Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 40 de 52

Páginas do PDF

Modernidade e Holocausto

Responsabilidade flutuante

 

O sistema de autoridade nas experiências de Milgram era simples e tinha

poucas camadas. A fonte de autoridade do sujeito — o pesquisador — era o

dirigente máximo do sistema, embora o sujeito pudesse não ter consciência

disso (do seu ponto de vista, o próprio pesquisador atuava como um

intermediário; seu poder era delegado pela autoridade mais alta, genérica e

impessoal da “ciência” ou “pesquisa”). A simplicidade da situação

experimental resultou na franqueza das descobertas. Ficava claro que o

sujeito investia o pesquisador da autoridade por sua ação; e a autoridade de

fato residia nas ordens do pesquisador — autoridade final, aquela que não

precisava do endosso ou autorização de pessoas situadas mais acima na

hierarquia de poder. O foco, portanto, era sobre a disposição do sujeito da

experiência em renunciar a sua própria responsabilidade pelo que havia

feito e particularmente pelo que estava para fazer. Para essa disposição era

decisivo o ato de dotar o pesquisador do direito de pedir ao sujeito coisas

que este não faria por iniciativa própria, mesmo coisas que ele preferiria

absolutamente não fazer. Talvez esse ato resultasse da suposição de que, por

alguma lógica obscura, desconhecida do e insondável para o sujeito, as

coisas que o pesquisador lhe pedia para executar eram certas, mesmo que

parecessem erradas para o leigo; talvez essa lógica não se traduzisse em

qualquer pensamento, uma vez que a vontade da pessoa autorizada não

precisava de legitimação aos olhos do sujeito: o direito de comandar e o

dever de obedecer eram suficientes. O que sabemos com certeza, graças a

Milgram, é que os sujeitos dessas experiências continuaram a cometer atos

que reconheciam como cruéis unicamente porque recebiam ordens para

fazê-lo, ordens de uma autoridade que aceitavam e que investiam da

responsabilidade última por suas ações. Esses estudos confirmam um fato

essencial: o fator decisivo é a resposta à autoridade, mais do que a resposta

à ordem específica de dar o choque. Ordens que não partem da autoridade

perdem toda a força… Não é o que os sujeitos fazem mas para quem fazem

que importa.9 As experiências de Milgram revelaram o mecanismo de

transferência da responsabilidade na sua forma mais pura, simples e

elementar.

Uma vez transferida a responsabilidade pela concordância do autor com

o direito do superior comandar, o ator é lançado em um estado de agente10

— condição na qual vê a si mesmo cumprindo a vontade de outra pessoa. O estado de agente é o oposto do estado autônomo. (Como tal, é virtualmente

sinônimo de heteronomia, embora carregue além disso a implicação de

autodefinição do ator, e situa as fontes externas do comportamento do ator

— as forças por trás do seu direcionamento pelo outro — precisamente num

ponto específico de uma hierarquia institucionalizada.) No estado de agente,

o ator está inteiramente sintonizado à situação tal como definida e

monitorada pela autoridade superior: essa definição da situação inclui a

descrição do ator como agente da autoridade.

A transferência de responsabilidade é, no entanto, de fato um ato

elementar, uma unidade singular ou simples tijolo num processo complexo.

É um fenômeno que tem lugar no espaço estreito que vai entre um e outro

membro do sistema de autoridade, entre um ator e seu superior imediato.

Por causa da simplicidade de sua estrutura, as experiências de Milgram não

podiam investigar consequências ulteriores dessa transferência de

responsabilidade. Em particular, tendo intencionalmente enfocado o

microscópio sobre células básicas de organismos complexos, não podiam

colocar questões que diziam respeito ao organismo, tais como saber a que

deverá se assemelhar a organização burocrática uma vez a transferência de

responsabilidade se processe continuamente e em todos os níveis da

hierarquia.

Podemos supor que o efeito geral de tal contínua transferência de

responsabilidade seria uma responsabilidade flutuante, situação na qual

cada um e todos os membros da organização estão convencidos, e assim o

diriam caso indagados, de que estão sob as ordens de outra pessoa, mas as

pessoas apontadas pelas outras como responsáveis passariam o bastão a

uma terceira. Pode-se dizer que a organização como um todo é um

instrumento para eliminar responsabilidade. Os laços causais em ações

coordenadas são mascarados e o próprio fato de serem mascarados é um

fator superpoderoso de sua eficácia. A perpetuação coletiva de atos cruéis

fica bem mais fácil pelo fato de que a responsabilidade é essencialmente

“inatribuível”, enquanto cada participante desses atos está convencido de

que ela compete a alguma “autoridade específica”. Isso significa que furtar-

se à responsabilidade não é apenas um estratagema a posteriori usado como

conveniente excusa no caso de acusações de imoralidade ou, pior ainda, de

ilegitimidade de uma ação; a responsabilidade flutuante, móvel, é a própria

condição dos atos imorais ou ilegítimos que têm lugar com a participação

obediente ou mesmo voluntária de pessoas normalmente incapazes de romper as regras da moralidade convencional. A responsabilidade flutuante