Modernidade e Holocausto
Responsabilidade flutuante
O sistema de autoridade nas experiências de Milgram era simples e tinha
poucas camadas. A fonte de autoridade do sujeito — o pesquisador — era o
dirigente máximo do sistema, embora o sujeito pudesse não ter consciência
disso (do seu ponto de vista, o próprio pesquisador atuava como um
intermediário; seu poder era delegado pela autoridade mais alta, genérica e
impessoal da “ciência” ou “pesquisa”). A simplicidade da situação
experimental resultou na franqueza das descobertas. Ficava claro que o
sujeito investia o pesquisador da autoridade por sua ação; e a autoridade de
fato residia nas ordens do pesquisador — autoridade final, aquela que não
precisava do endosso ou autorização de pessoas situadas mais acima na
hierarquia de poder. O foco, portanto, era sobre a disposição do sujeito da
experiência em renunciar a sua própria responsabilidade pelo que havia
feito e particularmente pelo que estava para fazer. Para essa disposição era
decisivo o ato de dotar o pesquisador do direito de pedir ao sujeito coisas
que este não faria por iniciativa própria, mesmo coisas que ele preferiria
absolutamente não fazer. Talvez esse ato resultasse da suposição de que, por
alguma lógica obscura, desconhecida do e insondável para o sujeito, as
coisas que o pesquisador lhe pedia para executar eram certas, mesmo que
parecessem erradas para o leigo; talvez essa lógica não se traduzisse em
qualquer pensamento, uma vez que a vontade da pessoa autorizada não
precisava de legitimação aos olhos do sujeito: o direito de comandar e o
dever de obedecer eram suficientes. O que sabemos com certeza, graças a
Milgram, é que os sujeitos dessas experiências continuaram a cometer atos
que reconheciam como cruéis unicamente porque recebiam ordens para
fazê-lo, ordens de uma autoridade que aceitavam e que investiam da
responsabilidade última por suas ações. Esses estudos confirmam um fato
essencial: o fator decisivo é a resposta à autoridade, mais do que a resposta
à ordem específica de dar o choque. Ordens que não partem da autoridade
perdem toda a força… Não é o que os sujeitos fazem mas para quem fazem
que importa.9 As experiências de Milgram revelaram o mecanismo de
transferência da responsabilidade na sua forma mais pura, simples e
elementar.
Uma vez transferida a responsabilidade pela concordância do autor com
o direito do superior comandar, o ator é lançado em um estado de agente10
— condição na qual vê a si mesmo cumprindo a vontade de outra pessoa. O estado de agente é o oposto do estado autônomo. (Como tal, é virtualmente
sinônimo de heteronomia, embora carregue além disso a implicação de
autodefinição do ator, e situa as fontes externas do comportamento do ator
— as forças por trás do seu direcionamento pelo outro — precisamente num
ponto específico de uma hierarquia institucionalizada.) No estado de agente,
o ator está inteiramente sintonizado à situação tal como definida e
monitorada pela autoridade superior: essa definição da situação inclui a
descrição do ator como agente da autoridade.
A transferência de responsabilidade é, no entanto, de fato um ato
elementar, uma unidade singular ou simples tijolo num processo complexo.
É um fenômeno que tem lugar no espaço estreito que vai entre um e outro
membro do sistema de autoridade, entre um ator e seu superior imediato.
Por causa da simplicidade de sua estrutura, as experiências de Milgram não
podiam investigar consequências ulteriores dessa transferência de
responsabilidade. Em particular, tendo intencionalmente enfocado o
microscópio sobre células básicas de organismos complexos, não podiam
colocar questões que diziam respeito ao organismo, tais como saber a que
deverá se assemelhar a organização burocrática uma vez a transferência de
responsabilidade se processe continuamente e em todos os níveis da
hierarquia.
Podemos supor que o efeito geral de tal contínua transferência de
responsabilidade seria uma responsabilidade flutuante, situação na qual
cada um e todos os membros da organização estão convencidos, e assim o
diriam caso indagados, de que estão sob as ordens de outra pessoa, mas as
pessoas apontadas pelas outras como responsáveis passariam o bastão a
uma terceira. Pode-se dizer que a organização como um todo é um
instrumento para eliminar responsabilidade. Os laços causais em ações
coordenadas são mascarados e o próprio fato de serem mascarados é um
fator superpoderoso de sua eficácia. A perpetuação coletiva de atos cruéis
fica bem mais fácil pelo fato de que a responsabilidade é essencialmente
“inatribuível”, enquanto cada participante desses atos está convencido de
que ela compete a alguma “autoridade específica”. Isso significa que furtar-
se à responsabilidade não é apenas um estratagema a posteriori usado como
conveniente excusa no caso de acusações de imoralidade ou, pior ainda, de
ilegitimidade de uma ação; a responsabilidade flutuante, móvel, é a própria
condição dos atos imorais ou ilegítimos que têm lugar com a participação
obediente ou mesmo voluntária de pessoas normalmente incapazes de romper as regras da moralidade convencional. A responsabilidade flutuante