Modernidade e Holocausto
O papel da burocracia no Holocausto
que não fizesse distinção entre um e outro objeto humano ou entre objetos
humanos e desumanos. O que importa é a eficiência e a diminuição dos
custos para produzi-la.
O papel da burocracia no Holocausto
Assim foi que na Alemanha de meio século atrás essa burocracia recebeu a
tarefa de tornar o país judenrein, livre de judeus. E a burocracia começou
onde as burocracias começam: na definição precisa do objeto, com a
posterior listagem dos que se encaixavam na definição e a criação de uma
ficha, um arquivo, para cada um. Prosseguiu segregando os que figuravam
nos arquivos do resto da população, a que não se aplicava a citação
recebida. Por fim, passou a expulsar a categoria segregada da terra ariana a
ser purificada — primeiro cutucando-a para que emigrasse e depois
deportando-a para territórios não germânicos, assim que tais territórios
caíam sob controle alemão. Por essa época a burocracia desenvolveu
magníficas técnicas de limpeza, que não se deveriam desperdiçar e deixar
enferrujar. A burocracia que se incumbiu tão bem da tarefa de limpar a
Alemanha tornava factíveis tarefas mais ambiciosas e quase natural a
escolha delas. Com um aparato tão soberbo de limpeza, por que ficar na
Heimat [terra natal] dos arianos? Por que não limpar todo o seu império?
De fato, como o império era agora ecumênico, não havia nenhum lado de
“fora” onde despejar o lixo judeu. Só restava uma direção de deportação:
para cima, sob a forma de fumaça.
Já há muitos anos os historiadores do Holocausto se dividiram em
“intencionalistas” e “funcionalistas”. Os primeiros insistem que matar os
judeus era desde o início firme decisão de Hitler, à espera apenas das
condições oportunas para emergir. Os segundos atribuem a Hitler apenas a
ideia geral de “encontrar uma solução” para o “problema judeu”, clara
apenas na visão de uma “Alemanha limpa”, mas vaga e lamacenta quanto
aos passos práticos a serem tomados para tornar essa visão mais próxima. O
mundo acadêmico apoia mais decididamente a visão funcionalista. Seja
qual for o resultado final desse debate, praticamente não há dúvidas, porém,
de que o espaço que se estendeu entre a ideia e sua execução foi preenchido
de ponta a ponta pela ação burocrática. Também não há dúvida de que, por mais fértil que fosse a imaginação de Hitler, ela teria concretizado pouco
dos seus desígnios se não fosse assumida por um vasto e racional aparelho
burocrático e traduzida em termos de processo e rotina para solução de
problemas. Por fim e talvez mais importante, o modo de ação burocrática
deixou sua marca indelével do processo do Holocausto. Suas impressões
digitais estão por toda a história do Holocausto para todo mundo ver.
Verdade, a burocracia não gerou o medo da contaminação racial e a
obsessão com a higiene racial. Para isso precisava de visionários, pois a
burocracia começa de onde param os visionários. Mas a burocracia fez o
Holocausto. E o fez à sua própria imagem.
Hilberg disse que no momento em que um funcionário alemão redigisse
a primeira norma de exclusão dos judeus, o destino dos judeus da Europa
estaria selado. Há uma verdade muito profunda e terrível nessa frase. O que
a burocracia precisava era da definição de sua tarefa. Racional e eficiente
como era, podia se confiar nela para levar a tarefa ao fim.
A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas
por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente
enfermidade e afecções. A tendência de todas as burocracias a perderem de
vista o objetivo original e se concentrarem em vez disso nos meios —
meios que se transformam em fins — foi amplamente ressaltada, analisada
e descrita. A burocracia nazista não escapou ao seu impacto. Uma vez em
movimento, o mecanismo do assassinato ganhou ímpeto próprio: quanto
mais se superava em extirpar os judeus dos territórios que controlava, mais
ativamente buscava novas terras onde pudesse exercitar suas habilidades
recém-adquiridas. Com a aproximação da derrota militar da Alemanha, o
propósito original da Endlösung [Solução Final] tornava-se cada vez mais
irreal. O que mantinha a máquina assassina em funcionamento então era
unicamente sua própria rotina e ímpeto. As técnicas do assassinato em
massa tinham que ser usadas simplesmente porque estavam lá. Os
especialistas criavam os objetos de sua própria especialidade. Lembremos
os especialistas dos Bureaus Judeus de Berlim inventando todo tipo de
restriçãozinha nova para os judeus alemães que de há muito já haviam
praticamente desaparecido do solo alemão; lembremos os comandantes SS
que proibiram generais da Wehrmacht de preservar a vida dos artesãos
judeus dos quais tinham grande necessidade para as operações militares.
Mas em nenhum outro caso ficou mais visível a mórbida tendência de
substituir os fins pelos meios do que no sinistro e macabro episódio do extermínio dos judeus romenos e húngaros, perpetrado a umas poucas