o possuem deveriam ser

encarregados de fazer as coisas e que ser encarregado coloca sobre seus

ombros a responsabilidade pela maneira como as coisas são feitas. De fato,

a responsabilidade é vista não como investida nos especialistas, mas nas

habilidades específicas que eles representam. O instituto da especialidade e

a posição associada que se volta para a ação social aproximam intimamente

o famoso ideal de Saint-Simon (entusiasticamente endossado por Marx) da

“administração das coisas, não de pessoas”; os atores servem como meros

agentes do conhecimento, como portadores de know-how, e sua

responsabilidade pessoal repousa inteiramente na representação adequada

do conhecimento, isto é, em fazer as coisas com “arte”, da melhor maneira

que o conhecimento existente permite. Para aqueles que não possuem o

know-how, a ação responsável significa seguir o conselho dos especialistas. Nesse processo, a responsabilidade pessoal se dissolve na autoridade

abstrata do know-how técnico.

Browning cita extensamente o memorando preparado pelo especialista

técnico Willy Just sobre a melhoria técnica das camionetas de gás. Just

propôs que a montadora dos veículos diminuísse o compartimento de carga:

as camionetas existentes não davam conta dos acidentados terrenos na

Rússia quando totalmente carregadas, de modo que era necessário um

excesso de monóxido de carbono para preencher o espaço vazio que

sobrava e toda a operação levava tempo demais e perdia consideravelmente

em eficiência:

 

Um caminhão menor, totalmente carregado, poderia operar muito mais rápido. Uma redução

do compartimento traseiro não afetaria prejudicialmente o equilíbrio de peso, sobrecarregando

o eixo dianteiro, porque “na verdade ocorre automaticamente uma correção na distribuição de

peso pelo fato de que a carga, na sua luta para abrir a porta traseira durante a operação, situa-se

preponderantemente ali”. Pelo fato de que o tubo de conexão logo se enferrujava com os

“fluidos”, o gás deveria ser introduzido de cima, não de baixo. Para facilitar a limpeza, deveria

ser feito um orifício de oito a doze polegadas no chão, com uma tampa aberta por fora. O chão

deveria ser ligeiramente inclinado e a tampa equipada com uma pequena peneira. Assim, todos

os “fluidos” fluiriam para o meio, os “fluidos finos” sairiam ainda durante a operação e os

“mais espessos” poderiam ser tirados com mangueira depois.26

 

Todas as aspas são de Browning; Just não buscava nem usava metáforas

astuciosas ou eufemismos, sua linguagem era a linguagem direta, terra a

terra, da tecnologia. Como especialista na construção de caminhões, ele

procurava de fato lidar com o movimento da carga, não com os seres

humanos desesperados em busca de ar; ocupava-se de fluidos finos e

espessos, não de vômito e excrementos humanos. O fato de que a carga

eram seres humanos à beira da morte e que perdiam o controle do próprio

organismo não diminuía o desafio técnico do problema. Este fato tinha, de

qualquer forma, que ser traduzido na linguagem neutra da tecnologia da

produção automobilística antes que pudesse se tornar um “problema” a ser

“resolvido”. Ficamos a imaginar se alguma vez foi tentada uma retradução

por aqueles que leram o memorando de Just e executaram suas instruções

técnicas.

Para as cobaias de Milgram, o “problema” era a experiência montada e

administrada por especialistas científicos. Os especialistas de Milgram

cuidaram para que os atores dirigidos por um especialista, ao contrário dos

operários da fábrica Sodomka aos quais se destinava o memorando de Just,

não tivessem dúvidas quanto ao sofrimento que suas ações estavam causando, para que não houvesse chance de uma desculpa do tipo “eu não