Modernidade e Holocausto

Zygmunt Bauman · Capítulo 24 de 52

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Modernidade e Holocausto

Peculiaridade do genocídio moderno

à suprema vontade, ao saber supraindividual.

Enfatizemos que isso não significa que vivemos todos, no dia a dia,

segundo os princípios de Auschwitz. Pelo fato de o Holocausto ser

moderno, não segue que a modernidade é um Holocausto. O Holocausto é

um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente

planejado e controlado, uma vez que esse impulso deixe de ser controlado e

corra à solta. A maior parte do tempo, a modernidade é impedida de chegar

a esse ponto. Suas ambições chocam-se com o pluralismo do mundo

humano; elas não se realizam por falta de um poder absoluto

suficientemente absoluto e de um agente monopolista suficientemente

monopolista para conseguir desprezar, deixar de lado ou esmagar toda a

força autônoma e portanto compensatória e suavizante.

 

Peculiaridade do genocídio moderno

 

Quando o sonho modernista é abraçado por um poder absoluto capaz de

monopolizar veículos modernos de ação racional, e quando esse poder

alcança libertar-se do efetivo controle social, o que se segue é o genocídio.

Um genocídio moderno — como o Holocausto. O curto-circuito (é quase

uma tentação dizer: o encontro casual) entre uma elite de poder

ideologicamente obcecada e as tremendas facilidades de ação racional e

sistêmica desenvolvidas pela sociedade moderna é de ocorrência

relativamente rara. Quando ocorre, no entanto, são revelados certos

aspectos da modernidade que, em circunstâncias diferentes, são menos

visíveis e podem, portanto, ser facilmente descartados por “teorização”.

O Holocausto moderno é único num duplo sentido. É único entre outros

casos históricos de genocídio porque é moderno. E é único face à rotina da

sociedade moderna porque traz à luz certos fatores ordinários da

modernidade que normalmente são mantidos à parte. Neste segundo

sentido de sua singularidade, só a combinação de fatores é rara e incomum,

mas não os fatores combinados. Separadamente, cada fator é comum e

normal. E o conhecimento que se tem sobre salitre, enxofre e carvão não é

completo a menos que se saiba que, misturados, eles se transformam em

pólvora.

A singularidade e a normalidade simultâneas do Holocausto encontrou

excelente expressão no resumo das descobertas de Sarah Gordon:

 

o extermínio sistemático, ao contrário dos pogroms esporádicos, só podia ser executado por um

governo extremamente poderoso e provavelmente só teria tido êxito com a cobertura das

condições de guerra. Só o aparecimento de Hitler com seus radicais seguidores antissemitas e

sua subsequente centralização do poder tornou possível o extermínio dos judeus na Europa…

o processo de exclusão e assassinato organizados exigia a cooperação de vastas seções da

estrutura militar e burocrática, assim como a aquiescência do povo alemão, quer aprovasse ou

não a perseguição e extermínio nazistas.8

 

Gordon enumera vários fatores que tiveram de concorrer para produzir o

Holocausto: um antissemitismo radical (e, como vimos no capítulo anterior,

moderno, isto é, racista e exterminador) de tipo nazista; a transformação

desse antissemitismo em politicagem de um poderoso Estado centralizado;

o fato de comandar esse Estado um imenso e eficiente aparato burocrático;

o “estado de emergência” — condição extraordinária de tempo de guerra

que permitiu ao governo e à burocracia por ele controlada levar a cabo

coisas que possivelmente teriam enfrentado obstáculos mais sérios em

tempos de paz; e a não interferência, a aceitação passiva dessas coisas pela

população em geral. Dois desses fatores (é possível reduzi-los a um: com os

nazistas no poder, a guerra era virtualmente inevitável) poderiam ser tidos

na conta de coincidências — não necessariamente atributos de uma

sociedade moderna, mas sempre uma possibilidade. Os outros fatores, no

entanto, são inteiramente “ normais” . São presença constante em toda

sociedade moderna, tornada possível e inevitável pelos processos

propriamente ligados à ascensão e consolidação da civilização moderna.

No capítulo anterior tentei descrever a conexão entre o antissemitismo

radical, de extermínio, e as transformações sociopolíticas e culturais a que

geralmente nos referimos como desenvolvimento da sociedade moderna.

No último capítulo do livro tentarei analisar esses mecanismos sociais,

também acionados em condições contemporâneas, que silenciam ou

neutralizam as inibições morais e, de modo mais geral, fazem as pessoas

evitarem a resistência ao mal. Aqui pretendo enfocar apenas um, mas

provavelmente o mais crucial dos fatores constituintes do Holocausto: os

padrões tipicamente modernos, tecnológico-burocráticos, de ação e a

mentalidade que eles geram, institucionalizam, mantêm e reproduzem.

Há dois modos antitéticos de abordar a explicação do Holocausto. Um

pode considerar os horrores do assassinato em massa uma evidência da fragilidade da civilização ou de seu potencial aterrador. Outro pode

argumentar que, com os criminosos no poder, as regras civilizadas de

comportamento podem ser suspensas e assim libertar-se a eterna besta

sempre escondida sob a pele do ser socialmente treinado. Dito de outra

forma, pode-se argumentar que, armados com os sofisticados produtos

técnicos e conceituais da civilização moderna, os homens são capazes de

fazer coisas que sua natureza de outro modo os impediria de fazer. Em

outras palavras, seguindo a tradição hobbesiana, pode-se concluir que a

desumana condição pré-social ainda não foi plenamente erradicada, apesar

de todos os esforços civilizatórios. Ou, ao contrário, insistir que o processo

civilizador teve êxito em substituir os impulsos naturais por padrões

artificiais e flexíveis de conduta humana e portanto tornou possível uma

escala de desumanidade e destruição que foi inconcebível enquanto as

predisposições naturais guiaram a ação humana. Proponho a opção por esta

segunda abordagem, fundamentando-a na seguinte discussão.

O fato de que a maioria das pessoas (incluindo muitos teóricos sociais)

opta instintivamente pela primeira abordagem, em vez da segunda, é

testemunho do notável sucesso do mito etiológico que, numa ou noutra

variante, a civilização ocidental utilizou ao longo do tempo para legitimar

sua hegemonia espacial, projetando-a como superioridade temporal. A

civilização ocidental formulou sua luta pela dominação como uma guerra

santa da humanidade contra a barbárie, da razão contra a ignorância, da

objetividade contra o preconceito, do progresso contra a decadência, da

verdade contra a superstição, da ciência contra a magia, da racionalidade

contra a paixão. Interpretou a história da sua ascendência como a

substituição gradual e inexorável do domínio da natureza sobre o homem

pelo domínio do homem sobre a natureza. Apresentou sua própria conquista

como, primeiro e acima de tudo, um avanço decisivo na liberdade de ação

humana, no seu potencial criativo e na sua segurança. Identificou liberdade

e segurança com a sua própria ordem social: a moderna sociedade ocidental

é definida como sociedade civilizada, que por sua vez é entendida como um

Estado do qual a maior parte da feiura e morbidez naturais, assim como da

imanente propensão humana à crueldade e à violência, foi eliminada ou

pelo menos abafada. A imagem popular de sociedade civilizada é, mais que

qualquer outra coisa, a da ausência de violência, a de uma sociedade gentil,

polida, branda.

Talvez a mais saliente expressão simbólica dessa imagem-mestra da

civilização seja a da santidade do corpo humano: o cuidado que se toma em

não invadir este espaço o mais privado de todos, em evitar o contato

corporal, em acatar a distância corporal culturalmente prescrita, e a aversão

e repulsa adquiridas que sentimos ao ver ou saber de uma invasão desse

espaço sagrado. A civilização moderna pode-se permitir a ficção da

santidade e autonomia do corpo humano, graças aos eficientes mecanismos

de autocontrole que desenvolveu e que no geral são reproduzidos com êxito

no processo de educação individual. Uma vez em funcionamento, os

mecanismos de autocontrole reproduzidos descartam a necessidade de uma

subsequente interferência externa com o corpo. Por outro lado, a

privacidade do corpo reforça a responsabilidade pessoal por seu

comportamento e assim acrescenta poderosos estímulos ao exercício físico.

(Nos últimos anos, a intensidade dos estímulos, amplamente explorada pelo

mercado consumidor, produziu finalmente a tendência a interiorizar a

demanda do exercício; o desenvolvimento do autocontrole individual tende

a ser também autocontrolado e perseguido de maneira privada.) A proibição

cultural de entrar em contato estreito com outro corpo serve portanto como

efetiva salvaguarda contra influências difusas, contingentes, que podem,

caso se permita, contrapor-se ao padrão de ordem social de administração

centralizada. A não violência da interação humana difusa e diária é uma

condição indispensável e um produto constante da coerção centralizada.

Em suma, o caráter geral não violento da civilização moderna é uma

ilusão. Mais exatamente, é parte integrante da sua autoapologia e

autoapoteose, ou seja, do seu mito legitimador. Não é verdade que a nossa

civilização extermine a violência devida ao caráter desumano, degradante

ou imoral da anterior. Se a modernidade:

 

é de fato antítese das paixões selvagens da barbárie, não é de modo algum antítese da

destruição, da matança e da tortura eficientes, desapaixonadas… À medida que a qualidade do

pensamento se torna mais racional, aumenta a quantidade de destruição. Em nosso tempo, por

exemplo, o terrorismo e a tortura já não são instrumentos de paixões; viraram instrumentos de

racionalidade política.9

 

O que de fato aconteceu no curso do processo civilizador foi a

reutilização da violência e a redistribuição do acesso à violência. Como

tantas outras coisas que fomos treinados a abominar e detestar, a violência

foi retirada da vista, não da existência. Tornou-se invisível, quer dizer, do

confortável ponto de vista da experiência pessoal estritamente circunscrita e privada. Em vez disso, foi encerrada em territórios segregados e isolados,

no geral inacessíveis aos membros comuns da sociedade, ou expulsa para

“áreas de sombra” crepusculares, fora dos limites para uma larga maioria (a

maioria que conta), ou então exportada para lugares distantes em geral sem

maior interesse para a vida e os negócios dos seres humanos civilizados

(sempre se pode cancelar reservas para os feriados).

A consequência última de tudo isso é a concentração da violência. Uma

vez concentrados e livres de concorrência, os meios de coerção seriam

capazes de alcançar resultados inauditos, ainda que não tecnicamente

perfeitos. Sua concentração, no entanto, desencadeia e estimula a escalada

de melhorias técnicas e assim os efeitos da concentração são ampliados.

Como Anthony Giddens enfatizou repetidas vezes (veja-se, sobretudo, sua

Crítica contemporânea do materialismo histórico, 1981, e A constituição

da sociedade, 1984), a remoção da violência da vida cotidiana das

sociedades civilizadas sempre esteve intimamente associada a uma radical

militarização da troca intersocietária e da produção de ordem

intrassocietária; os exércitos regulares e as forças policiais levaram à

produção de armas tecnologicamente superiores e de uma tecnologia

superior de administração burocrática. Nos últimos dois séculos, o número

de pessoas que sofreram morte violenta como resultado de tal militarização

cresceu firmemente até alcançar um volume de que jamais se ouviu falar

antes.

O Holocausto absorveu um enorme volume de meios de coerção.

Usando-os a serviço de um único propósito, também estimulou sua

posterior especialização e aperfeiçoamento técnico. Mais, no entanto, do

que a mera quantidade de instrumentos de destruição e mesmo que sua

qualidade técnica, o que importava era a maneira pela qual eram utilizados.

Sua formidável eficiência baseou-se sobretudo na submissão do seu uso a

considerações meramente burocráticas, técnicas (o que tornou esse uso

quase totalmente imune às pressões opostas, a que provavelmente se

submeteria se os meios de violência fossem controlados por agentes

dispersos e descoordenados e utilizados de maneira difusa). A violência

tornou-se uma técnica. Como todas as técnicas, é livre de emoções e

puramente racional. “É, de fato, inteiramente razoável, se por ‘razão’

entende-se a razão instrumental, empregar a força militar americana, os

bombardeiros B-52, as bombas de napalm e todo o resto no Vietnã ‘dominado pelos comunistas’ (claramente uma ‘coisa indesejável’) como