Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 27 de 52

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Modernidade e Holocausto

O papel da burocracia no Holocausto

que não fizesse distinção entre um e outro objeto humano ou entre objetos

humanos e desumanos. O que importa é a eficiência e a diminuição dos

custos para produzi-la.

 

O papel da burocracia no Holocausto

 

Assim foi que na Alemanha de meio século atrás essa burocracia recebeu a

tarefa de tornar o país judenrein, livre de judeus. E a burocracia começou

onde as burocracias começam: na definição precisa do objeto, com a

posterior listagem dos que se encaixavam na definição e a criação de uma

ficha, um arquivo, para cada um. Prosseguiu segregando os que figuravam

nos arquivos do resto da população, a que não se aplicava a citação

recebida. Por fim, passou a expulsar a categoria segregada da terra ariana a

ser purificada — primeiro cutucando-a para que emigrasse e depois

deportando-a para territórios não germânicos, assim que tais territórios

caíam sob controle alemão. Por essa época a burocracia desenvolveu

magníficas técnicas de limpeza, que não se deveriam desperdiçar e deixar

enferrujar. A burocracia que se incumbiu tão bem da tarefa de limpar a

Alemanha tornava factíveis tarefas mais ambiciosas e quase natural a

escolha delas. Com um aparato tão soberbo de limpeza, por que ficar na

Heimat [terra natal] dos arianos? Por que não limpar todo o seu império?

De fato, como o império era agora ecumênico, não havia nenhum lado de

“fora” onde despejar o lixo judeu. Só restava uma direção de deportação:

para cima, sob a forma de fumaça.

Já há muitos anos os historiadores do Holocausto se dividiram em

“intencionalistas” e “funcionalistas”. Os primeiros insistem que matar os

judeus era desde o início firme decisão de Hitler, à espera apenas das

condições oportunas para emergir. Os segundos atribuem a Hitler apenas a

ideia geral de “encontrar uma solução” para o “problema judeu”, clara

apenas na visão de uma “Alemanha limpa”, mas vaga e lamacenta quanto

aos passos práticos a serem tomados para tornar essa visão mais próxima. O

mundo acadêmico apoia mais decididamente a visão funcionalista. Seja

qual for o resultado final desse debate, praticamente não há dúvidas, porém,

de que o espaço que se estendeu entre a ideia e sua execução foi preenchido

de ponta a ponta pela ação burocrática. Também não há dúvida de que, por mais fértil que fosse a imaginação de Hitler, ela teria concretizado pouco

dos seus desígnios se não fosse assumida por um vasto e racional aparelho

burocrático e traduzida em termos de processo e rotina para solução de

problemas. Por fim e talvez mais importante, o modo de ação burocrática

deixou sua marca indelével do processo do Holocausto. Suas impressões

digitais estão por toda a história do Holocausto para todo mundo ver.

Verdade, a burocracia não gerou o medo da contaminação racial e a

obsessão com a higiene racial. Para isso precisava de visionários, pois a

burocracia começa de onde param os visionários. Mas a burocracia fez o

Holocausto. E o fez à sua própria imagem.

Hilberg disse que no momento em que um funcionário alemão redigisse

a primeira norma de exclusão dos judeus, o destino dos judeus da Europa

estaria selado. Há uma verdade muito profunda e terrível nessa frase. O que

a burocracia precisava era da definição de sua tarefa. Racional e eficiente

como era, podia se confiar nela para levar a tarefa ao fim.

A burocracia contribuiu para a continuidade do Holocausto não apenas

por sua inerente capacidade e suas técnicas, mas também por sua imanente

enfermidade e afecções. A tendência de todas as burocracias a perderem de

vista o objetivo original e se concentrarem em vez disso nos meios —

meios que se transformam em fins — foi amplamente ressaltada, analisada

e descrita. A burocracia nazista não escapou ao seu impacto. Uma vez em

movimento, o mecanismo do assassinato ganhou ímpeto próprio: quanto

mais se superava em extirpar os judeus dos territórios que controlava, mais

ativamente buscava novas terras onde pudesse exercitar suas habilidades

recém-adquiridas. Com a aproximação da derrota militar da Alemanha, o

propósito original da Endlösung [Solução Final] tornava-se cada vez mais

irreal. O que mantinha a máquina assassina em funcionamento então era

unicamente sua própria rotina e ímpeto. As técnicas do assassinato em

massa tinham que ser usadas simplesmente porque estavam lá. Os

especialistas criavam os objetos de sua própria especialidade. Lembremos

os especialistas dos Bureaus Judeus de Berlim inventando todo tipo de

restriçãozinha nova para os judeus alemães que de há muito já haviam

praticamente desaparecido do solo alemão; lembremos os comandantes SS

que proibiram generais da Wehrmacht de preservar a vida dos artesãos

judeus dos quais tinham grande necessidade para as operações militares.

Mas em nenhum outro caso ficou mais visível a mórbida tendência de

substituir os fins pelos meios do que no sinistro e macabro episódio do extermínio dos judeus romenos e húngaros, perpetrado a umas poucas