Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 47 de 52

Páginas do PDF

Modernidade e Holocausto

Proximidade social e responsabilidade moral

mútuas”, de recompensa do outro à minha responsabilidade por ele. Não

estou assumindo minha responsabilidade por ordem de uma força superior,

seja um código moral sancionado com a ameaça do inferno ou um código

legal sancionado com a ameaça de prisão. Torno-me responsável ao me

constituir como sujeito. Tornar-me responsável é a minha constituição como

sujeito. Portanto, é assunto meu e somente meu. “A relação intersubjetiva é

uma relação assimétrica… Sou responsável pelo Outro sem esperar

reciprocidade, mesmo que tenha de morrer por isso. Reciprocidade é

assunto dele.”

Sendo a responsabilidade o modo de existência do sujeito humano, a

moralidade é a estrutura primária da relação intersubjetiva na sua forma

mais cristalina, não afetada por quaisquer fatores não morais (como

interesse, cálculo de benefícios, busca racional das melhores soluções ou

capitulação à coerção). Sendo a substância da moralidade um dever em

relação ao outro (enquanto distinto de uma obrigação) e um dever que

precede todo interesse, as raízes da moralidade penetram bem mais fundo

que os arranjos societários, como cultura ou estruturas de dominação. Os

processos societários começam quando a estrutura da moralidade

(equivalente da intersubjetividade) já está lá. A moralidade não é um

produto da sociedade. A moralidade é algo que a sociedade manipula —

explora, redireciona, espreme.

Em contrapartida, o comportamento imoral, conduta que desiste ou

abdica da responsabilidade pelo outro, não é um efeito do mau

funcionamento societário. É portanto a ocorrência de comportamento

imoral, mais do que de comportamento moral, que requer investigação da

administração social da intersubjetividade.

 

Proximidade social e responsabilidade moral

 

A responsabilidade, esse tijolo constitutivo de todo comportamento moral,

surge da proximidade do outro. Proximidade significa responsabilidade e

responsabilidade é proximidade. A discussão da prioridade relativa de uma

ou de outra é reconhecidamente gratuita, pois nenhuma é concebível

sozinha. O isolamento da responsabilidade e, assim, a neutralização do

impulso moral que a acompanha deve necessariamente envolver (é, de fato, sinônimo de) um reposicionamento da proximidade com separação física ou

espiritual. A alternativa da proximidade é a distância social. O atributo

moral da proximidade é a responsabilidade; o atributo moral da distância

social é a ausência de relacionamento moral ou heterofobia. A

responsabilidade é silenciada uma vez desgastada a proximidade; pode

eventualmente ser substituída pelo ressentimento, uma vez o cossujeito

humano seja transformado num Outro. O processo de transformação é de

separação social. Foi tal separação que tornou possível que milhares

matassem e milhões assistissem o assassinato sem protestar. Foram as

conquistas tecnológica e burocrática da moderna sociedade racional que

tornaram possível tal separação.

Hans Mommsen, um dos mais notáveis historiadores alemães do período

nazista, sumariou recentemente o significado histórico do Holocausto e o

problema que cria para a autopercepção da sociedade moderna:

 

Enquanto a Civilização Ocidental desenvolveu os meios para uma inimaginável destruição em

massa, a instrução fornecida pela tecnologia moderna e as técnicas de racionalização produziu

uma mentalidade puramente tecnocrática e burocrática, exemplificada pelo grupo de

executores do Holocausto, quer tenham cometido assassinato com as próprias mãos ou

preparado a deportação e extermínio atrás de uma mesa do Departamento Central de Segurança

do Reich (Reichssicherheithauptamt), nos escritórios do serviço diplomático ou como

plenipotenciários do Terceiro Reich nos países satélites ou ocupados. Nesse ponto, a história

do Holocausto parece ser o 8 mene tekel do Estado moderno.

 

O que mais tenha alcançado o Estado nazista, seja o que for, o fato é

que, sem dúvida, conseguiu superar o mais formidável obstáculo ao

extermínio sistemático, proposital, não emocional e a sangue-frio de

pessoas, velhos e jovens, homens e mulheres: aquela “piedade animal pela

qual são afetados todos os homens normais na presença do sofrimento

físico”.9 Não sabemos muito da piedade animal, mas sabemos que existe

uma maneira de ver a condição humana elementar que torna explícita a

universalidade da repulsa humana ao assassinato, assim como o ímpeto de

ajudar os que sofrem. Se esta visão é correta ou pelo menos plausível, então

o feito do regime nazista consistiu primeiro e acima de tudo em neutralizar

o impacto moral do modo de existência especificamente humano. É

importante saber se esse sucesso deveu-se às características únicas do

movimento e governo nazistas ou se pode ser relacionado a atributos mais

comuns da nossa sociedade que os nazistas meramente e de forma hábil

utilizaram a serviço dos objetivos de Hitler.

Até uma ou duas décadas atrás era comum — não apenas entre os leigos,

mas também entre os historiadores — procurar a explicação para o

extermínio em massa dos judeus da Europa na longa história do

antissemitismo europeu. Tal explicação requeria, evidentemente, que se

destacasse o antissemitismo alemão como o mais intenso, impiedoso e

mortífero; afinal de contas, foi na Alemanha que se concebeu e puseram em

execução o monstruoso plano de completa aniquilação de toda uma raça.

Como lembramos, no entanto, do segundo e terceiro capítulos, tanto a

explicação como o seu corolário foram desacreditados pela pesquisa

histórica. Houve uma evidente descontinuidade entre o ódio tradicional,

pré-moderno, aos judeus e o moderno projeto de extermínio indispensável a

que se perpetrasse o Holocausto. No que diz respeito à função dos

sentimentos populares, o volume sempre crescente de evidência histórica

prova, para além de qualquer dúvida razoável, uma correlação quase

negativa entre o sentimento antijudaico comum, tradicional, “amistoso”,

baseado na competição, e a disposição de abraçar a visão nazista da

destruição total e participar da sua realização.

Há cada vez mais consenso entre os historiadores do período nazista de

que a perpetração do Holocausto requereu a neutralização das atitudes

alemãs normais em relação aos judeus, não a mobilização delas; de que a

continuação “natural” do ressentimento antijudaico tradicional era muito

mais uma repulsa pelas “ações radicais” dos assassinos nazistas do que uma

vontade de cooperar no assassinato em massa; e de que os planejadores SS

do genocídio tinham que abrir caminho para a Endlösung preservando a

independência dessa tarefa face aos sentimentos da população em geral e,

assim, a imunidade deles à influência das atitudes tradicionais, de

sustentação comunitária e surgimento espontâneo, em relação a suas

vítimas.

As descobertas relevantes e irrefutáveis dos estudos históricos foram

recentemente recapituladas por Martin Broszat: “Naquelas cidades e

localidades onde os judeus formavam um largo segmento da população, as

relações entre os alemães e eles eram em geral, mesmo nos primeiros anos

do período nazista, mais ou menos boas e raramente hostis.”10 As tentativas

nazistas de insuflar os sentimentos antissemíticos e dinamizar o

ressentimento estático (distinção habilmente formulada por Müller-

Claudius) — isto é, de inflamar a população não partidária, sem

compromisso ideológico, para cometer atos de violência contra os judeus ou pelo menos apoiar ativamente as exibições de força das SA — fracassaram

pela repugnância popular à coerção física, pelas inibições arraigadas a

infligir dor e sofrimento físico e pela teimosa lealdade do ser humano a seus

vizinhos, a pessoas que se conhecem e fazem parte do nosso mapa-múndi

como pessoas e não como espécimes anônimos de um grupo. As explosões

de violência dos SA na farra dos primeiros meses do governo Hitler tinham

que ser dissuadidas e vigorosamente suprimidas para afastar a ameaça de

alienação e rebelião popular; embora satisfeito com a ostentação antijudaica

dos seus seguidores, Hitler sentia-se obrigado a intervir pessoalmente para

dar um basta a toda iniciativa antissemítica radical. O boicote aos judeus,

planejado para durar indefinidamente, foi no último minuto reduzido a uma

“manifestação de alerta” de 24 horas, em parte por medo às reações

estrangeiras, mas em larga medida devido à evidente falta de entusiasmo

popular pela aventura. Após o dia do boicote (1º de abril de 1933), os

líderes nazistas queixaram-se em seus informes e relatórios da antipatia

generalizada que despertou, exceto nos SA e militantes do partido, sendo o

ato classificado como um fracasso completo; concluiu-se da necessidade de

uma propaganda contínua para despertar e alertar as massas para o seu

papel na implementação das medidas antijudaicas.11 Apesar dos esforços

subsequentes, o fracasso do dia do boicote estabeleceu o padrão para todas

as políticas antissemíticas que se seguiram e cujo sucesso dependia de uma

ativa participação da população em geral. Enquanto estiveram abertos e

funcionando, as lojas e os consultórios médicos judeus continuaram a atrair

clientes e pacientes. Os camponeses da Francônia e da Baviera tiveram que

ser forçados a não negociar mais com os comerciantes de gado judeus.

Como vimos antes, a Kristallnacht, único pogrom em massa oficialmente

planejado e coordenado, também foi considerada contraprodutiva, na

medida em que se esperava explicitar o compromisso do alemão médio com

a violência antissemítica. Em vez disso, a maioria das pessoas reagiu com

consternação ao ver as calçadas cobertas de vidro partido e velhos vizinhos

sendo enfiados por jovens rufiões e assassinos em carros de polícia. O

ponto que não pode ser superestimado é que todas essas reações negativas à

aberta exibição de violência antijudaica coexistiam, sem qualquer

contradição visível, com uma forte aprovação em massa da legislação

antijudaica — com uma redefinição legal do judeu, com a extirpação do

judeu do Volk alemão e com camadas mais e mais espessas de restrições e

proibições.12

Julius Streicher, pioneiro da propaganda nazista antissemítica, descobriu

que a tarefa mais difícil de seu jornal Der Stürmer era fazer o estereótipo do

“judeu como tal” pespegar-se às imagens pessoais que seus leitores tinham

dos judeus que eles conheciam, dos seus vizinhos, amigos ou sócios judeus.

De acordo com Dennis E. Showalter, autor de uma penetrante monografia

sobre a curta mas turbulenta história do jornal, Streicher não foi o único a

fazer essa descoberta: “Um importante desafio do antissemitismo político é

superar a imagem do ‘judeu ao lado’ — o conhecido ou sócio que vive e

respira, cuja simples existência parece negar a validade daquele estereótipo

negativo, do ‘judeu mitológico’.”13 Surpreendentemente, parecia haver

pouca correlação entre as imagens pessoais e a abstrata; como se não fosse

hábito humano experimentar a contradição lógica entre uma coisa e outra

como dissonância cognitiva ou — de modo mais genérico — como um

problema psicológico; como se, apesar do referencial aparentemente

idêntico das imagens pessoais e abstratas, elas não fossem em geral

consideradas como noções que pertencem à mesma categoria, como

representações a serem comparadas, checadas uma em relação à outra e por

fim reconciliadas ou rejeitadas. Muito depois de a máquina de destruição

em massa ter sido posta em pleno funcionamento — em outubro de 1943,

para ser exato — Himmler queixava-se com os capangas que mesmo

militantes dedicados ao partido, que não haviam demonstrado qualquer

compunção particular em relação ao extermínio total da raça judia, tinham

seus próprios judeus especiais, particulares, privados, que queriam proteger

e excluir do genocídio:

 

“O povo judeu é para ser exterminado”, diz todo membro do partido. “Isso é claro, é parte do

nosso programa a eliminação, o extermínio dos judeus, tudo bem, vamos fazer isso.” E, então,

eis que um por um dos 80 milhões de bons alemães, cada um deles, tem o seu judeu decente.

“Claro, todos os outros são porcos, mas este é um judeu de primeira classe.” 14

 

Parece que o que separa as imagens pessoais dos estereótipos abstratos e

impede o choque que qualquer raciocínio lógico consideraria inevitável é a

saturação moral daquelas e o caráter moralmente neutro, puramente

intelectual, destes últimos. O contexto de proximidade-com-

responsabilidade dentro do qual são formadas as imagens pessoais cerca-as

com uma grossa muralha moral praticamente impenetrável a argumentos

“meramente abstratos”. Por mais persuasivo ou insidioso que possa ser o

estereótipo intelectual, sua zona de atuação, porém, se interrompe

abruptamente onde começa a esfera do relacionamento pessoal. “O outro” como categoria abstrata simplesmente não se comunica com “o outro” que