Modernidade e Holocausto
Peculiaridade do genocídio moderno
à suprema vontade, ao saber supraindividual.
Enfatizemos que isso não significa que vivemos todos, no dia a dia,
segundo os princípios de Auschwitz. Pelo fato de o Holocausto ser
moderno, não segue que a modernidade é um Holocausto. O Holocausto é
um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente
planejado e controlado, uma vez que esse impulso deixe de ser controlado e
corra à solta. A maior parte do tempo, a modernidade é impedida de chegar
a esse ponto. Suas ambições chocam-se com o pluralismo do mundo
humano; elas não se realizam por falta de um poder absoluto
suficientemente absoluto e de um agente monopolista suficientemente
monopolista para conseguir desprezar, deixar de lado ou esmagar toda a
força autônoma e portanto compensatória e suavizante.
Peculiaridade do genocídio moderno
Quando o sonho modernista é abraçado por um poder absoluto capaz de
monopolizar veículos modernos de ação racional, e quando esse poder
alcança libertar-se do efetivo controle social, o que se segue é o genocídio.
Um genocídio moderno — como o Holocausto. O curto-circuito (é quase
uma tentação dizer: o encontro casual) entre uma elite de poder
ideologicamente obcecada e as tremendas facilidades de ação racional e
sistêmica desenvolvidas pela sociedade moderna é de ocorrência
relativamente rara. Quando ocorre, no entanto, são revelados certos
aspectos da modernidade que, em circunstâncias diferentes, são menos
visíveis e podem, portanto, ser facilmente descartados por “teorização”.
O Holocausto moderno é único num duplo sentido. É único entre outros
casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face à rotina da
sociedade moderna porque traz à luz certos fatores ordinários da
modernidade que normalmente são mantidos à parte. Neste segundo
sentido de sua singularidade, só a combinação de fatores é rara e incomum,
mas não os fatores combinados. Separadamente, cada fator é comum e
normal. E o conhecimento que se tem sobre salitre, enxofre e carvão não é
completo a menos que se saiba que, misturados, eles se transformam em
pólvora.
A singularidade e a normalidade simultâneas do Holocausto encontrou
excelente expressão no resumo das descobertas de Sarah Gordon:
o extermínio sistemático, ao contrário dos pogroms esporádicos, só podia ser executado por um
governo extremamente poderoso e provavelmente só teria tido êxito com a cobertura das
condições de guerra. Só o aparecimento de Hitler com seus radicais seguidores antissemitas e
sua subsequente centralização do poder tornou possível o extermínio dos judeus na Europa…
o processo de exclusão e assassinato organizados exigia a cooperação de vastas seções da
estrutura militar e burocrática, assim como a aquiescência do povo alemão, quer aprovasse ou
não a perseguição e extermínio nazistas.8
Gordon enumera vários fatores que tiveram de concorrer para produzir o
Holocausto: um antissemitismo radical (e, como vimos no capítulo anterior,
moderno, isto é, racista e exterminador) de tipo nazista; a transformação
desse antissemitismo em politicagem de um poderoso Estado centralizado;
o fato de comandar esse Estado um imenso e eficiente aparato burocrático;
o “estado de emergência” — condição extraordinária de tempo de guerra
que permitiu ao governo e à burocracia por ele controlada levar a cabo
coisas que possivelmente teriam enfrentado obstáculos mais sérios em
tempos de paz; e a não interferência, a aceitação passiva dessas coisas pela
população em geral. Dois desses fatores (é possível reduzi-los a um: com os
nazistas no poder, a guerra era virtualmente inevitável) poderiam ser tidos
na conta de coincidências — não necessariamente atributos de uma
sociedade moderna, mas sempre uma possibilidade. Os outros fatores, no
entanto, são inteiramente “ normais” . São presença constante em toda
sociedade moderna, tornada possível e inevitável pelos processos
propriamente ligados à ascensão e consolidação da civilização moderna.
No capítulo anterior tentei descrever a conexão entre o antissemitismo
radical, de extermínio, e as transformações sociopolíticas e culturais a que
geralmente nos referimos como desenvolvimento da sociedade moderna.
No último capítulo do livro tentarei analisar esses mecanismos sociais,
também acionados em condições contemporâneas, que silenciam ou
neutralizam as inibições morais e, de modo mais geral, fazem as pessoas
evitarem a resistência ao mal. Aqui pretendo enfocar apenas um, mas
provavelmente o mais crucial dos fatores constituintes do Holocausto: os
padrões tipicamente modernos, tecnológico-burocráticos, de ação e a
mentalidade que eles geram, institucionalizam, mantêm e reproduzem.
Há dois modos antitéticos de abordar a explicação do Holocausto. Um
pode considerar os horrores do assassinato em massa uma evidência da fragilidade da civilização ou de seu potencial aterrador. Outro pode
argumentar que, com os criminosos no poder, as regras civilizadas de
comportamento podem ser suspensas e assim libertar-se a eterna besta
sempre escondida sob a pele do ser socialmente treinado. Dito de outra
forma, pode-se argumentar que, armados com os sofisticados produtos
técnicos e conceituais da civilização moderna, os homens são capazes de
fazer coisas que sua natureza de outro modo os impediria de fazer. Em
outras palavras, seguindo a tradição hobbesiana, pode-se concluir que a
desumana condição pré-social ainda não foi plenamente erradicada, apesar
de todos os esforços civilizatórios. Ou, ao contrário, insistir que o processo
civilizador teve êxito em substituir os impulsos naturais por padrões
artificiais e flexíveis de conduta humana e portanto tornou possível uma
escala de desumanidade e destruição que foi inconcebível enquanto as
predisposições naturais guiaram a ação humana. Proponho a opção por esta
segunda abordagem, fundamentando-a na seguinte discussão.
O fato de que a maioria das pessoas (incluindo muitos teóricos sociais)
opta instintivamente pela primeira abordagem, em vez da segunda, é
testemunho do notável sucesso do mito etiológico que, numa ou noutra
variante, a civilização ocidental utilizou ao longo do tempo para legitimar
sua hegemonia espacial, projetando-a como superioridade temporal. A
civilização ocidental formulou sua luta pela dominação como uma guerra
santa da humanidade contra a barbárie, da razão contra a ignorância, da
objetividade contra o preconceito, do progresso contra a decadência, da
verdade contra a superstição, da ciência contra a magia, da racionalidade
contra a paixão. Interpretou a história da sua ascendência como a
substituição gradual e inexorável do domínio da natureza sobre o homem
pelo domínio do homem sobre a natureza. Apresentou sua própria conquista
como, primeiro e acima de tudo, um avanço decisivo na liberdade de ação
humana, no seu potencial criativo e na sua segurança. Identificou liberdade
e segurança com a sua própria ordem social: a moderna sociedade ocidental
é definida como sociedade civilizada, que por sua vez é entendida como um
Estado do qual a maior parte da feiura e morbidez naturais, assim como da
imanente propensão humana à crueldade e à violência, foi eliminada ou
pelo menos abafada. A imagem popular de sociedade civilizada é, mais que
qualquer outra coisa, a da ausência de violência, a de uma sociedade gentil,
polida, branda.
Talvez a mais saliente expressão simbólica dessa imagem-mestra da
civilização seja a da santidade do corpo humano: o cuidado que se toma em
não invadir este espaço o mais privado de todos, em evitar o contato
corporal, em acatar a distância corporal culturalmente prescrita, e a aversão
e repulsa adquiridas que sentimos ao ver ou saber de uma invasão desse
espaço sagrado. A civilização moderna pode-se permitir a ficção da
santidade e autonomia do corpo humano, graças aos eficientes mecanismos
de autocontrole que desenvolveu e que no geral são reproduzidos com êxito
no processo de educação individual. Uma vez em funcionamento, os
mecanismos de autocontrole reproduzidos descartam a necessidade de uma
subsequente interferência externa com o corpo. Por outro lado, a
privacidade do corpo reforça a responsabilidade pessoal por seu
comportamento e assim acrescenta poderosos estímulos ao exercício físico.
(Nos últimos anos, a intensidade dos estímulos, amplamente explorada pelo
mercado consumidor, produziu finalmente a tendência a interiorizar a
demanda do exercício; o desenvolvimento do autocontrole individual tende
a ser também autocontrolado e perseguido de maneira privada.) A proibição
cultural de entrar em contato estreito com outro corpo serve portanto como
efetiva salvaguarda contra influências difusas, contingentes, que podem,
caso se permita, contrapor-se ao padrão de ordem social de administração
centralizada. A não violência da interação humana difusa e diária é uma
condição indispensável e um produto constante da coerção centralizada.
Em suma, o caráter geral não violento da civilização moderna é uma
ilusão. Mais exatamente, é parte integrante da sua autoapologia e
autoapoteose, ou seja, do seu mito legitimador. Não é verdade que a nossa
civilização extermine a violência devida ao caráter desumano, degradante
ou imoral da anterior. Se a modernidade:
é de fato antítese das paixões selvagens da barbárie, não é de modo algum antítese da
destruição, da matança e da tortura eficientes, desapaixonadas… À medida que a qualidade do
pensamento se torna mais racional, aumenta a quantidade de destruição. Em nosso tempo, por
exemplo, o terrorismo e a tortura já não são instrumentos de paixões; viraram instrumentos de
racionalidade política.9
O que de fato aconteceu no curso do processo civilizador foi a
reutilização da violência e a redistribuição do acesso à violência. Como
tantas outras coisas que fomos treinados a abominar e detestar, a violência
foi retirada da vista, não da existência. Tornou-se invisível, quer dizer, do
confortável ponto de vista da experiência pessoal estritamente circunscrita e privada. Em vez disso, foi encerrada em territórios segregados e isolados,
no geral inacessíveis aos membros comuns da sociedade, ou expulsa para
“áreas de sombra” crepusculares, fora dos limites para uma larga maioria (a
maioria que conta), ou então exportada para lugares distantes em geral sem
maior interesse para a vida e os negócios dos seres humanos civilizados
(sempre se pode cancelar reservas para os feriados).
A consequência última de tudo isso é a concentração da violência. Uma
vez concentrados e livres de concorrência, os meios de coerção seriam
capazes de alcançar resultados inauditos, ainda que não tecnicamente
perfeitos. Sua concentração, no entanto, desencadeia e estimula a escalada
de melhorias técnicas e assim os efeitos da concentração são ampliados.
Como Anthony Giddens enfatizou repetidas vezes (veja-se, sobretudo, sua
Crítica contemporânea do materialismo histórico, 1981, e A constituição
da sociedade, 1984), a remoção da violência da vida cotidiana das
sociedades civilizadas sempre esteve intimamente associada a uma radical
militarização da troca intersocietária e da produção de ordem
intrassocietária; os exércitos regulares e as forças policiais levaram à
produção de armas tecnologicamente superiores e de uma tecnologia
superior de administração burocrática. Nos últimos dois séculos, o número
de pessoas que sofreram morte violenta como resultado de tal militarização
cresceu firmemente até alcançar um volume de que jamais se ouviu falar
antes.
O Holocausto absorveu um enorme volume de meios de coerção.
Usando-os a serviço de um único propósito, também estimulou sua
posterior especialização e aperfeiçoamento técnico. Mais, no entanto, do
que a mera quantidade de instrumentos de destruição e mesmo que sua
qualidade técnica, o que importava era a maneira pela qual eram utilizados.
Sua formidável eficiência baseou-se sobretudo na submissão do seu uso a
considerações meramente burocráticas, técnicas (o que tornou esse uso
quase totalmente imune às pressões opostas, a que provavelmente se
submeteria se os meios de violência fossem controlados por agentes
dispersos e descoordenados e utilizados de maneira difusa). A violência
tornou-se uma técnica. Como todas as técnicas, é livre de emoções e
puramente racional. “É, de fato, inteiramente razoável, se por ‘razão’
entende-se a razão instrumental, empregar a força militar americana, os
bombardeiros B-52, as bombas de napalm e todo o resto no Vietnã ‘dominado pelos comunistas’ (claramente uma ‘coisa indesejável’) como